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O Eclipse de Veludo e a Soberania do Desejo
— Você tem certeza de que este é o caminho, Hades? — Qin Shi Huang ajeitou a venda sobre os olhos, embora sua percepção espiritual lhe dissesse exatamente onde estavam. — As sombras aqui parecem mais densas, quase como se tivessem peso.
Hades, que caminhava ao lado do imperador com uma postura que misturava a autoridade de um deus com a gentileza de um anfitrião, soltou um riso baixo. Ele estendeu a mão, permitindo que os dedos de Qin encontrassem o tecido fino de sua luva.
— Como um Rei, você deveria saber que os tesouros mais valiosos não ficam expostos à luz do sol, Qin. Estamos nos jardins suspensos de Perséfone. Ela não está aqui há eras, mas o lugar ainda guarda a essência do que o Submundo pode oferecer de mais belo.
Eles atravessaram um arco de pedra coberto por trepadeiras de flores que brilhavam em um tom de azul etéreo. O ar ali era diferente; não cheirava a enxofre ou ao mofo do Abismo, mas a sândalo, vinho envelhecido e algo que lembrava a chuva antes de cair. No centro do jardim, uma mesa de pedra negra estava posta com frutas que pareciam joias lapidadas e uma jarra de cristal contendo o néctar mais puro de Helheim.
— Um encontro? — Qin sorriu, sua expressão teatral suavizando-se em algo mais genuíno. — O Rei do Submundo realmente se deu ao trabalho de preparar um cenário digno para o Primeiro Imperador? Hao! Estou impressionado.
— Você me ensinou que a vida deve ser celebrada, mesmo na morte — disse Hades, puxando a cadeira para que Qin se sentasse. — Achei que seria apropriado retribuir a lição.
O jantar transcorreu entre risadas provocantes e confissões sussurradas sob o brilho das flores luminescentes. Eles falaram sobre o peso das coroas, sobre as traições que moldaram seus corações e sobre a estranha paz que encontraram um no outro. Qin, entre um gole de vinho e outro, desafiava Hades com seu olhar por trás da venda, enquanto o deus o observava com uma intensidade que faria qualquer mortal tremer — mas Qin não era um mortal comum. Ele era o homem que havia derrubado um deus com as próprias mãos, e agora, queria conquistar o coração do senhor daquelas terras.
— Você fala muito, Pequeno Rei — murmurou Hades, aproximando sua cadeira da de Qin. A distância entre eles havia diminuído até que o calor de seus corpos começasse a se misturar.
— E você observa demais, Hades — rebateu Qin, levando os dedos aos lábios do deus. — O que você vê quando olha para mim? Um aliado? Um rebelde? Ou algo que você deseja possuir?
Hades segurou o pulso de Qin, não com força, mas com uma firmeza possessiva.
— Eu vejo o único homem capaz de preencher o vazio deste trono. E eu não quero possuir você, Qin. Eu quero que você se entregue.
O desafio estava lançado. Qin Shi Huang não era alguém que recuava. Ele se levantou, puxando Hades pela gola da túnica, forçando o deus a se levantar também. A diferença de altura, que antes era motivo de piada, agora servia apenas para que Qin tivesse que inclinar a cabeça, expondo a curva de seu pescoço.
— Então venha me buscar — sussurrou o imperador.
O caminho até os aposentos privados de Hades foi um borrão de toques urgentes e respirações curtas. Assim que as portas de ébano se fecharam, a compostura real de ambos desmoronou. Hades prensou Qin contra a madeira fria, suas mãos grandes explorando as curvas do corpo do humano com uma fome que havia sido contida por tempo demais.
— Hades... — o nome do deus saiu como um suspiro quando os lábios de Hades encontraram a pele sensível abaixo de sua orelha.
As vestes imperiais, tão meticulosamente colocadas, foram descartadas sem cerimônia pelo chão. Qin sentiu o contraste entre a pele fria do deus e o calor que emanava de seu próprio corpo. Quando foram para a cama vasta, coberta por lençóis de seda negra, a dinâmica de poder entre eles se transformou. Qin, o imperador que sempre comandava, encontrou um prazer inebriante em se permitir ser dominado pela força avassaladora do Rei do Submundo.
