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O Despertar do Dragão e o Silêncio do Submundo
A porta pesada de carvalho e ouro se fechou com um clique surdo, deixando para trás o burburinho dos deuses e guerreiros que ainda processavam a visão do Primeiro Imperador em trajes tão... domésticos. Dentro da biblioteca, o silêncio retornou como uma manta acolhedora. Apenas o som da pena de Qin deslizando sobre o pergaminho e o estalar suave das brasas na lareira preenchiam o ambiente.
Hades não se moveu. Ele continuou sentado no tapete, logo atrás de Qin, com as pernas longas acomodadas de forma que o marido pudesse se apoiar nele se quisesse. Seus dedos longos e pálidos moviam-se com uma delicadeza quase rítmica entre os fios escuros e rebeldes de Ying Zheng. Ele desfez um pequeno nó perto da nuca, sentindo a tensão nos ombros do imperador começar a derreter.
— Você deveria ter me acordado quando decidiu vir para cá — murmurou Hades, a voz vibrando suavemente contra as costas de Qin. — Eu teria lhe trazido o café na cama.
Qin soltou um riso anasalado, sem desviar os olhos do relatório de Helheim que estava revisando.
— E perder a oportunidade de ver todos aqueles rostos chocados? — Qin mergulhou a pena no tinteiro com um movimento elegante. — Ver a cara do Poseidon ao perceber que eu estava usando a sua blusa valeu cada segundo de sono perdido. Além disso, o Grande Imperador não precisa de despertadores. Eu sinto quando o dever chama.
— O dever ou a sua teimosia? — Hades sorriu, depositando um beijo casto no topo da cabeça desarrumada do outro.
— Ambos são a mesma coisa para mim — respondeu Qin, finalizando uma assinatura com um floreio dramático.
Ele largou a pena, esticou os braços acima da cabeça — fazendo com que as mangas excessivamente longas da blusa de Hades caíssem até seus cotovelos — e soltou um suspiro longo e satisfeito. O trabalho estava feito. Por mais que agisse com arrogância, Qin era de uma diligência implacável; ele não governava apenas com o trono, mas com a mente.
Lentamente, Qin se virou nos braços de Hades. Seus olhos, agora sem a venda que costumava usar para filtrar a dor do mundo, pareciam mais suaves, embora ainda brilhassem com aquela autoconfiança inabalável. Ele se inclinou para frente, apoiando as mãos nos ombros largos do Rei do Submundo, e selou seus lábios em um beijo que carregava o peso de séculos de convivência e a leveza de uma manhã tranquila.
— Agora — sussurrou Qin contra os lábios de Hades —, o Imperador vai reivindicar o seu verdadeiro território: a cama. Não me acorde, a menos que o universo esteja colapsando. E mesmo assim, peça para o universo esperar dez minutos.
Hades soltou uma risada baixa, observando Qin se levantar com uma graça preguiçosa. O chinês caminhou em direção aos aposentos reais, arrastando levemente os pés, a blusa grande demais balançando em torno de suas coxas. Ele parecia pequeno e, ao mesmo tempo, imenso. Hades ficou ali por alguns momentos, apenas admirando a silhueta do homem que havia conquistado não apenas a China e um lugar no Ragnarok, mas o coração do deus mais estóico do panteão grego.
Enquanto isso, do lado de fora, no grande salão que levava às alas residenciais, a confusão ainda reinava.
— Vocês viram aquilo? — perguntou Raiden Tameemon, coçando a nuca com uma expressão de pura descrença. — Ele estava... fofinho? Eu nunca achei que usaria essa palavra para o Qin.
— Ele parecia um filhote de passarinho que caiu do ninho — comentou Okita Soji, balançando sua espada embainhada. — Mas um passarinho que ainda pode te cortar em pedaços se você rir dele.
— O estilo era... funcional — disse Nikola Tesla, já desenhando algo em um caderninho. — A escolha de uma vestimenta maior permite uma maior circulação de ar e liberdade de movimento para os processos cognitivos intensos da madrugada. Eu deveria adotar algo parecido.
— Você já esquece de comer e tomar banho, Tesla, não dê mais ideias — resmungou Beelzebub, embora seus olhos estivessem fixos na porta por onde tinham saído, parecendo pensativo.
