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D69

O Elo de Ferro e Púrpura

A luz opaca de Helheim filtrava-se pelas janelas quebradas do quarto real, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e o silêncio que sucede uma grande tempestade. O ritual de Beelzebub havia deixado marcas físicas no ambiente: o pó de osso agora era cinza espalhada pelo chão, e as paredes exibiam rachaduras que pareciam veias negras. No centro de tudo, o Rei do Submundo e o Imperador do Início permaneciam imóveis, entrelaçados em um silêncio que não era de morte, mas de uma vida nova e compartilhada.

Hades sentia cada batida do coração de Qin como se fosse sua. Não era apenas a sinestesia que Qin possuía; era algo mais profundo, um fluxo constante de consciência que corria entre eles. Ele sentia o cansaço residual nos músculos de Qin, o gosto metálico que ainda pairava em sua língua e, acima de tudo, a súbita e avassaladora ausência da fome excruciante que o atormentara por décadas.

— Você está sendo muito barulhento — murmurou Qin, sem abrir os olhos. Sua voz estava rouca, mas havia uma leveza nela que Hades nunca ouvira antes.

— Barulhento? — Hades arqueou uma sobrancelha, acariciando os cabelos negros do humano. — Eu não disse uma palavra, meu rei.

— Seus pensamentos... eles vibram — explicou Qin, abrindo os olhos lentamente. As pupilas, antes dilatadas pelo horror, agora estavam calmas. — É como se houvesse um exército marchando dentro da minha cabeça, mas todos eles usam armaduras de veludo. É estranho. É... quente.

Hades soltou um suspiro curto, uma risada contida.

— É a minha essência divina estabilizando o seu vazio. O que você sente é o peso da minha existência protegendo a sua. Acostume-se com isso, pois eu não pretendo retirar essa "armadura" nunca.

Qin sentou-se devagar, sentindo o corpo ainda trêmulo. Ele olhou para as próprias mãos, que não estavam mais manchadas de sangue, mas sim marcadas por finas linhas púrpuras que subiam pelos pulsos, desaparecendo sob as mangas do pijama. Ele sabia que, sob o tecido, essas linhas se conectavam ao selo em seu peito, o nó górdio que Hades havia atado para prender Satã.

— Onde está o Senhor das Moscas? — perguntou Qin, olhando ao redor do quarto destruído.

— Ele partiu logo após o término do ritual — respondeu Hades, levantando-se para buscar um manto limpo para o marido. — Beelzebub tem seus próprios demônios para enfrentar, mas ele cumpriu sua parte. Ele parecia... perturbado. Ver um deus se sacrificar por um humano não é algo que ele processa bem.

Qin soltou um riso seco e tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram. Hades foi mais rápido, envolvendo-o pela cintura e mantendo-o firme.

— Cuidado. Sua alma foi remodelada hoje. Levará tempo para que seu corpo entenda que não precisa mais caçar para sobreviver.

— Um imperador não deve ser carregado como um fardo, Hades — protestou Qin, embora não fizesse esforço algum para se soltar.

— E um marido não deve ver sua esposa definhar em segredo — rebateu Hades, seus olhos fixos nos de Qin com uma intensidade que beirava a severidade. — Nós teremos uma conversa muito longa sobre "segredos reais" assim que você conseguir ficar de pé sozinho.

Antes que Qin pudesse responder com uma de suas frases de efeito, uma batida suave soou na porta. Não era a batida autoritária de Zeus ou a frieza de Poseidon. Era algo mais hesitante.

— Entre — ordenou Hades.

A porta se abriu para revelar Brunhilde e Hermes. A Valquíria parecia exausta, seus olhos percorrendo o quarto com uma mistura de choque e alívio. Hermes, por outro lado, mantinha seu sorriso enigmático de sempre, embora suas mãos estivessem cruzadas nervosamente atrás das costas.

— Lorde Hades... Imperador Qin — Brunhilde fez uma reverência profunda. — Peço desculpas pela intrusão, mas os outros guerreiros... eles se recusam a deixar o palácio até terem certeza de que o Imperador está... bem.

— E por "os outros", ela quer dizer que o Sr. Adão ameaçou derrubar as portas se não visse o filho dele em cinco minutos — acrescentou Hermes com um tom leve. — E o Sr. Tesla está tentando analisar as rachaduras nas paredes com uma lupa.

Qin sorriu, um brilho de sua antiga arrogância retornando.

— Diga ao "Pai" que o trono ainda está ocupado e que o Imperador não cai tão facilmente. Mas... — ele hesitou, olhando para Hades — ...talvez seja melhor que eles entrem. Não há mais o que esconder, não é?

Hades assentiu e fez um gesto para Hermes. Momentos depois, o quarto foi inundado por uma presença vibrante. Adão entrou primeiro, seus olhos varrendo Qin em busca de qualquer ferimento oculto. Atrás dele, Tesla falava animadamente com Kojiro Sasaki sobre flutuações de energia espiritual, enquanto Jack, o Estripador, permanecia num canto, observando a cor da alma de Qin com uma reverência silenciosa.

— Você parece melhor, garoto — disse Adão, colocando uma mão no ombro de Qin. — A cor da sua alma... não é mais cinza.

— É roxa agora — disse Jack, sua voz suave ecoando pelo quarto. — Uma mistura fascinante de orgulho humano e proteção divina. Nunca vi nada tão... harmonioso.

— É claro que é harmonioso! — exclamou Tesla, aproximando-se de Hades. — Lorde Hades, você realizou uma transferência de energia que desafia as leis da termodinâmica espiritual! Você se tornou um capacitor vivo para a alma dele! Isso é ciência pura aplicada ao amor!

Hades olhou para Tesla com um misto de confusão e impaciência.

