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O Eco do Dragão e o Silêncio do Profeta

A paz que se seguiu ao incidente com Lorenzo foi, na melhor das hipóteses, superficial. Embora o traficante estivesse agora sob custódia em uma cela cujas paredes eram reforçadas com runas de Odin e correntes de Hefesto, o susto deixara uma marca invisível em Qin Shi Huang. O Imperador, sempre tão vibrante e intocável, agora tinha um reflexo mais aguçado; seus olhos buscavam as sombras com uma frequência que não passava despercebida por quem o conhecia bem.

Infelizmente, Michel de Nostredame, o profeta mais excêntrico do Valhala, conhecia-o bem demais. E, para Nostradamus, a vulnerabilidade alheia não era um sinal para cautela, mas um convite para o caos.

Tudo começou três dias após o retorno de Qin ao palácio. O Imperador estava caminhando por um dos corredores laterais, distraído com um pergaminho, quando uma figura saltou de trás de uma estátua de jade, gritando a plenos pulmões.

— SURPRESA, MAJESTADE! — berrou Nostradamus, agitando os braços.

Qin deu um salto para trás, o pergaminho voando de suas mãos. Por um breve segundo, suas pupilas se dilataram e ele assumiu uma postura de combate defensiva, o coração martelando contra as costelas. Quando percebeu que era apenas o profeta rindo histericamente, Qin relaxou os ombros, mas sua respiração continuou curta.

— Nostradamus... — rosnou Qin, a voz embargada pela adrenalina. — Isso não tem graça.

— Ah, tem sim! Você deveria ter visto a sua cara! — O profeta limpava as lágrimas de riso. — O grande Qin Shi Huang, o homem que derrotou deuses, quase teve um colapso por causa de um simples "olá"!

O que Nostradamus não entendia — ou escolhia ignorar — era que a sinestesia de Qin amplificava o choque. O susto não era apenas mental; era uma explosão de estática dolorosa que percorria o corpo do Imperador.

Nos dias seguintes, as "brincadeiras" tornaram-se uma rotina cruel. Nostradamus aparecia nos lugares mais improváveis: debaixo da mesa de jantar, atrás das cortinas do quarto, ou até mesmo pendurado no teto do salão de reuniões. Ele usava o fato de Qin estar em alerta por causa de Lorenzo para alimentar seu próprio entretenimento.

O clímax ocorreu durante uma reunião formal no Salão das Eras. Era uma tarde tensa; deuses e humanos estavam sentados ao redor de uma mesa circular de obsidiana para discutir a redistribuição das almas após o Ragnarok. Hades estava sentado ao lado de Qin, sua mão descansando discretamente sobre a coxa do Imperador por baixo da mesa, um gesto de apoio silencioso que Qin apreciava imensamente.

O ambiente estava silencioso enquanto Zeus lia um decreto tedioso. Qin estava concentrado, tentando ignorar a leve náusea que sentia sempre que o salão ficava quieto demais.

De repente, um estrondo veio debaixo da mesa, bem aos pés de Qin, acompanhado por um grito agudo e o som de algo quebrando.

Qin não apenas se assustou; ele explodiu.

Ele chutou a mesa para longe, levantando-se com uma agilidade violenta. Seus olhos estavam injetados, e a máscara de serenidade que ele sempre usava se estraçalhou em mil pedaços. Antes que Nostradamus pudesse emergir debaixo da mesa com sua risadinha habitual, Qin apontou o dedo para ele e gritou com uma voz que não parecia humana, mas sim o rugido de um dragão ancestral.

— NǏ ZHÈGÈ HÚNZHÀNG! NǏ GǍN ZÀI ZHÈLǏ XIÀ WǑ? WǑ YÀO BǍ NǏ DE SHÉTÉO GĚI QIÈ XIÀLÁI! — A torrente de palavras em chinês arcaico saiu de sua garganta com uma fúria tão crua que o ar no salão pareceu vibrar. — NǏ ZHÈGÈ FÈIWÙ! NǏ ZHÈGÈ FĒNGZI! WǑ YÀO RÀNG NǏ ZÀI JǏNGZHŌNG FǓLÀN!

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Zeus parou de falar. A maioria dos presentes não entendia o idioma, mas a intenção era universal. Qin estava tremendo, as mãos cerradas em punhos, e lágrimas de pura raiva e exaustão brilhavam nos cantos de seus olhos.

