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O Eco de uma Aposta Perdida e o Ritmo da Humilhação Imperial

O salão principal de Helheim estava, mais uma vez, transformado em uma sala de cinema divina. A tela de energia espiritual, que antes mostrara tragédias e atos de heroísmo, agora pulsava com uma luz vibrante e um tanto quanto suspeita. Hades, sentado em seu trono com a dignidade de quem governa o descanso eterno, olhou para Qin Shi Huang. O imperador, por sua vez, parecia subitamente interessado em contar quantas rachaduras existiam no teto de obsidiana.

— Qin — começou Hades, sua voz ressoando com uma calma autoritária —, Hermes mencionou que este próximo registro é sobre um "desafio de honra" que você perdeu durante sua estadia inicial no pavilhão das almas.

— Ah, aquilo? — Qin Shi Huang soltou uma risada que soou um pouco mais nervosa do que o seu habitual "Hao" triunfante. — Apenas uma trivialidade, Rei das Sombras. Uma pequena divergência de opiniões sobre acústica e sorte. Nada que mereça a atenção de divindades tão ocupadas.

— Pelo contrário, Imperador! — Hermes surgiu de trás de uma coluna, segurando um tablet de cristal que brilhava com uma intensidade travessa. — As almas do setor sete ainda comentam sobre esse dia. Foi o evento que quebrou a monotonia de mil anos de lamento.

Zeus, que estava recostado em uma poltrona de nuvens trazida especialmente para ele, inclinou-se para frente com um sorriso malicioso.

— Um desafio que o Grande Qin perdeu? Isso eu tenho que ver. O que foi? Uma luta? Um jogo de estratégia?

— Foi um jogo de dados — murmurou Qin, cruzando os braços e afundando-se em seu assento. — E eu estou convencido de que aqueles dados eram amaldiçoados por alguma entidade inferior e invejosa.

A tela brilhou, e a imagem se formou.

O cenário era uma taverna improvisada no limbo, onde almas que aguardavam julgamento costumavam se reunir. O Qin da imagem parecia um pouco menos polido do que o atual, com as roupas levemente desgastadas, mas com a mesma arrogância de sempre. Ele estava sentado à mesa com quatro outras figuras: um pirata barbudos, um bardo medieval, um gladiador romano e um mercador persa.

— Se eu ganhar — dizia o Qin da tela, jogando uma moeda de ouro espiritual para o alto —, vocês todos deverão se curvar e me chamar de "Sol Eterno do Abismo" por uma semana.

— E se você perder, "Sua Majestade"? — perguntou o pirata, com um sorriso banguela.

O Qin da tela deu de ombros com desdém.

— Eu não perco. Mas, para tornar as coisas interessantes... se a sorte me abandonar, eu aceitarei qualquer punição que vocês decidirem. Por um mês inteiro.

No salão de Helheim, Brunhilde cobriu o rosto com a mão, prevendo o desastre. Göll, ao seu lado, estava com os olhos arregalados de antecipação.

Na tela, os dados rolaram. O silêncio na taverna era absoluto. Quando os cubos pararam, o resultado foi catastrófico. O Qin da tela olhou para os números, depois para os seus adversários, e sua expressão de confiança desmoronou como um castelo de cartas.

— Bem, bem, bem... — o bardo medieval sorriu, pegando um alaúde quebrado. — Parece que o Imperador vai ter que soltar a voz. E nós já temos a música perfeita. Uma que ouvimos de uma alma que chegou recentemente de um lugar chamado "Brasil".

Qin Shi Huang, no presente, soltou um gemido audível.

— Hades, apague isso. Eu ordeno como seu convidado de honra!

— Eu não posso interferir no fluxo das memórias, Qin — respondeu Hades, embora houvesse um brilho inegável de diversão em seus olhos. — Além disso, um Rei deve arcar com as consequências de suas apostas.

Na tela, o castigo começou.

Qin foi levado para um pequeno palco improvisado. O bardo começou a tocar um ritmo estranhamente animado, batendo no alaúde como se fosse um bumbo. O pirata, o gladiador e o mercador subiram ao palco logo atrás de Qin, vestindo túnicas curtas e coloridas que haviam "emprestado" de algum lugar.

