d4
O Banquete do Soberano e o Sacrifício do Paladar
A ala residencial de Valhala, geralmente um local de silêncio e decoro celestial, estava sob o domínio de um aroma... peculiar. Não era o cheiro das flores de lótus dos jardins de Hermes, nem o odor metálico das forjas de Hefesto. Era algo que lembrava vagamente borracha queimada misturada com especiarias orientais excessivamente potentes.
No centro da cozinha imperial, Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, estava em seu elemento. Ele havia dispensado todos os servos divinos, alegando que "um presente de um Rei para outro deve ser forjado pelas mãos do próprio Rei". Vestido com um avental de seda que contrastava bizarramente com suas garras de ouro e sua venda habitual, ele mexia uma panela de jade com uma colher de pau como se estivesse regendo uma batalha decisiva.
— Nikola! — exclamou Qin, sem desviar o rosto da nuvem de fumaça cinzenta que subia do fogão. — Aumente a frequência térmica! Este Rei exige que os sabores se fundam em uma explosão de glória!
Tesla, que estava sentado em um banquinho próximo ajustando um termômetro quântico, parecia preocupado. Ele observava a substância borbulhante dentro da panela — algo que Qin chamava de "Sopa Suprema dos Cinco Reinos", mas que parecia ter adquirido consciência própria.
— Imperador, meus cálculos indicam que a temperatura atual é suficiente para derreter chumbo — comentou Tesla, limpando o suor da testa. — Talvez devêssemos considerar que o sistema digestivo de um deus, embora robusto, ainda possui limites moleculares.
Qin soltou uma risada vibrante, jogando um punhado inteiro de pimentas raras dentro da mistura.
— Bobagem! Hades governa o Submundo, o lugar dos fogos eternos e das sombras profundas. Você acha que um pouco de tempero vai intimidar o homem que mantém os Titãs sob controle? Este prato representa a minha história, a minha alma!
— Receio que sua alma seja um tanto... cáustica — murmurou Tesla, recuando quando uma bolha da sopa estourou com um som que lembrava um pequeno disparo de canhão.
Enquanto isso, no corredor externo, Hades caminhava com sua elegância habitual. Ele havia recebido o convite de Qin com uma mistura de curiosidade e uma afeição que ele ainda estava tentando processar. O Rei do Submundo parou diante da porta da cozinha, seu olfato apurado de divindade captando o rastro químico do desastre culinário que ocorria lá dentro.
Ele hesitou por um segundo. Hades era um estrategista; ele sabia reconhecer uma emboscada quando via uma. Mas, ao lembrar do sorriso radiante de Qin ao entregar o convite, ele endireitou os ombros e empurrou a porta.
— Qin? — chamou Hades, sua voz calma cortando o caos de vapor e fumaça.
O Imperador virou-se, abrindo os braços dramaticamente.
— Hades! Você chegou no momento da perfeição! — Qin apontou para a mesa, onde uma tigela de cerâmica finíssima continha o que parecia ser um pântano em miniatura, decorado com folhas de ouro. — Sente-se. Este Rei preparou um banquete que fará a ambrosia do Olimpo parecer comida de camponês.
Hades aproximou-se da mesa, mantendo a expressão neutra que o tornara respeitado em todos os reinos. Ele olhou para a tigela. O líquido era de um roxo escuro não identificado, com pedaços de algo que ele esperava que fosse carne, mas que tinha a consistência visual de obsidiana.
— É... uma cor muito imponente — disse Hades, escolhendo as palavras com o cuidado de quem desarma uma bomba. — O aroma é certamente... persistente.
— É a essência de Zhao misturada com a força de Qin! — declarou o Imperador, sentando-se à frente dele com uma expectativa quase infantil brilhando por trás da venda. — Prove. Quero que você sinta cada vitória que conquistei em cada colherada.
Hades olhou para os lados. Tesla já havia desaparecido, provavelmente prevendo que o que estava prestes a acontecer exigiria privacidade ou um médico. O Rei do Submundo pegou a colher de prata. Ele sentiu o metal vibrar levemente em contato com a sopa.
"Pelo bem da diplomacia... e por ele", pensou Hades, levando a colher à boca.
No momento em que o líquido tocou sua língua, Hades sentiu como se tivesse engolido um raio de Zeus envolto em areia movediça. O sabor era uma contradição violenta: era simultaneamente amargo, excessivamente salgado e tão picante que ele teve certeza de que suas papilas gustativas estavam cometendo suicídio coletivo.
