D9
O Brilho do Trono Sobre a Sombra do Escárnio
A manhã no Valhalla nasceu sob um manto de tensão e murmúrios. Após o episódio "estrondoso" nos aposentos de Hades, a atmosfera entre os deuses e os humanos havia mudado. Enquanto alguns humanos olhavam para Qin Shi Huang com uma mistura de orgulho e diversão, uma facção específica de deuses menores e divindades aristocráticas, lideradas por figuras que desprezavam a "humanidade insolente", sentia que a dignidade do Submundo havia sido manchada.
No grande pátio central, onde as estátuas de mármore divino erguiam-se como sentinelas, um banquete improvisado fora montado. Era um momento de trégua forçada, mas o veneno estava no ar.
Qin Shi Huang caminhava pelo pátio com sua elegância habitual. Ele vestia suas túnicas imperiais mais luxuosas, as unhas longas e douradas brilhando sob o sol artificial do reino celestial. Sua venda cobria os olhos, mas seu sorriso — aquele sorriso que irradiava uma autoconfiança quase irritante — permanecia intacto.
— Vejam só — sibilou uma divindade menor da corte de Admeto, cercada por outros deuses que compartilhavam seu desdém. — O "Imperador" que se deita com o nosso Rei do Submundo como se fosse um prêmio.
Qin parou. Ele não precisava ver para sentir o chi carregado de malícia à sua frente.
— Onde eu me sento, é o meu trono — murmurou Qin, sua voz suave, mas carregada de uma autoridade que fez o ar vibrar. — Mas parece que alguns de vocês ainda não aprenderam a etiqueta básica de como se dirigir a um soberano.
— Soberano? — Um deus de estatura média, vestido com sedas gregas e uma expressão de puro nojo, deu um passo à frente. — Você não passa de um mortal que usou o corpo para escalar até o leito de um deus. Você humilhou Hades, transformando a seriedade de Helheim em uma piada de corredor. Você é uma mancha na linhagem real.
O silêncio caiu sobre o pátio. Humanidades e deuses pararam para observar. Brunhilde, observando de uma sacada distante ao lado de Göll, apertou o corrimão.
— Eles estão cutucando um dragão com uma vara curta — comentou Brunhilde, um brilho perigoso em seus olhos.
No centro do pátio, Qin Shi Huang inclinou a cabeça levemente para o lado. Ele não parecia ofendido; parecia... entediado.
— Uma mancha? — Qin soltou uma risada curta e melódica. — Você fala de linhagem, mas treme diante da minha presença. Eu sinto o fluxo do seu chi... ele está errático, como o de um servo que teme o chicote.
— Como ousa! — gritou o deus, invocando uma pequena centelha de poder em suas mãos. — Você é apenas um humano que teve sorte! Um rei de barro!
Qin deu um passo à frente. O movimento foi tão fluido que parecia que ele deslizava sobre o mármore.
— Sorte? — Qin parou a centímetros do rosto do deus. — Eu unifiquei o que era dividido. Eu dei nome ao que era caos. Eu sou o Primeiro, o Início e o Fim da história do meu povo. Eu não pedi permissão para ser Rei, eu decidi que o mundo seria meu.
Ele estendeu a mão, tocando levemente o ombro do deus com suas unhas douradas.
— E quanto a Hades... — O sorriso de Qin tornou-se algo predatório e profundamente íntimo. — Ele não me vê como um prêmio ou como uma ferramenta. Ele me vê como seu igual. Algo que nenhum de vocês jamais será. Vocês são apenas sombras que vivem sob a luz dos grandes, esperando por migalhas de atenção.
— Chega! — Outro deus, mais forte, tentou intervir, avançando com uma lança cerimonial. — Você fala demais para alguém que fede a mortalidade!
Mas antes que a lança pudesse sequer se aproximar de Qin, uma pressão esmagadora caiu sobre o pátio. O ar ficou pesado, frio e carregado com o cheiro de terra úmida e morte antiga.
Hades caminhava pelo corredor de colunas, seu bidente em mãos, a expressão mais sombria do que qualquer um ali já vira.
— Eu ouvi meu nome ser mencionado — disse Hades, sua voz ecoando como o fechar de um caixão. — E ouvi termos como "mancha" e "humilhação".
Os deuses que tentavam intimidar Qin empalideceram instantaneamente, recuando vários passos.
— Senhor Hades! — gaguejou o primeiro deus. — Estávamos apenas... lembrando a este humano o seu lugar! Ele tem sido desrespeitoso com a sua imagem!
Hades parou ao lado de Qin. Ele não olhou para os deuses menores; seu olhar estava fixo em Qin, que permanecia relaxado, quase divertido com a situação.
— O lugar de Qin Shi Huang — disse Hades, cada palavra pesando como uma tonelada — é exatamente onde ele desejar estar. Se ele deseja estar no meu trono, o trono é dele. Se ele deseja estar ao meu lado, o Submundo se curva a ele.
Hades então voltou seus olhos frios para as divindades.
