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O Pó do Deserto e a Fúria do Rei
A recuperação de um imperador não era um processo silencioso; era um evento de Estado, mesmo que o Estado em questão fosse o reino dos mortos. Qin Shi Huang passou três dias sendo carregado por Hades, uma experiência que alimentou seu ego tanto quanto drenou sua paciência. No quarto dia, porém, a vitalidade do Dragão da China retornou com força total. Suas pernas não tremiam mais, e a queimação nos quadris fora substituída por uma energia inquieta que pedia por movimento e, acima de tudo, por uma revanche lúdica contra a severidade de seu marido.
Hades estava no grande salão de mármore, debruçado sobre um mapa estelar de Helheim, discutindo com alguns escribas sobre a expansão das fronteiras espirituais. Ele exalava aquela aura de "Rei Dignificado" que Qin tanto gostava de desestabilizar. O deus estava impecável em sua túnica branca com detalhes em ouro, o cabelo platinado perfeitamente alinhado.
Qin aproximou-se sorrateiramente, escondendo algo atrás das costas. Ele passara pela cozinha real e confiscara um saco de farinha de arroz finíssima, usada para os doces que ele tanto apreciava. Seus olhos brilhavam com uma malícia infantil, a mesma que ele usava quando criança para escapar de seus tutores.
Ao chegar a poucos passos de Hades, Qin soltou um risinho abafado.
— Hades! — exclamou ele, chamando a atenção do deus.
No momento em que Hades se virou, com uma expressão de curiosidade nobre, Qin mergulhou as mãos no saco e soprou uma nuvem densa e branca diretamente no rosto do Rei do Submundo.
O salão mergulhou em um silêncio sepulcral. Os escribas paralisaram, as penas suspensas no ar. Hades, o temido governante de Helheim, estava coberto de branco. A farinha se agarrou aos seus cílios, ao seu cabelo e, principalmente, à sua expressão de choque absoluto.
— O Grande Eu declara que você parece um fantasma de verdade agora! — Qin explodiu em uma gargalhada sonora, batendo palmas antes de dar meia-volta e sair correndo em direção aos jardins.
Hades permaneceu estático por cinco segundos. Lentamente, ele passou a mão pelo rosto, limpando os olhos. Quando abriu as pálpebras, suas íris brilhavam com um fogo ametista que prometia consequências imediatas. Ele não gritou. Ele não chamou os guardas. Ele apenas se endireitou, sacudiu a túnica com um movimento seco e começou a caminhar.
— Voltem ao trabalho — ordenou Hades aos escribas, sua voz saindo baixa e perigosa. — Eu tenho um imperador para caçar.
Qin corria pelos corredores, sentindo o vento no rosto. Ele saltava sobre bancos de pedra e desviava de estátuas com uma agilidade que mostrava que ele estava totalmente recuperado. Ele achava que tinha vantagem; conhecia os atalhos do palácio como ninguém. Mas ele esqueceu que Hades era o mestre de cada sombra naquele reino.
— Você não pode me pegar, Hades! — gritou Qin, entrando nos labirintos de sebes negras dos jardins. — Onde eu me sento é meu trono, e onde eu corro é minha estrada!
— Sua estrada termina onde eu decidir, Qin — a voz de Hades ecoou, vinda de algum lugar à sua direita, embora o deus não estivesse visível.
Qin parou por um segundo, o coração martelando contra as costelas. Ele olhou em volta, mas o jardim parecia vazio. Ele voltou a correr, mas a fadiga começou a cobrar seu preço. Seus pulmões ardiam e o suor colava a camisa de seda ao seu corpo. Ele dobrou uma esquina do labirinto e, de repente, deu de cara com uma parede de marfim.
Não era mármore. Era Hades.
O deus estava parado ali, as mãos cruzadas atrás das costas, sem um único fio de cabelo fora do lugar, exceto pelo leve rastro de farinha que ainda teimava em brilhar sob a luz púrpura.
— Cansado? — perguntou Hades, dando um passo à frente.
Qin tentou recuar, mas suas costas encontraram a sebe espinhosa. Ele estava ofegante, o sorriso ainda presente, mas agora tingido de uma leve apreensão.
— Foi... foi apenas uma brincadeira — disse Qin, tentando recuperar o fôlego.
— Eu aprecio brincadeiras — respondeu Hades, segurando o queixo de Qin com uma força que não permitia desvios. — Mas você sabe que, no meu reino, cada ação gera uma dívida. E você acaba de se tornar insolvente.
Hades não o carregou de volta com ternura. Ele agarrou Qin pelo braço e o arrastou para uma sala de descanso isolada, perto das fontes de águas termais. Ao entrarem, Hades trancou a porta com um estalo seco de magia.
— O que você vai fazer? — perguntou Qin, tentando manter sua postura de superioridade. — Vai me dar mais tapas? O Grande Eu já provou que aguenta isso.
— Não — disse Hades, desabotoando o cinto de couro negro com calma deliberada. — Tapas são para crianças teimosas. O que eu vou fazer agora é garantir que essa sua boca insolente seja usada para algo mais produtivo do que soprar farinha e proferir insultos.
Hades sentou-se em uma cadeira de carvalho escuro e indicou o chão entre suas pernas.
— Ajoelhe-se.
Qin hesitou, mas o olhar de Hades era uma ordem absoluta que vibrava em seu sangue. Ele se ajoelhou, sentindo o frio do chão contra seus joelhos. Hades libertou seu membro, que já estava rígido e pulsante, exigindo atenção.
