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D70

O Despertar do Rei e as Sombras do Passado

A manhã no Valhalla não trazia o sol da Terra, mas sim uma luminescência dourada e constante que emanava das próprias paredes de cristal da cidadela divina. Para Ying Zheng, no entanto, a manhã começou com o som rítmico da respiração de Hades e o calor reconfortante dos lençóis de seda negra que cobriam a imensa cama no palácio do Submundo.

Zheng espreguiçou-se, sentindo cada músculo de seu corpo protestar levemente. O gigante que ele enfrentara no dia anterior não fora um adversário digno de nota em termos de técnica, mas sua força bruta e a resistência de sua pele de pedra haviam exigido que o Imperador utilizasse a forma da Fênix com uma precisão exaustiva. Ele abriu os olhos — orbes castanhas profundas e límpidas, sem a seda que costumava protegê-las — e observou o teto entalhado.

Ao seu lado, Hades já estava acordado, apoiado em um cotovelo, observando-o com aquela intensidade nobre que costumava desarmar até os deuses mais arrogantes.

— Bom dia, meu imperador — disse Hades, a voz rouca pelo sono, mas carregada de uma doçura que ele reservava apenas para aqueles aposentos.

— Bom dia, senhor dos mortos — respondeu Zheng com um sorriso preguiçoso, rolando para o lado para enterrar o rosto no peito do deus. — Seus lençóis são frios, mas você é irritantemente quente. É um contraste aceitável.

Hades soltou uma risada baixa, passando os dedos pelos cabelos bagunçados de Zheng.

— Você dormiu por doze horas seguidas. O susto que deu em todos ontem parece ter consumido suas energias.

— Eles são muito dramáticos — murmurou Zheng, a voz abafada pelo pijama de seda. — Um pouco de sangue e um pijama de nuvens não deveriam ser o suficiente para fazer Zeus gaguejar. Mas admito... foi divertido ver a cara do Ares quando percebeu que o "intruso" de pés descalços era o homem que o jogou no chão anos atrás.

Zheng levantou-se, ignorando a venda que repousava sobre a mesa de cabeceira. Por três anos, ele vinha treinando sua mente para lidar com a torrente de sensações que sua sinestesia toque-espelho despejava sobre ele. Com Hades, o fluxo era suave, uma melodia constante de proteção e respeito. Mas ele sabia que, ao sair daquele quarto, as emoções dos outros moradores do Valhalla o atingiriam como ondas.

— Você vai sair assim de novo? — perguntou Hades, levantando-se também, a nudez parcial de seu corpo esculpido não parecendo afetá-lo minimamente.

— Por que não? — Zheng inclinou a cabeça, um brilho desafiador nos olhos. — O Rei define a moda. Se eu decidir que o pijama é o traje oficial do conselho, quem ousará dizer o contrário?

Hades sorriu, aproximando-se e selando os lábios de Zheng em um beijo calmo, porém possessivo.

— Ninguém, Zheng. Absolutamente ninguém.

Eles caminharam juntos para o grande refeitório, onde os outros humanos e deuses costumavam se reunir para o desjejum. Zheng ainda vestia o pijama branco, mas agora havia adicionado um manto leve por cima, e seus pés continuavam descalços, sentindo a textura do mármore divino.

Ao entrarem no salão, o burburinho de vozes cessou por um instante. Nikola Tesla estava no meio de uma explicação técnica para Göll e Thor sobre a condutividade da eletricidade em ambientes de baixa pressão, enquanto Kojiro Sasaki tentava ensinar Soji Okita a apreciar o sabor de um chá amargo.

— Lá vem ele — sussurrou Okita, os olhos arregalados. — Ele realmente não colocou a venda.

Zheng caminhou até a mesa central com a graciosidade de um predador, mas a expressão em seu rosto era de pura serenidade. Ele se sentou ao lado de Adão, que lhe ofereceu uma maçã com um aceno de cabeça gentil.

— Dormiu bem, meu filho? — perguntou o Pai da Humanidade.

— Como um rei, Adão — respondeu Zheng, dando uma mordida na fruta. — Ou melhor, como um homem que não tem um império para unificar antes do almoço.

— Ainda é estranho — comentou Leônidas, que estava sentado à frente deles, limpando seu escudo. — Ver seus olhos. Você parece... mais jovem. Menos perigoso.

Zheng parou de mastigar. Ele olhou diretamente para o Rei de Esparta, e por um segundo, a temperatura no ambiente pareceu cair. As pupilas de Zheng dilataram-se e uma aura de autoridade absoluta emanou dele, tão pesada quanto o próprio Monte Tai.

