D9
O Banquete dos Reis e o Alvoroço no Valhalla
A quietude que se seguiu após o último encontro entre o Imperador da China e o Rei do Submundo foi apenas uma ilusão passageira. No Valhalla, as notícias corriam mais rápido que as flechas de Apollo, e o boato de que os aposentos de Hades haviam se tornado o epicentro de uma "atividade sísmica" de natureza puramente carnal já havia dado a volta nas arenas de treinamento.
Era uma noite de lua cheia, e o ar estava carregado com uma eletricidade que não vinha apenas das tempestades de Thor. Um grupo, que começou com apenas três curiosos, transformou-se em uma verdadeira procissão de figuras lendárias.
— Eu estou dizendo, o som que eu ouvi mais cedo desafia as leis da acústica! — exclamou Nikola Tesla, gesticulando freneticamente com seus esquemas magnéticos debaixo do braço. — As vibrações sugerem uma liberação de energia cinética sem precedentes em um ambiente fechado!
— Deixe de ser nerd, cientista — resmungou Leônidas I, ajustando o cabo de seu escudo. — Se o imperador chinês está lutando contra o deus dos mortos entre os lençóis, isso é uma questão de resistência e honra! Eu vim ver se eles ainda estão de pé.
Ao lado deles, o grupo crescia. Lu Bu caminhava em silêncio, sua presença imponente intimidando até os deuses menores que passavam, enquanto Adão, o Pai da Humanidade, observava tudo com uma expressão de leve preocupação paternal.
— Eles deveriam estar descansando para as próximas rodadas — murmurou Adão, mordendo uma maçã. — O vigor é importante, mas o sono também é.
— Ah, papai, deixe-os — riu Buda, flutuando em sua posição de lótus enquanto mastigava um chiclete de sabor exótico. — O amor é o maior nirvana que existe. Embora, eu admita, o Qin está levando o conceito de "conquista de território" a um nível bem literal.
Atrás deles, a ala dos deuses não ficava atrás. Zeus liderava o caminho com um sorriso malicioso, seguido por um Poseidon visivelmente irritado, que parecia estar ali apenas para garantir que seu irmão mais velho não estivesse sendo "desonrado" por um mortal.
— É uma reunião de família, Poseidon! — exclamou Zeus, dando uma cotovelada no Deus dos Mares. — E todos os humanos decidiram se juntar. É praticamente um festival!
— É um hospício — retrucou Poseidon, sua voz fria como as profundezas do oceano.
O corredor que levava à suíte real de Hades estava lotado. Jack, o Estripador, cantarolava uma melodia suave enquanto ajustava suas luvas, observando a "cor" da expectativa que emanava do grupo. Raiden Tameemon e Shiva discutiam técnicas de respiração, enquanto os jovens Soji Okita e Sakata Kintoki tentavam, sem sucesso, manter uma postura séria diante da situação absurda.
Até mesmo os mais reclusos estavam lá. Simo Häyhä permanecia nas sombras, seu olhar fixo na porta de carvalho, enquanto Rasputin já abria uma garrafa de vodka, oferecendo goles a um Nostradamus que saltitava de curiosidade.
— Eles estão em silêncio agora — sussurrou Kojiro Sasaki, encostando o ouvido na porta. — Esperem... eu ouço algo.
De repente, um som abafado ecoou de dentro do quarto. Não era um grito, nem um gemido, mas um estrondo seco, como se um móvel pesado tivesse sido arrastado, seguido por um suspiro longo e audível que atravessou a madeira maciça.
— Agora! — gritou Zeus, batendo na porta com a força de um trovão. — Hades! Abra essa porta! Queremos saber se o Imperador ainda é o dono do trono ou se você finalmente o enviou de volta para Helheim!
Houve um silêncio mortal do outro lado. Por alguns segundos, ninguém ousou respirar. Então, o som de trincos sendo liberados ecoou, lento e deliberado.
A porta se abriu.
Hades estava parado ali. Se o Rei do Submundo geralmente era a personificação da elegância e da compostura, aquela imagem era um contraste chocante. Sua túnica estava aberta até a cintura, revelando marcas avermelhadas de unhas em seu peito pálido. O cabelo platinado, sempre perfeitamente penteado, estava uma bagunça completa, com fios espetados para todos os lados. Ele parecia exausto, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação perigosa.
— O que — começou Hades, sua voz mais profunda e rouca do que o normal — significa esta interrupção?
— Viemos ver se vocês sobreviveram! — exclamou Shiva, rindo com seus quatro braços para o alto. — Pelo seu estado, parece que você foi atropelado por uma manada de elefantes sagrados!
Hades não respondeu de imediato. Ele apenas abriu mais a porta, permitindo que a luz do corredor iluminasse o interior do quarto.
A visão era caótica. O quarto, que outrora fora um exemplo de luxo e ordem, parecia o cenário de uma batalha final. Cortinas de seda estavam parcialmente arrancadas, vasos caríssimos jaziam em pedaços no chão e a mesa de carvalho que Qin tanto gostava estava virada de lado.
No centro de tudo, na imensa cama de dossel cujos lençóis estavam emaranhados como se um furacão tivesse passado por ali, estava Qin Shi Huang.
O Imperador da China estava deitado de costas, os braços abertos, olhando fixamente para o teto ornamentado. Sua venda estava caída no chão, revelando os olhos que viam o chi, agora focados em nada além do vazio pós-êxtase. Ele estava coberto apenas por um lençol de seda preta que mal escondia as marcas de posse deixadas por Hades em seus ombros e pescoço.
