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O Espelho da Traição e o Eco da Coroa

O salão principal do palácio de Hades em Helheim nunca fora um lugar de reuniões sociais, mas naquela noite, a atmosfera estava carregada de uma tensão que nem mesmo o ar gélido do submundo conseguia dissipar. No centro do salão, uma imensa tela de energia espiritual, manifestada pelo poder de Hades, flutuava como um espelho negro. Ao redor, figuras de poder imensurável observavam com expressões variadas: Zeus mantinha um sorriso enigmático; Poseidon permanecia como uma estátua de gelo; e Hermes, sempre atento, ajustava suas luvas.

Qin Shi Huang estava de pé, um pouco à frente de Hades. Sua postura era, como sempre, impecável. A venda sobre seus olhos não escondia o leve sorriso de escárnio que ele direcionava para a tela. Ele sabia o que estava prestes a ser exibido. Ele já havia vivido aquilo, sentido cada fibra de dor e cada estilhaço de seu coração se partindo.

— É realmente necessário este espetáculo, Rei do Submundo? — Qin perguntou, sua voz melodiosa cortando o silêncio. — Eu já superei o fato de que meu gosto para homens foi, no mínimo, desastroso.

Hades, que estava sentado em seu trono de obsidiana, olhou para o humano. Havia uma sombra de preocupação em seus olhos, algo que ele raramente demonstrava.

— Para que você seja aceito plenamente entre os oficiais de Helheim, Qin, os outros deuses precisam entender a origem da sua "insubordinação" — explicou Hades com sua calma habitual. — Eles precisam ver o que o forjou.

— Entender o que me forjou? — Qin soltou uma risada curta e teatral. — Hao! Preparem-se então. Verão que nem mesmo a morte foi capaz de tirar o brilho do Primeiro Imperador.

A tela brilhou intensamente, e as imagens começaram a se formar. Não era uma memória borrada, mas uma reconstrução nítida do dia mais feliz e, simultaneamente, mais trágico da vida de Qin Shi Huang.

O cenário era o topo do Grande Palácio de Xianyang. O céu estava tingido de um laranja profundo, o sol se pondo sobre uma China unificada. Qin aparecia na tela, mas não com as vestes puídas que usava agora. Ele estava deslumbrante em sedas negras e douradas, o bordado de dragão parecendo ganhar vida a cada movimento seu. Ao seu lado, um homem alto, de ombros largos e um olhar que, naquelas imagens, transbordava uma devoção aparente.

— Aquele é... o general que ele tanto amava? — sussurrou Hermes, observando a interação na tela.

Na imagem, Qin e o homem acabavam de trocar votos. Era uma cerimônia privada, longe dos olhos da corte, selando uma união que Qin acreditava ser o alicerce de sua nova era. O imperador sorria — um sorriso real, desarmado, que poucos ali em Helheim já tinham visto.

— Eu prometi a você um império — dizia o Qin da memória, segurando a mão do homem enquanto subiam as escadarias de mármore em direção ao altar mais alto. — E agora, nós dois governaremos sob o mesmo céu. Não há nada que possa nos derrubar.

O homem sorriu de volta, mas havia algo gélido em seus olhos que a perspectiva da memória agora revelava.

— Você é tudo para mim, meu Rei — respondeu o traidor.

O silêncio no salão de Hades era absoluto. Até mesmo Zeus parecia inclinado para frente, interessado no drama humano.

O momento da transição foi súbito. Assim que chegaram ao topo da escadaria, Qin virou-se para contemplar seu reino. Foi nesse microssegundo de vulnerabilidade que o homem que ele acabara de chamar de marido recuou um passo. Debaixo de suas vestes nupciais, ele sacou uma lança curta, de ponta envenenada e forjada em aço negro.

— Qin! — gritou Hades involuntariamente, embora soubesse que era apenas uma imagem do passado.

Na tela, o movimento foi preciso e cruel. Sem hesitação, o homem cravou a lança diretamente na parte de trás da cabeça de Qin Shi Huang. O som do metal perfurando o crânio e saindo pela órbita ocular foi amplificado pela magia da tela, ecoando pelo salão de Helheim como um trovão de agonia.

Qin não teve tempo de gritar. Seu corpo teve um espasmo violento. O traidor não parou por ali; com um chute brutal no peito do imperador, ele o empurrou para trás.

O que se seguiu foi uma queda interminável. O corpo do Primeiro Imperador, ainda vivo pelo puro choque e pela resistência sobre-humana que possuía, rolou degrau por degrau pelas centenas de escadas de mármore. O sangue manchava o branco da pedra, criando um rastro escarlate que parecia uma fita de seda rasgada. A cada impacto, ouvia-se o som de ossos quebrando.

Finalmente, o corpo parou na base da escadaria, uma massa de seda ensanguentada e membros retorcidos. A lança ainda estava cravada em seu crânio.

A imagem congelou no rosto de Qin. Mesmo com o rosto desfigurado pelo sangue e pelo metal, seu único olho visível não expressava ódio. Expressava uma decepção tão profunda que parecia capaz de engolir o mundo inteiro.

A tela se apagou.

O salão de Hades mergulhou em um silêncio sepulcral. Poseidon desviou o olhar, algo raramente visto. Zeus limpou a garganta, a diversão desaparecida de seu rosto. Hades, por sua vez, sentia uma fúria fria borbulhando em seu peito, uma sensação que ele raramente permitia que aflorasse.

Qin Shi Huang, o verdadeiro Qin que estava ali presente, ajustou a venda. Ele estava de costas para os deuses, mas seus ombros não tremiam.

