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D9

Lágrimas de um Imperador: O Trono de Seda e Êxtase

O silêncio nos corredores da ala privada do Valhalla era, geralmente, um sinal de respeito ou de medo. Mas, naquela noite, o silêncio era espesso, carregado de uma tensão que fazia os pelos da nuca de qualquer um se arrepiarem. Os representantes da humanidade e os deuses mais curiosos haviam se tornado frequentadores assíduos daquela área, movidos por uma mistura de fascínio e incredulidade diante do relacionamento entre o Primeiro Imperador e o Rei do Submundo.

No entanto, o som que rompeu a quietude não foi o habitual grito de comando de Qin ou a risada sombria de Hades. Foi um soluço. Um som baixo, quebrado, carregado de uma vulnerabilidade que ninguém jamais associaria ao homem que unificou a China.

— Vocês ouviram isso? — sussurrou Soji Okita, parando subitamente no meio do corredor. — Parecia... um choro.

— Não seja idiota, garoto — resmungou Leônidas, embora tenha diminuído o passo. — Qin não chora. Ele é orgulhoso demais para deixar uma lágrima cair, mesmo que estivesse sendo torturado.

— Mas foi dele — insistiu Nikola Tesla, ajustando um dispositivo de captação sonora que ele jurava ser apenas para fins científicos. — A frequência vocal corresponde perfeitamente ao espectro do Imperador. E soou... doloroso.

Do outro lado da porta, a cena era de uma intensidade que as palavras mal podiam descrever. O quarto estava mergulhado em uma penumbra dourada, iluminado apenas por algumas velas que projetavam sombras dançantes nas paredes. Qin Shi Huang estava deitado de bruços, o rosto enterrado nos travesseiros de seda, os dedos cravados nos lençóis com tanta força que o tecido começava a ceder.

Sua respiração era um caos. Ele tremia da cabeça aos pés, e as lágrimas que Okita ouvira realmente escorriam por seu rosto, molhando a seda cara.

Hades estava sobre ele, uma presença maciça e implacável. O Rei do Submundo não tinha um único traço de sua habitual calma diplomática. Seus olhos brilhavam com um desejo possessivo, e seus movimentos eram lentos, profundos e carregados de uma força que parecia querer fundir as duas almas em uma só.

— Hades... — a voz de Qin saiu em um fiapo, quebrada por um soluço que ele não conseguiu conter. — Pare... eu... eu não consigo...

Hades parou por um segundo, seus dedos acariciando as costas de Qin, onde a marca da sinestesia toque-espelho brilhava intensamente. Devido à sua condição, Qin não estava sentindo apenas o prazer físico; ele estava sentindo cada grama da devoção avassaladora de Hades, cada centelha de sua fome divina, e o peso de um amor que era grande demais para um corpo humano suportar.

— Você me desafiou, meu imperador — sussurrou Hades, inclinando-se para morder levemente o ombro de Qin. — Você disse que o Rei do Submundo não seria capaz de fazer você se render totalmente.

— Eu... eu retiro o que disse — arfou Qin, virando o rosto para o lado, os olhos nublados e vermelhos pelo esforço. — Por favor... dói... dói de um jeito que eu não... Ah!

Hades recomeçou, ignorando o protesto, sabendo exatamente que aquela "dor" era, na verdade, o limite extremo do prazer que Qin tanto buscava. Ele queria levar Qin ao ponto onde a arrogância morria e apenas a essência do homem permanecia.

Lá fora, o grupo de ouvintes aumentava. Zeus, Poseidon e até mesmo o silencioso Simo Häyhä agora estavam presentes. O som de mais um soluço alto de Qin, seguido por um gemido que soou como um pedido de socorro, fez o ambiente gelar.

— Ele o está machucando? — perguntou Hércules, com a mão já no punho de sua arma fictícia, a expressão tomada por uma preocupação genuína. — Hades nunca faria isso... faria?

— O Rei do Submundo é impiedoso quando quer — murmurou Poseidon, embora seus olhos estivessem semicerrados. — Mas isso... isso soa excessivo, até para ele.

— Precisamos entrar lá! — exclamou Göll, tremendo atrás de Brunhilde. — O senhor Qin está sofrendo! Ele está chorando de verdade!

