Voltar ao resumo

D73

O Crepúsculo do Imperador

A brisa marinha de Mônaco, que antes parecia carregar o perfume da vitória, subitamente tornou-se gélida. O grupo de deuses e humanos estava prestes a embarcar na van quando o som de passos pesados e caros ecoou pelo beco.

— Escondam-se! Agora! — sibilou Hermes, sua agilidade divina permitindo que ele empurrasse Zeus e Beelzebub para trás de uma pilha de caixas metálicas em um piscar de olhos.

Hades hesitou, os olhos fixos em Qin, mas a mão de Poseidon em seu ombro foi um comando silencioso. Em segundos, o beco parecia vazio, exceto pela figura solitária de Qin Shi Huang, que se encostou na parede com uma displicência estudada, ajustando a venda sobre os olhos.

— Ora, se não é o meu enigma favorito — a voz de Lorenzo surgiu das sombras. O magnata parecia levemente ofegante, os olhos brilhando com uma obsessão recém-adquirida. — Por que fugiu tão rápido? A noite estava apenas começando.

Qin sorriu, embora o peso da presença do homem o fizesse querer invocar sua armadura.

— Reis não fogem, Lorenzo. Eles apenas se retiram quando o ambiente deixa de ser estimulante — respondeu Qin, a voz mantendo o tom aveludado. — Estou apenas esperando minha amiga vir me buscar. Mônaco é charmosa, mas o transporte é... lento.

Nesse exato momento, o celular de Qin vibrou no bolso. Era Alvitr. Ele atendeu, colocando no viva-voz de forma calculada para que Lorenzo ouvisse.

— Qin? — a voz da Valquíria soou tensa e apressada. — Escuta, houve um problema mecânico. Não vou conseguir chegar aí agora. Tente pegar um táxi ou espere mais uma hora, está bem?

Qin desligou, soltando um suspiro teatral.

— Parece que fui abandonado à minha própria sorte.

Lorenzo deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. O cheiro de álcool e algo mais químico emanava dele.

— Abandonado? Jamais. Eu insisto que você volte comigo. Tenho uma reserva privada no hotel de luxo aqui ao lado, e garanto que a bebida é muito melhor que a daquele bar barulhento.

Qin sentiu um arrepio. Através de sua sinestesia, ele percebia a aura de Lorenzo como uma mancha escura e pegajosa, indicando uma intenção predatória. Ele olhou de soslaio para onde sabia que os outros estavam escondidos. Ele precisava de informações. O pen-drive com os registros financeiros de Lorenzo ainda não havia sido localizado pela equipe de Tesla; deveria estar no cofre pessoal do hotel do magnata.

— Se você insiste tanto... — Qin cedeu, deixando que Lorenzo passasse o braço por seus ombros.

Hades, escondido nas sombras, apertou o punho com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele queria intervir, mas a missão era absoluta. Ele viu Qin ser conduzido para longe, desaparecendo na noite.

De volta ao ambiente fechado e luxuoso da suíte de Lorenzo, a atmosfera mudou drasticamente. O magnata servia drinks atrás de um balcão de mármore. Qin, tentando manter o controle, aceitava as taças, mas, aproveitando-se da suposta cegueira da venda, derramava metade do conteúdo nos vasos de plantas luxuosos quando Lorenzo se virava.

No entanto, Lorenzo não era um amador. Em um momento de distração de Qin, ele despejou um pó fino e incolor na taça de cristal.

— Beba, meu rei — Lorenzo disse, entregando a taça. — Este é um licor raro. Vai te fazer sentir nas nuvens.

Qin bebeu. O gosto era metálico. Em poucos minutos, o mundo começou a girar de uma forma que ele nunca experimentara, nem mesmo com os vinhos mais fortes da China. Sua sinestesia enlouqueceu; as cores das luzes do quarto tornaram-se sons estridentes em sua mente, e seu corpo parecia pesar toneladas.

— Onde... onde tem cigarros? — balbuciou Qin, sentindo o estômago revirar.