Sua garganta se contraiu. Seus olhos carmesim se arregalaram por um milésimo de segundo. Mas ele era Hades. Ele era o pilar de Helheim. Ele não recuaria diante de uma sopa.
Com um esforço de vontade sobre-humano, ele engoliu.
— E então? — perguntou Qin, inclinando-se para frente, as mãos apoiadas no queixo. — Onde este Rei cozinha, o mundo se cala para saborear, não é?
Hades sentiu uma lágrima solitária de puro sofrimento físico ameaçar brotar em seu olho esquerdo. Ele a suprimiu com pura autoridade divina. Sua garganta ardia como se ele tivesse bebido o próprio rio Flegetonte.
— É... — Hades fez uma pausa, recuperando a voz que agora soava um oitavo mais grave. — É uma experiência avassaladora, Qin. Nunca provei nada que tivesse tamanha... personalidade.
Qin soltou uma gargalhada triunfante e bateu na mesa.
— Eu sabia! Aqueles cozinheiros de palácio sempre diziam que eu colocava "ingredientes incompatíveis", mas o que eles sabem? Eles não têm a visão de um Rei! Coma mais, Hades! Preparei um caldeirão inteiro!
O coração de Hades, geralmente imperturbável, afundou. Ele olhou para a tigela ainda cheia e depois para o sorriso orgulhoso de Qin. Ele percebeu que, para Qin, aquele prato não era apenas comida; era uma tentativa de compartilhar o seu mundo com o único ser que ele considerava um igual. O Imperador, que sentia a dor de todos, estava oferecendo algo que ele acreditava ser puro prazer.
— Você se esforçou muito nisso — disse Hades, sua voz suavizando apesar da queimação interna.
— Este Rei não conhece o significado de "esforço medíocre" — afirmou Qin. — Se é para o meu igual, deve ser o ápice da criação.
Hades pegou a segunda colherada. Ele podia sentir seu estômago divino protestando, uma revolta de proporções titânicas começando em suas entranhas. Mas ele olhou para Qin — o homem que caminhava sobre tronos, que desafiava deuses e que, naquele momento, parecia apenas um jovem ansioso por aprovação.
— Sabe, Qin — começou Hades, após engolir outra porção daquela mistura letal —, no Submundo, valorizamos a intenção por trás de um ato tanto quanto o ato em si.
— Oh? — Qin inclinou a cabeça. — E qual é a sua análise da minha intenção?
— Sua intenção — Hades fez uma pausa, sentindo o suor frio escorrer por suas costas enquanto lutava contra um espasmo gástrico — é tão poderosa que quase eclipsa o sabor. É raro encontrar alguém que coloque tanta... intensidade em algo tão simples.
Qin sorriu, um sorriso que parecia iluminar a cozinha esfumaçada.
— Você é o único que entende, Hades. Zeus provavelmente teria explodido ou começado a reclamar de queimar a língua. Mas você... você aprecia a complexidade.
— Certamente — murmurou Hades, sentindo que sua língua estava ficando dormente, o que, honestamente, era uma bênção naquele momento. — É complexo. Quase... transcendental.
De repente, a porta da cozinha se abriu e Hermes entrou, segurando uma bandeja com taças de vinho.
— Com licença, majestades. Pensei que poderiam querer algo para acompanhar o... — Hermes parou abruptamente, o aroma da sopa atingindo-o como um soco físico. Ele piscou, os olhos lacrimejando instantaneamente. — Pelos deuses... o que é isso? Houve um vazamento alquímico?
Qin Shi Huang cruzou os braços, bufando.
— É o meu banquete imperial, mensageiro! Hades está adorando. Não é, Hades?
Hades olhou para Hermes. O mensageiro dos deuses, mestre da observação, notou imediatamente o leve tremor na mão de Hades e a palidez incomum em seu rosto nobre. Hermes abafou um riso com a ponta dos dedos.
— Oh, entendo — disse Hermes, com um brilho malicioso nos olhos. — Meu tio sempre teve um paladar... resistente. Gostaria de uma colher, Hermes?
— Eu não ousaria privar o Rei do Submundo de tal iguaria — respondeu Hermes, recuando um passo. — Vim apenas trazer o vinho. Um néctar suave para limpar o paladar... se é que resta algo do paladar para ser limpo.
Hades pegou a taça de vinho com uma gratidão que beirava o desespero. Ele bebeu o conteúdo de um só gole, sentindo o líquido frio combater o incêndio em sua esôfago.
— O vinho é excelente, Hermes. Obrigado — disse Hades, sua voz finalmente voltando ao normal.
Qin, percebendo a interação, levantou-se e caminhou até Hades, colocando uma mão em seu ombro.
