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O Xeque-Mate do Imperador
A noite milanesa parecia ter finalmente se acalmado, mas o destino, como Qin Shi Huang bem sabia, adorava pregar peças naqueles que se consideravam mestres do tabuleiro. O grupo de divindades e heróis lendários estava prestes a entrar nos veículos de extração quando o som metálico de uma porta pesada se abrindo ecoou pelo beco.
— Ei! Você aí! — A voz de Lorenzo, o traficante de itens celestiais, cortou o ar como uma lâmina.
A reação foi instantânea. Com uma coordenação que só guerreiros milenares possuíam, o grupo se dispersou. Hades puxou Poseidon para as sombras de uma caçamba de metal; Buda saltou para cima de um duto de ventilação com a agilidade de um gato; Zeus, Nikola Tesla e os outros mergulharam atrás da van preta e de pilhas de caixotes de madeira. Em segundos, apenas Qin Shi Huang permanecia sob a luz fraca do poste, parecendo o epítome da inocência — ou o mais próximo que um imperador arrogante conseguia chegar disso.
Lorenzo saiu do clube, ofegante, ajeitando o paletó amassado. Seus olhos brilharam ao ver a silhueta de Qin.
— Achei que tinha perdido você na multidão — disse o homem, aproximando-se com um sorriso predatório. — Você saiu tão depressa que nem tive tempo de processar aquele beijo.
Qin, mantendo a postura relaxada e as mãos nos bolsos daquela calça boca de sino que Hades tanto insistira que ele usasse, deu um sorriso de canto.
— O Rei nunca foge, Lorenzo. Eu apenas... aprecio o ar fresco após ambientes tão carregados — respondeu Qin, sua voz suave ocultando a irritação de saber que seus companheiros estavam ouvindo tudo a poucos metros de distância.
— E o que faz aqui sozinho em um beco escuro? — Lorenzo perguntou, parando a poucos centímetros dele. — Um jovem tão... vibrante como você não deveria andar desacompanhado por Milão a esta hora.
— Estou esperando uma amiga — mentiu Qin com uma naturalidade assustadora. — Alvitr. Ela prometeu que passaria aqui para me buscar, mas parece que as mulheres da minha vida têm o hábito de se atrasar.
Atrás da van, Hades apertava o punho com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele conseguia ver, por uma fresta entre as caixas, a mão de Lorenzo buscar o braço de Qin.
— *Ele vai matá-lo* — sussurrou Hermes no ouvido de Hades, com um tom divertido. — *Ou o Qin mata ele, ou você mata os dois.*
— *Silêncio* — sibilou o Rei do Submundo, seus olhos fixos na cena.
Minutos se passaram em uma conversa trivial e desconfortável. Lorenzo insistia em esperar com Qin, agindo como um cavaleiro galanteador que, na verdade, era apenas um criminoso tentando garantir sua "conquista". Foi então que o celular de Qin vibrou no bolso.
— Com licença — disse o Imperador, atendendo.
— *Qin? É a Alvitr* — a voz da Valquíria soou do outro lado, alta o suficiente para que ele soubesse que os outros haviam armado aquilo. — *Houve um problema com o transporte. Não vou conseguir chegar aí. Você vai ter que se virar!*
Ela desligou antes que ele pudesse protestar. Qin olhou para o aparelho com uma expressão de falsa indignação.
— Parece que fui abandonado — comentou ele, guardando o telefone.
— Que tragédia — Lorenzo sorriu, vendo a oportunidade perfeita. — Mas que sorte a minha. O meu hotel fica a apenas três quadras daqui. É a suíte presidencial do *Palazzo Parigi*. Por que não passamos o resto da noite lá? Podemos abrir aquela garrafa de vinho que eu te prometi.
Nas sombras, o clima pesou. Leônidas mastigava o charuto com força, e Lu Bu parecia pronto para desembainhar sua arma apenas pelo tédio da espera. Hades, no entanto, sentiu uma pontada de algo que ele raramente experimentava: uma insegurança gélida. Ele sabia que Qin era perfeitamente capaz de se cuidar, mas a ideia do Imperador entrando em um quarto de hotel com aquele homem era... detestável.
