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Sombras, Neon e o Trono de um Rei
A brisa da noite no palácio de "férias" era fresca, mas o ar entre Hades e Qin Shi Huang estava se tornando perigosamente quente. O Imperador, ainda trajando sua calça boca de sino com estrelas que capturavam a luz do luar, mantinha o sorriso de canto que havia desarmado exércitos e corações. Ele se aproximou mais de Hades, a distância entre eles agora reduzida a meros centímetros, o suficiente para que o Rei do Submundo sentisse o aroma de tabaco e um perfume cítrico que emanava da pele do humano.
— Você fala muito sobre estratégia e dever, Hades — disse Qin, a voz caindo para um sussurro desafiador enquanto ele brincava com uma mecha do próprio cabelo, os olhos brilhando com uma malícia que as câmeras da boate não haviam captado totalmente. — Mas eu começo a achar que o Rei de Helheim é apenas isso: palavras bonitas e uma postura impecável. Você observa, você analisa... mas será que você sabe como agir quando o protocolo é jogado fora?
Hades arqueou uma sobrancelha, sua expressão de calma sofisticação permanecendo inabalada, embora seus dedos tenham se fechado levemente ao redor do parapeito de mármore.
— Você está me testando, Imperador? — perguntou o deus, sua voz ressoando como um trovão distante, profunda e carregada de uma autoridade que raramente precisava de esforço. — Saiba que o silêncio do Submundo não é por falta de ação, mas por eficiência.
Qin soltou uma risada curta, um som que vibrou no peito de Hades. Ele deu mais um passo, colando quase que totalmente seu corpo ao do deus, desafiando a aura de poder que cercava o irmão de Zeus.
— Palavras, palavras e mais palavras — provocou Qin, passando a mão levemente pelo peito da túnica de Hades. — No fundo, você é apenas um espectador. Alguém que olha para o que eu fiz naquela boate e sente inveja porque não sabe como perder o controle. Você é um rei que não sabe fazer nada além de observar seu reino.
O autocontrole de Hades, uma muralha que havia resistido a milênios de caos e guerras divinas, estremeceu. Não foi a ofensa ao seu poder que o atingiu, mas a audácia absoluta de Qin. O Imperador estava brincando com fogo, e ele sabia disso. O brilho nos olhos de Qin era um convite, uma provocação direta ao orgulho de um deus que nunca havia sido desafiado de forma tão... carnal.
— Você acha que eu não sei agir? — Hades perguntou, sua voz agora mais baixa, quase um rosnado elegante.
— Eu acho que você é todo teoria e nenhuma prática — respondeu Qin, inclinando a cabeça e expondo a linha do pescoço. — Prove que eu estou errado, Rei das Sombras. Ou admita que o seu trono é feito de gelo e tédio.
Antes que Qin pudesse terminar de sorrir, o mundo girou.
Hades não usou palavras. Com um movimento rápido e preciso, ele envolveu a cintura de Qin com um braço firme, puxando-o contra si com uma força que tirou o fôlego do Imperador. Qin soltou um pequeno arquejo de surpresa, mas seus olhos brilharam com o triunfo. Ele havia conseguido o que queria: a quebra da compostura divina.
Sem dizer uma palavra aos outros que ainda riam e bebiam no salão principal, Hades arrastou Qin para longe da luz da varanda. Eles desceram uma escadaria lateral que levava aos jardins e, de lá, para um beco estreito e sombrio entre as alas do palácio, onde as luzes neon das festas distantes mal chegavam. Era um lugar de sombras, o ambiente natural de Hades.
Assim que as costas de Qin atingiram a parede de pedra fria, Hades o prensou ali. O contraste entre a frieza da parede e o calor do corpo do deus era quase insuportável.
— Você queria ação, Imperador? — Hades sussurrou contra o ouvido de Qin, sua respiração quente enviando arrepios pela espinha do humano. — Pois saiba que o Submundo não perdoa aqueles que o desafiam sem estarem preparados para as consequências.
Qin tentou manter a fachada de arrogância, mas sua respiração estava errática. A sinestesia toque-espelho, que normalmente o fazia sofrer com a dor alheia, agora estava enviando ondas de uma intensidade avassaladora. Ele sentia o desejo de Hades como se fosse o seu próprio, uma fome milenar que o deus vinha suprimindo.
