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O Silêncio do Rei e as Lágrimas do Dragão
A atmosfera no Palácio de Helheim estava carregada, não com a habitual serenidade digna de Hades, mas com uma tensão elétrica que fazia as chamas das tochas azuis chicotearem as paredes de obsidiana. O motivo da discórdia repousava sobre a mesa de carvalho negro: um conjunto de pergaminhos antigos, selados com o emblema imperial da China, que Qin Shi Huang havia tentado enviar secretamente para o mundo dos vivos através de um dos corvos de Hermes.
Hades não era um deus de fúrias súbitas como Zeus, mas sua paciência tinha limites, e Qin acabara de cruzar a fronteira da traição administrativa. O imperador tentara intervir no ciclo de reencarnação de algumas almas de seus antigos generais, algo que desafiava a ordem fundamental do Submundo.
— Qin — a voz de Hades era um trovão baixo, contido, que fez os vasos de cristal na sala vibrarem. — Eu lhe dei liberdade. Eu lhe dei meu trono e minha cama. Mas você tentou subverter as leis de Helheim pelas minhas costas.
Qin Shi Huang estava de pé junto à janela, mantendo sua postura de superioridade absoluta. Ele não usava a venda, e seus olhos claros brilhavam com uma teimosia que beirava a insolência.
— Onde eu me sento é meu trono, Hades — respondeu Qin, cruzando os braços sobre o peito. — Aqueles homens foram meus pilares na terra. Eles merecem um destino melhor do que o esquecimento nas planilhas de seus juízes. Eu sou o Imperador, e meu comando não termina com a morte.
Hades caminhou em direção a ele, cada passo ecoando como um veredito. A aura do Deus dos Mortos expandiu-se, tornando o ar pesado e difícil de respirar.
— Aqui, o único comando é o meu — disse Hades, segurando o braço de Qin com uma força que o imperador não conseguiu repelir. — Você precisa aprender que a sua arrogância mortal não tem jurisdição sobre a eternidade.
— Solte-me! — exclamou Qin, tentando puxar o braço. — Você está agindo como um tirano, não como um marido!
Hades não respondeu com palavras. O ciúme possessivo que vinha acumulando desde que Hermes trouxera aqueles documentos vergonhosos sobre o passado libertino de Qin misturou-se com a irritação pela desobediência atual. Ele precisava quebrar aquela máscara de "Rei Invencível".
Ele arrastou Qin em direção ao quarto, ignorando os protestos e os chutes do humano. Qin era forte, um guerreiro que enfrentara deuses no Ragnarok, mas contra a força bruta e focada de um Hades verdadeiramente irado, ele era apenas carne e osso.
Ao chegarem aos aposentos, Hades jogou Qin sobre o grande divã de couro. Antes que o imperador pudesse se recuperar, o deus prendeu seus pulsos acima da cabeça com uma única mão, usando seu peso divino para imobilizá-lo.
— Você acha que a vida é um jogo de sedução e decretos, Qin — rosnou Hades, pegando uma palmatória de madeira escura que servia como símbolo ritual de disciplina no Submundo. — Mas hoje, eu vou lhe mostrar o peso da autoridade que você tentou contornar.
Hades virou Qin de bruços com um movimento rápido, prendendo-o entre suas coxas musculosas. O imperador começou a lutar com uma urgência que não demonstrara antes. Havia algo no olhar de Hades que não era apenas desejo ou possessividade; era uma frieza administrativa que assustou Qin.
— Hades, pare! — Qin gritou, sua voz perdendo a cadência imperial. — Eu não sou um súdito para ser açoitado!
O primeiro golpe da palmatória desceu com força total sobre a carne macia das nádegas de Qin, protegidas apenas pela seda fina de suas vestes. O estalo ecoou pelo quarto como um tiro.
Qin soltou um arquejo agudo, o corpo retesando-se violentamente. Através de sua sinestesia toque-espelho, ele sentia não apenas a dor física do golpe, mas a intenção punitiva de Hades, o que dobrava o impacto em seu sistema nervoso.
— Isso é pela sua insolência — disse Hades, desferindo o segundo golpe.