— Menos perigoso, Leônidas? — A voz de Zheng mudou. Não era mais a voz relaxada de Ying Zheng, mas o tom metálico e cortante de Qin Shi Huang. — O perigo de um rei não reside na sua armadura ou no que ele escolhe cobrir. O perigo reside na sua vontade. Eu derrotei Chi You antes mesmo de ter um nome que o mundo temesse. Você acha que meus olhos tornam minha mão menos firme?

Leônidas sustentou o olhar por um momento, sentindo a pressão invisível esmagar seus ombros, antes de soltar um riso rouco.

— É, retire o que eu disse. Você ainda é o mesmo bastardo arrogante.

Zheng relaxou instantaneamente, voltando a sorrir e a comer sua maçã como se a tensão anterior nunca tivesse existido.

— Ótimo. Detestaria ter que provar minha identidade derrubando esta mesa. Hades ficaria chateado se eu quebrasse a porcelana favorita dele.

Hades, que estava servindo-se de néctar a alguns metros de distância, apenas revirou os olhos com diversão.

— A porcelana é o de menos, Zheng. Eu me preocupo mais com a estrutura do prédio.

Enquanto comiam, a conversa fluiu para temas mais leves. Tesla começou a questionar Zheng sobre a arquitetura da Grande Muralha, e o Imperador, para a surpresa de todos, descreveu não apenas a engenharia, mas o sofrimento e a esperança de cada homem que carregou uma pedra. Sua sinestesia permitia que ele recordasse a dor daqueles tempos com uma clareza angustiante, mas agora ele falava disso com uma aceitação sábia.

De repente, a porta do refeitório foi aberta com violência. Um mensageiro menor, um espírito da natureza que servia como mensageiro entre as dimensões, entrou correndo, ofegante.

— Senhor Zeus! Senhor Hades! — gritou o pequeno ser, caindo de joelhos. — As fronteiras do Tártaro... algo está tentando atravessar! Não são gigantes comuns. É uma fenda de pura energia primordial!

O clima no salão mudou instantaneamente. Hades largou sua taça, sua expressão tornando-se gélida e autoritária em um milésimo de segundo. Zeus, que estava brincando com sua barba, levantou-se, os músculos crescendo sob sua túnica.

— Uma fenda primordial? — rosnou Zeus. — Isso não deveria ser possível desde a Gigantomaquia.

Hades olhou para Zheng. O Imperador já estava de pé. A suavidade do pijama de seda contrastava terrivelmente com o olhar de aço que agora habitava seus olhos nus.

— Parece que o descanso acabou mais cedo, Zheng — disse Hades, estendendo a mão para o ar, onde seu bidente, o *Desmos*, materializou-se em um clarão de energia roxa.

Zheng não disse nada. Ele apenas fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, a energia ao seu redor começou a vibrar. Ele não tinha uma arma física ali, mas o ar começou a se curvar ao seu redor.

— Eu vou com você — afirmou Zheng. Não era um pedido; era um decreto real.

— Você está de pijama, pirralho! — exclamou Loki, que aparecera de algum lugar no teto. — Vai lutar contra o Caos Primordial usando seda chinesa?

Zheng olhou para Loki com um desdém tão profundo que o deus da trapaça quase se encolheu.

— Onde o Rei se senta, é o trono. Onde o Rei luta, é o seu campo de vitória — declarou Zheng. — As roupas são apenas para o conforto dos olhos dos outros. O meu poder não vem do que eu visto, mas de quem eu sou.

Ele caminhou em direção a Hades, e no caminho, passou por Brunhilde, que observava a cena com preocupação.

— Brunhilde — disse Zheng, parando por um momento. — Traga a Alvitr. Se é algo primordial, precisarei da minha armadura. Mas por enquanto...

Ele olhou para suas mãos, onde as tatuagens de centopeia pareciam brilhar com uma luz esmeralda.

— Por enquanto, minha vontade será o suficiente.

Hades e Zheng partiram em direção à fenda, seguidos por Zeus e alguns outros guerreiros. O trajeto até as bordas do Submundo foi rápido, atravessando paisagens de névoa e sombras. Quando chegaram, viram o desastre: uma rachadura no próprio tecido da realidade, de onde emanavam tentáculos de uma escuridão que parecia devorar a luz.

Criaturas amorfas, feitas de puro vazio, estavam saindo da fenda, atacando os guardas do Submundo.

Hades avançou primeiro, o *Desmos* girando em um arco mortal, pulverizando três das criaturas com um único golpe.

— Fiquem para trás! — ordenou Hades aos guardas. — Isso não é matéria que vocês possam tocar!

Zheng, no entanto, não ficou para trás. Ele caminhou calmamente em direção a uma das criaturas maiores, que parecia um amontoado de sombras e dentes.

