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O Intruso no Reino da Calma

A luz suave do amanhecer filtrava-se pelas cortinas de seda do palácio de Qin Shi Huang no Valhala, pintando o chão de carvalho com tons de âmbar e pêssego. O silêncio era uma raridade naquele domínio, geralmente preenchido pela energia vibrante do Imperador, mas naquela manhã, a paz parecia absoluta.

Qin espreguiçou-se sob os lençóis de cetim, sentindo o peso reconfortante da ausência de preocupações. Meses haviam se passado desde a missão em Milão, e muita coisa mudara. O que começara como uma rivalidade de reis e uma tensão mal resolvida em um beco italiano, florescera em algo que nenhum dos dois esperava. Hades e Qin estavam namorando. Era um arranjo que confundia os deuses e divertia os humanos, mas para eles, fazia todo o sentido do mundo.

O Imperador levantou-se, bocejando. Ele não estava usando suas túnicas pesadas ou sua armadura ornamentada. Em vez disso, vestia apenas uma camiseta social preta de Hades, que ficava absurdamente grande nele, batendo no meio das coxas e deixando seus ombros levemente à mostra, acompanhada por um short curto de tecido leve. Era o seu "uniforme de manhã" favorito, um pedaço do Rei do Submundo que ele podia carregar consigo enquanto o outro resolvia pendências em Helheim.

Caminhando com os pés descalços, ele se dirigiu à cozinha privativa de seus aposentos. Ele queria café. O Rei queria cafeína antes de ter que lidar com as audiências do dia.

O ambiente estava na penumbra, apenas com a luz da manhã começando a iluminar os balcões de mármore. Qin cantarolava uma melodia antiga, movendo-se com a confiança de quem está em seu próprio trono. Ele pegou a chaleira, colocou a água para aquecer e virou-se para o armário lateral para buscar os grãos de café.

Foi nesse momento que o ar pareceu congelar.

Parado perto da sombra da despensa, com roupas sujas e um olhar maníaco, estava um rosto que Qin reconheceria em qualquer lugar. Não era um deus, nem um guerreiro lendário. Era Lorenzo. O traficante de itens celestiais que deveria estar apodrecendo em uma prisão de segurança máxima protegida por deuses e homens.

— Você... — a voz de Lorenzo saiu como um sussurro áspero, cheia de um ressentimento venenoso. — Eu perdi tudo por sua causa. Minha vida, meu império, minha dignidade. Você me enganou com aquele beijo e aquele número falso.

O choque atingiu Qin como um golpe físico. Sua sinestesia toque-espelho, geralmente controlada, disparou. Ele sentiu a vibração da fúria de Lorenzo como agulhas na própria pele. O Imperador, pego em um momento de vulnerabilidade total, sem suas vendas, sem sua armadura e sem sua guarda, soltou um grito que rasgou o silêncio do palácio.

— AH! SAIA DAQUI! — O grito de Qin foi alto, agudo e carregado de um pavor genuíno pelo susto súbito.

O barulho ecoou pelos corredores, e a resposta foi imediata. Devido à natureza da residência, muitos dos outros guerreiros e deuses estavam hospedados em alas próximas para uma reunião diplomática que ocorreria mais tarde.

O som de portas sendo arrombadas e passos pesados preencheu o palácio.

Hades foi o primeiro. Ele não correu; ele praticamente se materializou na cozinha, com o rosto transfigurado em uma máscara de fúria divina. Logo atrás dele, uma horda apareceu: Buda com seu cajado, Lu Bu com sua lança, Adão com os punhos cerrados, e até mesmo Nikola Tesla, que parecia confuso segurando um esquema elétrico.

Qin, instintivamente, não avançou para lutar. No segundo em que viu a silhueta imponente de Hades, ele correu. Ele passou por Lorenzo como um borrão e se jogou atrás das costas do Rei do Submundo, agarrando-se à camisa dele como se sua vida dependesse disso.

— Ele está aqui! — exclamou Qin, a voz tremendo levemente enquanto se escondia atrás da figura protetora de Hades. — Como ele entrou aqui?!

Hades não respondeu imediatamente. Seus olhos, antes calmos e nobres, brilhavam com uma luz púrpura perigosa. Ele olhou para Lorenzo, que agora estava encolhido diante da presença de tantos seres poderosos.

— Você ousou invadir este palácio? — A voz de Hades era um trovão contido. — Você ousou assustar o meu...

Hades interrompeu-se, mas o peso da palavra "meu" ficou pairando no ar.

— Eu... eu só queria justiça! — Lorenzo gaguejou, caindo de joelhos enquanto Thor e Leônidas se aproximavam dele com expressões nada amigáveis.

— Justiça? — Buda deu um passo à frente, girando seu pirulito na boca. — Cara, você fugiu de uma prisão divina para vir cobrar um beijo de um Imperador? Isso é que é ter um desejo de morte.

— Tirem-no daqui — ordenou Hades, sem desviar o olhar do intruso. — Entreguem-no a Hermes. Digam a ele que, se este homem fugir novamente, eu pessoalmente cuidarei da segurança das prisões de todos os reinos. E não será agradável.

Sasaki Kojiro e Raiden Tameemon agarraram Lorenzo pelos braços, levantando-o do chão sem esforço. O traficante tentou protestar, mas um olhar gélido de Poseidon, que apareceu na porta apenas para observar o "lixo", o fez emudecer instantaneamente.

À medida que o intruso era arrastado para fora, o caos começou a baixar. Os outros guerreiros permaneciam ali, olhando para Qin, que ainda estava agarrado às costas de Hades, usando apenas a camiseta grande demais do namorado.

— Bem — disse Okita Souji, quebrando o silêncio com um sorriso travesso —, parece que o seu fã número um realmente não aceitou o fora, hein, Qin?

