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O Labirinto de Seda e a Lâmina do Pavor
A paz era uma construção frágil, um mosaico de cacos colados com paciência e tempo. Para Qin Shi Huang, os últimos meses haviam sido uma jornada de reconstrução silenciosa. Ele voltara a caminhar pelos salões de Valhalla com a cabeça erguida, a venda de seda impecavelmente posicionada e o sorriso de arrogância imperial que todos conheciam e, secretamente, amavam. Ele era o Imperador novamente. Ou, pelo menos, era isso que ele permitia que o mundo visse.
Hades, sempre observador, sentia-se aliviado. O Rei do Submundo vira Qin rir com Buda, discutir estratégia com Leônidas e até mesmo provocar Poseidon durante os jantares. Parecia que o trauma de Mônaco e a sombra de Lorenzo haviam sido finalmente enterrados em uma cova profunda e sem marcação.
Quando surgiu a necessidade de uma expedição diplomática e de contenção em um reino periférico, Hades hesitou. A viagem duraria duas semanas e envolveria quase todos os guerreiros e deuses principais.
— O Imperador não precisa de babás, Hades — dissera Qin, abanando a mão com descaso enquanto devorava uma uva. — Vá. Resolva seus assuntos divinos. Eu ficarei aqui, governando o meu ócio com a dignidade que me é característica.
Hades, embora relutante, partiu. O que ninguém sabia era que, assim que as portas do palácio se fecharam e o silêncio se instalou, Qin Shi Huang não foi para o jardim. Ele foi para o seu escritório e ligou para um contato que mantinha em segredo absoluto: um terapeuta especializado em traumas profundos, recomendado por Brunhilde sob juramento de confidencialidade. Qin estava lutando. Ele sabia que a cura que mostrava aos outros era uma armadura, e ele estava cansado de carregar o peso do metal o tempo todo.
As duas semanas deveriam ser de progresso solitário. No entanto, a eficiência de deuses e humanos combinados foi maior do que o esperado. A missão terminou em apenas dez dias.
— Vamos fazer uma surpresa para o Qin — sugeriu Buda, mastigando um chiclete enquanto o grupo desembarcava no pátio de Valhalla. — Ele deve estar morrendo de tédio sem a nossa companhia ilustre.
— O Imperador detesta ser pego de surpresa — comentou Sasaki Kojiro, rindo levemente —, mas admito que sinto falta das reclamações dele.
Hades não disse nada, mas seus passos eram rápidos. A saudade de Qin era uma pontada constante em seu peito. O grupo entrou no palácio principal em silêncio, movendo-se como sombras. Eles sabiam que Qin costumava passar as tardes na sala de leitura ou em seus aposentos privativos.
— No três — sussurrou Zeus, com um brilho travesso nos olhos. — Um... dois... três!
Eles escancararam as portas duplas dos aposentos de Qin com entusiasmo.
— O IMPERADOR ESTÁ DE VOLTA! — gritou Raiden, sua voz potente ecoando pelas paredes de mármore.
O que se seguiu não foi o riso de Qin ou uma reclamação sobre a falta de modos. Foi um grito. Um grito agudo, carregado de um terror tão puro e visceral que congelou o sangue de todos na sala.
Qin, que estava sentado no chão lendo um livro, saltou como se tivesse sido atingido por um raio. Seus olhos, sem a venda naquele momento de privacidade, estavam dilatados, as pupilas reduzidas a pontos negros de pânico. Ele não olhou para quem era. Ele não viu Hades, não viu Buda, não viu os amigos. Ele viu apenas a invasão. Ele viu o perigo.
Antes que qualquer um pudesse reagir ou pedir desculpas, Qin disparou. Ele não correu como um guerreiro; ele fugiu como uma presa. Ele desapareceu por uma porta lateral que levava ao labirinto de corredores e closets de suas vestes imperiais.
— Qin! — gritou Hades, o coração disparando. — Qin, somos nós!
O silêncio que se seguiu foi aterrorizante. Eles o procuraram por toda a suíte. Olharam debaixo da cama, atrás das cortinas pesadas, na varanda. Nada. Qin Shi Huang, o homem que unificou a China, havia desaparecido dentro de seu próprio quarto.
Dez minutos se passaram em uma busca frenética até que o celular de Hades vibrou no bolso. Suas mãos tremiam ao atender.
— Qin? — a voz de Hades era um sussurro desesperado.
Do outro lado, a respiração era curta, entrecortada por soluços que Qin tentava desesperadamente abafar.
— Hades... — a voz dele era minúscula, rouca de terror. — Ele voltou. Eles voltaram. Estão no meu quarto. Hades, por favor... me ajude... eu não consigo sair... está escuro...
— Qin, escute-me — disse Hades, tentando manter a voz o mais estável possível enquanto sinalizava para os outros se calarem. — Ninguém voltou. Somos nós. Eu, o Buda, o Adão... nós voltamos da viagem mais cedo. Dê-me um sinal. Onde você está?
— O armário... — soluçou Qin. — O fundo... atrás das sedas pretas... por favor, não deixe ele me tocar...
Hades desligou o telefone e correu para o imenso closet de Qin, um cômodo que mais parecia uma loja de luxo. Ele foi direto para a seção de trajes cerimoniais de inverno. Afastou camadas e mais camadas de sedas pesadas e veludos bordados, revelando um painel falso que nem mesmo ele sabia que existia.
Ao abrir o painel, ele encontrou um espaço minúsculo, um nicho escondido entre a parede e a estrutura do armário.
— Qin? — Hades chamou suavemente, ajoelhando-se.
A luz do closet iluminou o interior do nicho. Qin Shi Huang estava encolhido em posição fetal, as costas pressionadas contra a parede fria. Mas o que chocou Hades e os outros que se aproximaram foi o que Qin segurava.