Lorenzo apontou para uma porta ao fundo do corredor da suíte.

— Ali, na antessala. Tem uma caixa de cedro na mesa.

Qin cambaleou. Ele viu duas portas. Sua visão estava turva, o efeito da droga suprimindo seus reflexos divinos.

— É aquela? — perguntou ele, apontando vagamente para a porta da esquerda.

— Sim, sim — respondeu Lorenzo, sem olhar, focado em trancar a porta principal da suíte.

Qin entrou, mas não era a antessala. Era um escritório privado, frio e silencioso. Ele viu a janela e, num ímpeto de desespero, tentou abri-la para pedir ajuda ou escapar, mas seus dedos não obedeciam. A trava parecia um quebra-cabeça impossível. Ele caiu de joelhos, o suor frio escorrendo pelo rosto.

A porta se abriu. Lorenzo entrou, a expressão de "bom anfitrião" substituída por uma crueldade nua.

Enquanto isso, na van, o clima era de incerteza.

— Ele mandou uma mensagem — disse Tesla, olhando para o monitor. — "Está tudo sob controle. Vou conseguir o item final. Podem voltar para a base. Encontro vocês de manhã."

— Tem certeza que é ele? — perguntou Hades, a voz carregada de uma ansiedade que ele raramente demonstrava.

— O código de autenticação está correto — confirmou Hermes, embora seus olhos estivessem semicerrados. — Qin é orgulhoso. Ele provavelmente quer terminar isso sozinho para esfregar na nossa cara depois.

Eles partiram, relutantes, deixando o Imperador para trás. Mal sabiam que a mensagem havia sido enviada por Lorenzo, usando os dedos inertes de um Qin semiconsciente.

Horas depois, o sistema de Tesla finalmente hackeou as câmeras internas do hotel. O que apareceu na tela silenciou a todos.

A imagem estava granulada. Lorenzo estava de pé, ajustando as abotoaduras da camisa e o cinto, com uma expressão de satisfação nojenta. No chão, Qin Shi Huang estava encolhido. Sua calça estava baixa, e ele tremia violentamente. O Imperador, o homem que nunca se curvava, estava vomitando no tapete persa.

Com movimentos lentos e dolorosos, Qin tirou a própria blusa de manga longa para limpar o vômito do chão e de si mesmo, os olhos — agora sem a venda — fixos no nada, vazios de qualquer brilho real.

Lorenzo caminhou até ele, agarrou Qin pelos cabelos, forçando-o a olhar para cima.

— Você é apenas uma putinha descartável, "imperador" — rosnou o magnata, antes de soltá-lo com desprezo e sair da sala, deixando a porta destrancada, certo de que sua vítima estava quebrada demais para reagir.

Na van, o silêncio era ensurdecedor. Hades parecia ter se transformado em pedra, sua aura de morte vazando de forma tão intensa que o ar ao redor começou a congelar.

— Eu vou matá-lo — a voz de Hades não era um grito; era uma promessa sussurrada que gelou o sangue de todos.

***

Na manhã seguinte, o sol de Mônaco brilhava impiedosamente. O grupo estava reunido na sala comum do esconderijo, o clima pesado como chumbo. Ninguém havia dormido.

A porta se abriu com um rangido seco.

Qin Shi Huang entrou. Ele não caminhava como um rei. Seus passos eram arrastados, e ele usava um casaco largo que claramente não era seu, fechado até o queixo. Seu rosto, geralmente adornado com um sorriso arrogante, estava pálido, com hematomas arroxeados no pescoço e nos pulsos. Seus olhos estavam vermelhos e inchados.

Sem dizer uma palavra, ele caminhou até a mesa central. Sua mão tremia visivelmente quando ele tirou um pen-drive do bolso e o jogou sobre a mesa. O som do plástico batendo na madeira pareceu um tiro.

— A missão... está concluída — disse Qin, a voz rouca, quase irreconhecível. — Todos os dados bancários e a localização dos depósitos estão aí.