— Não é hora para isso, Okita — repreendeu Héracles, embora ele também parecesse aliviado que nada de pior tivesse acontecido.

— Você está bem, garoto? — perguntou Adão, aproximando-se com aquele olhar paternal que sempre desarmava qualquer um.

Qin saiu de trás de Hades, mas ainda mantinha uma mão firme no braço dele. Ele tentou recuperar sua postura, limpando a garganta e ajeitando a camiseta de Hades, mas suas mãos ainda tremiam um pouco. A sinestesia estava fazendo seu estômago revirar; ele ainda sentia o resquício do medo e do ódio que Lorenzo exalava.

— O Rei... o Rei apenas foi pego de surpresa — disse Qin, tentando forçar um sorriso arrogante que não chegou aos olhos. — Eu não esperava ver um rato na minha cozinha logo cedo.

— Você está pálido, Qin — observou Jack, o Estripador, com uma preocupação genuína. — A cor da sua alma está oscilando de uma forma bastante desconfortável.

Hades, sentindo a fragilidade do companheiro, não se importou com a plateia de deuses e humanos que observava. Ele se virou e envolveu Qin em um abraço protetor por trás. O Rei do Submundo era muito mais alto, e Qin parecia quase desaparecer contra o peito dele, especialmente naquela blusa larga. Hades enterrou o rosto no cabelo escuro de Qin, respirando o perfume dele para se acalmar tanto quanto para acalmar o outro.

— Todos para fora — ordenou Hades, sua voz não admitindo contestações. — A ameaça acabou. Deixem-nos.

Buda deu de ombros e começou a sair, seguido pelos outros.

— Se precisar de ajuda para limpar o susto, tenho uns doces ótimos — disse Buda antes de desaparecer pelo corredor.

— Vamos, pessoal — chamou Nikola Tesla. — Vamos analisar como os sistemas de segurança falharam. Isso é fascinante do ponto de vista técnico!

Aos poucos, o salão esvaziou. Até mesmo os mais brincalhões, como Loki ou Nostradamus, perceberam que o clima entre os dois reis não era para brincadeiras. Havia uma vulnerabilidade ali que eles respeitavam.

Quando finalmente ficaram sozinhos, o silêncio da cozinha tornou-se acolhedor novamente. Hades não soltou Qin. Ele continuou a abraçá-lo, sentindo os batimentos cardíacos acelerados do Imperador diminuírem gradualmente.

— Eu senti a dor dele, Hades — sussurrou Qin, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás, apoiando-a no ombro do deus. — O ódio dele... era tão denso. Senti como se ele estivesse me sufocando antes mesmo de abrir a boca.

— Eu sei — respondeu Hades, apertando-o um pouco mais. — Eu sinto muito por não ter chegado um segundo antes. Eu nunca deveria ter deixado Hermes cuidar da transferência dele para a prisão humana.

Qin soltou um suspiro longo, sentindo o calor de Hades dissipar o frio que o susto deixara. Ele se virou nos braços do namorado, ficando de frente para ele. A camiseta de Hades escorregou um pouco mais por um dos ombros de Qin, revelando as marcas de sua sinestesia.

— O Rei perdoa você — disse Qin, recuperando um pouco de seu brilho habitual, embora ainda estivesse um pouco trêmulo. — Mas você vai ter que me compensar. Eu perdi o meu apetite para o café.

Hades sorriu levemente, um daqueles sorrisos raros que ele reservava apenas para Qin. Ele colocou as mãos no rosto do Imperador, polegares acariciando suas bochechas.

— E como o Rei deseja ser compensado?

Qin envolveu o pescoço de Hades com os braços, puxando-o para mais perto.

— Fique aqui comigo hoje. Esqueça Helheim, esqueça as reuniões de Zeus. Apenas... seja meu.

Hades não hesitou. Ele o beijou com uma intensidade que selava aquela promessa.

— Eu sou seu desde o momento em que você se sentou naquele trono invisível no meio da arena, Qin Shi Huang. Um reles traficante de itens não vai mudar isso.

Enquanto isso, do lado de fora, no jardim do palácio, os outros guerreiros ainda comentavam o ocorrido.

— Vocês viram o tamanho daquela blusa no Qin? — perguntou Raiden, rindo baixo enquanto caminhava ao lado de Shiva. — Acho que o Hades vai ter que comprar um guarda-roupa novo se o Qin continuar roubando as roupas dele.

— O que importa é que o imperador está bem — disse Leônidas, cruzando os braços. — Mas aquele Lorenzo... se ele cruzar o meu caminho de novo, não vai precisar de prisão. Eu mesmo o mando para o tártaro.

— Ele não vai — disse Simo Häyhä, limpando sua lente. — Hades não vai deixar. Você viu o olhar dele? Aquele era o olhar de um homem que destruiria o cosmos por quem ama.

A manhã em Milão parecia uma memória distante agora, uma missão que trouxera caos, mas que também unira dois mundos que ninguém imaginava que poderiam coexistir. E no silêncio do palácio, protegidos um pelo outro, o Imperador e o Rei do Submundo finalmente encontraram a paz que o resto do mundo tentava, sem sucesso, lhes roubar.

Qin Shi Huang, agora totalmente calmo, sorriu contra os lábios de Hades. Ele ainda era o Rei, ainda era o homem que governava com mãos de ferro e um coração empático, mas ali, naqueles braços, ele era apenas Qin. E isso, para ele, era mais do que suficiente.

— Hades? — chamou Qin baixinho.

— Sim?

— Da próxima vez que formos para outro país... vamos apenas de férias. Sem missões, sem iscas e, definitivamente, sem calças boca de sino.

Hades soltou uma risada baixa e vibrante.

— Combinado, meu Imperador. Combinado.