D69
O Eclipse da Alma e a Promessa de Sangue
O retorno ao palácio de Hades foi um percurso traçado em silêncio absoluto. O Rei do Submundo carregava Qin Shi Huang em seus braços, ignorando o sangue que manchava sua própria pele e suas vestes finas. O Imperador, exausto, parecia menor do que realmente era, encolhido contra o peito de Hades como se tentasse se fundir àquela força inabalável. Atrás deles, a comitiva de deuses e humanos se dispersava pelas sombras de Helheim, mas o peso do que viram permanecia sobre os ombros de cada um.
Ao chegarem aos aposentos reais, Hades depositou Qin com uma delicadeza quase dolorosa sobre a cama. O Imperador da China estava pálido, seus lábios ainda manchados por um rubor que não era dele. A venda de seda, símbolo de sua dignidade e proteção contra o mundo, estava torta e úmida.
— Eu vou buscar água — disse Hades, sua voz soando como o veludo mais profundo, mas antes que pudesse se afastar, a mão de Qin disparou e agarrou seu pulso com uma força desesperada.
— Não saia — sussurrou Qin. Seus olhos, normalmente cobertos, estavam entreabertos, revelando as íris que brilhavam com uma luz febril e doentia. — Se você sair... ele volta. Satã nunca dorme, Hades. Ele está aqui, arranhando as paredes da minha mente.
Hades sentou-se na borda do colchão e envolveu a mão de Qin com a sua, sentindo o tremor constante que percorria o corpo do humano.
— Ele não vai tocar em você enquanto eu estiver aqui — afirmou o deus, com uma autoridade que faria o próprio destino recuar. — Eu sou o soberano deste reino. Nem mesmo a maldição de Beelzebub pode ignorar a minha vontade sobre o que é meu.
Qin soltou um riso fraco, que logo se transformou em uma careta de dor.
— O que é seu... — repetiu Qin, fechando os olhos com força. — Você viu o que eu fiz, Hades. Você viu o que eu sou. Eu não sou um rei aqui... sou um carrapato. Um parasita que consome a vida para não se apagar. Como pode olhar para mim e não sentir o nojo que eu sinto de mim mesmo?
Hades não respondeu de imediato. Ele pegou um pano de linho umedecido e começou a limpar o rosto de Qin, removendo os vestígios daquela madrugada sangrenta. Seus movimentos eram precisos e calmos.
— Quando eu olhei para você na arena do Ragnarok, vi um homem que carregava o peso de um império inteiro — começou Hades, limpando o canto da boca de Qin. — Vi alguém que transformou a dor de um povo em sua própria armadura. O que vi hoje na caverna não foi diferente. Você está carregando um fardo que não escolheu para proteger a própria existência. Um rei não é definido pela pureza de suas mãos, Qin, mas pela lealdade ao seu propósito.
— Meu propósito é matar para o Beelzebub — cuspiu Qin, a amargura transbordando. — Cada pedaço da minha alma que ele me devolve parece vir carregado de mais escuridão. Eu sinto o gosto daquelas pessoas toda vez que fecho os olhos. A comida normal... ela me queima, Hades. É como se meu corpo estivesse se tornando algo que não é mais humano, nem deus.
— É a corrupção de Satã — uma voz ecoou da porta entreaberta.
Hades não precisou olhar para saber quem era. Beelzebub estava parado no umbral, sua expressão tão melancólica e vazia quanto de costume. Ele entrou no quarto sem ser convidado, seus passos não produzindo som algum sobre o tapete luxuoso.
— O que você quer, Beelzebub? — a voz de Hades endureceu instantaneamente.
— Trazer a verdade, já que a mentira não serve mais — respondeu o Senhor das Moscas, aproximando-se da cama. Ele olhou para Qin, não com desprezo, mas com uma espécie de camaradagem trágica. — O pacto que os sacerdotes tentaram fazer anos atrás não foi apenas uma invocação. Eles queriam criar um receptáculo que pudesse conter a fome de Satã sem morrer instantaneamente. Qin sobreviveu porque a vontade dele é maior do que a de qualquer mortal que já encontrei. Mas o preço... o preço é que ele agora compartilha a minha natureza.