— Um, dois, três... e vai! — gritou o pirata.

O Qin da tela respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, e então, com toda a teatralidade que lhe era inerente, começou a cantar com uma voz surpreendentemente afinada, mas com uma letra que fez Poseidon quase engasgar com seu néctar.

— "Todo dia, toda hora, a gente chega e apavora..." — Qin começou a dançar, um movimento de quadris que era ao mesmo tempo gracioso e absurdamente ridículo. — "Nós somos cinco, nós somos lindas, nós somos as donas da avenida!"

— Pelos raios de meu pai! — Zeus explodiu em uma gargalhada que ecoou por todo o submundo. — Ele está coreografando!

Na tela, o refrão chegou com a força de um tsunami. Qin e as outras quatro almas robustas deram um passo coordenado para a frente, apontando para a plateia de mortos-vivos.

— "Nós somos cinco putas! Noites de luxo e de prazer!" — cantava Qin, com uma mão na cintura e a outra fazendo um gesto de "vrau" no ar. — "Nós somos cinco putas! Feitas pra você se perder!"

O salão de Helheim mergulhou no caos. Hermes estava caído no chão, rolando de rir. Göll estava vermelha como um pimentão, tentando decidir se aquilo era inapropriado ou a coisa mais engraçada que já vira. Até mesmo Brunhilde estava tremendo, tentando manter a compostura enquanto seus ombros sacudiam violentamente.

Hades, o senhor do submundo, o deus mais sério e disciplinado de todos, estava com a mão sobre a boca, mas seus olhos brilhavam com uma alegria que Qin nunca vira.

— Qin... — Hades tentou falar, mas sua voz falhou. — Você... você realmente fez isso? Todo dia?

— Por um mês inteiro! — gritou Qin, levantando-se e apontando para a tela com indignação. — Aqueles bárbaros não tinham misericórdia! Eles me faziam cantar nos horários de pico das execuções! Eu tive que fazer harmonias vocais com um pirata que cheirava a rum rançoso!

Na tela, o vídeo continuava. Mostrava Qin em diferentes locais de Helheim ao longo do mês.

Viram Qin cantando o refrão para um grupo de demônios guardiões, que batiam seus machados no chão acompanhando o ritmo.

Viram Qin, no meio de um campo de punição, fazendo a coreografia de "balançar o bumbum" enquanto as almas ao redor paravam de sofrer apenas para observar o imperador da China se declarar uma "puta de luxo".

— "Aumenta o som, que a gente chegou!" — o Qin da tela fazia um espacate (ou tentava fazer) no meio do refrão. — "Quem disse que imperador não sabe o que é calor?"

— A coreografia... — Hermes conseguiu falar entre soluços de riso — ...é incrivelmente bem ensaiada. Quem a criou?

— Eu, obviamente! — Qin bufou, sentando-se novamente. — Se eu fosse obrigado a passar por aquela humilhação, eu garantiria que fosse a humilhação mais esteticamente perfeita da história do universo! Eu ensinei aquele gladiador a fazer o passo da tesoura por três semanas!

A cena final do vídeo mostrava o último dia do desafio. Qin estava exausto, com a túnica rasgada e o cabelo bagunçado, mas ele terminou a canção com uma nota alta impressionante e uma pose de "diva" que faria Afrodite sentir inveja.

— "Nós somos cinco putas... e eu sou a rainha de todas vocês!" — gritou o Qin da tela, antes de cair de joelhos, ofegante.

A tela se apagou, mas o silêncio que se seguiu em Helheim foi preenchido pelos ecos das gargalhadas dos deuses.

— Eu nunca... — Zeus limpava as lágrimas — ...nunca pensei que veria o homem que enfrentou Chi You rebolando ao som de um hino de bordel brasileiro. Hades, você tem um tesouro em mãos!

Hades finalmente conseguiu se acalmar, embora seu rosto ainda estivesse corado. Ele olhou para Qin, que estava com os braços cruzados e um beicinho emburrado que desmentia toda a sua aura imperial.

— Qin Shi Huang — disse Hades, com uma solenidade que era claramente falsa. — Como Rei do Submundo, eu deveria puni-lo por tamanha falta de decoro em meus domínios.