— Pare! Por favor, pare! — Qin começou a espernear, suas pernas golpeando o ar em uma tentativa fútil de se libertar. — Eu odeio você! Hades, solte-me agora!
Hades, cego pela necessidade de impor ordem e pela irritação acumulada, continuou. O terceiro, o quarto e o quinto golpe desceram em sucessão rápida. Ele queria que Qin chorasse, queria que ele pedisse clemência, queria que a fachada de "Grande Eu" ruísse para que ele pudesse reconstruí-la sob seus próprios termos.
Mas ele não esperava a forma como Qin quebraria.
O imperador, que enfrentara o desespero de uma infância de abusos e a dor de mil batalhas, atingiu seu limite emocional. Os gritos de raiva transformaram-se em soluços desesperados. Qin começou a chorar de uma forma que Hades nunca vira: um choro de criança, carregado de um trauma antigo que a punição física acabara de despertar.
— Não... por favor... não me bata... — a voz de Qin quebrou completamente. Ele soluçava tão forte que seu corpo inteiro tremia, os ombros sacudindo sob o aperto de Hades. — Eu sinto muito... eu sinto muito... solte-me, por favor...
Qin começou a se debater com uma força frenética, não para lutar, mas para escapar, como um animal encurralado. Suas unhas arranhavam o couro do divã, e ele soluçava de forma tão convulsiva que parecia estar perdendo o ar.
— Hades... por favor... dói... dói muito... — as palavras saíam entrecortadas por soluços profundos que vinham do fundo do peito.
Hades parou com a palmatória no ar. O som daqueles soluços atingiu o Deus dos Mortos como uma lança de gelo no coração. Ele olhou para baixo e viu o homem que amava — o imperador orgulhoso, o homem que sorria diante da morte — reduzido a uma pilha de tremores e lágrimas descontroladas.
A névoa de irritação de Hades dissipou-se instantaneamente, substituída por um horror frio diante de suas próprias ações. Ele largou a palmatória, que caiu no chão com um som oco.
— Qin? — Hades soltou os pulsos dele, mas Qin não tentou fugir agora; ele apenas se encolheu em uma posição fetal, escondendo o rosto entre os braços, os soluços ainda sacudindo seu corpo de forma violenta.
— Não me toque... — Qin gemeu, a voz abafada pelo choro. — Por favor... não me toque...
Hades sentiu um aperto na garganta que nunca imaginou ser possível para um deus. Ele percebeu o que havia feito. Ele não apenas punira uma desobediência; ele invocara as sombras da infância de Qin, o tempo em que o imperador era apenas uma criança odiada e ferida. Ele usara sua força divina contra a vulnerabilidade humana que Qin lhe confiara.
— Oh, deuses... Qin... — Hades ajoelhou-se no divã, estendendo as mãos trêmulas, mas hesitando em tocar no marido. — Qin, olhe para mim. Por favor, meu amor, olhe para mim.
Qin continuava a soluçar, o rosto vermelho e banhado em lágrimas, a respiração vindo em arquejos curtos que indicavam um início de crise de pânico.
— Eu sinto muito... eu sinto muito... — Qin repetia, sem saber ao certo se estava pedindo desculpas pela desobediência ou se estava implorando para que a dor parasse.
Hades não aguentou. Ele puxou Qin para seus braços, ignorando a resistência inicial do humano. Ele envolveu o imperador em um abraço protetor, pressionando a cabeça de Qin contra seu peito, deixando que as lágrimas do outro molhassem sua túnica nobre.
— Shhh... eu estou aqui. Eu parei, Qin. Eu parei — sussurrou Hades, sua voz carregada de uma angústia genuína. — Perdoe-me. Pelos deuses, perdoe-me. Eu fui um monstro.
Qin agarrou-se à túnica de Hades, as mãos fechadas em punhos, enterrando o rosto no pescoço do deus. Os soluços começaram a diminuir de intensidade, mas o choro silencioso continuava, pesado e carregado de mágoa.
— Você... você me machucou... — Qin conseguiu dizer, a voz ainda trêmula. — Você me tratou como se eu fosse nada.