— Eu achei digno — declarou Leônidas, cruzando os braços. — Um guerreiro deve estar pronto para a batalha, mas um rei deve estar confortável em seu palácio. Embora... aquela blusa fosse realmente grande demais.
— Era do Hades, seu tonto — bufou Shiva, que tinha os quatro braços cruzados. — Ficou óbvio. O cheiro de morte e flores de asfódelo estava impregnado na seda.
— O que eu não consigo superar é o cabelo — disse Apolo, ajeitando seus próprios fios dourados impecáveis. — Como alguém consegue manter tanta dignidade com o cabelo parecendo um ninho de ratos? É uma afronta à estética!
— Ele é o Imperador, Apolo — murmurou Sasaki Kojiro, sorrindo gentilmente. — Ele decide o que é estético.
Nesse momento, as portas da biblioteca se abriram novamente e Hades saiu. Ele havia recuperado sua postura majestosa, mas havia uma suavidade em seu olhar que ele raramente mostrava em público. Ele fechou as portas com cuidado, como se qualquer ruído pudesse estilhaçar o silêncio do castelo.
— Ele terminou? — perguntou Zeus, saltitando de um pé para o outro. — Precisamos que ele assine a autorização para a nova arena de treinamento!
— Shhh — Hades colocou um dedo sobre os lábios, sua voz saindo em um tom baixo e autoritário. — Zheng foi dormir. E ele não será perturbado.
— Ah, qual é, Hades! — reclamou Loki, aparecendo de cabeça para baixo em uma nuvem de fumaça. — Ele acabou de nos expulsar de lá. Como ele pode estar dormindo tão rápido?
— Ele trabalhou a noite toda enquanto vocês se divertiam ou dormiam — respondeu Hades, passando pelo grupo. — Ele está exausto.
— Mas... como ele é dormindo? — perguntou Simo Häyhä, sua voz abafada pela máscara, mas carregada de uma curiosidade infantil que surpreendeu a todos.
Hades parou. Ele sabia que deveria apenas mandá-los embora, mas havia algo na camaradagem que havia surgido entre eles após o Ragnarok que o tornava um pouco mais tolerante. Além disso, ele sentia um orgulho secreto por seu marido.
— Ele não acorda por nada quando entra em sono profundo — admitiu Hades. — É o único momento em que ele realmente baixa todas as guardas.
— Nós queremos ver! — exclamou Buda, pegando um pirulito novo. — Vamos lá, Hades. Só uma espiadinha. Prometemos não rir. Muito.
— Absolutamente não — disse Hades, voltando a caminhar.
— Por favor! — pediu Héracles, com seu entusiasmo habitual. — Seria uma honra ver o descanso de um grande guerreiro.
Hades suspirou. Ele olhou para o grupo — uma mistura de deuses supremos e os humanos mais fortes da história — todos agindo como crianças querendo espiar um presente de Natal. Ele sabia que se não cedesse, eles provavelmente tentariam invadir sozinhos e acabariam acordando o chinês, o que resultaria em uma explosão de "Hous" e possivelmente algumas paredes destruídas.
— Se alguém fizer um único barulho — ameaçou Hades, os olhos brilhando com uma promessa de punição divina —, eu mesmo os mandarei para as profundezas mais escuras de Helheim. E não será para uma visita.
O grupo assentiu vigorosamente, em um silêncio absoluto e cômico.
Eles seguiram Hades pelos corredores luxuosos até a suíte real. O Rei do Submundo abriu a porta com uma lentidão extrema. O quarto estava na penumbra, com as cortinas de veludo pesado bloqueando a maior parte da luz da manhã. O ar tinha um perfume suave de sândalo e o calor de uma lareira que morria lentamente.
Hades gesticulou para que eles entrassem, um por um.
Lá estava Qin Shi Huang.
Ele estava enterrado sob uma montanha de lençóis de seda branca e colchas de pele. A blusa preta de Hades estava um pouco subida, revelando a tatuagem do dragão em suas costas enquanto ele dormia de lado. Seu rosto estava parcialmente afundado em um travesseiro macio. Sem a venda, sem o sorriso arrogante e sem a postura de desafio, ele parecia incrivelmente jovem e pacífico.
