D73
O Refúgio entre Sombras e Estrelas
O silêncio do palácio de Valhalla, durante a madrugada, era uma substância densa, quase palpável. Para Qin Shi Huang, era também um espelho que refletia cada fragmento de memória que ele tentava desesperadamente ignorar. Após o episódio devastador na biblioteca e a humilhação pública no Salão das Eras, o Imperador havia se recolhido aos seus aposentos, mas o sono, aquele traidor, recusava-se a visitá-lo.
Deitado sobre os lençóis de seda negra, Qin encarava o teto alto. Cada vez que fechava os olhos, o som do tapa de Lorenzo ou a risada cruel do ministro nórdico ecoavam em seus ouvidos. Sua sinestesia toque-espelho, que outrora fora sua maior maldição e depois sua maior força, agora o torturava com ecos de dores que já não existiam fisicamente, mas que queimavam em sua alma.
— O Rei não pode ter medo do escuro — sussurrou para si mesmo, mas sua voz saiu pequena, desprovida da autoridade habitual.
Incapaz de suportar a quietude do quarto, Qin levantou-se. Ele não colocou sua túnica imperial ou suas joias; permaneceu com o pijama de seda azul-claro que Hades lhe dera, algo macio que não agredia sua pele sensível. Com os pés descalços, ele deslizou pelos corredores até a sala de estar da ala privativa que compartilhava, por conveniência e proteção, com o Rei do Submundo.
A sala era vasta, iluminada apenas pelo brilho suave das estrelas que entravam pelas grandes janelas de cristal. Qin sentou-se no imenso sofá de veludo e ligou a tela mágica que Tesla e Hermes haviam configurado. Ele não procurou notícias ou documentários; buscou filmes humanos. Histórias simples.
Durante horas, Qin mergulhou em comédias românticas bobas, desenhos animados coloridos e musicais antigos. Ele assistia a tudo com uma concentração infantil, os joelhos abraçados contra o peito, deixando que as cores e as músicas substituíssem as sombras em sua mente. O brilho da tela refletia em seus olhos sem venda, que agora pareciam mais curiosos do que arrogantes.
Quando os primeiros raios de sol começaram a pintar o horizonte de Valhalla em tons de rosa e laranja, o grupo começou a despertar. O primeiro a entrar na sala foi Jack, o Estripador, que vinha preparar o chá matinal. Ele parou ao ver o Imperador encolhido no sofá, cercado por almofadas e assistindo a um desenho animado sobre um gato e um rato que nunca paravam de brigar.
— Bom dia, Sir Qin — saudou Jack, sua voz suave para não quebrar o transe do outro. — Vejo que o senhor teve uma noite... cinematográfica.
Qin virou o rosto devagar. Não havia a máscara de imperador ali, apenas um cansaço doce e uma calma estranha.
— Jack — disse Qin, e sua voz tinha uma cadência leve, quase ingênua. — Veja, o gato caiu de novo. Ele é muito persistente, não é? O Imperador gosta de persistência.
Jack piscou, notando a mudança no tom. Qin falava com uma simplicidade que lembrava uma criança descobrindo o mundo, longe da arrogância defensiva dos dias anteriores.
— De fato, Sir Qin. A persistência é uma virtude real — respondeu Jack, sorrindo gentilmente enquanto colocava a bandeja sobre a mesa de centro.
Logo, outros começaram a aparecer. Buda entrou bocejando, com o cabelo bagunçado, seguido por um Nikola Tesla que já falava sobre equações de luz. Eles pararam ao notar o estado de Qin. O Imperador não se levantou para proclamar sua soberania; ele apenas apontou para a tela.
— Buda, venha ver — chamou Qin, batendo no lugar ao seu lado no sofá. — Eles estão dançando na chuva. Por que os humanos dançam na chuva se podem ficar resfriados? É muito engraçado.
Buda trocou um olhar significativo com Tesla. O trauma havia levado Qin a um estado de regressão protetora, um refúgio onde a complexidade do sofrimento adulto não podia alcançá-lo.
— É porque a chuva lava a alma, Qin — disse Buda, sentando-se ao lado dele e pegando um dos doces da bandeja. — E dançar é o jeito que o corpo tem de dizer que está feliz.
— O Imperador quer dançar na chuva depois — declarou Qin, com um aceno de cabeça decidido, voltando sua atenção para o filme.
Hades foi o último a chegar. Ele parou no umbral da porta, observando a cena. Ver Qin tão vulnerável, falando com aquela doçura infantil, apertou seu coração de uma forma que ele não sabia explicar. O Rei do Submundo aproximou-se e sentou-se no braço do sofá, colocando a mão sobre o ombro de Qin.
— Você dormiu, meu Imperador? — perguntou Hades, sua voz como um veludo protetor.
Qin olhou para cima e sorriu. Era um sorriso puro, sem segundas intenções.
— As histórias não me deixaram dormir, Hades. Elas são muito bonitas. Você sabia que existe um lugar chamado Disneylândia? O Imperador decidiu que aquele será o seu próximo território.
Hades deu um meio sorriso, sentindo um alívio imenso ao ver que a dor aguda da noite anterior havia dado lugar a essa calma etérea.
— Se você deseja, então assim será — prometeu o deus. — Mas agora, que tal sairmos um pouco? O sol está agradável e os jardins de lótus estão florescendo.
Qin ponderou por um momento, como se avaliasse uma proposta de estado muito importante.
— O Imperador aceita o convite do Rei dos Mortos. Mas eu quero usar as roupas macias. As outras picam e são pesadas.
— Como você desejar — disse Hades, ajudando-o a se levantar.