Qin olhou para a van, sabendo exatamente onde Hades estava escondido. Ele viu um leve brilho prateado vindo das sombras — os olhos do Rei do Submundo. Com um brilho desafiador no olhar, Qin voltou-se para Lorenzo.
— Uma suíte presidencial, você disse? — Qin inclinou a cabeça. — Bem, o Rei não aceitaria nada menos que o melhor. Vamos.
Hades deu um passo à frente, mas a mão de Poseidon o segurou pelo ombro.
— Deixe-o — disse o Deus dos Mares, com sua voz monótona. — É a missão. Se ele for com o homem, garantiremos que nenhuma suspeita recaia sobre o roubo das relíquias até amanhã.
O grupo assistiu, em um silêncio tenso, enquanto Qin Shi Huang entrava no carro de luxo de Lorenzo e desaparecia na noite de Milão.
***
A manhã seguinte no hotel onde os deuses e humanos estavam hospedados começou com um clima pesado. Hades estava sentado na cabeceira da mesa de café da manhã, o jornal em mãos, mas ele não havia lido uma única linha nos últimos trinta minutos. Ele estava impecável como sempre, mas a aura ao seu redor era tão sombria que até Zeus hesitava em fazer suas piadas habituais.
— Ele ainda não voltou? — perguntou Buda, pegando um croissant e sentando-se de forma desleixada.
— Não — respondeu Hermes, verificando o relógio de bolso. — Já são nove da manhã.
— Talvez o chinês tenha se divertido demais — riu Raiden, recebendo um olhar mortal de Hades que o fez engasgar com o café.
De repente, as portas do salão se abriram. Qin Shi Huang entrou, e o silêncio que se seguiu foi absoluto.
Ele não estava mais com a aparência impecável da noite anterior. A blusa de manga longa estava amassada e ligeiramente fora do lugar; o cabelo, geralmente preso com perfeição, tinha fios soltos que caíam sobre o rosto; e ele carregava o paletó de Lorenzo pendurado casualmente no ombro. Mas o que mais chamou a atenção foi o que ele segurava na mão direita: um pen-drive dourado e um documento selado com o brasão da família de Lorenzo.
— Bom dia para todos — disse Qin, sua voz rouca, mas carregada de sua arrogância habitual. — Por que estão todos com essas caras? Parece que viram um fantasma.
Ele caminhou até a mesa e jogou o pen-drive e o documento na frente de Hades.
— Aí está. A lista completa dos compradores internacionais, as contas bancárias em paraísos fiscais e, de bônus, a escritura de um dos armazéns dele em Roma. Considerem isso o meu relatório final.
Hades olhou para os itens e depois para Qin. Seus olhos percorreram a gola da blusa do Imperador, que estava levemente aberta.
— Você parece... exausto, Qin Shi Huang — disse Hades, sua voz perigosamente baixa. — E suas roupas estão em um estado deplorável.
— Foi uma noite longa — respondeu Qin, pegando uma maçã da fruteira e dando uma mordida audaciosa. — O interrogatório... exigiu muito esforço físico.
Um "ooooh" coletivo ecoou pela sala.
— Eu sabia! — gritou Okita Souji, rindo alto. — O Imperador usou a técnica da sedução suprema!
— Qin, meu caro, você realmente se sacrificou pela causa — zombou Jack, o Estripador, ajustando o monóculo. — Espero que o cavalheiro tenha sido, ao menos, um bom anfitrião entre os lençóis.
— O que importa é que o trabalho foi feito, não é? — Simo Häyhä comentou, escondendo um sorriso atrás do cachecol.
Sasaki Kojiro deu um tapinha nas costas de Qin.
— E aí, ele beija bem ou foi só pelo dever?
Qin, que até então estava mantendo sua fachada de superioridade, sentiu o rosto esquentar. Ele olhou para Hades e viu que o Rei do Submundo não estava rindo. Pelo contrário, Hades parecia estar processando uma fúria silenciosa, seus dedos apertando a borda da mesa de mármore.
— Eu apenas fiz o que era necessário para obter as informações — murmurou Qin, mas a hesitação em sua voz o traiu.
