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O Trono do Afeto e o Espetáculo do Absurdo

O silêncio que se seguiu à demonstração de combate de Qin Shi Huang foi curto, como a calmaria antes de uma tempestade de areia no deserto de Gobi. Nikola Tesla, ainda vibrando com o sucesso de seus fones quânticos, mexia freneticamente nos controles do grande projetor.

— Senhoras e senhores, divindades e mortais! — exclamou Tesla, seus olhos brilhando atrás das faíscas que saltavam de suas máquinas. — O próximo registro recuperado dos arquivos de probabilidade de Valhala é... digamos, um tanto mais "pessoal". É um estudo sobre as interações sociais e as frequências vibratórias do coração!

No trono improvisado, Qin Shi Huang arqueou uma sobrancelha por baixo da venda. Hades, sentado a uma distância respeitável, mas com o olhar atento, sentiu um pressentimento estranho. No fundo da sala, Zeus, o "Pai do Cosmos", soltou uma risada estrondosa, batendo no próprio peito.

— Ho-ho! Finalmente algo divertido! Espero que mostre minha magnificência em todo o seu esplendor! — gritou Zeus, alheio ao olhar de desaprovação de seu irmão mais velho.

A tela brilhou novamente. Mas, desta vez, as imagens não mostravam jardins de treinamento ou monstros abissais. O cenário era o interior luxuoso de uma das alas de Valhala, decorada com o ouro extravagante que tanto agradava aos olhos de Qin.

No vídeo, Zeus aparecia em sua forma musculosa e imponente, mas carregando algo completamente incongruente: um buquê de flores que brilhavam com a luz do Olimpo e uma caixa de chocolates que pareciam feitos de pura ambrosia.

— Mas o que é isso? — Ares engasgou, a face ficando vermelha de vergonha pelo pai. — O que o Velho está fazendo?

Na tela, Zeus se aproximava de Qin, que estava sentado em um divã, lendo alguns pergaminhos. O Deus do Olimpo fazia poses dramáticas, flexionando os músculos de forma rítmica.

— *Oh, Imperador da China!* — a voz de Zeus na gravação era um trovão melódico. — *Você que governa os homens, não gostaria de governar ao lado do Rei dos Deuses? Veja estas flores, elas nasceram do meu próprio suor e poder!*

O Qin do vídeo nem sequer levantou a cabeça. Ele apenas soprou uma bolha de ar e disse, com uma voz carregada de tédio:

— — Elas têm um cheiro horrível, Velho. E estão bloqueando a minha luz. Saia da frente do meu trono.

No salão de projeção, uma onda de risadinhas contidas varreu a plateia humana. Jack, o Estripador, cobriu a boca com a mão enluvada, enquanto Kojiro Sasaki tentava, sem sucesso, disfarçar um sorriso.

— — Ele é direto, tenho que admitir — comentou Kojiro.

A tela mudou para outra cena. Desta vez, Zeus tentava uma abordagem diferente. Ele estava vestido com uma túnica de seda chinesa — que ficava comicamente apertada em seus músculos — e tentava tocar uma cítara de forma desajeitada.

— — *Uma canção para o meu Imperador!* — gritava o Zeus da tela, desafinando horrivelmente.

O Qin da gravação simplesmente colocou os fones de ouvido de Tesla, fechou os olhos e começou a cantarolar "Bring Me To Life" baixinho, ignorando completamente a existência do deus supremo.

Hades, observando a cena, sentiu uma pontada de algo que ele raramente experimentava: uma mistura de diversão e uma curiosidade profunda. Ele olhou de soslaio para o Qin real, que permanecia imóvel, com um sorriso enigmático nos lábios.

— — Seu pai é persistente, Hermes — comentou Hades, com a voz baixa e controlada.

— — Persistência é uma forma gentil de descrever, tio — respondeu Hermes, mantendo o sorriso polido. — Eu diria que é um espetáculo de falta de noção.