— Você não precisa do vinho, Hades! A sopa deve ser o centro das atenções. Vamos, termine a tigela. Eu fiz questão de colocar as raízes raras que colhi pessoalmente. Elas têm um efeito... revigorante.
Hades olhou para a última parte da sopa. Ele sentiu que, se comesse mais um pedaço daquela carne de obsidiana, sua forma divina poderia sofrer uma combustão espontânea. Mas ele viu o reflexo de si mesmo na venda de Qin. Ele viu o respeito e a conexão que haviam construído.
— Qin — disse Hades, levantando-se e segurando a mão do Imperador que estava em seu shoulder. — Este banquete foi... inesquecível. Mas um Rei também deve saber quando parar, para que o prazer não se transforme em excesso.
Qin ergueu uma sobrancelha.
— Você está satisfeito tão rápido?
— Estou preenchido — respondeu Hades, com uma sinceridade que não era técnica, mas emocional. — Não apenas pela comida, mas pela sua hospitalidade. Guardarei o sabor deste momento para sempre. Literalmente. Acho que nunca vou esquecê-lo.
Qin Shi Huang soltou uma risada satisfeita, convencido de sua vitória culinária.
— Muito bem! Se o Rei do Submundo diz que está satisfeito, então o banquete foi um sucesso absoluto! Da próxima vez, prepararei algo ainda mais potente. Tenho planos para uma sobremesa feita com essência de lótus de fogo e mel de vespas gigantes.
Hades sentiu um calafrio percorrer sua espinha, algo que nem mesmo a visão do Caos primordial conseguira fazer.
— Talvez... — começou Hades, guiando Qin gentilmente para fora da cozinha — da próxima vez, possamos experimentar algo do meu reino. Meus servos cozinham há milênios, eles gostariam de aprender com a sua... criatividade.
— Uma excelente ideia! — exclamou Qin. — Eu darei ordens aos seus cozinheiros. Eles precisam de um pouco mais de audácia em suas receitas.
Enquanto os dois se afastavam pelo corredor, Hermes permaneceu na cozinha, olhando para a tigela abandonada. Ele pegou uma pequena colher e, por pura curiosidade científica, provou uma gota minúscula.
O rosto de Hermes ficou instantaneamente roxo. Ele soltou a colher, que caiu no chão com um som metálico, e começou a tossir violentamente, procurando por água.
— Como... — Hermes ofegou, as lágrimas correndo livremente — como o tio Hades ainda está de pé? Isso não é comida... é uma arma de destruição em massa!
Longe dali, já nos jardins, Qin Shi Huang caminhava com a confiança de quem acabara de conquistar um novo território. Ele parou e olhou para Hades, que respirava o ar fresco da noite com uma intensidade incomum.
— Você está muito silencioso, Hades. O sabor ainda está processando?
Hades olhou para o Imperador. A queimação em seu estômago era real, e ele tinha certeza de que passaria as próximas horas em um estado de meditação profunda para neutralizar as toxinas, mas, ao ver Qin tão radiante, ele sentiu que valera a pena.
— Sim, Qin — disse Hades, com um sorriso genuíno e nobre. — Eu ainda estou sentindo. É... um fogo que não se apaga facilmente.
Qin riu e deu um tapinha nas costas de Hades, o que quase fez o deus perder o equilíbrio por causa do estômago sensível.
— Esse é o espírito! Onde este Rei se senta, até o paladar dos deuses é desafiado!
Hades observou o Imperador se afastar, cantarolando uma melodia antiga. O Rei do Submundo colocou a mão sobre o peito, sentindo o calor residual do desastre culinário e o calor muito mais agradável da companhia de Qin.
— Pelos meus irmãos... — sussurrou Hades para si mesmo, com uma expressão de resignação heróica — o que eu não faço por este homem.
Ele olhou para o céu de Valhala, esperando que a próxima demonstração de afeto de Qin Shi Huang envolvesse algo menos inflamável. Mas, no fundo, Hades sabia que, se o Imperador lhe oferecesse o próprio sol em uma bandeja, ele encontraria uma maneira de sorrir e dizer que estava delicioso. Afinal, para um Rei que já tinha tudo, a única coisa que realmente importava era a audácia de quem ousava compartilhar sua loucura com ele.
E assim, enquanto o Submundo ganhava um governante um pouco mais resiliente a venenos, Valhala ganhava uma nova lenda: a de que o amor de um Imperador era a única coisa capaz de fazer o Rei dos Mortos temer por sua vida — ou, pelo menos, por sua digestão.