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O Pincel Embriagado e o Resgate da Sabedoria

O silêncio do Grande Salão de Helheim foi novamente interrompido pelo brilho da tela de energia espiritual. Os deuses, ainda processando a brutalidade da traição que haviam testemunhado momentos antes, agora viam uma imagem diferente se formar. Não havia sangue, nem lanças, nem o frio mármore da escadaria imperial. Em vez disso, o que surgiu foi uma fumaça densa e alaranjada, o som de madeira estalando sob o calor das chamas e o caos de uma biblioteca em chamas.

Qin Shi Huang, agora sentado confortavelmente em um divã que ele mesmo "requisitou" para o salão de Hades, deu um gole em uma taça de néctar, agitando as unhas compridas.

— Ah, este dia... — comentou Qin, com um brilho nostálgico nos olhos. — Foi uma noite de grandes sacrifícios e, possivelmente, do melhor vinho de arroz que a China já produziu.

— Você parece orgulhoso de um incêndio, humano — observou Poseidon, de braços cruzados, embora sua atenção estivesse presa à tela.

— Não do incêndio, Deus dos Mares — corrigiu Qin, apontando para a imagem. — Mas do que foi salvo dele. A sabedoria é a única coisa que um Rei não pode permitir que morra.

Na tela, o jovem Qin — ainda com a energia vibrante de seus primeiros anos de unificação — corria em direção às chamas da Grande Biblioteca de Xianyang. Ao seu lado, uma mulher de postura firme e olhar astuto, Kimi, sua conselheira e amiga de longa data, carregava baldes de água que pareciam inúteis contra o inferno que consumia o prédio.

— Qin! É loucura! O teto vai desabar! — gritava a Kimi da memória, tossindo por causa da fumaça.

— Loucura é deixar mil anos de história virarem cinzas, Kimi! — respondeu o Qin da tela, rasgando um pedaço de sua túnica real para cobrir o rosto. — Se os deuses não protegem os livros, o Rei o fará!

Os deuses no salão de Helheim assistiram, hipnotizados, enquanto os dois entravam e saíam do prédio em chamas. Não uma, nem dez, mas dezenas de vezes. A contagem subia: cem, trezentos, setecentos... Ao final da madrugada, mil volumes de pergaminhos e sedas raras estavam empilhados no pátio externo, salvos do desastre.

— Eles salvaram mil livros sozinhos? — Hermes parecia impressionado, fazendo anotações mentais. — A logística disso é... fascinante.

— Mas olhem para eles agora — disse Zeus, soltando uma risadinha rouca.

A imagem na tela mudou. O incêndio havia sido controlado, mas o problema era outro. Muitos dos livros salvos estavam parcialmente queimados, com trechos inteiros de filosofia, estratégia e poesia transformados em borrões de carvão. Qin e Kimi estavam sentados no chão do pavilhão médico, cercados por tinteiros, pincéis e... várias jarras de vinho vazias.

— Nós... nós precisamos... reescrever — balbuciou o Qin da tela, sua coroa torta e o rosto sujo de fuligem. Ele virou uma jarra de vinho, rindo sem motivo aparente. — Kimi, o que o mestre Sun Tzu disse sobre... sobre ataques noturnos?

Kimi, que estava igualmente embriagada, tentava equilibrar um pincel atrás da orelha enquanto segurava um pergaminho de ponta-cabeça.

— Ele disse... — ela fez uma pausa dramática, soluçando — ...que se você não consegue ver o inimigo porque está escuro, você deve... deve acender uma lanterna. Ou talvez ele estivesse falando sobre pescaria. O vinho está muito bom, Qin.

— Perfeito! — exclamou o jovem Imperador, mergulhando o pincel na tinta com uma elegância exagerada e trôpega. — "Na guerra, se não houver lanternas, use peixes". Escreva isso! A posteridade vai nos agradecer pela sabedoria profunda!

No salão de Helheim, Hades cobriu o rosto com a mão, soltando um suspiro pesado.

— Vocês estavam reescrevendo a história da humanidade... bêbados? — perguntou o Rei do Submundo, sua voz oscilando entre a incredulidade e uma diversão contida.

— Estávamos em um estado de "iluminação etílica" — corrigiu Qin, rindo ao ver sua versão do passado tentar desenhar um mapa da China que mais parecia um gatinho sentado. — Mas não se engane, Hades. Mesmo bêbados, nós sabíamos de tudo. Cada palavra, cada estratégia. O vinho apenas... removeu as amarras da formalidade.

Na tela, a cena continuava. Qin e Kimi trabalhavam freneticamente. O que era surpreendente não era apenas a bebedeira, mas o fato de que, apesar das piadas e dos tropeços, eles estavam de fato restaurando os textos. Qin recitava passagens inteiras de clássicos de cor, sua memória fotográfica funcionando perfeitamente apesar do álcool.

— "O caminho do governante é como o fluxo de um rio..." — ditava Qin, enquanto Kimi escrevia com uma caligrafia impecável, apesar de estar balançando para os lados. — "...ele contorna a pedra, mas nunca deixa de seguir em frente." Kimi, você acha que o rio gosta de pedras?

— Acho que o rio prefere vinho, meu Rei — respondeu ela, rindo e batendo o pincel no nariz de Qin, deixando uma mancha preta.