— Qin? — chamou Adão, dando um passo à frente com preocupação. — Você está bem, meu filho?
Qin não se moveu por um momento. Então, lentamente, um sorriso arrogante e satisfeito começou a se desenhar em seus lábios. Ele soltou uma risada baixa, um som que vibrou com triunfo.
— Hao... — murmurou ele, a voz falhando ligeiramente. — O Rei do Submundo... realmente sabe como servir ao seu Imperador.
— Ele ainda está vivo! — gritou Okita, aliviado, embora estivesse vermelho como um pimentão ao ver o estado do chinês.
— Vivo? — Qin finalmente se sentou, o lençol escorregando e revelando ainda mais de sua pele marcada. Ele não parecia nem um pouco envergonhado; pelo contrário, ele agia como se estivesse recebendo súditos em sua sala de trono. — Eu nunca me senti tão pleno. Hades, meu querido... acho que você quebrou algo em minhas costas.
Hades soltou um suspiro cansado, encostando-se no batente da porta e cruzando os braços, ignorando os olhares maliciosos de seus irmãos.
— Você foi quem exigiu que eu não me contivesse, Qin — retrucou o deus, embora houvesse uma ternura inegável em seu tom. — Se suas costas doem, a culpa é da sua própria teimosia em tentar dominar a situação.
— Um imperador nunca se curva! — exclamou Qin, tentando se levantar, mas soltando um gemido baixo e voltando a cair nos travesseiros. — Exceto... talvez... por breves momentos de negociação estratégica.
— Negociação estratégica? — Thor levantou uma sobrancelha, olhando para o Mjölnir e depois para o quarto destruído. — Você luta melhor na cama do que muitos guerreiros na arena, humano.
— É a técnica do toque-espelho — explicou Tesla, ajustando os óculos enquanto analisava o ambiente. — Se ele sente a dor do oponente, ele também deve sentir o prazer do parceiro em uma escala logarítmica! É fascinante! A sobrecarga sensorial deve ser estratosférica!
— É por isso que ele grita tanto? — perguntou Leônidas, cruzando os braços. — Porque eu juro que ouvi algo que parecia um falcão sendo depenado lá do meu quarto.
Qin soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás.
— Isso, meu caro espartano, foi o som da vitória! Onde eu me sento, é o meu trono. E esta noite, o trono foi... bem, o quarto inteiro.
Hércules, que estava na retaguarda, cobriu o rosto com uma das mãos, sentindo-se profundamente constrangido.
— Irmão, por favor... feche a porta. Isso é privado demais, mesmo para nós.
— Privado? — Zeus se intrometeu, tentando espiar por debaixo do braço de Hades. — Bobagem! Isso é o que mantém o Valhalla vivo! Diga-me, Hades, como é a sensação de ser derrotado por um mortal em seu próprio quarto?
Hades lançou um olhar tão gélido para Zeus que o Deus do Olimpo deu um passo atrás involuntário.
— Eu não fui derrotado — disse Hades com uma calma letal. — Nós chegamos a um acordo mútuo de destruição total. Agora, se todos vocês já terminaram de agir como crianças curiosas, eu gostaria de limpar o meu quarto e garantir que meu marido possa andar amanhã.
— Oh, eu vou andar — provocou Qin da cama, apontando para Hades com um dedo trêmulo, mas imperioso. — Mas você vai me carregar até o banho primeiro. É uma ordem real!
Hades revirou os olhos, mas o pequeno sorriso que surgiu no canto de sua boca não passou despercebido por ninguém.
— Como desejar, meu imperador — respondeu o deus, virando-se para o grupo. — Fora. Todos vocês. Agora.
Beelzebub, que estava parado no fundo, apenas deu de ombros e começou a se afastar.
— A frequência cardíaca deles está voltando ao normal. O experimento acabou.
— Esperem! — gritou Rasputin, levantando sua garrafa. — Um brinde ao casal! À força do Submundo e ao orgulho da China! Que suas noites continuem a tremer as fundações do Valhalla!
— Um brinde! — ecoaram os outros humanos, enquanto os deuses, entre risos e resmungos, começavam a se dispersar pelo corredor.
Apollo deu uma piscadinha para Qin antes de sair.
— Belas marcas, Imperador! O vermelho combina com você!
Poseidon foi o último a sair, lançando um olhar de desdém final para o caos do quarto.
— Patético — murmurou ele, embora tenha fechado a porta com uma suavidade incomum.
Quando o silêncio finalmente retornou ao aposento, Hades caminhou até a cama. Ele se sentou na borda, observando Qin, que agora fechava os olhos, exausto, mas com um sorriso de orelha a orelha.
— Você gosta de um espetáculo, não gosta? — perguntou Hades, passando a mão pelo rosto de Qin.
— Eu sou o Primeiro Imperador, Hades — respondeu Qin, abrindo um dos olhos e puxando a mão do deus para beijar a palma. — O mundo é o meu palco. E você... você é o meu co-protagonista favorito.
Hades inclinou-se, encostando a testa na de Qin.
— Da próxima vez, tente não gritar tão alto que acorde o Odin. Ele já é mal-humorado o suficiente.
— Não prometo nada — riu Qin, puxando Hades para um beijo calmo e profundo, o barulho do mundo exterior finalmente esquecido diante da única soberania que realmente importava para ambos: a que compartilhavam entre quatro paredes.
— Hao... — sussurrou Hades contra os lábios de Qin, rendendo-se à vontade de seu imperador.
E no silêncio do Submundo, o amor dos reis brilhava mais forte do que qualquer sol do Valhalla.