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Ecos de uma Noite Real

O salão de café da manhã do palácio estava incomumente silencioso, salvo pelo tilintar ocasional de porcelana contra prata. O sol de verão entrava pelas janelas altas, iluminando a opulência do mármore e o banquete digno de deuses e reis. No entanto, o foco de todos não era a comida, mas o par que ocupava a cabeceira da mesa.

Qin Shi Huang, o homem que unificou a China e desafiou os céus, parecia ter sido atingido por um fenômeno da natureza. Ele estava jogado na cadeira, a postura real substituída por uma lassidão exausta. A camisa de seda de Hades, que ele insistira em usar, escorregava por um de seus ombros, revelando marcas que faziam até mesmo os deuses mais antigos desviarem o olhar.

— Alguém pode me explicar por que o Imperador parece ter lutado contra um exército de tigres e perdido? — sussurrou Shiva, inclinando-se para perto de Raiden, embora sua voz ainda pudesse ser ouvida em metade do salão.

— Eu diria que ele ganhou, dependendo do ponto de vista — rebateu Raiden, com um sorriso malicioso, observando a forma como Qin mal conseguia manter os olhos abertos.

Hades, por outro lado, estava impecável. Se não fosse pelo leve desalinho em seu cabelo prateado e pelo brilho de satisfação possessiva em seus olhos, ninguém diria que ele passara a noite inteira em uma atividade que claramente exigira muito mais do que apenas "estratégia". Ele serviu uma xícara de chá para Qin, colocando-a cuidadosamente diante do humano.

— Beba, Qin — disse Hades, sua voz soando como um veludo profundo que fez Qin estremecer levemente. — Vai ajudar com o cansaço.

Qin resmungou algo inteligível, seus dedos tateando a xícara. Suas unhas, antes impecavelmente cuidadas, mostravam sinais de terem se agarrado a algo — ou alguém — com muita força.

— Alvitr — chamou Brunhilde, a voz carregada de uma mistura de irritação e choque. — Você é a Valquíria dele. Não deveria... não sei, intervir quando ele decide se envolver com o Rei do Submundo de forma tão... pública?

Alvitr, que estava devorando uma fatia de bolo enquanto observava a cena com um divertimento indisfarçável, deu de ombros.

— Brunhilde, querida, você já tentou parar um deslizamento de terra com as mãos? — perguntou a Valquíria. — Porque tentar parar o Qin quando ele quer algo é exatamente assim. Além disso... — ela olhou para o pescoço de Qin e soltou uma risadinha — ... parece que ele conseguiu o que queria. O "Rei Onde Eu Me Sento" finalmente encontrou um trono que o deixou sem fôlego.

Qin finalmente pareceu despertar um pouco com o comentário da amiga. Ele ergueu a cabeça, o rosto ainda marcado pela vermelhidão do sono e do excesso de estímulos.

— Alvitr... — sua voz saiu rouca, uma sombra do tom vibrante de costume. — Menos barulho. Sua voz está vibrando nos meus ossos.

— Oh, sinto muito, Sua Majestade — debochou ela, aproximando-se e apoiando os cotovelos na mesa. — Mas nós temos que conversar sobre essa sua nova "vestimenta". Você sabe que metade do palácio está apostando quanto tempo vai levar para o Hades te levar para Helheim permanentemente, certo?

Qin olhou para a camisa que vestia, passando a mão pela seda cara.

— É confortável — declarou ele, tentando recuperar um pouco de sua arrogância habitual, embora o efeito fosse anulado pelo fato de ele estar usando a peça como um vestido curto. — E Hades tem um gosto excelente para tecidos. E para outras coisas também.

Um silêncio constrangido caiu sobre a mesa. Ares parecia estar prestes a ter um colapso nervoso, enquanto Hermes apenas anotava algo em seu pequeno bloco, com um sorriso enigmático.

— Você não tem vergonha nenhuma, não é? — perguntou Poseidon, sua voz fria cortando o ar como uma lâmina. Ele olhava para o humano com um desdém que, no fundo, escondia uma perplexidade genuína. — Você é um rei. Deveria se portar como um, não como um... prêmio de guerra.

Hades inclinou a cabeça, seus olhos encontrando os do irmão. A temperatura na sala pareceu cair vários graus.

— Poseidon — disse Hades, o tom de aviso sendo claro o suficiente para fazer o Deus dos Mares estreitar os olhos. — Qin não é um prêmio. Ele é meu igual. E o que acontece entre nós nas sombras não é da conta de nenhum deus, nem mesmo da sua.