— Qualquer insulto direcionado a ele é um insulto direcionado a mim. E eu garanto que Helheim tem celas muito profundas para aqueles que esquecem quem governa o Submundo.
Os deuses menores caíram de joelhos, tremendo. Mas Qin, em vez de se satisfazer com a proteção do marido, deu um passo à frente, afastando-se levemente de Hades.
— Hades, meu querido — disse Qin, a voz cheia de uma arrogância brilhante —, eu agradeço o gesto. Mas um Imperador não precisa que seu consorte lute suas batalhas de palavras.
Qin voltou-se para os deuses ajoelhados.
— Vocês dizem que eu sou um rei de barro? — Qin removeu a venda de seus olhos por um breve momento, revelando as pupilas que viam a essência da vida. — Olhem para mim. Vejam as cicatrizes que carrego. Cada uma delas é um reino que conquistei. Cada dor que senti, eu transformei em poder. Eu não sou um deus por nascimento, eu sou algo muito mais aterrorizante: eu sou um homem que se tornou um deus por pura força de vontade.
Ele caminhou entre os deuses ajoelhados, sua capa vermelha balançando como uma bandeira de guerra.
— Vocês se escondem atrás de títulos e linhagens. Eu me escondo atrás de nada. Eu sou Qin Shi Huang. Onde eu piso, a terra reconhece seu mestre. Se vocês acham que o que aconteceu entre mim e Hades foi uma humilhação para ele... — Qin parou e olhou por cima do ombro para Hades, com um brilho desafiador. — ...é porque vocês não têm a menor ideia do que significa ser amado por um igual.
Hades soltou uma risada curta, uma mistura de orgulho e desejo, cruzando os braços enquanto observava seu marido dominar o pátio.
— Hao! — exclamou Qin, voltando a colocar a venda. — Agora, saiam da minha frente. Vocês estão bloqueando a vista do meu império.
Os deuses menores fugiram como ratos, desaparecendo pelos corredores laterais. Os humanos presentes — Lu Bu, Raiden, Kojiro e os outros — começaram a aplaudir e rir.
— Esse é o nosso Rei! — gritou Raiden, batendo no peito. — Mostrou pra eles quem é que manda!
— Uma performance esplêndida — comentou Jack, o Estripador, fechando seu relógio de bolso. — A cor da alma dele... é de um dourado quase ofuscante.
Hades aproximou-se de Qin, colocando uma mão em sua cintura, reivindicando-o silenciosamente diante de todos.
— Você gosta de criar confusão, não gosta? — sussurrou o Deus do Submundo no ouvido do imperador.
— Eu não crio confusão, Hades — respondeu Qin, inclinando a cabeça para sentir o hálito do marido. — Eu apenas lembro às pessoas a ordem natural das coisas. E a ordem natural é que eu estou no topo.
— E eu estou logo ali com você — disse Hades, beijando a têmpora de Qin.
— Exatamente — sorriu o chinês. — Agora, vamos sair daqui. Este lugar ficou... vulgar. Eu quero aquele vinho que você guarda na adega privada. E quero que você me sirva.
— Como desejar, meu Imperador — murmurou Hades, guiando-o para longe da multidão.
Enquanto se afastavam, os outros lutadores do Ragnarok observavam a dupla.
— Eles são um problema — comentou Zeus, coçando a barba enquanto observava as costas de seu irmão e do humano. — Mas, pelos deuses... que casal magnífico eles formam.
— Sim — concordou Adão, com um olhar sereno. — Eles se encontraram no meio de todo esse ódio. É quase... bonito.
— É mais do que bonito, papai — disse Buda, saltando de sua posição flutuante. — É a prova de que, seja você um deus ou um humano, se você for foda o suficiente, o universo inteiro se ajoelha. E Qin... bem, ele nasceu para ser o mestre de cerimônias.
Longe dali, nos corredores silenciosos que levavam de volta ao luxo, Qin Shi Huang parou por um segundo, sentindo o peso da mão de Hades em sua cintura. Ele sabia que a batalha do Ragnarok ainda não havia terminado, que o destino da humanidade ainda estava por um fio. Mas, naquele momento, cercado pelo poder de um deus que o amava e pela certeza de sua própria grandeza, Qin sentia-se invencível.
— Hades — disse Qin, parando em frente à porta de seus aposentos.
— Sim? — perguntou o deus, parando ao seu lado.
— Da próxima vez que alguém tentar me humilhar... — Qin sorriu, um sorriso que continha séculos de história e conquista. — ...deixe-os terminar. Eu gosto de ver a esperança morrendo nos olhos deles quando percebem que não podem me quebrar.
Hades olhou para o marido, sentindo aquela familiar onda de admiração e paixão.
— Você é um homem perigoso, Qin Shi Huang.
— Eu sou o Imperador — corrigiu Qin, empurrando a porta. — E você é o meu Rei. Agora, venha. Temos um trono para... redecorar.
A porta se fechou, deixando o Valhalla para trás com suas intrigas e deuses menores, enquanto dentro do quarto, o único império que importava era o que existia entre dois corações que se recusavam a ser qualquer coisa menos que absolutos.