— Então pare de falar... — ofegou Qin, puxando Hades pelo colarinho — ... e me mostre do que um deus é capaz.
O que se seguiu foi uma explosão de necessidade e poder. Hades não foi gentil, e Qin não queria gentileza. O Rei do Submundo reivindicou o Imperador com a mesma autoridade com que governava as almas mortas. As mãos de Hades, grandes e firmes, exploraram cada curva que a calça de estrelas e a blusa justa revelavam. Qin, por sua vez, agarrava-se aos ombros de Hades, suas unhas cravando-se no tecido fino enquanto ele se perdia na sensação de ser dominado por alguém que, pela primeira vez em sua vida, tinha a força necessária para segurá-lo.
Ali, naquele beco escuro, não havia o Ragnarok, não havia a humanidade contra os deuses. Havia apenas o som de respirações pesadas, o atrito de corpos e a entrega absoluta de dois reis que haviam encontrado um no outro um espelho de sua própria solidão e poder. Hades fodeu Qin com uma intensidade que beirava a possessão, cada estocada sendo uma resposta às provocações do Imperador, silenciando qualquer dúvida sobre sua capacidade de agir.
O tempo pareceu congelar até que, exaustos e suados, o silêncio retornou ao beco.
Algum tempo depois, o salão principal do palácio ainda estava movimentado. Alvitr estava sentada em uma poltrona, discutindo algo com Göll, enquanto Nikola Tesla explicava os princípios da termodinâmica para um Zeus visivelmente entediado. A porta lateral se abriu e o burburinho diminuiu gradualmente quando Hades e Qin Shi Huang entraram.
O contraste com a saída deles era gritante.
Hades caminhava com sua elegância habitual, mas havia um brilho predatório em seus olhos que não estava lá antes. Sua túnica estava levemente desalinhada, e ele não parecia se importar. O que realmente chamou a atenção de todos, no entanto, foi sua mão. O Rei do Submundo tinha a mão firmemente pousada na bunda de Qin, um gesto de posse tão descarado que fez Brunhilde engasgar com seu vinho.
Qin, o homem que nunca baixava a cabeça, estava em um estado que ninguém jamais imaginou ver. Seu rosto estava profundamente corado, uma mistura de exaustão e uma timidez súbita que ele tentava esconder. Ele caminhava quase colado a Hades, com o rosto meio escondido contra o braço musculoso do deus, evitando o olhar de qualquer pessoa no recinto. Suas calças de estrela estavam um pouco amarrotadas, e o cabelo, antes impecável, estava bagunçado de um jeito que contava toda a história do que havia acontecido no beco.
O silêncio no salão era absoluto, interrompido apenas pelo som dos passos dos dois no mármore.
— Mas o que... — começou Ares, boquiaberto, apontando para a mão de Hades. — Hades? O que significa isso?
Hades nem sequer se dignou a olhar para o sobrinho. Ele apenas apertou levemente a mão onde estava, fazendo Qin soltar um som abafado e se encolher ainda mais contra seu braço.
No canto da sala, Jack, o Estripador, observava a cena com um brilho divertido nos olhos. Ele levou o copo de chá aos lábios, ocultando um sorriso que ameaçava se tornar uma risada. Suas cores, as cores das emoções que ele via, eram vibrantes e caóticas ao redor dos dois. Ele percebeu imediatamente o que havia ocorrido.
— Oh, dear... — murmurou Jack para si mesmo, os olhos brilhando de diversão. — Parece que o Imperador encontrou um trono muito mais... confortável.
Tesla parou sua explicação e olhou para o par, os olhos arregalados por trás das lentes.
— Meus cálculos indicam que a temperatura corporal de Qin Shi Huang subiu aproximadamente três graus — comentou o cientista, com uma inocência que só tornou a situação mais cômica. — E o desalinhamento das fibras de suas roupas sugere uma atividade física de alta intensidade em um ambiente confinado.
— Cala a boca, Tesla! — sibilou Brunhilde, embora ela mesma não conseguisse desviar o olhar.
Aos poucos, a ficha começou a cair para os outros. Zeus soltou uma risada ruidosa, batendo no joelho.
— Ora, ora, meu irmão! — exclamou o Deus Supremo. — Eu sabia que você tinha bom gosto, mas não sabia que era tão... direto. E você, Imperador? Onde foi parar aquela marra toda de "eu sou o único rei"?