— Você disse que estava devolvendo a alma dele — disse Hades, levantando-se e ficando entre Beelzebub e Qin.
— E estou — afirmou Beelzebub. — Mas a alma que retorna está marcada. Satã é uma entidade de vazio. Para preencher o vazio que ele deixa na alma de Qin, o corpo dele exige a essência vital mais próxima da dele: a carne humana. Se ele parar de caçar, se ele parar de consumir, o vazio vai crescer até que não sobre nada do "Imperador", apenas uma casca faminta que destruirá tudo ao redor. Inclusive você, Hades.
Qin soltou um gemido abafado, escondendo o rosto entre as mãos.
— Eu sabia... eu sabia que era perigoso — murmurou o chinês.
Hades, no entanto, não recuou. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Beelzebub. A aura de Helheim pulsou ao redor do Rei, as sombras do quarto ganhando vida e serpenteando como serpentes prontas para o bote.
— Há uma forma de quebrar isso — não era uma pergunta, era uma ordem.
Beelzebub suspirou, olhando para as próprias mãos.
— Existe. Mas exige um sacrifício que nenhum deus estaria disposto a fazer. É necessário um "âncora". Alguém de poder imenso que aceite vincular a própria essência à alma de Qin, servindo como um filtro. Esse âncora sentiria a fome dele, a dor da sinestesia dele e, acima de tudo, teria que oferecer sua própria energia divina constantemente para saciar o vazio de Satã.
— Eu aceito — disse Hades, sem hesitar um milésimo de segundo.
— Hades, não! — Qin sentou-se abruptamente na cama, o pijama de seda escorregando pelo ombro. — Você não entende o que ele está dizendo! Você é o Rei do Submundo! Se você se vincular a mim, você sentirá a agonia de cada pessoa que eu toquei, cada dor que eu absorvi! Você vai se tornar um prisioneiro da minha maldição!
Hades virou-se para o marido. Ele caminhou até ele e segurou seu rosto com ambas as mãos, forçando Qin a olhar nos seus olhos.
— Qin Shi Huang, você me disse uma vez que o trono é onde você se senta. Pois saiba que o meu trono não vale nada se eu não puder proteger o homem que amo. Eu passei milênios governando este reino de sombras e solidão. Se eu tiver que compartilhar a sua dor para que você tenha paz, farei isso com o maior orgulho.
— Você pode perder sua sanidade, Hades — advertiu Beelzebub. — O vínculo é eterno.
— Então que seja eterno — declarou Hades. — Prepare o ritual. Agora.
Enquanto Beelzebub começava a desenhar símbolos arcanos no chão do quarto com um pó de osso negro, a notícia do que estava acontecendo se espalhava pelo palácio. Do lado de fora, no corredor, um grupo inusitado se reunia.
— Ele realmente vai fazer isso? — perguntou Shiva, encostado na parede oposta à porta. — Hades é um dos nossos pilares. Se ele cair, o Submundo entra em colapso.
— Hades nunca toma uma decisão sem saber as consequências — disse Poseidon, sua voz fria, embora seus olhos estivessem fixos na porta fechada. Havia uma tensão rara em sua postura. Ele desaprovava a "fraqueza" emocional, mas respeitava a determinação absoluta de seu irmão.
— É uma demonstração de amor que transcende a lógica — comentou Adão, que permanecia ali, sentindo a angústia de seu filho chinês do outro lado da parede. — Qin sempre foi sozinho. Ele se tornou um rei porque ninguém o protegeu. Agora, ele tem alguém.
Lá dentro, o ar tornou-se pesado. Beelzebub terminou os preparativos.
— Sentem-se um de frente para o outro — instruiu o senhor das moscas. — Deem as mãos. Hades, você deve abrir sua alma completamente. Não pode haver defesas. Qin, você deve deixar de lutar contra o vazio por um momento e permitir que Hades entre.
Qin tremia violentamente.
— Hades... eu tenho medo. Se eu te machucar...
— Você não vai — prometeu Hades, apertando as mãos de Qin. — Eu sou o seu porto seguro. Confie no seu marido, meu Imperador.
