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Ecos de um Trono para Dois

Meses haviam se passado desde a fatídica invasão àquela boate e o escândalo subsequente que abalou os alicerces do palácio de férias. O que começou como uma noite de rebeldia neon e fumaça compartilhada havia se transformado em algo que nem mesmo as Parcas poderiam ter previsto com total clareza. O Primeiro Imperador da China, Qin Shi Huang, agora não era apenas o homem que unificou nações, mas um homem que parecia ter descoberto um novo tipo de império: o coração do Rei do Submundo.

Nos jardins privados da ala leste, Qin estava sentado de pernas cruzadas sobre um banco de mármore, cercado por pergaminhos que não continham decretos imperiais, mas sim esboços detalhados e caligrafias elegantes. Alvitr estava sentada à sua frente, observando o amigo com uma expressão que misturava descrença e um carinho profundo.

— Alvitr, você não está entendendo a visão! — exclamou Qin, os olhos brilhando com uma vivacidade que ele raramente mostrava em público. Ele gesticulou freneticamente para um dos pergaminhos. — Para o casamento, eu decidi que não quero apenas o vermelho tradicional. Quero um degradê que comece no carmesim imperial e termine no preto absoluto de Helheim, com fios de ouro que imitem as constelações que vimos naquela noite.

A Valquíria soltou uma risadinha, apoiando o queixo na mão.

— Qin, você está falando de casamento há três horas. E vocês nem sequer estão namorando "oficialmente" nos termos dos deuses.

— Detalhes técnicos! — Qin deu um gritinho animado, balançando os pés como um adolescente. — Eu já escolhi até os nomes, Alvitr! Se tivermos uma menina, ela se chamará Ying Yue. "Lua de Jade". É forte, elegante e combina com a aura prateada do Hades. E se for um menino, será Chen Zi. "Filho das Estrelas".

— Você já planejou a linhagem inteira? — perguntou ela, rindo alto agora. — Você é impossível.

— Eu sou um Imperador, Alvitr! — Qin levantou-se e deu uma pirueta, a túnica leve girando ao seu redor. — Eu não espero que as coisas aconteçam, eu as comando! Mas... oh, Alvitr, você viu como ele me olha quando acha que eu não estou vendo? É como se eu fosse a única coisa sólida em um mundo de sombras. Eu sinto o calor dele através da minha sinestesia e é... é como beber luz solar.

Ele soltou outro gritinho abafado de empolgação, e Alvitr o acompanhou, contagiada pela alegria genuína do amigo. Ela sabia o quanto Qin havia sofrido na infância, o quanto a dor dos outros o havia moldado. Vê-lo assim, vulnerável e bobo de amor por um deus que todos temiam, era o maior milagre que ela já testemunhara.

— Ele te ama, Qin — disse ela suavemente. — Todo o Submundo sabe disso.

Enquanto isso, em uma sacada não muito distante, o "Soberano do Submundo" estava em um estado de espírito consideravelmente menos confiante. Hades, o deus que enfrentou titãs sem hesitar, estava segurando uma pequena caixa de veludo negro com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.

— Eu não consigo fazer isso — murmurou Hades, a voz grave falhando por um milagre estatístico.

— Oh, pelo amor de... você é o Rei dos Mortos ou uma donzela assustada? — a voz de Brunhilde soou atrás dele, carregada de sua impaciência habitual.

Ao lado dela, Zeus, Poseidon e até Nikola Tesla observavam a cena. Eles haviam formado um comitê improvável para ajudar Hades.

— Meu irmão — disse Zeus, colocando a mão no ombro de Hades —, eu pedi a mão de Hera no meio de tempestades. Você está apenas pedindo a mão de um homem que já usa suas camisas como se fossem troféus de guerra. O "não" é a última coisa que você vai ouvir.

— Ele é um Imperador — rebateu Hades, olhando para os jardins onde Qin e Alvitr riam. — Ele é independente, arrogante e dono de si mesmo. E se ele achar que eu estou tentando prendê-lo? E se ele preferir a liberdade das luzes neon à solenidade do meu trono?

— Os cálculos de probabilidade são insignificantes perante a observação empírica — interveio Tesla, ajustando seus óculos. — A ressonância emocional entre vocês dois cria um campo de força que é praticamente indestrutível. Propor um vínculo formal é apenas a conclusão lógica de uma equação que já foi resolvida.

— Ele tem razão, embora fale demais — disse Poseidon, sua voz fria mantendo uma ponta de encorajamento raro. — Vá logo, Hades. Você está nos envergonhando.

Hades suspirou, endireitando a coluna e recuperando sua aura de dignidade e nobreza. Ele olhou para a caixa uma última vez e começou a caminhar em direção ao jardim.