Qin olhou para ele, desafiador.

— Ah, é? E o que você vai fazer? Me obrigar a cantar de novo?

Hades inclinou-se para frente, um sorriso travesso dançando em seus lábios.

— Não. Mas eu exijo saber... de onde veio a parte do "feitas pra você se perder"? Foi um improviso seu?

— Foi uma adaptação necessária para o mercado local! — Qin exclamou, gesticulando dramaticamente. — As almas do submundo precisam de um incentivo lírico! "Perder-se" no prazer é uma metáfora muito mais profunda do que o material original sugeria!

— Claro, claro — concordou Hermes, ainda limpando o tablet. — Uma profundidade filosófica inegável. Especialmente a parte das "cinco putas".

— Eram cinco! — Qin defendeu-se. — Eu não podia mudar o número! Eu sou um homem de fatos históricos! Se o grupo tinha cinco integrantes, a canção deveria refletir a realidade demográfica do palco!

Göll aproximou-se timidamente de Qin.

— Imperador... o senhor ainda lembra da dança?

— Göll, não o incentive! — avisou Brunhilde, embora ela mesma parecesse curiosa.

Qin olhou para a pequena valquíria, depois para Hades, e por fim para os deuses que o observavam com expectativa. Ele se levantou lentamente, ajustou sua túnica real e colocou a mão no queixo, pensativo.

— Um Rei — disse Qin, sua voz recuperando o tom carismático e teatral — nunca esquece uma performance. Especialmente uma que exigiu tanto de sua flexibilidade lombar.

Hades arregalou os olhos.

— Qin, não...

Mas já era tarde demais. Qin Shi Huang deu um passo lateral, estalou os dedos e começou a cantarolar o ritmo de forma baixa.

— "Todo dia, toda hora..."

— Pare agora mesmo! — Hades levantou-se, metade rindo, metade horrorizado, e caminhou até Qin, segurando-o pelos ombros. — Se você começar a dançar isso aqui, eu terei que banir Zeus e Poseidon por tempo indeterminado para que eles não morram de tanto rir.

— O quê? — Qin olhou para Hades com uma falsa inocência. — Você não quer ver sua "puta de luxo" em ação, Rei das Sombras?

Hades sentiu o rosto queimar enquanto Zeus soltava um assobio de incentivo ao fundo.

— Eu quero — sussurrou Hades, aproximando-se do ouvido de Qin para que apenas ele ouvisse — que você guarde suas performances para o nosso quarto privado. Sem gladiadores, sem piratas e, definitivamente, sem o Zeus assistindo.

Qin Shi Huang sorriu, um sorriso vitorioso que brilhava mais do que qualquer vídeo de humilhação. Ele envolveu o pescoço de Hades com os braços, puxando-o para perto.

— Hao! — exclamou Qin. — Um contrato de exclusividade imperial? Eu aceito. Mas aviso logo, Hades: a coreografia exige que você também participe de algumas partes. Eu preciso de alguém para fazer a base do espacate.

Hades suspirou, derrotado pelo charme caótico do humano.

— O que eu fui fazer da minha vida eterna? — perguntou o deus, olhando para o teto.

— Você encontrou o seu Sol, Hades — respondeu Qin, dando um beijo rápido no nariz do deus. — E o Sol, às vezes, gosta de cantar sobre ser uma puta de luxo. É uma questão de versatilidade!

Enquanto os deuses se retiravam, ainda comentando sobre "o grande espetáculo de Qin", o imperador e o deus permaneceram no salão. A memória da aposta perdida agora era apenas mais uma história na vasta coleção de Qin, uma prova de que, mesmo nas situações mais ridículas, ele permanecia inabalável.

— Sabe, Hades — disse Qin, enquanto caminhavam de braços dados pelos corredores — eu ainda acho que o pirata estava fora de tom no segundo refrão.

— Tenho certeza de que ele estava, Qin. Tenho certeza de que ele estava.

E assim, em Helheim, o silêncio da morte foi definitivamente substituído pelo ritmo vibrante da vida de um homem que se recusava a ser qualquer coisa menos do que extraordinário — mesmo quando a tarefa era ser apenas uma das "cinco putas" de um desafio perdido.