Voltar ao resumo

D73

O Eco do Silêncio Quebrado

O som da água batendo contra o piso do box era o único ruído que preenchia o quarto de hotel. Qin Shi Huang estava debaixo do jato quente há quase uma hora, esfregando a própria pele com uma força que deixava marcas vermelhas e ardentes. Ele queria arrancar a sensação de posse, o cheiro de tabaco e o suor de Lorenzo que pareciam impregnados em seus poros. A água, no entanto, não conseguia lavar a memória da dor ou o peso da humilhação.

Do lado de fora, no salão da suíte, o silêncio era absoluto, mas carregado de uma atividade frenética e contida. O grupo de guerreiros e divindades, conhecidos por sua arrogância e poder, movia-se como sombras.

Sasaki Kojiro e Adão arrumavam os lençóis da cama, trocando-os por tecidos de seda mais macios que Hermes conseguira providenciar em minutos. Buda, com uma expressão atipicamente séria, organizava uma bandeja com doces, frutas e chás calmantes, embora soubesse que Qin provavelmente não teria estômago para nada. Nikola Tesla e Jack ajustavam a iluminação do quarto para um tom âmbar suave, tentando eliminar qualquer sombra que pudesse parecer ameaçadora.

Quando a porta do banheiro finalmente se abriu, Qin surgiu envolto em um pijama de seda branca, largo demais para seu corpo que parecia ter encolhido. Ele não olhou para ninguém. Seus cabelos, geralmente impecáveis, estavam úmidos e grudados no rosto pálido. Sem dizer uma palavra, ele caminhou até a cama e se jogou sobre as almofadas, enterrando o rosto em um travesseiro e permitindo que os ombros voltassem a sacudir em soluços silenciosos.

Hades, que estava encostado na parede oposta, observava cada movimento. O Rei do Submundo sentia uma pontada de algo que não conseguia nomear — uma mistura de respeito pela resiliência de Qin e uma fúria gélida contra quem ousara quebrá-lo.

Passaram-se longos minutos até que Qin conseguisse, com muito esforço, emergir do travesseiro. Seus olhos estavam vermelhos, as pálpebras inchadas, e o brilho imperial que costumava cegar a todos fora substituído por um olhar de puro pânico, como o de um animal acuado.

— E-eu... — Qin começou a falar, mas sua voz falhou, saindo como um sussurro quebrado. — Eu n-não... eu s-só queria...

Ele gaguejava, as mãos agarrando o tecido do pijama com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. A cada pequeno som vindo do corredor, ele dava um sobressalto, os olhos percorrendo o quarto em busca de uma ameaça invisível.

— Está tudo bem, Qin — disse Hades, sua voz profunda e calma agindo como uma âncora. — Ninguém vai entrar aqui. Você está sob a proteção do Helheim e do Olimpo.

Foi nesse momento que o silêncio foi brutalmente interrompido. O celular de Qin, que Hermes havia recuperado e deixado sobre a cômoda, começou a vibrar e tocar. O toque era estridente, cortando o ar como uma lâmina.

Qin soltou um grito sufocado, um som de puro terror, e recuou na cama até bater as costas na cabeceira. Antes que qualquer um pudesse reagir, ele se lançou para o lado, agarrando-se à pessoa mais próxima.

Hades sentiu o impacto do corpo de Qin contra o seu. O Imperador da China, o homem que se sentava em tronos imaginários e desafiava deuses, estava agora agarrado às vestes de Hades, escondendo o rosto em seu peito e tremendo de forma incontrolável.

Hades congelou por um milésimo de segundo. Eles eram colegas de missão, quase rivais em termos de presença e autoridade. O contato físico não era algo que eles compartilhavam. Mas, ao sentir o coração de Qin batendo freneticamente contra suas costelas, o Rei do Submundo relaxou a postura. Ele passou os braços ao redor de Qin, puxando-o para mais perto e acomodando-o em seu colo de forma a protegê-lo do mundo exterior.

— Hermes — ordenou Hades, o tom de voz gélido. — O telefone.

Hermes pegou o aparelho. O visor mostrava o nome "Lorenzo". O mensageiro dos deuses, com uma expressão de desprezo absoluto, começou a digitar, respondendo às mensagens para manter o rastro digital ativo enquanto Tesla rastreava a localização exata.

Qin continuava agarrado a Hades, as unhas cravadas no tecido caro do terno do deus. Hades, percebendo que o outro precisava de estabilidade, ajeitou Qin para que ele ficasse mais confortável, permitindo que o humano usasse seu ombro como suporte. Os outros deuses e humanos observavam a cena de longe; havia algo de profundamente solene e estranhamente terno na forma como o soberano dos mortos protegia o soberano dos homens.

Subitamente, o celular vibrou sucessivamente. Uma sequência de notificações de arquivos de mídia.

Hades, mantendo Qin seguro com um braço, estendeu a mão para que Hermes lhe entregasse o telefone. Ele queria ver o que aquele verme estava enviando.