Qin, sentindo o peso de todos os olhares, tentou recuperar um pouco de sua dignidade. Ele ergueu um pouco a cabeça, o rosto ainda vermelho, e lançou um olhar mortal para Zeus.
— Um rei... um rei vai onde deseja — gaguejou Qin, sua voz perdendo a força habitual. — E eu decidi que... que as sombras de Helheim eram interessantes.
— Interessantes? — zombou Poseidon, cruzando os braços com um desdém que, desta vez, tinha uma ponta de diversão raríssima. — Você parece um pássaro que foi pego por um falcão. Onde está o homem que dançava na boate como se fosse o dono do mundo?
— Ele está bem aqui — respondeu Hades, sua voz cortando o salão e silenciando as risadas. Ele lançou um olhar gélido para Poseidon e Zeus, o tipo de olhar que lembrava a todos por que ele era o senhor dos mortos. — E eu sugiro que meçam suas palavras. O Imperador está sob minha proteção.
A ameaça silenciosa na voz de Hades fez Ares recuar um passo e até Zeus suavizar o sorriso. No entanto, a vergonha de Qin era palpável. O homem que havia desafiado deuses agora parecia querer que o chão se abrisse e o engolisse — de preferência, de volta para o beco com Hades.
Alvitr aproximou-se, olhando para Qin com uma mistura de choque e diversão.
— Qin... — ela começou, mas ao ver o estado do amigo, não conseguiu segurar. — Você realmente não sabe brincar, não é? Eu te levo para uma boate e você acaba sendo "reivindicado" pelo Rei do Submundo no jardim?
— Alvitr, por favor... — murmurou Qin, escondendo o rosto novamente no braço de Hades.
— Ah, não tente se esconder agora! — gritou Shiva lá do fundo, rindo. — Nós vimos a mão do Hades! Ele está marcando território como se você fosse um tesouro de Helheim!
Hades, percebendo que Qin estava realmente chegando ao seu limite de constrangimento, resolveu encerrar o espetáculo. Ele não retirou a mão da bunda de Qin; em vez disso, puxou-o para mais perto, guiando-o em direção aos aposentos privados.
— A diversão acabou para vocês — declarou Hades, sua presença nobre e imponente voltando a dominar o ambiente. — O Imperador precisa de descanso. E eu não sou conhecido por minha paciência com aqueles que perturbam o meu sossego.
Enquanto eles se afastavam, as zoações continuaram em sussurros e risadinhas. Jack finalmente soltou a risada que estava segurando, um som suave e elegante.
— Realmente — disse o Estripador, ajustando o monóculo —, que combinação magnífica de cores. O vermelho da vergonha do Imperador combina perfeitamente com o roxo profundo da satisfação do Rei.
Já no corredor silencioso, longe dos olhos curiosos, Qin finalmente se soltou um pouco, embora ainda estivesse ofegante.
— Você fez de propósito — acusou Qin, olhando para Hades. — Você entrou lá daquele jeito, com a mão... com a mão ali... só para me desmoralizar na frente deles.
Hades parou em frente à porta do quarto e virou Qin para si. O Imperador parecia pequeno diante dele agora, sem a armadura emocional e sem as roupas imperiais.
— Você disse que eu só sabia falar, Qin — disse Hades, um sorriso genuíno e suave aparecendo em seus lábios. — Eu apenas garanti que ninguém mais tivesse dúvidas de que, quando o Rei de Helheim decide agir, ele o faz de forma completa.
Qin olhou para o deus, a raiva fingida derretendo-se diante da intensidade do olhar de Hades. Ele suspirou, encostando a testa no peito do deus.
— Eu odeio você — mentiu Qin, a voz suave.
— Eu sei — respondeu Hades, beijando o topo da cabeça do Imperador antes de abrir a porta. — Agora entre. Temos um trono muito mais privado para discutir sua próxima "estratégia".
E enquanto a porta se fechava, deixando o caos do palácio para trás, Qin Shi Huang percebeu que, embora tivesse perdido a batalha da dignidade na frente dos outros, ele havia ganhado algo muito mais valioso nas sombras: um rei que era capaz de acompanhar seu ritmo, tanto na luz do neon quanto na escuridão mais profunda.