— É dever de um rei proteger o que é seu, Nikola Tesla. Não vejo necessidade de fórmulas para isso.

— Mas a fome, Qin... — interrompeu Raiden, que estava encostado no batente da porta com Shiva. — Aquilo que vimos na caverna... acabou mesmo?

O silêncio caiu sobre o quarto. A pergunta de Raiden era o que todos queriam fazer, mas ninguém ousava. A imagem de Qin consumindo carne humana ainda estava gravada na mente de deuses e humanos.

Qin olhou para suas mãos novamente. Ele sentia a conexão com Hades pulsando.

— O vazio ainda está lá — admitiu Qin, sua voz baixa e honesta. — Satã é uma parte de mim agora. Mas ele não está mais gritando. Hades... ele está alimentando o monstro por mim. Eu não sinto mais a necessidade de... — ele engoliu em seco, a memória do sabor de sangue o fazendo estremecer — ...de fazer aquilo.

— Se ele sentir fome, ele sentirá a minha força — declarou Hades, sua voz ecoando com uma autoridade que encerrou o assunto. — E se o monstro em seu peito tentar se rebelar, ele terá que passar pelo meu bidente primeiro. O assunto está encerrado. O que aconteceu naquelas sombras morre aqui.

— Hades tem razão — disse Zeus, aparecendo por trás de Hermes, mastigando uma maçã de ouro. — Já temos problemas demais com o Ragnarok. Não precisamos de fofocas sobre canibalismo imperial nos corredores de Valhala. Além disso... — ele olhou para Qin e depois para o irmão — ...se o meu irmão mais velho decidiu que esse é o caminho, quem sou eu para discordar? Ele sempre foi o mais teimoso de nós.

Poseidon, que observava tudo da porta com os braços cruzados, soltou um "Hmpf" de desdém, mas não desviou o olhar.

— Um rei que se vincula a um mortal... que decadência — murmurou o Deus dos Mares. Mas, para quem o conhecia, havia um brilho de reconhecimento em seus olhos. Ele respeitava a determinação inabalável, mesmo que fosse por algo que ele considerava inferior.

Hades ignorou as provocações. Ele se voltou para Qin, que parecia estar lutando para manter os olhos abertos.

— Todos vocês já viram o que precisavam — disse Hades, sinalizando para a saída. — Meu marido precisa de repouso. E eu preciso reconstruir este quarto.

Um a um, eles começaram a sair. Adão deu um último aceno de cabeça para Qin, um gesto de respeito entre pais e filhos de diferentes eras. Brunhilde lançou um olhar significativo para Hades, um agradecimento silencioso por manter um de seus guerreiros mais fortes inteiro, antes de fechar a porta.

Finalmente, restaram apenas Hades, Qin e o silêncio.

— Você vai ficar cansado disso — sussurrou Qin, enquanto Hades o ajudava a se deitar novamente. — De me carregar. De sentir minha dor.

Hades sentou-se ao lado dele e começou a desamarrar as botas de Qin.

— Você passou milênios como o Imperador do Início, Qin Shi Huang. Você unificou a China, construiu a Grande Muralha, enfrentou demônios e deuses sozinho. Você realmente acha que um pouco de cansaço vai me fazer desistir de você?

Qin sorriu, fechando os olhos enquanto sentia o calor da mão de Hades em seu tornozelo.

— Eu sou o trono onde você se senta, lembra? — continuou Hades. — Se o trono estiver pesado, é porque ele está carregando algo de valor inestimável.

— Você é muito brega para um deus da morte — murmurou Qin, o sono finalmente o vencendo.

— E você é muito arrogante para um homem que acabou de ser salvo por um "deus brega" — rebateu Hades com um sorriso suave.

Hades permaneceu sentado ali por muito tempo após Qin adormecer. Ele sentia, através do elo, os sonhos de Qin. Não eram mais pesadelos de vilas em chamas e rostos distorcidos pela dor da sinestesia. Eram sonhos de campos vastos, de um império sob o sol, e da presença constante de uma sombra púrpura que o seguia, não para caçá-lo, mas para guardá-lo.

De repente, uma pontada de dor aguda atravessou o peito de Hades. Ele cerrou os dentes, levando a mão ao coração. Através do vínculo, ele sentiu um eco da maldição de Satã tentando testar as novas correntes. O vazio estava tentando morder o selo.

Hades fechou os olhos e concentrou sua vontade. Ele enviou uma onda de energia divina calma e gélida através do elo, sufocando a rebelião da entidade antes mesmo que Qin pudesse senti-la. A dor em seu próprio peito persistiu por alguns segundos, uma queimação surda, mas ele não recuou.

— Pode tentar o quanto quiser, criatura — sussurrou Hades para a escuridão dentro de Qin. — Eu tenho a eternidade para te manter na coleira.

Ele se deitou ao lado de Qin, puxando o corpo do humano para perto do seu. O contato físico fortalecia o vínculo, tornando a transferência de energia mais fluida.

Pela manhã, o submundo acordaria com a notícia de que seu Rei havia feito um pacto sem precedentes. Os deuses falariam sobre a loucura de Hades, e os humanos contariam histórias sobre o Imperador que domou o próprio Satã com a ajuda de um deus. Mas ali, naquele quarto em ruínas, nada disso importava.

— Hao... — murmurou Hades, pegando o sono, usando a palavra de Qin como uma promessa.

Tudo estava bem. O trono estava seguro, e o Imperador, pela primeira vez em sua vida eterna, estava em paz. O pacto de sangue e alma que outrora fora uma maldição, agora era a âncora que mantinha os dois mundos unidos. E enquanto o coração de Hades batesse, o de Qin Shi Huang jamais conheceria a fome ou a solidão novamente.