Seus lábios estavam levemente entreabertos, e ele soltava respirações curtas e rítmicas. O cabelo espetado estava espalhado pelo travesseiro como uma mancha de tinta negra. Uma de suas mãos estava estendida, agarrando inconscientemente a ponta de um travesseiro extra, como se estivesse procurando por algo — ou alguém — para segurar.
O grupo de deuses e humanos ficou parado ao redor da cama, observando em um silêncio reverente.
— Ele... ele está abraçando o travesseiro? — sussurrou Jack, o Estripador, com um brilho divertido no olhar.
— Ele parece um boneco de porcelana — murmurou Nostradamus, tentando se inclinar para ver melhor, sendo prontamente segurado pela gola da camisa por Thor.
Até Poseidon, que geralmente mantinha uma expressão de tédio absoluto, estreitou os olhos, observando a vulnerabilidade do homem que um dia ousou olhar nos seus olhos e chamá-lo de "plebeu".
De repente, Qin se mexeu. O grupo inteiro congelou. Zeus prendeu a respiração tanto que seu rosto começou a ficar roxo. Qin soltou um murmúrio baixinho, algo que soou como um resmungo sobre "impostos" e "flores", e se encolheu mais ainda entre as cobertas, enterrando o nariz no tecido que ainda cheirava a Hades.
Ele não acordou. Ele estava em um mundo de sonhos onde ele não precisava ser um rei, apenas Ying Zheng.
— Ele é realmente fofo — admitiu Shiva em um sussurro quase inaudível. — Quem diria que o cara que derrubou um deus com um sopro dormiria como um gatinho.
— Ele sofreu muito quando criança — sussurrou Hades, olhando para o marido com uma ternura que fez o coração de alguns ali presentes apertar. — Ele merece cada segundo de paz que o sono lhe traz.
Sakata Kintoki sorriu, ajustando seu machado no ombro.
— É, o descanso do guerreiro. Acho que já vimos o suficiente.
Um a um, eles começaram a se retirar, caminhando nas pontas dos pés sobre o tapete grosso. Lu Bu foi o último a sair, lançando um olhar de respeito silencioso para o homem na cama antes de fechar a porta com a ponta dos dedos.
Já no corredor, longe o suficiente para não serem ouvidos, a energia do grupo explodiu novamente, mas desta vez em tons mais baixos.
— Eu nunca vou contar isso para ninguém, mas eu quase tive vontade de cobri-lo — confessou Raiden, rindo baixinho.
— Se você contasse, ele provavelmente te executaria — disse Sasaki. — Mas sim, foi uma visão... esclarecedora. O Imperador é humano, afinal de contas.
Hades permaneceu à porta por um momento, observando seus convidados se dispersarem. Ele sentia uma estranha satisfação. Eles agora entendiam que Qin não era apenas uma força da natureza ou um governante arrogante; ele era alguém que amava, que se cansava e que encontrava conforto nas coisas simples, como uma blusa grande demais e um sono sem sonhos.
Hades voltou para o quarto e fechou a porta, trancando-a desta vez. Ele caminhou até a cama, despiu sua túnica formal e deitou-se ao lado de Qin.
Quase instantaneamente, como se tivesse um radar para a presença de seu marido, Qin se moveu no sono, rolando para o lado de Hades e apoiando a cabeça no peito dele.
— Eles já foram embora? — murmurou Qin, a voz tão rouca e sonolenta que era quase um sussurro fantasmagórico.
Hades estacou, surpreso.
— Você estava acordado?
— O Grande Imperador... sempre sabe quando tem uma plateia — Qin deu um sorriso minúsculo, os olhos ainda fechados. — Mas eu estava cansado demais para abrir os olhos e expulsá-los de novo. Além disso... eu sabia que você me protegeria.
Hades abraçou-o com força, sentindo o calor do corpo de Qin contra o seu.
— Sempre, Zheng. Sempre.
— Bom... — Qin se aconchegou mais. — Agora durma. É uma ordem real.
Hades sorriu na escuridão do quarto, fechando os olhos. O submundo podia esperar. O céu podia esperar. Naquele momento, o único reino que importava era aquele pequeno espaço entre os lençóis de seda, onde um deus e um imperador eram apenas dois corações batendo no mesmo ritmo, finalmente em paz.