— Eu sei, eu sei — Hades fechou os olhos, sentindo uma vergonha que queimava mais que qualquer fogo do Tártaro. — Eu me deixei levar pelo orgulho e pelo ciúme... Eu esqueci quem você é. Eu nunca, jamais, deveria ter levantado a mão para você dessa forma.
Hades começou a balançar Qin levemente, um gesto de conforto que ele costumava usar com seus irmãos milênios atrás. Ele beijou o topo da cabeça de Qin, os olhos fechados com força.
— Eu sou um idiota, Qin. Um deus arrogante que não merece a sua confiança — continuou Hades, a voz falhando. — Por favor, não se esconda de mim. Eu farei qualquer coisa para consertar isso. Eu queimarei aqueles pergaminhos, eu libertarei seus generais, eu... eu me ajoelharei diante de você pelo resto da eternidade se você me perdoar.
Qin afastou-se um pouco, olhando para Hades com os olhos inchados e vermelhos. A vulnerabilidade em seu rosto era algo que ele nunca mostrava ao mundo, um segredo guardado a sete chaves que agora estava exposto diante do Rei de Helheim.
— Você prometeu que Helheim seria meu lar, Hades — disse Qin, um soluço solitário escapando de seus lábios. — Mas, por um momento, pareceu apenas mais uma prisão.
Hades sentiu o impacto daquelas palavras como se tivesse sido atingido pelo martelo de Thor. Ele segurou o rosto de Qin com as duas mãos, limpando as lágrimas com os polegares com uma delicadeza infinita.
— Nunca mais — prometeu Hades, a voz firme apesar da emoção. — Eu juro pela minha coroa, pelo meu reino e pela minha própria existência. Eu nunca mais deixarei minha fúria cegar o amor que sinto por você. Você é o meu igual, Qin. Você é o Imperador de Helheim tanto quanto eu.
Qin observou o rosto de Hades, procurando por qualquer sinal de falsidade. Ele viu apenas uma dor honesta e um arrependimento profundo. O imperador soltou um longo suspiro, o corpo finalmente relaxando contra o do deus.
— O Grande Eu... não gosta de chorar — murmurou Qin, limpando o nariz na manga de Hades, um gesto que, em qualquer outra situação, faria o deus rir. — É indigno.
— Não há indignidade na dor que eu causei, Qin — respondeu Hades, puxando-o para mais perto. — A culpa é inteiramente minha.
Hades levantou-se, ainda carregando Qin nos braços, e o levou para a cama. Ele o deitou com cuidado e buscou um bálsamo fresco, aplicando-o sobre a pele irritada de Qin com toques leves e curativos. A cada toque, Hades murmurava um pedido de desculpas, uma promessa de cuidado, uma reafirmação de seu amor.
— Hades — chamou Qin, quando a dor física começou a ser substituída por uma dormência confortável.
— Sim, meu amor?
— Se você contar para o Hermes ou para o Poseidon que eu solucei... eu juro que encontro uma forma de inundar este reino com vinho de lótus e transformar tudo em um caos.
Hades soltou uma risada curta, mas carregada de alívio. Ele beijou a testa de Qin e segurou sua mão.
— Seu segredo está seguro no lugar mais profundo do Submundo, Qin. Ninguém jamais saberá.
Qin fechou os olhos, a exaustão emocional finalmente vencendo a dor.
— Ótimo — murmurou ele, o sono começando a tomá-lo. — E Hades... da próxima vez que você estiver irritado... tente usar as palavras. O Grande Eu é muito bom em debates.
— Eu farei isso — prometeu Hades, sentando-se ao lado dele e vigiando seu sono. — Eu farei exatamente isso.
Hades permaneceu ali por toda a noite, observando a respiração de Qin se estabilizar. Ele sabia que levaria tempo para que a confiança total fosse restaurada, mas ele estava disposto a trabalhar cada segundo da eternidade para garantir que Qin Shi Huang nunca mais tivesse que chorar de medo em seus braços. Porque, no final, o Rei de Helheim aprendera a lição mais valiosa: o poder de um deus não valia nada se ele machucasse a única alma que dava sentido à sua imortalidade.