Qin, sentindo a tensão, esticou a mão e tocou o braço de Hades. A sinestesia toque-espelho enviou um eco da irritação protetora do deus para o seu próprio corpo, mas ele sorriu, um sorriso genuíno que suavizou suas feições exaustas.

— Está tudo bem, Hades — disse Qin, voltando-se para Poseidon. — Um rei sabe exatamente quando deve lutar e quando deve se render ao prazer. Se você nunca se sentiu assim, Poseidon, talvez seja por isso que seu mar é tão frio e solitário.

O comentário fez com que alguns deuses prendessem a respiração, esperando uma explosão, mas Poseidon apenas bufou e desviou o olhar, voltando a ignorar a existência de todos.

— Mas falando sério — interrompeu Zeus, que parecia estar se divertindo mais do que qualquer um ali —, aquela cena na boate... o cigarro... a dança... e agora isso. Vocês dois são a maior surpresa desse feriado. Quem diria que o estóico Hades e o extravagante Qin Shi Huang seriam tão... compatíveis?

— A ciência explica muita coisa, Lorde Zeus — interveio Nikola Tesla, ajustando suas bobinas portáteis que emitiam pequenos estalos. — A atração entre opostos é um princípio fundamental. No entanto, a intensidade da reação química entre esses dois sujeitos específicos desafia as leis da termodinâmica convencional. Eu adoraria realizar alguns testes de condutividade emocional se vocês permitirem...

— Nem pense nisso, Tesla — cortou Qin, finalmente conseguindo tomar um gole do chá. — Meus "testes" agora são estritamente privados.

A manhã prosseguiu com as zoações habituais. Os deuses e humanos, agora mais relaxados após as tensões do Ragnarok, não perdiam a oportunidade de cutucar o novo casal. Jack, o Estripador, aproximou-se de Qin com uma elegância sombria, oferecendo-lhe um pequeno prato de doces.

— Suas cores hoje são fascinantes, Imperador — comentou Jack, o olho brilhando por trás do monóculo. — Há um matiz de satisfação que eu raramente vi em seres vivos. Parece que o Senhor Hades possui uma... paleta de cores muito intensa.

Qin aceitou o doce, dando uma piscadela para o assassino.

— Você não faz ideia, Jack.

Enquanto o café da manhã terminava, Hades levantou-se, oferecendo a mão para Qin. O Imperador a aceitou sem hesitar, deixando-se ser guiado para fora do salão. Eles caminharam pelos jardins, longe dos olhares curiosos e das piadas incessantes.

— Eles nunca vão nos deixar em paz, você sabe disso — comentou Qin, parando sob a sombra de uma árvore de cerejeira que parecia florescer mesmo fora de época pela simples presença divina no local.

— Deixe que falem — respondeu Hades, puxando Qin para perto pela cintura. — Eles falam porque não compreendem. Não compreendem o que é encontrar alguém que pode ver através da coroa e da lenda.

Qin apoiou a cabeça no peito de Hades, fechando os olhos. O cheiro de sândalo e poder que emanava do deus o acalmava de uma forma que ele nunca imaginou ser possível.

— Eu ainda quero voltar àquela boate um dia — murmurou Qin, o espírito travesso voltando a brilhar. — Mas da próxima vez, eu quero ver você dançando.

Hades soltou uma risada curta, um som raro e precioso.

— Veremos, meu Imperador. Veremos.

— E você ainda me deve aquela rodada de bebidas — lembrou Qin, cutucando o peito de Hades. — Um rei nunca esquece suas dívidas.

— Eu pagarei cada uma delas — prometeu Hades, inclinando-se para um beijo que selou a promessa.

Longe dali, Alvitr observava os dois da sacada do palácio, balançando a cabeça com um sorriso. Ela sabia que a amizade dela com Qin agora teria que dividir espaço com algo muito maior e mais antigo, mas ela não se importava. Afinal, se alguém merecia um pouco de paz e paixão no meio de toda aquela loucura celestial, era o homem que carregava as cicatrizes de um império inteiro em sua alma.

O feriado estava longe de acabar, e o palácio ainda ecoaria com muitas risadas, zoações e, acima de tudo, a certeza de que, entre um imperador humano e um rei dos mortos, as estrelas e as sombras haviam finalmente encontrado um lugar para dançar juntas. No final das contas, Qin estava certo: onde ele se sentava era o seu trono, e ele nunca estivera tão confortável em seu lugar de direito quanto nos braços de Hades.