Nostradamus, ainda agachado no chão, perdeu o sorriso. Ele nunca tinha visto Qin perder o controle daquela forma. Ele esperava uma reclamação, talvez um empurrão, mas não aquela fúria imperial que parecia capaz de incinerar o próprio firmamento.

Hades levantou-se lentamente. A aura que emanava do Rei do Submundo era tão fria que o gelo começou a se formar nas bordas da mesa de obsidiana. Ele não olhou para Qin de imediato; seus olhos estavam fixos em Nostradamus.

— O que foi que você disse, Qin? — perguntou Hades, sua voz sendo um sussurro mortal que cortou o silêncio.

Qin respirou fundo, tentando recuperar o fôlego. Ele limpou o rosto com as costas da mão, a vergonha começando a substituir a raiva.

— Eu o chamei de bastardo imprestável — traduziu Qin, a voz agora rouca e baixa. — Eu disse que cortaria a língua dele e o deixaria apodrecer em um poço.

Hades desviou o olhar para o profeta, que agora tentava se levantar, visivelmente desconfortável sob o olhar de todos.

— Nostradamus — disse Hades, e o nome soou como uma sentença de morte. — Você achou que o trauma de um homem era um brinquedo para o seu entretenimento?

— Foi só uma brincadeira, Hades! — Nostradamus tentou rir, mas o som saiu forçado. — O Qin é forte, ele aguenta! Eu só queria animar o ambiente...

— Animar o ambiente? — A voz de Brunhilde soou do outro lado da sala, carregada de um desprezo que fez Nostradamus encolher-se. — Você é um verme, Michel. Você viu o que aquele homem passou em Milão. Você viu como ele ficou depois que aquele criminoso o tocou, e você decidiu que a melhor coisa a fazer era torturá-lo psicologicamente?

— Você não é um profeta — disse Belzebu, sua voz monótona e gélida surgindo das sombras. — Você é apenas um parasita que se alimenta do desconforto alheio porque não tem nada de valor para oferecer a si mesmo.

A humilhação coletiva começou. Um por um, os guerreiros e deuses que Nostradamus considerava seus "amigos de farra" ou "colegas de conselho" voltaram-se contra ele.

— Eu já vi homens serem executados por menos na minha terra — comentou Leônidas, acendendo um charuto com as mãos trêmulas de irritação. — Você não tem honra. Brincar com o medo de um companheiro de armas é a coisa mais baixa que um homem pode fazer.

— Eu sempre achei você irritante — disse Buda, sem nenhuma das suas habituais distrações com doces. — Mas agora eu só sinto nojo. O Qin sente a dor dos outros, Nostradamus. Cada susto que você deu nele, ele sentiu no corpo como se fosse um ferimento real. E você sabia disso.

Nostradamus olhou ao redor, buscando um rosto amigável. Ele viu Nikola Tesla balançando a cabeça em desaprovação, viu Adão com um olhar de profunda decepção — o tipo de olhar que dói mais que um soco — e viu Poseidon, que apenas o observava como se ele fosse um inseto particularmente insignificante prestes a ser esmagado.

— Eu... eu não queria... — gaguejou o profeta.

— Saia — ordenou Hades. — Saia deste salão agora. E se eu vir você a menos de cem metros de Qin Shi Huang pelos próximos cem anos, eu garantirei que as suas previsões sobre o seu próprio sofrimento fiquem muito aquém da realidade.

Nostradamus sentiu as primeiras lágrimas arderem em seus olhos. A humilhação era pública, total e devastadora. Ele, que sempre se orgulhou de estar acima de todos com seu conhecimento do futuro, agora sentia-se menor que a poeira sob as botas dos guerreiros. Ele deu meia-volta e correu para fora do salão, o som de seus próprios soluços ecoando nas paredes de mármore.

O silêncio retornou, mas desta vez era pesado com a tristeza de Qin. O Imperador sentou-se novamente, escondendo o rosto entre as mãos. Ele odiava ter perdido o controle. Odiava ter mostrado aquela fraqueza.

— Qin — chamou Hades suavemente.

O Imperador sentiu a mão grande e quente de Hades envolver a sua. Ele levantou o olhar e viu que os outros estavam começando a se dispersar, dando-lhes privacidade, embora o clima da reunião tivesse sido arruinado.

— Eu exagerei — sussurrou Qin. — Eu não deveria ter gritado daquela forma. Um Rei deve ser calmo.