Ao abrir a galeria de mensagens, o rosto de Hades mudou. A palidez nobre de sua pele deu lugar a um tom de fúria cega. Suas pupilas se contraíram.

— O que foi? — perguntou Zeus, aproximando-se, seguido por Thor e Leônidas.

Hades virou o celular levemente para longe da visão de Qin, que permanecia com o rosto escondido em seu pescoço. O que as fotos mostravam era um cenário de horror. Eram registros que Lorenzo tirara durante a noite — fotos de Qin subjugado, com a pele marcada, a venda arrancada e o rosto banhado em lágrimas e desespero. Eram troféus de uma alma que tentava ser destruída.

— Aquele... bastardo — rosnou Leônidas, as veias de seu pescoço saltando.

Thor apertou o cabo do Mjölnir com tanta força que faíscas azuis começaram a dançar pelo metal. A fúria divina estava começando a saturar o oxigênio do quarto.

Então, um vídeo começou a ser reproduzido automaticamente. O volume estava baixo, mas o silêncio do quarto permitiu que todos ouvissem.

A voz de Qin no vídeo era um lamento agoniante.

— P-por favor... para... — o Qin da gravação implorava, a voz sumindo em soluços. — Eu imploro... chega...

O som de um tapa seco ecoou pelo alto-falante do celular, seguido pela risada gutural de Lorenzo.

— Cale a boca! — a voz de Lorenzo no vídeo era cruel. — Se você disser mais uma palavra, eu te mato aqui mesmo. Ninguém vai te achar. Ninguém se importa com um lixo como você.

Na gravação, Qin entrou em um estado de pânico absoluto. Ele começou a chorar de uma forma que nenhum deles jamais vira — não era o choro de dor física, mas o choro de alguém que sentia sua própria dignidade sendo triturada. O pânico nos olhos de Qin no vídeo era tão palpável que Raiden e Shiva tiveram que desviar o olhar, os punhos cerrados em uma impotência raivosa.

Lorenzo, no vídeo, parecia se alimentar daquele desespero. O abuso tornava-se mais violento a cada soluço, a cada súplica ignorada.

Hades desligou a tela do celular com um movimento brusco, sua respiração pesada. Ele sentiu Qin estremecer em seus braços; o humano ouvira o início da gravação e o trauma parecia refluir como uma maré negra.

— Qin — sussurrou Hades, sua voz tremendo não de medo, mas de um ódio que poderia incinerar o mundo. — Olhe para mim.

Qin levantou o rosto devagar, os olhos vidrados.

— Ele... ele disse que eu não era nada — sussurrou Qin, a voz tremida. — Ele disse que... que o Rei era só um brinquedo.

Hades segurou o rosto de Qin com as duas mãos, forçando o Imperador a focar em seus olhos heterocromáticos.

— Ele mentiu — afirmou Hades com uma autoridade que não admitia contestação. — Você é o homem que unificou as nações. Você é o homem que enfrentou deuses sem piscar. O que ele fez... o que ele tentou tirar de você... ele nunca terá. Ele é um verme rastejando na lama, e você continua sendo o Rei Onde Tudo Começou.

Qin soltou um suspiro trêmulo, as lágrimas voltando a cair, mas desta vez ele não se encolheu. Ele se permitiu ser segurado pela força de Hades.

— Hermes — chamou Hades, sem desviar os olhos de Qin.

— Sim, meu senhor? — o mensageiro respondeu, sua voz desprovida de qualquer sarcasmo habitual.

— Localize-o. Não chame a polícia. Não chame a Interpol.

Hades olhou para os outros no quarto. Poseidon tinha um olhar de desdém assassino; Thor estava pronto para convocar a tempestade; Adão tinha uma expressão de fúria protetora que faria o próprio Éden tremer.

— Nós vamos buscá-lo — continuou Hades, voltando sua atenção para o homem em seus braços. — E eu prometo a você, Qin Shi Huang... antes do sol se pôr, Lorenzo vai implorar pela morte, e eu, como Rei do Submundo, vou garantir que ela demore uma eternidade para chegar.

Qin fechou os olhos, sentindo a segurança daquele abraço. Pela primeira vez desde que entrara naquele cassino maldito, ele sentiu que a dor poderia, talvez, um dia, diminuir.

— Eu quero... — Qin começou, sua voz ganhando um fio de força. — Eu quero ver a cor da alma dele quando ele perceber que o trono dele... é feito de vidro quebrado.

Hades deu um meio sorriso, um gesto sombrio e belo.

— Você verá, meu Imperador. Você verá.

Enquanto os deuses e humanos se preparavam para a caçada, o quarto mergulhou em uma calmaria predatória. A missão original de itens celestiais fora esquecida. Agora, a missão era uma só: retribuição. E no centro de tudo, protegido pelo abraço do deus mais temido, o Rei da China começava a juntar seus próprios cacos, sabendo que, embora estivesse quebrado, ele nunca estaria sozinho na escuridão.