— Ah, claro! — exclamou Nikola Tesla, levantando-se com entusiasmo científico. — A desordem nas fibras do seu tecido e o aumento da circulação sanguínea na região facial sugerem uma atividade extenuante! Estatisticamente falando, as chances de você ter apenas "conversado" são de menos de cinco por cento!
— Calem a boca! Todos vocês! — Qin explodiu, o rubor agora se espalhando por suas orelhas.
O Imperador da China, o homem que desafiou os deuses, estava visivelmente envergonhado. Ele tentou ajustar a blusa, mas isso só serviu para chamar mais atenção para o seu estado desgrenhado.
— Ora, ora — disse Zeus, cutucando as costelas de Hades. — Parece que o seu "escolhido" levou a missão muito a sério, irmão. Você deveria dar uma medalha a ele... ou talvez um banho.
Hades levantou-se lentamente. A cadeira arrastou no chão com um som estridente. Ele caminhou até Qin, parando a poucos centímetros dele. O Imperador, que normalmente não recuava diante de ninguém, sentiu o peso da presença de Hades e, por um breve segundo, desviou o olhar.
Hades estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com a tensão no ambiente, ajeitou a gola da blusa de Qin.
— Você obteve o que precisávamos — disse Hades, sua voz ecoando por todo o salão, silenciando as risadas. — Isso é o que importa para a missão.
Ele se inclinou um pouco mais, sussurrando apenas para que Qin ouvisse:
— Mas se você pensa que eu não vou exigir um relatório detalhado de cada minuto que passou naquele hotel, você não conhece o seu Rei.
Qin engoliu em seco. A vergonha que sentia pelas provocações dos outros foi subitamente substituída por um tipo diferente de calor sob o olhar possessivo de Hades.
— Eu não recebo ordens de você, Hades — tentou retrucar Qin, mas o sorriso que costumava acompanhar suas provocações estava trêmulo.
— Veremos — respondeu Hades, afastando-se. — Hermes, prepare o jato. Estamos voltando para o Valhala. Qin Shi Huang precisa de um descanso... e de roupas novas.
Enquanto Hades se retirava com sua dignidade imperial intacta, o restante do grupo explodiu em novas gargalhadas.
— Ele está com ciúmes! O Grande Hades está morrendo de ciúmes! — gritou Buda, jogando uma bala para o alto e pegando-a com a boca.
— O clima aqui ficou mais quente que as chamas de Shiva! — riu Raiden, enquanto o próprio Shiva assentia, rindo junto.
— Qin, você está vermelho como uma romã! — apontou Nostradamus, pulando em cima de uma cadeira. — O Imperador foi conquistado ou foi ele quem conquistou?
Qin Shi Huang, sentindo-se mais exposto do que se estivesse sem armadura no meio do Ragnarok, cobriu o rosto com a mão, mas não conseguiu esconder o sorriso nervoso que escapava.
— Eu odeio todos vocês — resmungou ele, embora soubesse que, no fundo, a missão tinha sido um sucesso retumbante.
Ele caminhou em direção ao elevador, tentando manter o que restava de sua pose real sob os assobios de Loki e as piadas técnicas de Tesla. Antes das portas se fecharem, ele viu Hades parado no final do corredor, observando-o. O Rei do Submundo não sorria, mas havia um brilho de alívio e uma promessa silenciosa em seus olhos.
A viagem para Milão tinha começado como uma missão secreta, mas terminou como um lembrete de que, entre deuses e humanos, as batalhas mais complexas nem sempre eram travadas com armas, mas sim com olhares, toques e o orgulho ferido de dois reis que, apesar de tudo, não conseguiam mais ignorar a órbita um do outro.
— Que se dane — sussurrou Qin para si mesmo, encostando a cabeça na parede do elevador enquanto ele subia. — Pelo menos o vinho do Lorenzo era realmente excelente.
Lá embaixo, as risadas continuavam, ecoando pelo hotel de luxo, celebrando não apenas uma vitória contra o crime, mas a humanidade — e a divindade — que todos eles compartilhavam naquele estranho e novo mundo pós-guerra.