Na tela, a montagem continuava. Zeus tentava de tudo: oferecia raios engarrafados, tentava realizar danças interpretativas que faziam as colunas do palácio tremerem, e até tentou cozinhar um banquete que acabou explodindo metade da cozinha real. Em cada cena, Qin Shi Huang demonstrava um desprezo absoluto, tratando o Deus dos Deuses como se ele fosse um mosquito particularmente barulhento.

— — Por que ele não desiste? — perguntou Göll, escondida atrás da capa de Brunhilde. — É constrangedor!

— — Porque Zeus não suporta ser ignorado — respondeu Brunhilde, com um brilho de satisfação nos olhos. Ver o líder dos deuses ser humilhado por um humano era o ponto alto do seu dia.

Mas então, o tom do vídeo mudou.

A música de fundo, que era cômica e agitada, tornou-se suave e melancólica. A câmera da gravação seguiu Qin quando ele finalmente conseguiu se livrar de Zeus. O Imperador caminhava por uma varanda solitária, olhando para as estrelas de Valhala.

Ele não parecia mais o homem arrogante que chutava deuses para fora de seu caminho. Havia uma suavidade em sua expressão que ninguém ali jamais vira. Ele tateou o ar, como se estivesse sentindo a presença de alguém, e um suspiro escapou de seus lábios.

— — *Idiota...* — murmurou o Qin da tela. — *Ele acha que ouro e raios podem comprar o que este Rei deseja? Ele não entende nada de realeza.*

O Qin do vídeo sentou-se na murada e olhou para o horizonte, onde as torres do Submundo, Helheim, podiam ser vistas à distância, envoltas em uma névoa púrpura e digna.

— — *Existe apenas um homem que carrega o peso de um mundo sem reclamar* — continuou o Qin da gravação, sua voz agora um sussurro carregado de uma sinceridade que chocou o salão. — *Alguém que não precisa de danças ou exibições. Alguém que é, em si mesmo, a própria ordem.*

Nesse momento, no salão de projeção, o silêncio tornou-se absoluto. Todos os olhos se voltaram para Hades.

O Rei do Submundo sentiu o peso de centenas de olhares, mas não desviou o seu da tela. Seu coração, geralmente tão frio e estável quanto as pedras de seu reino, deu uma batida irregular.

Na tela, Qin Shi Huang tirou a venda por um momento. Seus olhos, que viam a dor e a essência das coisas, brilharam com uma luz diferente.

— — *Hades...* — disse o Qin do vídeo, o nome saindo como uma prece proibida. — *Você é o único que entende que ser um Rei é uma solidão compartilhada. Mas você está ocupado demais sendo o pilar de seus irmãos para notar o Rei que está bem à sua frente.*

O vídeo escureceu lentamente, terminando com a imagem de Qin Shi Huang sorrindo tristemente para a lua.

O salão de Valhala parecia ter ficado sem oxigênio. Zeus estava paralisado, com a boca aberta, as flores que segurava (sim, ele tinha flores reais no salão agora) caindo no chão. Ares parecia prestes a ter um colapso nervoso.

— — O quê?! — gritou Zeus, sua voz falhando. — O Imperador... e o meu irmão?! Hades?! Mas eu sou muito mais musculoso! Eu tenho raios! Eu sou o mais jovem e vibrante!

Hades ignorou o irmão. Ele se levantou lentamente, sua capa negra flutuando ao redor de suas pernas. Ele caminhou até onde Qin Shi Huang estava sentado. O Imperador da China não se moveu, mas o sorriso em seu rosto havia mudado. Não era mais a máscara de arrogância, mas um desafio silencioso, uma confirmação de tudo o que fora visto.

— — Então — começou Hades, sua voz ecoando com uma profundidade que fez os humanos na primeira fila tremerem —, é isso que se passa por trás dessa sua venda, Qin Shi Huang?

Qin levantou o rosto, a venda ainda cobrindo seus olhos, mas sua aura de imperador nunca esteve tão forte.