— Comece — ordenou o deus.
Qin obedeceu. Ele começou com calma, usando a língua para traçar o comprimento, tentando manter o controle da situação através de sua técnica. Mas Hades não estava com humor para preliminares. O deus agarrou os cabelos de Qin com as duas mãos, enterrando os dedos nos fios escuros, e puxou sua cabeça para frente com um movimento brusco e violento.
— Sem jogos, Qin. Tudo. Agora.
Hades começou a estocar. Não era um movimento suave; era um ritmo punitivo. Ele empurrava o quadril para frente, forçando seu membro a descer pela garganta de Qin até o limite absoluto.
Qin soltou um som abafado de surpresa e dor. Ele não conseguia respirar. A largura e o comprimento de Hades eram demais para sua garganta suportar de uma só vez. Ele sentiu o reflexo de vômito lutar contra sua vontade, mas Hades não parou. O deus estava em um transe de dominação, os olhos fechados, a mandíbula cerrada.
— Engula — rosnou Hades, empurrando ainda mais fundo.
Qin começou a entrar em pânico. Ele sentia a carne de Hades batendo contra o fundo de sua garganta, machucando o tecido sensível. Suas mãos subiram desesperadamente para as pernas de Hades, batendo nas coxas musculosas do deus em um pedido mudo por ar.
— Hmmph! — Qin tentava protestar, mas o som morria em sua garganta obstruída.
Lágrimas começaram a escorrer pelos olhos de Qin, lavando as marcas de suor em seu rosto. Ele sentia que ia desmaiar; o oxigênio não chegava aos seus pulmões e a dor na garganta era lancinante. Através de sua sinestesia, ele sentia a própria urgência de Hades, uma onda de calor e possessividade que o esmagava.
Hades continuou por mais alguns segundos, ignorando os golpes fracos de Qin em suas pernas. Ele queria que o imperador sentisse o peso total de sua divindade, o custo de brincar com o Rei dos Mortos. Somente quando Qin começou a amolecer em seus braços, os olhos revirando de hipóxia, é que Hades finalmente o soltou.
Qin caiu para trás, tossindo violentamente. Ele levou as mãos ao pescoço, arquejando, o peito subindo e descendo em uma luta desesperada por ar. Ele tentou falar, mas apenas um som rouco e dolorido saiu de seus lábios.
— Você... — Qin tossiu novamente, as lágrimas ainda caindo. — Você quase me... matou...
Hades levantou-se e ajoelhou-se à frente de Qin. Ele limpou as lágrimas do imperador com o polegar, mas sua expressão ainda era severa.
— Eu nunca mataria você, Qin. Mas eu vou sempre te lembrar de quem tem as rédeas aqui. Sua boca é feita para me servir, não para zombar da ordem de Helheim.
Qin encostou a testa no ombro de Hades, ainda tentando recuperar o fôlego. Sua garganta ardia como se ele tivesse engolido brasas, e ele sabia que teria dificuldade para falar — ou comer — por algum tempo. Mas, estranhamente, o medo que sentira fora substituído por uma onda avassaladora de entrega.
— Você é... um monstro — sussurrou Qin, a voz saindo em um fiapo de som.
— E você é o meu imperador insolente — respondeu Hades, pegando Qin no colo com uma ternura súbita que contrastava com a brutalidade de momentos antes. — Venha. Vou cuidar da sua garganta.
Hades o levou para as águas termais, sentando-se nos degraus de mármore com Qin entre suas pernas, a água morna subindo até o peito de ambos. Ele pegou um pequeno frasco de elixir e, com paciência divina, fez Qin beber o líquido que aliviaria a inflamação.
— Dói? — perguntou Hades, sua mão acariciando o pescoço de Qin, onde marcas leves de dedos começavam a aparecer.
Qin assentiu silenciosamente, recostando a cabeça no peito de Hades. Ele se sentia pequeno, exausto e completamente dominado. A brincadeira da farinha parecia uma memória de uma vida passada.
— Não faça mais isso — murmurou Hades. — Eu não gosto de ter que ser tão duro com você, mas você me força a demonstrar minha soberania.
Qin fechou os olhos, sentindo os batimentos cardíacos constantes do deus. Ele sabia que, em poucos dias, sua arrogância retornaria. Ele sabia que voltaria a provocar Hades, a testar os limites do Rei e a buscar o perigo que só o submundo oferecia. Mas, por agora, ele estava contente em ser apenas o humano protegido pelo Deus dos Mortos.
— O Grande Eu... — Qin começou, mas sua voz falhou, forçando-o a sorrir de forma irônica. — O Grande Eu acha que você ganhou esta rodada.
Hades beijou o topo da cabeça de Qin, o vapor das águas termais envolvendo-os como um manto.
— Eu sempre ganho, Qin. No final, todos os caminhos levam a mim. E o seu caminho começa e termina nos meus braços.
Eles ficaram ali por horas, no silêncio curativo das águas, enquanto a farinha de arroz no salão de mármore era limpa pelos servos, e a história de um rei que domou um imperador era escrita nas marcas de um pescoço e no silêncio de uma garganta machucada. Qin Shi Huang aprendera que brincar com o Rei de Helheim era como brincar com o abismo: às vezes, o abismo não apenas olhava de volta, mas o consumia por inteiro. E Qin, em sua loucura real, não queria estar em nenhum outro lugar.