Qin ainda estava mostrando a Alvitr um desenho da decoração do salão de banquetas — que envolvia milhares de lanternas flutuantes e flores de lótus negras — quando sentiu a presença de Hades. Sua sinestesia captou uma onda de nervosismo tão profunda que ele parou de falar instantaneamente.

— Hades? — Qin virou-se, o sorriso ainda no rosto, mas os olhos curiosos.

Alvitr, percebendo o momento, deu um passo para trás, piscando para Brunhilde que observava de longe. Ela se retirou silenciosamente, deixando os dois reis sozinhos sob o sol poente.

Hades parou a alguns passos de distância. Ele olhou para Qin — para o brilho nos olhos dele, para a postura descontraída e para a beleza que parecia desafiar a própria natureza divina.

— Qin Shi Huang — começou Hades, a voz recuperando a autoridade, mas tingida de uma ternura avassaladora. — Durante milênios, eu governei um reino de silêncio e sombras. Eu acreditava que o meu dever era a minha única companhia e que o peso da minha coroa era tudo o que eu precisava carregar.

Qin sentiu o coração disparar. Ele fechou o leque que segurava, sua arrogância habitual dando lugar a uma expectativa ansiosa.

— Então — continuou Hades, aproximando-se mais —, um humano invadiu meu domínio, sentou-se onde não devia e me desafiou a ver o mundo através de olhos que sentem tudo. Você trouxe luz para Helheim, Qin. Você trouxe vida para o Rei dos Mortos.

Hades ajoelhou-se em um dos joelhos, um gesto que fez o mundo parecer parar. Ele abriu a caixa de veludo, revelando um anel esculpido em adamantino negro com uma joia que brilhava como uma estrela capturada.

— Eu não quero apenas que você se sente no meu trono — disse Hades, olhando nos olhos de Qin. — Eu quero que você seja o meu trono. Eu quero que você governe ao meu lado, não como um súdito, mas como o meu marido. Qin Shi Huang, você aceita se tornar o Rei do Submundo e me dar a honra de ser seu para sempre?

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do vento nas árvores. Escondidos atrás das sebes, os outros deuses e humanos prendiam a respiração.

Qin não respondeu de imediato. Ele cobriu a boca com a mão, os olhos se enchendo de lágrimas que ele se recusava a deixar cair. Ele olhou para Hades — o deus nobre, sério e estrategista que agora estava ali, vulnerável aos pés de um humano.

— Você é um idiota, Hades — murmurou Qin, a voz embargada. — Você realmente achou que eu diria não?

Qin avançou e, antes que Hades pudesse se levantar, ele se jogou nos braços do deus.

— É claro que eu aceito! — gritou Qin, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Onde eu me sento é o meu trono, e eu decidi há muito tempo que o meu lugar é exatamente onde você estiver!

Hades soltou um suspiro de alívio que pareceu ecoar por todo o palácio. Ele se levantou, segurando Qin pela cintura com uma firmeza possessiva. Com um movimento fluido e elegante, Hades inclinou o corpo de Qin para trás, como se estivessem no meio de uma dança naquela boate meses atrás, e o beijou com uma paixão que selou o destino de ambos.

No fundo, o grupo de observadores explodiu em aplausos. Zeus assobiava, Brunhilde limpava uma lágrima discreta, e Alvitr dava pulinhos de alegria.

— Isso foi... satisfatório — comentou Poseidon, embora um pequeno sorriso de canto estivesse presente em seu rosto.

— Foi ciência pura! — exclamou Tesla, batendo palmas ritmadas. — A união perfeita de duas forças magnéticas!

Qin, ainda inclinado nos braços de Hades, separou o beijo apenas o suficiente para olhar para o noivo com um brilho travesso.

— Agora, sobre os nomes dos bebês, Hades... — começou Qin, recuperando sua energia habitual. — Eu já tenho uma lista e você vai adorar Ying Yue.

Hades riu, beijando a testa de seu Imperador.

— O que você desejar, meu amor. O que você desejar.

E ali, sob o céu que unia o reino dos deuses e o mundo dos homens, o Imperador que unificou a China e o Rei que governava os mortos entenderam que não importava o quão diferentes fossem seus mundos. Nas sombras de Helheim ou sob as luzes de uma boate, eles haviam construído um império onde o único trono que importava era o amor que compartilhavam. Qin Shi Huang finalmente encontrara alguém que não apenas sentia sua dor, mas que a transformava em uma eternidade de prazer e paz. E Hades, o Nobre Líder, finalmente encontrara o motivo pelo qual valia a pena governar: para ter alguém como Qin esperando por ele ao fim de cada noite.