— Um Rei é um homem, Qin — disse Hades, puxando a cadeira dele para mais perto. — E nenhum homem é obrigado a suportar a crueldade fantasiada de humor. Nostradamus precisava ouvir a verdade.

Qin olhou para a porta por onde o profeta havia fugido. A raiva tinha passado, deixando apenas um vazio desconfortável.

— Ele estava chorando — observou Qin, o coração apertando. — Eu sinto... eu sinto a dor dele agora. É uma dor de solidão e vergonha.

Hades suspirou, passando o braço pelos ombros de Qin e puxando-o para um abraço lateral.

— Isso é porque você tem um coração que ele nunca terá, meu dragão. Mas não sinta pena dele agora. Ele precisa desse peso para entender que o mundo não gira em torno de suas travessuras.

— Mas ele é como uma criança — murmurou Qin, encostando a cabeça no peito de Hades. — Uma criança muito velha e problemática.

Hades beijou o topo da cabeça de Qin, sentindo a tensão finalmente deixar o corpo do Imperador.

— Deixe que as Valquírias cuidem dele se quiserem. Minha única preocupação é você.

Mais tarde naquela noite, Qin estava sentado na varanda de seus aposentos, observando as estrelas do Valhala. Ele ouviu um passo leve e, por um instante, o pânico ameaçou voltar, mas ele reconheceu o ritmo. Era Nostradamus.

O profeta não saltou das sombras. Ele caminhou lentamente, com os olhos vermelhos e inchados, parando a uma distância segura. Ele segurava uma pequena caixa de madeira laqueada.

— Majestade — disse Nostradamus, a voz falhando. Ele não usava seu tom saltitante; ele parecia ter envelhecido décadas em poucas horas. — Eu... eu trouxe isso. São incensos da Dinastia Han. Eu os recuperei de um dos tesouros perdidos. Eles ajudam a acalmar os sentidos... e a sinestesia.

Qin observou o pequeno homem. A humilhação no salão tinha sido profunda, e Qin sabia que, para alguém tão orgulhoso quanto Nostradamus, pedir desculpas era uma agonia.

— Coloque na mesa, Nostradamus — disse Qin, sua voz suave, sem a fúria da tarde.

O profeta obedeceu, movendo-se como se esperasse ser atingido a qualquer momento.

— Eu sinto muito — sussurrou ele, olhando para os próprios pés. — Eu não pensei. Eu nunca penso. Eu só... eu me sinto tão sozinho aqui às vezes que acho que, se eu fizer as pessoas reagirem, elas vão notar que eu existo. Mas eu não queria te machucar.

Qin sentiu a onda de sinceridade vinda do profeta. Era uma dor aguda e patética, mas real. O Imperador levantou-se e caminhou até ele. Nostradamus encolheu-se, mas Qin apenas colocou uma mão leve em seu ombro.

— O Rei aceita suas desculpas — disse Qin. — Mas entenda uma coisa, Michel. O medo não é um palco para o seu teatro. Se você quer que eu note sua existência, tente ser um amigo, não um carrasco.

Nostradamus olhou para cima, surpreso pela falta de rancor. Ele assentiu vigorosamente, as lágrimas começando a cair novamente.

— Sim! Sim, Majestade. Eu prometo. Eu vou ser o melhor amigo! Eu vou... eu vou prever todas as coisas boas para você e o Hades!

Qin riu, uma risada leve e genuína que pareceu dissipar as últimas sombras de Milão e de Lorenzo.

— Vá descansar, Nostradamus. E, pelo bem da sua vida, tente não aparecer debaixo da cama do Hades esta noite. Eu não acho que ele será tão diplomático quanto eu.

O profeta saiu quase correndo, mas desta vez havia uma leveza diferente em seus passos.

Qin voltou para dentro, onde Hades o esperava com duas taças de vinho e um olhar de interrogação.

— Você é bondoso demais — comentou Hades, entregando uma taça a Qin.

— Eu sou o Rei de todos eles, Hades — respondeu Qin, dando um gole no vinho e sentindo o calor percorrer seu corpo. — E um Rei deve saber quando punir, mas também deve saber quando permitir que um súdito recupere sua dignidade.

Hades sorriu, puxando Qin para seus braços e esquecendo, por fim, as intrigas e os sustos. Naquela noite, o palácio de Qin Shi Huang finalmente ficou em silêncio — um silêncio que não era de medo, mas de uma paz conquistada com a força de um dragão e a sabedoria de um imperador que sabia que, no fim das contas, o maior poder de todos era o de perdoar.