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O Equilíbrio Frágil de um Imperador e o Caos dos Arquivos
A luz da manhã em Valhala tinha um tom perolado, filtrando-se pelas janelas altas do corredor que levava à ala administrativa. O grupo de deuses e humanos, que agora parecia ter adotado o hábito de se reunir nas primeiras horas do dia para observar a rotina peculiar de seus líderes, caminhava com passos consideravelmente mais leves. Após o "incidente do pijama" na semana anterior, a curiosidade sobre o cotidiano de Qin Shi Huang e Hades havia se tornado uma espécie de entretenimento compartilhado.
— Eu aposto que hoje ele vai estar usando uma coroa de flores e comendo uvas — sussurrou Apollo, ajeitando sua túnica dourada. — O homem tem um senso dramático que eu, por mais que me custe admitir, respeito.
— Shhh! — sibilou Jack, o Estripador, levando o dedo aos lábios. — O senhor Qin preza pelo silêncio matinal. Se o assustarmos novamente, temo que o senhor Hades nos proíba de circular por este corredor permanentemente.
Eles se aproximaram da porta entreaberta do escritório pessoal de Qin. Ao contrário do encontro anterior, não havia barulho de xícaras ou conversas. O silêncio era absoluto, quase denso. Quando Zeus empurrou a porta apenas alguns centímetros para que todos pudessem espiar, a cena que encontraram foi, no mínimo, inusitada.
Qin Shi Huang não estava sentado em seu trono, nem no tapete. Ele estava no fundo da biblioteca, diante de uma estante de carvalho que parecia tocar o teto. O Imperador, ainda vestindo uma túnica leve e confortável, mas sem a venda, estava empenhado em uma tarefa de engenharia improvisada. Ele havia empilhado seis caixas de madeira reforçada, uma sobre a outra, criando uma torre precária para alcançar a prateleira mais alta.
— O que ele está fazendo? — sussurrou Raiden, os olhos arregalados. — Ele sabe que pode simplesmente pedir para o Thor ou para mim pegarmos isso, certo?
— Um Rei não pede o que pode conquistar sozinho — murmurou Sasaki Kojiro, embora sua mão estivesse no cabo da espada, pronta para intervir caso a torre desabasse.
Qin subiu na pilha de caixas com a leveza de um gato. Seus movimentos eram calculados, quase coreografados. Ele se equilibrou na ponta dos pés, esticando o braço até o limite para alcançar um pergaminho de capa azul-marinho que estava preso no fundo da prateleira. Seus dedos roçaram o papel, e com um puxão preciso, ele o capturou.
O que se seguiu foi uma demonstração de agilidade que deixou até Hermes impressionado. Em vez de descer degrau por degrau, Qin deslizou pela lateral da pilha, segurando as caixas com uma das mãos para que o impulso não as derrubasse, enquanto mantinha o documento seguro na outra. Ele tocou o chão sem fazer o menor ruído, as solas de suas sapatilhas mal emitindo um som contra o mármore.
Ele abriu o pergaminho com expectativa, seus olhos percorrendo as linhas de caligrafia rapidamente. Por três segundos, o rosto de Qin permaneceu imóvel. Então, uma veia saltou em sua testa. Ele fechou o documento com tanta força que o som do impacto ecoou como um tiro no silêncio da sala.
Qin Shi Huang não gritou. Ele abriu a boca em um grito mudo para o teto, jogando a cabeça para trás em uma expressão de agonia silenciosa e cômica.
— Ele pegou o documento errado — sussurrou Buda, mastigando um chiclete com um sorriso de canto. — Consigo sentir a frustração dele daqui. É uma aura cor de limão azedo.
Qin respirou fundo, recompondo-se em um instante. Ele olhou ao redor, pensativo, e então estalou os dedos, lembrando-se de algo. Ele saiu do escritório com passos rápidos e silenciosos, passando pelo grupo escondido no corredor sem sequer notar a presença deles. Sua mente estava focada demais para perceber uma horda de deuses espiões.
— Para onde ele vai com tanta pressa? — perguntou Leônidas, ajustando o capacete.
— Aquele é o caminho para o escritório de Hades — respondeu Beelzebub, que parecia levemente interessado no caos administrativo.
O grupo o seguiu à distância, como uma sombra coletiva. Qin entrou no escritório de Hades, que estava vazio no momento, já que o Rei do Submundo estava em uma reunião com os juízes de Helheim. O Imperador começou a vasculhar a mesa de Hades com a eficiência de um saqueador profissional, mas mantendo a organização. Ele finalmente encontrou o que procurava: um calhamaço de papéis grampeados com o selo real de Plutão.
No entanto, ao puxar os papéis, ele acabou esbarrando em um tomo pesado de leis ancestrais que estava na beirada da mesa. O livro despencou.
Qin tentou aparar com o pé para evitar o barulho, mas o peso do livro era maior do que ele esperava. O tomo atingiu o peito do seu pé com um baque surdo.
Os deuses no corredor prenderam o fôlego. Qualquer pessoa normal teria soltado um urro de dor. Qin Shi Huang apenas fechou os olhos com força, o rosto ficando vermelho enquanto ele inspirava o ar pelo nariz de forma lenta e controlada. Ele ficou parado naquela posição por dez segundos, a personificação da contenção real, antes de pegar o livro, colocá-lo de volta na mesa e caminhar de volta para seu próprio escritório, mancando de forma quase imperceptível.
— Aquilo deve ter doído como o inferno — comentou Shiva, impressionado. — O cara tem nervos de aço.