— Qin... — começou Adão, dando um passo à frente com o rosto cheio de uma tristeza paternal.

— Eu estou abandonando a missão — cortou Qin, sua voz falhando. — Não quero ver nenhum de vocês. Não quero ouvir sobre deuses, humanos ou tronos.

— Você ficou louco? — explodiu Leônidas, embora sua raiva fosse uma máscara para o desconforto. — Você some a noite toda, volta nesse estado e diz que está fora? Nós somos uma equipe, você não pode simplesmente...

— Cale a boca! — Qin gritou, e o som foi um estalo de pura agonia.

Lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, traçando caminhos na palidez de sua pele. Ele não tentou limpá-las. Ele apenas ficou ali, desmoronando na frente daqueles que ele sempre tentou impressionar com sua força.

— Você não entende? — soluçou Qin, abraçando o próprio corpo como se tentasse impedir que ele se despedaçasse. — Não sobrou nada para governar.

Ele virou as costas e correu em direção ao seu quarto. O som da porta sendo trancada e o primeiro grito abafado de choro atravessaram as paredes.

Hades foi o primeiro a se mover. Ele pegou o pen-drive, apertando-o com tanta força que o metal rangeu.

— Ele conseguiu — sussurrou Hades, a voz trêmula de ódio e dor. — Ele conseguiu o que precisávamos pagando um preço que nenhum de nós teve a coragem de impedir.

O grupo, composto pelos seres mais poderosos da história e do mito, sentiu-se subitamente minúsculo. Buda jogou seu pirulito fora, a expressão de diversão eterna apagada. Sasaki Kojiro baixou a cabeça, as mãos apoiadas no punho de sua espada.

Horas se passaram. O choro vindo do quarto de Qin não parava; era um som lancinante, o som de um orgulho que fora estilhaçado de forma irreparável.

Eventualmente, foi Hades quem se aproximou da porta. Ele não bateu com autoridade. Ele apenas encostou a testa na madeira fria.

— Qin... abra a porta.

— Vá embora, Rei do Submundo — veio a resposta abafada, entre soluços. — Não há nada aqui para você ver. O trono está vazio.

— Eu não me importo com tronos — respondeu Hades, sua voz suavizando-se em um tom que ele só usava com seus irmãos. — Eu me importo com o homem que foi corajoso o suficiente para carregar a dor do mundo sozinho. Você não está sozinho agora.

Hades fez um sinal para Beelzebub, que, usando seus poderes de vibração, desativou a tranca da porta sem quebrá-la.

Eles entraram silenciosamente. Qin estava sentado no chão, no canto mais escuro do quarto, com os joelhos colados ao peito. Ele parecia tão pequeno, tão longe da figura imponente que desafiara os deuses na arena do Valhalla.

Hades sentou-se no chão ao lado dele, mantendo uma distância respeitosa. Aos poucos, os outros entraram. Adão sentou-se do outro lado. Jack, o Estripador, estendeu um lenço de seda limpo sem dizer uma palavra. Até mesmo Zeus mantinha um silêncio solene.

Qin não olhou para cima, mas seu choro mudou de tom. Não era mais o grito de desespero, mas o desabafo de alguém que finalmente se sentia seguro o suficiente para desmoronar.

— Eu sinto o toque dele... — sussurrou Qin, sua sinestesia toque-espelho tornando a memória do abuso uma dor física constante em sua pele. — Dói. Em todo lugar.

Hades, com uma hesitação que raramente demonstrava, estendeu a mão e a colocou suavemente sobre a mão trêmula de Qin.

— Então deixe que o meu toque substitua o dele — disse o Rei dos Mortos. — Até que você não sinta mais nada além de nós.

Ali, naquele quarto de hotel em Mônaco, não havia imperadores ou deuses. Havia apenas um grupo de almas feridas cuidando de uma das suas, enquanto o sol lá fora continuava a brilhar, indiferente à escuridão que eles, juntos, tentavam dissipar.