— — Este Rei não mente, Hades — disse Qin, levantando-se para ficar na mesma altura do deus. — E este Rei não se contenta com imitações baratas de poder. Eu busco o que é real. E no meio de todo este circo de deuses mimados, você é a única coisa que faz sentido.

Hades inclinou a cabeça, analisando o homem à sua frente. Ele viu a dor empática que Qin escondia, viu a responsabilidade esmagadora que ele carregava pela humanidade, e viu, pela primeira vez, o desejo que queimava por trás daquela postura impecável.

— — Você é um homem ousado — disse Hades, um meio sorriso surgindo em seus lábios nobres. — Desprezar o Rei do Olimpo para olhar para as sombras do Submundo...

— — As sombras são onde a verdade se esconde, governante de Helheim — rebateu Qin, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do deus. — E onde este Rei se senta, é o seu trono. Se eu decidi que o meu trono é ao seu lado, então o destino já foi selado.

— — Ei! Eu ainda estou aqui! — gritou Zeus, agitando os braços. — Nikola! Apague esse vídeo! Isso é uma falha na realidade! Uma anomalia quântica!

Tesla, no entanto, estava ocupado demais limpando as lágrimas de seus olhos com um lenço de seda.

— — Oh, a ciência das emoções é tão imprevisível e bela! — soluçou o cientista. — A frequência entre esses dois é de uma harmonia matemática perfeita!

Brunhilde, recuperando-se do choque, cruzou os braços e deu uma risada seca.

— — Bem, parece que o Ragnarok acaba de ficar muito mais complicado.

Hades estendeu a mão, mas desta vez não foi um gesto de reconhecimento de combate. Ele tocou levemente o queixo de Qin, levantando o rosto do Imperador.

— — O Submundo é um lugar frio e exigente, Qin Shi Huang — disse Hades, com uma seriedade que beirava a ternura. — Não há músicas pop ou fones de ouvido para abafar os gritos das almas.

Qin Shi Huang riu, uma risada rica e confiante, e cobriu a mão de Hades com a sua, os dedos adornados com garras de ouro pressionando gentilmente a pele do deus.

— — Então será minha tarefa ensinar a Helheim uma nova melodia — declarou Qin. — Afinal, o que é um Rei sem o seu reino? E o que é um reino sem um Rei que saiba como governá-lo... e como amá-lo?

Hades soltou uma risada curta, algo que ninguém no Olimpo ouvia há milênios. Era um som de libertação.

— — Você é, sem dúvida, o humano mais insolente que já conheci.

— — Eu sou o único Rei — corrigiu Qin, aproximando-se ainda mais. — E parece que você finalmente percebeu que este trono é grande o suficiente para dois.

No fundo da sala, Zeus caiu de joelhos, dramaticamente derrotado não por um golpe físico, mas pela rejeição mais absoluta da história da criação. Ares tentava consolá-lo, enquanto Hermes já começava a compor uma nova canção sobre "O Imperador e o Senhor dos Mortos".

O vídeo de Tesla continuava a rodar em loop no fundo, mostrando Qin dançando sob as estrelas, mas agora ninguém mais olhava para a tela. O verdadeiro espetáculo estava no centro do salão, onde dois soberanos, um de luz e outro de sombras, encontravam um terreno comum no meio do caos de uma guerra divina.

— — A próxima luta será interessante — murmurou Kojiro Sasaki, guardando sua espada.

— — Luta? — Jack, o Estripador, inclinou a cabeça, observando a cor das almas de Hades e Qin se misturarem em um tom de roxo real e carmesim vibrante. — Acho que o que veremos a seguir, meu caro amigo, não será uma luta. Será uma conquista mútua.

E assim, sob o brilho do projetor de Tesla e os gritos de protesto de um Zeus de coração partido, Qin Shi Huang provou que, mesmo no Ragnarok, onde deuses e homens lutam pela sobrevivência, o Imperador sempre consegue exatamente o que quer. E o que ele queria era nada menos que o coração do próprio Rei do Submundo.