Beelzebub começou a entoar um cântico em uma língua esquecida pelos deuses modernos. O quarto foi inundado por uma luz púrpura e negra. De repente, um grito rasgou a garganta de Qin. A marca de Satã em seu peito começou a brilhar com uma intensidade violenta, e sombras em forma de mãos começaram a emergir de sua pele, tentando agarrar tudo ao redor.
Hades sentiu o impacto imediatamente. Foi como se um oceano de agonia fosse despejado em sua mente. Ele viu as memórias de Qin: o abuso na infância, o ódio do povo de Zhao, a dor física de sentir cada golpe dado em outra pessoa. E então, a fome. Uma fome voraz, um buraco negro que gritava por consumo.
O Rei do Submundo rugiu de dor, seus olhos brilhando com uma luz divina intensa enquanto ele forçava sua própria essência para dentro daquele abismo. Ele não recuou. Pelo contrário, ele abraçou a escuridão.
— *Hao...* — sussurrou Hades entre dentes, usando a expressão favorita de Qin. — É apenas isso? Eu sou Hades! O governante dos mortos! Sua dor é bem-vinda em meu domínio!
O ritual atingiu seu ápice. Uma explosão de energia lançou Beelzebub contra a parede e fez as janelas do palácio estilhaçarem. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Hades e Qin caíram sobre a cama, ainda de mãos dadas, respirando com dificuldade. A marca no peito de Qin não brilhava mais; agora, ela estava envolta por um padrão de vinhas púrpuras, a marca de Hades, que a mantinha sob controle.
— Acabou? — perguntou Qin, sua voz fraca, mas limpa. Pela primeira vez em anos, ele não sentia o zumbido constante de Satã em seus ouvidos.
— O vínculo está feito — disse Beelzebub, levantando-se e limpando o sangue do canto da boca. — Ele não precisará mais matar para se alimentar. Sua energia divina será o suficiente para mantê-lo. Mas, Hades... você sentirá tudo o que ele sentir. Para sempre.
Hades olhou para Qin. O Imperador estava olhando para ele com uma expressão de pura devoção e alívio. Qin levou a mão ao rosto de Hades e, pela primeira vez, não sentiu apenas a dor do toque, mas o calor e a força do deus.
— Eu sinto você — sussurrou Qin, lágrimas de verdade, não de sangue, escorrendo por seu rosto. — Eu sinto a sua paz.
Hades sorriu, um sorriso raro e genuíno, e o puxou para um beijo calmo.
— E eu sinto o seu coração, meu rei. Ele é barulhento, arrogante e... magnífico.
A porta do quarto foi aberta lentamente. Zeus, Poseidon, Adão e os outros entraram com cautela. Eles viram o estado do quarto, viram a exaustão nos rostos de ambos, mas viram algo que nenhum deles esperava: o Imperador da China estava dormindo pacificamente nos braços de Hades, sem a venda, sem medo.
— Bem — disse Zeus, coçando a barba e tentando quebrar o clima pesado —, parece que o Submundo vai precisar de um novo estoque de ambrosia, se Hades vai sustentar dois com a própria energia.
— Saia, Zeus — ordenou Hades, sem nem olhar para o irmão, enquanto cobria Qin com o cobertor.
O Rei dos Deuses riu e sinalizou para que todos saíssem. Beelzebub foi o último a sair, parando por um segundo para olhar para o casal. Ele sentiu uma pontada de algo que não sentia há eras: esperança. Talvez, se um humano e um deus podiam carregar tal maldição juntos, houvesse um caminho para ele também.
Naquela noite, Helheim não foi um reino de mortos e sombras. Para Qin Shi Huang, foi o lugar onde ele finalmente pôde descer de seu trono de ossos e descansar, sabendo que, não importava quão profunda fosse a escuridão, ele nunca mais teria que caminhar nela sozinho. Hades, o Rei Nobre, manteve sua vigília, segurando a mão do homem que desafiara os deuses, pronto para enfrentar qualquer monstro, seja ele interno ou externo, para manter aquele sorriso no rosto de seu Imperador.