Hades era metódico, mas apaixonado. Cada toque era uma reivindicação, cada beijo uma promessa. Quando ele finalmente se uniu a Qin, o mundo pareceu desaparecer. Qin arqueou as costas, suas unhas cravando-se nos ombros largos de Hades enquanto buscava ar. Era intenso, quase doloroso, mas preenchido por uma conexão que transcendia o físico. Eles não eram apenas dois seres dividindo uma cama; eram duas metades de uma soberania que finalmente se encontravam.
— Olhe para mim — pediu Hades, a voz rouca de desejo.
Qin retirou a venda, revelando seus olhos que brilhavam com uma mistura de dor e êxtase. Ele viu o rosto de Hades, geralmente tão controlado, agora transformado pela luxúria e por algo que se assemelhava perigosamente à adoração.
— Eu sou... seu — arfou Qin, entregando-se completamente ao ritmo que Hades ditava.
Eles se amaram até que as estrelas artificiais de Helheim começassem a empalidecer com a chegada de uma manhã que nunca trazia sol, mas sim uma luz cinzenta e persistente. O suor esfriava em seus corpos e a exaustão finalmente os vencia, mas Qin permanecia aninhado no peito de Hades, ouvindo o pulsar constante daquela divindade.
Horas depois, Qin acordou com o som suave de Hades se vestindo. O imperador tentou se levantar, mas sentiu o corpo protestar. Cada músculo parecia pesar uma tonelada, um lembrete vívido da intensidade da noite anterior.
— Fique na cama, Qin — disse Hades, aproximando-se para beijar sua testa. — Você precisa descansar.
— Um Rei... não se esconde entre lençóis — resmungou Qin, embora sua voz estivesse falha. Ele olhou ao redor, procurando suas roupas, mas elas estavam espalhadas e, francamente, pareciam um tanto quanto desconfortáveis para o seu estado atual.
Hades sorriu, uma expressão de pura diversão. Ele foi até o seu armário e retirou um de seus casacos formais — uma peça longa, pesada, feita de lã negra com bordados em prata e forrada com seda.
— Use isto — ele jogou a peça sobre Qin. — É mais prático.
Qin vestiu o casaco. Como Hades era muito mais alto e largo, a vestimenta ficou imensa no imperador. As mangas cobriam suas mãos completamente e a barra ia até abaixo de seus joelhos, quase alcançando seus tornozelos. Qin enrolou-se no tecido, que ainda guardava o cheiro de Hades — uma mistura de sândalo e poder.
— Hao! — Qin se olhou em um espelho, ajeitando a gola que quase engolia seu pescoço. — Eu pareço um imperador que conquistou o guarda-roupa de um deus.
— Você conquistou muito mais do que isso — respondeu Hades, abrindo a porta do quarto.
Qin, com sua confiança teatral restaurada, decidiu que não ficaria trancado. Ele caminhou para fora dos aposentos reais, descalço, vestindo apenas o casaco de Hades, que balançava ao redor de suas pernas conforme ele andava.
O palácio de Helheim estava começando a se movimentar. Servos, almas de generais e até alguns deuses menores que circulavam por ali pararam abruptamente quando viram a figura vindo do corredor privado de Hades.
Qin Shi Huang caminhava com a cabeça erguida, os dedos longos aparecendo apenas levemente pelas mangas imensas do casaco. Ele não usava venda agora, e seus olhos transmitiam uma satisfação que ninguém poderia confundir.
— Bom dia para o povo de Helheim! — exclamou Qin, sua voz ecoando pelo grande salão, onde Brunhilde, Göll e Hermes estavam reunidos para discutir a logística das almas.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Göll deixou cair o pergaminho que segurava, o queixo batendo no peito. Brunhilde arregalou os olhos, sua expressão alternando entre choque e uma compreensão imediata. Hermes, por sua vez, levou a mão à boca, tentando — e falhando miseravelmente — esconder um sorriso malicioso.