— Ou um orgulho maior que a dor — corrigiu Hades, que acabara de aparecer atrás do grupo, assustando a todos.
— Irmão! — Zeus exclamou, tentando disfarçar. — Estávamos apenas... verificando se o seu marido precisava de ajuda.
Hades olhou para a porta do escritório de Qin, onde o Imperador agora estava sentado à mesa, analisando o novo documento.
— Ele não aceita ajuda quando está nesse estado — disse Hades, um tom de diversão em sua voz séria. — Observem.
Dentro da sala, Qin começou a ler o documento que pegara no escritório de Hades, comparando-o com os relatórios que já estavam em sua mesa. À medida que avançava na leitura, sua expressão mudava de concentração para choque, e de choque para uma fúria gélida.
Ele percebeu o erro. Alguém — provavelmente algum escriba estagiário de Valhala ou um deus menor preguiçoso — havia trocado os cabeçalhos de todos os relatórios de almas do último trimestre. Tudo o que Qin havia revisado e assinado nas últimas cinco horas estava tecnicamente errado.
O silêncio que reinava na sala foi finalmente quebrado.
— Mas que bando de idiotas imbecis! — Qin explodiu, jogando o calhamaço de papéis para o alto. As folhas se espalharam como pétalas de lótus em uma tempestade. — Por todos os ancestrais! Eu unifiquei a China, eu derrotei exércitos, eu lutei contra deuses... e agora sou derrotado por burocratas que não sabem distinguir um relatório de Niflheim de um de Helheim!
Ele se levantou, chutando levemente a cadeira para trás.
— Incompetentes! Burros! Plebeus de mente curta! — Ele começou a andar de um lado para o outro, gesticulando para as paredes. — Se eu estivesse no meu palácio original, eu mandaria todos eles limparem os estábulos imperiais com escovas de dente! Não, eu os mandaria reescrever a Grande Muralha à mão!
Os espectadores no corredor estavam boquiabertos. Nunca tinham visto o Imperador perder a compostura de forma tão... ruidosa.
— Ele fala muitos palavrões em chinês, não é? — perguntou Okita Soji, inclinado para frente.
— Eu não entendo metade, mas o tom é bem claro — riu Buda.
Qin parou de gritar tão subitamente quanto começou. Ele olhou para a bagunça de papéis no chão, depois para a pilha de caixas que ainda estava no fundo da sala, e finalmente para o relógio.
— Quer saber? — disse ele para ninguém em particular, sua voz voltando a um tom calmo, mas carregado de desprezo. — O mundo pode acabar. As almas podem se perder. Eu sou o Imperador, e o Imperador decidiu que terminou por hoje.
Com um gesto dramático, ele ignorou todos os documentos espalhados, caminhou até o sofá de veludo que ficava em um canto do escritório, deitou-se de qualquer jeito e puxou uma manta bordada sobre o corpo. Em menos de um minuto, sua respiração tornou-se pesada e regular.
Hades soltou um suspiro curto, uma mistura de cansaço e adoração.
— Bem — disse o Rei do Submundo, virando-se para o grupo de curiosos —, o show acabou. Como vocês viram, até o Imperador tem seus limites. Sugiro que todos voltem aos seus afazeres antes que ele acorde e decida descontar a frustração em quem estiver por perto.
— Eu não queria ser o escriba que trocou esses papéis — comentou Simo Häyhä, ajustando seu rifle. — O senhor Qin parece o tipo de pessoa que guarda rancor.
— Oh, ele guarda — confirmou Hades, abrindo a porta do escritório. — Mas agora, ele só precisa de descanso.
Hades entrou no escritório e fechou a porta suavemente. Ele caminhou entre os papéis espalhados no chão, sem se importar com a desordem. Ao chegar perto do sofá, viu que Qin estava profundamente adormecido, com uma expressão de leve irritação ainda gravada nas sobrancelhas franzidas.
Hades inclinou-se e tirou um pequeno fragmento de papel que havia caído no cabelo de Qin.
— Você se esforça demais, meu querido — sussurrou o deus, sentando-se na beirada do sofá.
Qin murmurou algo entre dentes, algo que soava estranhamente como "Hades... mande matá-los... todos eles...".
Hades riu baixinho, passando a mão pelo rosto do marido.
— Amanhã, Zheng. Amanhã nós lidamos com os burocratas. Hoje, você é apenas o meu imperador exausto.
Lá fora, o grupo começava a se dispersar. Zeus e Poseidon caminhavam na frente, discutindo sobre quem seria capaz de empilhar mais caixas sem cair. Tesla estava tentando calcular a força do impacto do livro no pé de Qin, enquanto Jack e Héracles conversavam sobre a importância de manter a calma sob pressão.
— Sabe — disse Sasaki Kojiro para Lu Bu, que caminhava em silêncio ao seu lado —, eu acho que o Ragnarok foi a melhor coisa que aconteceu para a paz de espírito desses dois.
Lu Bu apenas grunhiu em concordância, mas havia um brilho de respeito em seus olhos. No fim das contas, seja lutando em uma arena ou lutando contra pilhas de papel, o Primeiro Imperador da China nunca recuava. Ele apenas tirava uma soneca estratégica para voltar mais forte no dia seguinte.
E assim, a manhã em Valhala seguiu seu curso, marcada pela imagem de um rei que, mesmo entre palavrões e documentos errados, nunca perdia sua essência — e de um deus que estaria lá para recolher cada folha de papel que caísse, apenas para garantir que seu imperador pudesse dormir em paz.