À tarde, os jardins privados de Hades em Valhalla estavam mergulhados em uma serenidade absoluta. O ar cheirava a jasmim e terra molhada. Hades e Qin caminhavam lentamente por uma trilha de pedras brancas que serpenteava entre lagos cheios de flores de lótus celestiais.
Qin não usava sua venda. Ele usava uma túnica simples de algodão branco e um par de sapatos leves. Ele parava a cada poucos passos para observar uma borboleta ou tocar a pétala de uma flor, agindo com uma curiosidade vibrante.
— Hades, olhe! — Qin apontou para uma carpa dourada que saltou na superfície do lago. — Ela brilha como as minhas armaduras. Mas ela parece mais feliz porque não precisa lutar com ninguém.
Hades observava o homem ao seu lado. A regressão de Qin era uma forma de cura, um casulo que sua mente construíra para processar o horror de Mônaco.
— Às vezes — disse Hades —, a maior batalha é justamente encontrar a paz para ser como essa carpa, Qin.
Eles sentaram-se em um banco de mármore sob o salgueiro chorão cujos ramos tocavam a água. O silêncio era confortável, preenchido apenas pelo canto dos pássaros.
— Hades? — chamou Qin, sua voz perdendo um pouco daquela leveza infantil e ganhando um tom de seriedade melancólica.
— Sim, Qin?
— Ontem... na biblioteca... eu me senti muito pequeno — confessou ele, olhando para as próprias mãos. — Eu senti que o Rei tinha morrido e sobrou apenas o menino que apanhava na vila. O menino que sentia a dor de todos e não podia fazer nada.
Hades segurou a mão de Qin, entrelaçando seus dedos.
— Esse menino é quem deu ao Rei a força para ser justo, Qin. Mas você não precisa carregar o mundo nas costas o tempo todo. Nem mesmo um Imperador consegue fazer isso sozinho.
Qin encostou a cabeça no ombro de Hades, fechando os olhos.
— As pessoas na sala... elas viram o vídeo. Elas viram o que aquele homem fez. Elas ainda me respeitam?
— Qin, olhe para mim — pediu Hades, forçando-o a levantar o rosto. — Aqueles homens e deuses não viram fraqueza. Eles viram o custo da nossa liberdade. Eles não te respeitam menos; eles te admiram mais. E se alguém ousar pensar o contrário, terá que prestar contas comigo.
Qin soltou um suspiro longo, o peso em seu peito diminuindo um pouco mais.
— O Imperador gosta quando você fica bravo por causa dele — comentou Qin, com um pequeno lampejo de sua antiga arrogância voltando aos olhos. — É um entretenimento aceitável.
Hades riu, uma risada baixa e genuína.
— Fico feliz em ser útil para o seu divertimento, meu Imperador.
Eles permaneceram ali enquanto o sol começava a baixar. Qin começou a falar sobre as coisas que vira nos filmes durante a madrugada, descrevendo as cenas com uma empolgação contagiante, gesticulando com as mãos e rindo de suas próprias descrições. Hades ouvia cada palavra, fascinado pela forma como a mente de Qin conseguia encontrar beleza e humor mesmo após ter sido arrastada pelo lodo.
— E então o herói salvou a princesa — concluiu Qin, olhando para o pôr do sol —, mas eu acho que a princesa poderia ter se salvado sozinha se tivesse uma espada. O Imperador não gosta de princesas que só esperam.
— Concordo — disse Hades. — Mas até os heróis e as princesas guerreiras precisam de um lugar para descansar depois da guerra.
Qin olhou para Hades, e por um momento, a névoa infantil em seus olhos se dissipou completamente, revelando o homem sábio e sofrido que ele realmente era.
— Este é o meu lugar, não é? — perguntou Qin, a voz firme. — Aqui, com você e com os outros.
— É — afirmou Hades. — Este é o seu trono, Qin. Onde ninguém pode te tocar sem a sua permissão. Onde você é amado, não pelo que você conquistou, mas por quem você é.
Qin sorriu, um sorriso que desta vez alcançou seus olhos e permaneceu ali. Ele se inclinou e beijou a face de Hades, um gesto de gratidão e carinho que selou a paz daquela tarde.
— O Imperador decidiu — anunciou Qin, levantando-se e estendendo a mão para Hades — que hoje à noite teremos um banquete. Mas nada de pratos complicados. Eu quero aquela comida humana gordurosa que o Tesla chama de "pizza". E quero assistir ao filme do gato e do rato de novo. Todos devem vir.
Hades levantou-se, aceitando a mão de Qin.
— Será como você deseja, Qin Shi Huang.
Enquanto caminhavam de volta para o palácio, sob o céu estrelado de Valhalla, Qin Shi Huang não parecia mais uma criança, nem um imperador inalcançável. Ele era apenas um homem que havia encontrado o caminho de volta para casa. A dor de Mônaco ainda era uma cicatriz, e talvez ele ainda tivesse noites em que precisaria se esconder em histórias de ficção, mas ele sabia que, ao abrir os olhos, encontraria um exército de amigos e um Rei do Submundo prontos para lutar por ele.
E no final das contas, para o homem que começou sua vida sentindo a dor do mundo inteiro em seu próprio corpo, não havia império maior do que aquele sentimento de segurança.
— Hades? — chamou Qin, pouco antes de entrarem.
— Sim?
— O Imperador acha que você ficaria bem de orelhas de rato. Como no filme.
Hades suspirou, mas havia um brilho divertido em seus olhos.
— Nem nos seus sonhos mais selvagens, Qin.
— Veremos — riu o Imperador, correndo para dentro com a leveza de quem acabara de descobrir que o mundo, apesar de tudo, ainda podia ser um lugar maravilhoso.