— Zheng, cuidado! — gritou Hades, preparando-se para intervir.

Mas o Imperador apenas levantou a mão direita.

— *Houchou Kuu: Forma da Armadura* — sussurrou ele.

A criatura lançou um jato de energia pura contra ele. Zheng não se desviou. Ele absorveu o impacto com a palma da mão, seus olhos brilhando intensamente. Graças à sua sinestesia, ele sentiu a "dor" do vazio — uma sensação de fome infinita e solidão. Ele usou essa sensação, redirecionando-a.

— *Forma do Tigre Branco!*

Com um movimento rápido, ele golpeou o ar. A pressão do ar comprimido foi tão grande que a criatura de sombra foi literalmente rasgada ao meio, dissipando-se em partículas de nada.

Zheng parou, respirando calmamente. Sua seda branca estava levemente chamuscada nas bordas, mas ele permanecia impecável.

— Nada mal para um homem de pijama, não é? — disse ele, olhando para Hades com um sorriso atrevido.

Hades, que acabara de empalar outra criatura, soltou um suspiro de alívio que tentou disfarçar como um rosnado.

— Você vai me matar do coração um dia desses, Zheng. E eu já sou o Rei dos Mortos, isso seria redundante.

A batalha continuou por quase uma hora. Zeus e os outros deuses cuidavam das criaturas menores, enquanto Hades e Zheng focavam em conter a expansão da fenda. Era uma dança de poder: o bidente de Hades rasgando o espaço e a técnica de Zheng redirecionando as energias caóticas de volta para o vazio.

Finalmente, com um esforço conjunto, Hades cravou sua arma no centro da fenda enquanto Zheng aplicava a *Forma da Tartaruga* para estabilizar a realidade ao redor. Com um som de vidro quebrando, a fenda se fechou, deixando apenas o silêncio e o cheiro de ozônio no ar.

Zheng caiu de joelhos, o esforço finalmente cobrando seu preço. Ele sentia a dor da realidade rasgada em seu próprio corpo, uma agonia aguda que fazia sua visão embaçar.

— Zheng! — Hades estava ao seu lado em um instante, segurando-o pelos ombros.

O Imperador tossiu um pouco de sangue, mas olhou para Hades com os olhos nus, ainda brilhantes.

— Eu disse... que as estradas sob o céu... pertencem ao Rei — murmurou ele, com um sorriso fraco. — Até mesmo as estradas que não deveriam existir.

Hades o pegou nos braços, carregando-o como se ele fosse a coisa mais preciosa de todos os reinos. Ele olhou para Zeus e os outros, que se aproximavam com expressões de respeito renovado.

— Ele precisa descansar — disse Hades, o tom de voz não admitindo discussões. — E da próxima vez que alguém questionar se ele deve ou não usar a venda ou o pijama, lembrem-se de quem acabou de selar uma fenda primordial com as mãos nuas.

Eles retornaram ao palácio. Zheng foi levado de volta para os aposentos privados, onde Hades cuidou de seus ferimentos com uma paciência infinita. Alvitr, que chegara pouco depois com a armadura, foi dispensada com um agradecimento, pois a batalha já havia terminado.

Horas depois, Zheng acordou. Ele estava limpo, vestido com um novo pijama — desta vez de seda preta — e a venda estava novamente sobre seus olhos. Ele sentiu a presença de Hades sentado na beira da cama.

— Por que colocou a venda em mim? — perguntou Zheng, a voz suave.

— Porque você estava sentindo a dor do mundo inteiro enquanto dormia, Zheng — respondeu Hades, pegando a mão dele. — Suas pálpebras tremiam. Eu quis lhe dar um pouco de paz.

Zheng apertou a mão do deus.

— Obrigado. Mas você sabe... eu não me importo de sentir, desde que eu sinta você também.

Hades inclinou-se e beijou a testa de Zheng, por cima da seda da venda.

— Você é o homem mais teimoso, arrogante e magnífico que já cruzou o meu caminho, Ying Zheng.

— Eu sei — respondeu o Imperador, puxando Hades para se deitar ao seu lado. — É por isso que você me ama. E agora, como seu Imperador, eu ordeno: durma comigo. O mundo pode tentar acabar de novo amanhã, mas hoje, o Rei quer apenas o silêncio do seu abraço.

Hades sorriu, fechando os olhos e acomodando-se ao lado do homem que, fosse coberto de sangue, seda ou glória, seria para sempre o único governante de seu coração imortal. No salão lá fora, os deuses e humanos continuariam a falar sobre o Imperador que lutou de pijama, mas ali, naquele quarto, existia apenas a paz que dois reis haviam conquistado, um para o outro.