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D70

Entre o Trono e o Afeto: A Face de Ying Zheng

O salão comunal, que outrora fora palco de tensões que decidiriam o destino da existência, agora parecia um teatro de variedades onde o público ainda não havia entendido o final da peça. O silêncio que se seguiu à declaração de Qin — ou melhor, de Zheng — era palpável. Nikola Tesla, sempre o homem da ciência e da observação, ajustava suas luvas mecânicas com um olhar clínico, enquanto Simo Häyhä, o "Morte Branca", apenas observava do canto, a expressão oculta, mas a postura relaxada.

— Então... — começou Sasaki Kojiro, quebrando o gelo enquanto coçava a nuca com o cabo de sua espada de madeira. — Deixe-me ver se entendi. O Imperador que humilhou deuses e atravessou paredes como se fossem papel de arroz é, na verdade, um sujeito que gosta de pijamas de nuvens e chá de jasmim antes de dormir?

Qin, que ainda estava encostado em Hades, soltou uma risada que não tinha o tom estrondoso de um monarca, mas sim a leveza de um jovem de vinte e poucos anos.

— O Rei não deixa de ser Rei por apreciar o conforto, Sasaki — respondeu ele, e dessa vez não apontou o dedo com autoridade, mas apenas deu de ombros. — Mas vocês estão todos tão tensos. Relaxem! O Ragnarok acabou, os gigantes foram chutados de volta para os seus buracos e eu só quero sentir o chão frio nos meus pés sem ter que me preocupar com a etiqueta da corte.

— É bizarro — murmurou Leônidas, soltando uma nuvem de fumaça de seu charuto. — Ele parece... humano. Quero dizer, mais humano do que o normal. Sem toda aquela aura de "eu sou o centro do universo".

— Mas eu continuo sendo o centro do universo — retrucou Zheng, piscando um dos olhos nus para o espartano. — A diferença é que agora eu não preciso gritar isso para que vocês percebam.

Héracles, que sempre teve um coração mole para a humanidade, sorriu abertamente. Ele via a mudança na cor da alma de Qin, algo que Jack, o Estripador, também notava com fascínio. A cor agressiva e dourada da realeza havia se suavizado para um tom de âmbar quente, acolhedor.

— É bom ver você assim, Qin Shi Huang — disse Héracles com sua voz trovejante, porém gentil. — Ou devo dizer, Ying Zheng?

— Zheng está ótimo entre amigos — disse o jovem, levantando-se da poltrona de Hades com uma agilidade felina. — Vou buscar algo. Não se matem enquanto eu estiver fora. Zeus, tente não explodir nada.

Zeus, que ainda estava processando o fato de que o humano que o irritara profundamente agora parecia um sobrinho petulante e adorável, apenas resmungou algo sobre "jovens modernos" enquanto acariciava sua barba.

Zheng saiu do salão com passos leves, quase saltitantes. Quando a porta se fechou, os olhares se voltaram para Hades. O Rei do Submundo permanecia imperturbável, a elegância personificada, embora houvesse um brilho de divertimento em seus olhos claros.

— Três anos, irmão? — perguntou Poseidon, a voz fria como o oceano, mas sem a intenção assassina de outrora. — Você manteve um relacionamento com um humano por três anos e não achou relevante mencionar que ele perde toda a compostura imperial em privado?

— Ele não perde a compostura, Poseidon — corrigiu Hades calmamente. — Ele apenas a compartilha com quem ele confia. E, para sua informação, a "compostura" dele é muito mais interessante do que você imagina. Ele é... surpreendentemente engraçado quando não está tentando provar que é o dono do mundo.

— Ele é uma gracinha — comentou Afrodite, que observava a cena de seu divã flutuante. — Mas admito que vê-lo sem a venda é quase um pecado. Aqueles olhos... eles viram muita coisa, não é, Hades?

Hades apenas assentiu, o semblante ficando momentaneamente sério.

— Ele sente tudo. A dor de cada um de vocês, a tensão no ar. A venda serve para dar descanso à alma dele. Quando ele a tira na minha presença, é o maior voto de confiança que um governante poderia dar a outro.

Poucos minutos depois, a porta se abriu novamente. Zheng voltou, mas não trazia armas ou pergaminhos de guerra. Ele carregava um livro de capa de couro desgastada e um pequeno prato com bolinhos de arroz. Ele caminhou em direção a Hades sob o olhar atento de todos.

Sem pedir licença ou hesitar, Zheng simplesmente se jogou no colo de Hades. Não foi um movimento calculado; foi o gesto de alguém que sabe exatamente onde pertence. Ele acomodou as costas contra o peito do deus, esticou as pernas por cima do braço da poltrona e abriu o livro, começando a comer um bolinho como se estivesse sozinho em seu quarto.

Hades, sem dizer uma única palavra, deixou o livro que lia de lado e, de forma natural, levou a mão aos cabelos escuros e úmidos de Zheng. Seus dedos longos e pálidos começaram um cafuné rítmico, desembaraçando as mechas pretas com uma delicadeza que fez Shiva arregalar os olhos.

— O... o Rei do Submundo... — balbuciou Shiva, as quatro mãos gesticulando no ar. — O deus mais temido, o pilar do Helheim... está fazendo cafuné em um humano que está comendo farelos no colo dele?