— Imperador Qin? — Göll gaguejou, apontando para a vestimenta. — Esse casaco... ele não é do senhor Hades?
— De fato, pequena valquíria — Qin parou no meio do salão, fazendo uma pose dramática, apesar do casaco quase o fazer tropeçar. — O Rei do Submundo insistiu que eu usasse algo que representasse nossa... nova aliança. Ele achou que minhas roupas anteriores estavam muito desgastadas pela "batalha" da noite passada.
Hades apareceu logo atrás dele, com sua expressão habitual de calma, embora um leve rubor pudesse ser notado em suas maçãs do rosto ao ver a reação de todos.
— Ele se recusa a ouvir conselhos sobre descanso — disse Hades, colocando uma mão protetora sobre o ombro de Qin. O contraste entre a mão do deus e o casaco que engolia o corpo do humano era uma prova visual de tudo o que havia ocorrido.
— Batalha? — Göll inclinou a cabeça, confusa. — Mas não houve nenhuma invasão ontem à noite...
— Göll, cale a boca — sussurrou Brunhilde, embora seus olhos estivessem fixos em Qin. — O Imperador parece ter vencido uma guerra muito particular.
Hermes aproximou-se, analisando o tecido do casaco.
— É uma peça de alta costura divina, Imperador. Mas admito que ela parece... um pouco grande para o senhor. Onde estão suas calças, se me permite a ousadia?
Qin soltou uma risada vibrante, agitando as mangas imensas.
— Um Rei não precisa de calças quando tem a proteção do soberano destas terras! Além disso, a ventilação é excelente para a recuperação física. Não é mesmo, Hades?
Hades soltou um suspiro pesado, cobrindo o rosto com a mão, enquanto os sussurros começavam a se espalhar pelo salão como fogo em palha seca.
— Você é impossível, Qin — murmurou o deus.
— Eu sou o Trono! — rebateu Qin, aproximando-se de uma mesa de frutas e pegando uma maçã, mordendo-a com vontade. — E se o Trono decide que o novo uniforme oficial de Helheim é o casaco do Rei, então assim será!
As almas que passavam por ali olhavam para Qin com uma mistura de reverência e espanto. Ver o humano que desafiara o sistema do Abismo agora desfilando com as roupas íntimas (ou quase isso) do seu deus era uma imagem que mudaria para sempre a hierarquia de Helheim.
— Ele realmente fez isso — murmurou Brunhilde para si mesma. — Ele não apenas se aliou a Hades. Ele o conquistou.
Qin caminhou até um dos sofás do salão e se jogou nele, o casaco de Hades abrindo-se levemente para revelar as coxas marcadas por alguns sinais arroxeados que faziam Hermes soltar um assobio baixo.
— Hades — chamou Qin, estendendo a mão para o deus. — Venha aqui. O casaco é confortável, mas eu ainda prefiro o calor do dono original.
Hades hesitou por um segundo, consciente de todos os olhos sobre eles. Mas então, ele olhou para Qin — para aquele homem que havia sofrido tanto, que fora traído e morto, e que ainda assim mantinha o brilho de mil sóis em seu sorriso. O deus caminhou até o sofá e sentou-se ao lado dele, permitindo que Qin se aninhasse em seu flanco.
— Você vai causar um escândalo que durará milênios — disse Hades, passando o braço ao redor de Qin, cobrindo-o ainda mais com o casaco.
— Escândalos são temporários, Hades — Qin fechou os olhos, suspirando de contentamento. — Mas a soberania de um Imperador sobre o coração de um Deus... isso é eterno. Hao!
E ali, no centro do Submundo, diante de deuses, valquírias e almas perdidas, Qin Shi Huang provou que não importava o tamanho da vestimenta ou a altura do adversário. Ele era o Primeiro Imperador, o homem que transformava sombras em luz, e que agora governava Helheim não com uma coroa, mas com o peso do casaco de um deus sobre seus ombros e o amor de um Rei em seu coração.