Os deuses observavam a química entre os dois. Não havia a tensão do palácio, apenas uma amizade forjada em anos de lutas e conquistas. Era uma visão humana demais, pura demais, que contrastava dolorosamente com a traição que viria anos depois.

— Eles sabiam de tudo — murmurou Hades, observando a precisão técnica das palavras que Qin ditava na memória, mesmo enquanto ele tentava beber vinho diretamente da jarra e acabava molhando a própria túnica. — A mente dele é... um arquivo infinito.

— É por isso que eu sou o Rei — disse Qin no salão, levantando-se e caminhando até a tela. — Um Rei não guarda o conhecimento apenas em papéis. Ele o guarda no sangue. Aquela noite não foi sobre livros. Foi sobre mostrar que, enquanto eu respirasse, a cultura do meu povo jamais seria apagada pelas chamas.

A memória na tela começou a acelerar. Mostrou o amanhecer, com Qin e Kimi adormecidos sobre uma pilha de pergaminhos restaurados. O sol nascia sobre uma biblioteca salva e uma história preservada.

— Você realmente escreveu "peixes" no tratado de Sun Tzu? — perguntou Hermes, com um sorriso travesso.

— Ah, eu corrigi isso na manhã seguinte, quando a dor de cabeça passou — admitiu Qin, agitando a mão. — Mas Kimi insistiu que a metáfora sobre os peixes era revolucionária. Tivemos uma discussão de três horas sobre isso.

Hades olhou para Qin. A cada nova memória, o humano se tornava mais complexo aos olhos do deus. Ele não era apenas o guerreiro resiliente ou o imperador orgulhoso; ele era alguém que arriscaria a vida por pergaminhos e que encontrava alegria na companhia de uma amiga enquanto o mundo ao redor ainda cheirava a fumaça.

— Você sente falta dela? — perguntou Hades, sua voz suavizando-se. — Da Kimi?

O sorriso de Qin não desapareceu, mas tornou-se mais suave, mais real.

— Kimi foi a primeira a me ensinar que um Rei precisa de olhos nas costas. Ela teria detestado o homem que me matou. Provavelmente teria tentado envenená-lo antes mesmo do casamento.

— Ela parece ter sido uma aliada valiosa — comentou Hades.

— Ela era minha família — respondeu Qin, e por um momento, a aura de autoridade do Imperador vacilou, revelando o homem que sentia o peso de cada perda. — E em Helheim, as lembranças são tudo o que nos resta. Por isso eu as guardo com tanto cuidado. Mesmo as partes em que eu estava agindo como um idiota embriagado.

Hades levantou-se e parou ao lado de Qin. Pela primeira vez, o deus não olhava para o humano como um subordinado ou uma curiosidade, mas como alguém que entendia o valor do que era eterno.

— Você salvou mil livros — disse Hades. — E agora, está tentando salvar as almas deste reino. Você tem uma mania estranha de carregar o que os outros deixam queimar.

— Alguém precisa fazer o trabalho difícil, Hades — Qin deu de ombros, recuperando seu tom teatral. — Além disso, o cinza deste palácio ficaria muito melhor se tivéssemos uma biblioteca. O que você acha? Eu ainda lembro de cada palavra dos mil livros. Podemos começar a reescrevê-los amanhã.

Hades soltou um suspiro, mas desta vez, havia um rastro de um sorriso em seu rosto.

— Se você prometer não incluir peixes nos tratados de guerra, eu considerarei a ideia.

— Hao! — exclamou Qin, rindo alto. — Mas aviso logo: o vinho de Helheim terá que ser de primeira qualidade. A inspiração exige sacrifícios, Rei do Submundo!

A tela se apagou, deixando o salão em uma penumbra confortável. Os outros deuses começaram a se dispersar, alguns ainda rindo das palhaçadas do imperador bêbado, outros refletindo sobre a profundidade de suas ações. Poseidon saiu sem dizer uma palavra, mas seu olhar sobre Qin foi menos gélido do que o habitual.

Hades e Qin permaneceram sozinhos por mais alguns instantes.

— O que aconteceu com os livros? — perguntou Hades, enquanto caminhavam em direção à saída do salão.

— Eles sobreviveram por séculos — respondeu Qin, olhando para as próprias mãos. — Alguns foram perdidos em outras guerras, outros foram escondidos. Mas a essência deles... a ideia de que um povo é definido pelo que ele sabe e não apenas pelo que ele conquista... isso nunca morreu. Eu garanti isso naquela noite.

— Você é um homem singular, Qin Shi Huang — disse Hades, abrindo a porta para o imperador passar.

— E você está começando a ficar repetitivo, Hades — brincou Qin, piscando por trás da venda. — Mas não se preocupe. Eu vou te ensinar tantas coisas novas que você vai esquecer o que é tédio. Começaremos pela arte de beber vinho enquanto se discute filosofia transcendental.

Hades balançou a cabeça, mas não o interrompeu. Enquanto seguiam pelos corredores de Helheim, o som da risada de Qin ecoava, trazendo uma vida vibrante e caótica para o reino dos mortos. O Imperador que salvou mil livros das chamas estava agora escrevendo um novo capítulo, em um lugar onde ninguém esperava encontrar nada além de sombras. E Hades, o sério e disciplinado Rei do Submundo, percebeu que, talvez, um pouco de "iluminação etílica" fosse exatamente o que seu reino precisava.