Ele tinha uma faca de cozinha longa e afiada em ambas as mãos, apontada para a abertura. Seus nós dos dedos estavam brancos de tanta força. Seus olhos estavam fixos no vazio, e ele tremia de forma tão violenta que a lâmina oscilava no ar.
— Não chegue perto — sibilou Qin, a voz carregada de uma agressividade defensiva que nenhum deles jamais vira. — Eu vou matar você. Eu juro que vou matar você desta vez, Lorenzo.
— Qin, olhe para mim — pediu Hades, ignorando a ponta da faca que agora estava a centímetros de seu peito. — Sou eu. Olhe para o meu rosto.
Levou longos segundos. O tempo parecia ter parado enquanto os guerreiros mais fortes da história observavam, impotentes, a destruição mental de seu companheiro. Lentamente, o foco retornou aos olhos de Qin. Ele piscou, as lágrimas escorrendo livremente e manchando seu rosto pálido.
A faca caiu no chão com um som metálico e seco.
— Hades? — perguntou Qin, a voz falhando.
— Sim, meu Imperador. Sou eu.
Qin desabou para frente, caindo nos braços de Hades. Ele não apenas chorava; ele soluçava com todo o corpo, agarrando-se à túnica de Hades como se fosse a única coisa que o impedia de ser arrastado para um abismo. Hades o tirou do nicho com cuidado, carregando-o para a cama, enquanto os outros se aproximavam em um silêncio fúnebre.
— Nós sentimos muito, Qin — disse Buda, sua voz falhando. — Nós não sabíamos... achamos que você estava bem.
Qin, ainda tremendo nos braços de Hades, limpou o rosto com as mãos trêmulas. Ele tentou se sentar ereto, tentou recuperar a dignidade, mas seus olhos continuavam disparando para a porta.
— Eu estou em terapia — confessou ele de repente, a voz baixa. — Eu... eu achei que estava funcionando. Eu achei que se eu falasse com o médico e fizesse os exercícios, eu não teria mais medo.
— Terapia? — perguntou Adão, aproximando-se e sentando-se no pé da cama. — Por que não nos contou, meu filho?
— Porque o Imperador não pode ser quebrado! — gritou Qin, uma faísca da sua antiga arrogância surgindo através da dor. — O Imperador deve ser o pilar! Se eu admitir que tenho medo de um susto, se eu admitir que ando com uma faca escondida porque acho que Lorenzo vai sair de trás de cada cortina... então eu não sou nada!
— Qin — disse Hades, segurando o rosto dele com ambas as mãos —, você é o homem que enfrentou o Rei do Submundo e venceu. Você é o homem que suportou a dor de milhões. Ter medo depois do que você passou não te torna menos rei. Torna você humano.
Qin fechou os olhos, deixando a cabeça pender para o ombro de Hades.
— Eu não queria que vocês vissem isso. Eu queria que vocês voltassem e encontrassem o Qin de sempre.
— O "Qin de sempre" é quem você é agora, Qin — disse Jack, o Estripador, aproximando-se com um copo de água. — Com suas forças e com suas cicatrizes. O senhor não precisa se esconder de nós. Especialmente não em um armário.
Qin aceitou a água, suas mãos finalmente parando de tremer tanto. Ele olhou para o grupo — Lu Bu, Sasaki, Raiden, Nikola, até mesmo os deuses mais distantes como Thor e Poseidon. Todos tinham a mesma expressão: não era pena, era um respeito profundo e uma tristeza por terem sido a causa daquele gatilho.
— O susto foi... grande demais — sussurrou Qin. — Quando a porta abriu e vocês gritaram, eu não ouvi vozes amigas. Eu ouvi o barulho daquela noite. Eu senti o cheiro daquele escritório.
— Nós fomos idiotas — admitiu Nikola Tesla, ajustando os óculos. — Não levamos em conta a hipersensibilidade do seu sistema nervoso após um trauma de estresse pós-traumático. A ciência deveria ter nos avisado.
— A ciência não — disse Hades, olhando para Qin com uma ternura infinita. — O coração deveria ter nos avisado.
Qin deu um pequeno sorriso, um lampejo do seu verdadeiro eu.
— O Imperador perdoa a estupidez de vocês. Desta vez. Mas se alguém contar para a Brunhilde que eu me escondi atrás das minhas roupas de inverno, eu farei questão de que vocês conheçam o lado menos gentil das minhas técnicas de luta.
— Seu segredo está seguro conosco, Qin — prometeu Sasaki, com um aceno de cabeça.
— Mas com uma condição — acrescentou Hades, seriamente. — Nada de facas de cozinha embaixo do travesseiro. E nada de sessões de terapia escondidas. Se você precisar de ajuda, nós estaremos lá. Se você precisar de silêncio, nós ficaremos quietos. Mas não se isole mais.
Qin suspirou, sentindo o peso da exaustão finalmente vencendo a adrenalina do pânico.
— O Imperador... aceita os termos do acordo.
Naquela noite, ninguém saiu do quarto de Qin. Eles trouxeram comida, espalharam almofadas pelo chão e transformaram a suíte imperial em um acampamento improvisado. Qin adormeceu cercado por seus companheiros, com a mão de Hades firmemente entrelaçada na sua.
Ele ainda tinha um longo caminho pela frente. As sessões de terapia continuariam, e haveria outros dias em que o som de uma porta batendo o faria querer correr. Mas, enquanto fechava os olhos, Qin Shi Huang percebeu que não precisava mais de um nicho escondido no armário. Seu verdadeiro esconderijo, seu verdadeiro trono, era o amor e a lealdade daqueles que o cercavam. E ali, Lorenzo e suas sombras nunca poderiam entrar.