— Shhh — fez Zheng, sem tirar os olhos do livro. — O Imperador está lendo. E os bolinhos estão ótimos. Quer um, Shiva? Você parece precisar de açúcar para processar a realidade.

Houve uma explosão de risadas. Buda foi o primeiro, seguido por Raiden e até mesmo pelo normalmente estóico Thor, que deu um sorriso de canto. A normalidade de Zheng era tão desarmante que a aura de "divindade contra humanidade" simplesmente evaporou.

— Ele é realmente uma peça — disse Okita Soji, aproximando-se da poltrona. — Ei, o que você está lendo? Estratégia militar? Poesia antiga?

Zheng virou o livro para mostrar a capa. Era uma coleção de contos folclóricos sobre espíritos da floresta.

— É ficção — disse Zheng com simplicidade. — Passei minha vida inteira lendo relatórios de guerra e impostos. Agora que estou morto e o mundo está salvo, prefiro ler sobre raposas que se transformam em humanos e pregam peças em monges.

— Você é muito diferente do que eu esperava — admitiu Jack, o Estripador, ajustando seu monóculo. — A cor que emana de você agora... é como um chá morno em uma tarde de outono. Muito reconfortante, Sir Zheng.

— Obrigado, Jackie — respondeu Zheng, usando o apelido que fez o assassino piscar surpreso. — Você também parece mais calmo hoje. É o hidromel ou a companhia?

— Talvez um pouco de ambos — respondeu Jack com uma reverência educada.

Enquanto a conversa fluía, o salão começou a se transformar. O que antes era uma reunião de guerreiros tornou-se um encontro de amigos. Raiden começou a contar histórias sobre suas lutas de sumô, enquanto Shiva tentava demonstrar passos de dança que quase derrubaram uma mesa. Adão, o Pai da Humanidade, aproximou-se de Zheng e Hades, observando-os com um olhar paternal e satisfeito.

— Você cuida bem dele — disse Adão para Hades.

— Ele é o meu tesouro, Adão — respondeu Hades, sem parar o carinho nos cabelos de Zheng. — Embora, na maioria das vezes, seja ele quem cuida de mim com sua teimosia.

Zheng fechou o livro por um momento e olhou para cima, encontrando os olhos de Hades. O sorriso que ele deu não era o de um imperador para seu aliado, mas o de um homem apaixonado.

— Eu ouvi isso, Hades. Eu não sou teimoso. Eu apenas tenho convicções muito fortes sobre como as coisas devem ser. Como, por exemplo, o fato de que você deveria parar de ler esses pergaminhos de administração do submundo pelo menos uma vez por semana.

— O reino não se governa sozinho, Zheng — pontuou Hades com um tom de voz suave.

— Onde o Imperador se senta, é o trono — recitou Zheng, brincalhão. — E se eu decidir que o trono hoje é esta poltrona e que o decreto real é "tempo de qualidade", o submundo pode esperar.

Hades soltou uma risada baixa, uma vibração que Zheng sentiu contra suas costas.

— Você é impossível.

— Eu sou o Primeiro Imperador — corrigiu Zheng, voltando para seu livro. — O impossível é apenas algo que eu ainda não fiz.

A tarde avançou e, pouco a pouco, os outros começaram a se dispersar ou a formar seus próprios círculos de conversa. Grigori Rasputin e Michel de Nostredame surgiram de algum lugar, discutindo teorias apocalípticas enquanto bebiam vinho, mas até eles pararam para observar a cena doméstica no centro do salão.

Simo Häyhä, que raramente falava, aproximou-se de Zheng e apontou para o prato de bolinhos. Zheng, sem hesitar, ofereceu o prato. O atirador finlandês pegou um, acenou com a cabeça em agradecimento e voltou para sua sombra, mastigando silenciosamente.

— Viu? — disse Zheng para Hades, em voz baixa para que apenas ele ouvisse. — Eles não precisam de um imperador de armadura o tempo todo. Eles só precisam de alguém que saiba compartilhar os bolinhos.

Hades inclinou-se para frente, beijando o topo da cabeça de Zheng.

— Talvez. Mas eu ainda prefiro o meu imperador de pijama. Ele é muito mais fácil de abraçar.

Zheng soltou um suspiro satisfeito, fechando os olhos enquanto sentia o calor de Hades e a tranquilidade do ambiente. A sinestesia, que por tanto tempo o fizera carregar o peso do mundo, agora trazia apenas o conforto da presença de todos ali. Ele sentia a alegria de Héracles, a curiosidade de Tesla, a paz de Adão e, acima de tudo, o amor inabalável de Hades.

— Sabe, Hades — murmurou Zheng, quase pegando no sono. — Ganhar o Ragnarok foi bom. Mas ter um lugar onde eu possa tirar a venda e apenas... ser... é a minha maior vitória.

Hades não respondeu com palavras, apenas apertou levemente o ombro de Zheng, continuando o cafuné que já havia se tornado o ritmo cardíaco daquela tarde. No salão dos deuses e heróis, o homem que unificou uma nação finalmente encontrou sua própria paz, não em um trono de ouro, mas nos braços daquele que entendia que, por trás de cada grande rei, existe um coração que anseia por ser compreendido.

E assim, entre risadas distantes, cheiro de chá e o som de páginas virando, Ying Zheng adormeceu, provando que até o mais orgulhoso dos imperadores encontra sua verdadeira força quando se permite, simplesmente, ser amado.