— Uma queda e tanto, não acham? — disse Qin, sua voz estranhamente leve, embora carregasse um peso invisível. — Eu sempre soube que o topo era um lugar perigoso, mas nunca imaginei que o vento que me derrubaria viria de alguém que eu aqueci em minha própria cama.

— Por que você não revidou? — A pergunta veio de Hades, baixa e intensa. — Você é um guerreiro. Mesmo ferido, eu vi sua alma lutar no abismo. Por que naquele momento você simplesmente... caiu?

Qin virou-se lentamente. O sorriso em seus lábios era triste, mas seus olhos — escondidos por trás do tecido — pareciam queimar.

— Porque um Rei deve confiar — respondeu Qin. — Se eu vivesse em constante suspeita daqueles que amo, eu não seria um Rei, seria um tirano paranoico. Eu escolhi amar. O erro não foi meu por confiar, o erro foi dele por ser pequeno demais para carregar a honra que lhe dei.

— E foi por isso que você salvou aquelas pessoas no poço das almas? — perguntou Hermes, curioso. — Depois de ser traído dessa forma, você decidiu que o sofrimento alheio era o que importava?

— Exatamente — Qin deu um passo à frente, gesticulando dramaticamente. — Aqueles administradores do abismo queriam que eu me tornasse como o homem que me matou. Eles queriam que eu usasse minha dor para gerar mais dor. Mas um Rei não é um espelho que reflete a escuridão. Um Rei é a luz que a consome.

Hades levantou-se de seu trono. Ele caminhou até Qin, parando a uma distância respeitosa, mas íntima. O deus era muito mais alto, mas Qin não recuou nem um milímetro.

— Você foi morto pelo que havia de melhor em você: sua capacidade de se entregar ao seu povo e aos seus — disse Hades, sua voz ressoando com uma sinceridade que surpreendeu os outros deuses. — Mas aqui, em Helheim, essa "fraqueza" é a sua maior força. Você não é apenas um humano que se recusa a morrer, Qin Shi Huang. Você é um governante que entende o preço da coroa melhor do que muitos deuses que conheço.

Qin inclinou a cabeça, um brilho de diversão retornando ao seu rosto.

— Oh? Isso é um elogio, Rei das Sombras? Cuidado, ou vou começar a achar que você está gostando da minha companhia.

Hades não sorriu, mas o canto de sua boca suavizou-se.

— Eu respeito a resiliência. E você, pelo que vimos hoje, é a definição dela.

— Pois bem! — Qin se virou para os outros deuses no salão, abrindo os braços como se estivesse em um palco. — Agora que todos viram o meu momento mais "embaraçoso", podemos passar para a parte onde eu mostro como transformar este lugar sombrio em algo digno de um imperador? Hades, eu estava pensando que aquele corredor leste ficaria maravilhoso com algumas tapeçarias de seda de Suzhou. O cinza é tão... deprimente.

Zeus soltou uma gargalhada estrondosa, quebrando definitivamente o clima de luto.

— Por todos os raios, Hades! Você trouxe um decorador de interiores ou um imperador para o seu reino?

— Eu trouxe um homem que não pode ser quebrado — respondeu Hades, olhando para Qin com um novo tipo de reconhecimento.

Enquanto os outros deuses começavam a se retirar, comentando em voz baixa sobre a cena brutal que haviam presenciado, Hades e Qin permaneceram no centro do salão.

— A lança... — começou Hades, hesitante. — Você disse que ela doeu menos do que o adeus. Ainda dói?

Qin parou por um momento. Ele levou a mão ao lugar onde a lança havia perfurado seu crânio na memória, um gesto quase inconsciente.

— A ferida na carne fecha, Hades. Mas a marca de uma traição é como uma tatuagem na alma. Ela não dói o tempo todo, mas ela está sempre lá, lembrando você do que acontece quando você baixa a guarda.

— Aqui, você não precisa baixar a guarda sozinho — disse Hades, surpreendendo a si mesmo. — Eu sou o Rei deste reino, e eu não permito que traidores caminhem sob meu teto. Se você ficar, sua honra será protegida como se fosse a minha.

Qin Shi Huang sorriu. Desta vez, não era o sorriso teatral de um imperador, nem o sorriso melancólico de uma vítima. Era o sorriso de um homem que encontrara um porto seguro em meio à tempestade eterna.

— Hao! — exclamou Qin, batendo levemente no ombro de Hades, um gesto de audácia que teria custado a vida de qualquer outro ser. — Então é melhor você se preparar, Hades. Porque se eu vou ficar, eu vou fazer deste lugar o reino mais brilhante que o submundo já viu. E você, meu caro Deus dos Mortos, vai aprender a rir antes que o milênio acabe.

Hades observou o humano caminhar em direção aos jardins de pedra do palácio, cantarolando uma melodia antiga da dinastia Qin. Ele sabia que sua vida — e a ordem de Helheim — nunca mais seria a mesma.

Qin Shi Huang fora empurrado das escadas da vida pela traição, mas ele havia caído diretamente nos braços de um destino muito maior. Ele não era mais apenas o Primeiro Imperador da China. Ele era o homem que desafiou o próprio abismo e saiu de lá com a coroa ainda firme na cabeça.

E enquanto ele caminhava, as flores de lótus feitas de energia espiritual começavam a brotar nas fendas do chão de obsidiana, seguindo seus passos. Onde o Rei passava, a vida insistia em florescer, mesmo no coração da morte.