Brunhilde hesitou. Ela conhecia Qin. Sabia que ele preferiria morrer a ser visto naquele estado de vulnerabilidade se fosse algo humilhante. Mas os sons que vinham do quarto eram cada vez mais desesperados.

— Hades! — gritou Zeus, batendo na porta com o punho fechado. — Irmão, controle-se! Você vai acabar matando o humano antes da próxima rodada!

Dentro do quarto, o som das batidas de Zeus foi ignorado. Hades segurou os pulsos de Qin, prendendo-os acima da cabeça do imperador, e inclinou-se para sussurrar em seu ouvido, a voz vibrando com uma autoridade inquestionável.

— Olhe para mim, Qin.

Lentamente, com um esforço hercúleo, Qin virou o rosto. Seus olhos, geralmente tão cheios de desdém e brilho real, estavam abertos e transbordando lágrimas. Ele parecia uma criança perdida e, ao mesmo tempo, um homem que acabara de descobrir o segredo do universo.

— Você está sentindo, não está? — perguntou Hades, sua voz suavizando-se apenas um pouco. — Não é dor, Qin. É a entrega. É o momento em que você deixa de ser o imperador e se torna apenas meu.

— Eu... eu odeio você por isso — soluçou Qin, embora tenha empurrado o quadril contra o de Hades em uma contradição óbvia. — Eu odeio sentir que não tenho... controle... Ah, deuses!

— Você nunca teve o controle comigo — disse Hades, intensificando o ritmo uma última vez, levando ambos ao abismo.

O grito que escapou de Qin Shi Huang naquele momento foi algo que o Valhalla jamais esqueceria. Não foi um grito de guerra, nem um grito de dor física pura. Foi um som agudo, límpido, que carregava uma carga emocional tão vasta que os humanos no corredor sentiram um aperto no peito. Foi o som de uma alma sendo completamente dominada.

Então, o silêncio. Um silêncio pesado e absoluto.

— Acabou? — perguntou Raiden, limpando o suor da testa. — Ele parou de gritar.

— E de chorar — acrescentou Kojiro, preocupado. — Alguém abra essa porta. Agora.

Antes que Leônidas pudesse chutar a madeira, a porta se abriu lentamente.

Hades estava parado ali. Ele parecia ter passado por uma tempestade. Sua camisa estava rasgada, seu peito exibia marcas de arranhões profundos e seu rosto ainda carregava o rubor do esforço. Mas o que chamou a atenção de todos foi a expressão de proteção absoluta em seu olhar.

— O que vocês pensam que estão fazendo? — perguntou Hades, a voz baixa e perigosa.

— Ouvimos o Qin chorar, Hades! — exclamou Zeus, tentando olhar para dentro. — Você passou dos limites! O homem estava soluçando como se estivesse sendo desmembrado!

Hades deu um passo para o lado, permitindo que a luz do corredor entrasse parcialmente no quarto.

Qin Shi Huang estava sentado na cama, envolto em um cobertor de pele grossa. Seu rosto estava inchado, os olhos vermelhos e as trilhas de lágrimas ainda eram visíveis em suas bochechas. Ele parecia... devastado. Mas, quando ele viu a multidão na porta, algo do velho imperador brilhou por um segundo.

— O que... — Qin tentou falar, mas sua voz falhou miseravelmente, saindo como um sussurro rouco. Ele tossiu e tentou novamente. — O que vocês estão olhando?

— Qin, você está bem? — perguntou Adão, dando um passo cauteloso para dentro. — Nós ouvimos você chorar. Hades te machucou?

Qin olhou para Adão, depois para Hades, e então para suas próprias mãos que ainda tremiam violentamente. Um silêncio constrangedor se instalou. Então, para a surpresa de todos, Qin soltou uma risada fraca e trêmula, que logo se transformou em um novo soluço, embora desta vez fosse acompanhado de um sorriso.

— Machucou? — Qin limpou uma lágrima com as costas da mão, a voz ainda instável. — Ele... ele me destruiu.

— Eu vou matar esse deus! — rosnou Lu Bu, segurando sua lança, mas Qin levantou a mão, interrompendo-o.

— Não, seu idiota — disse Qin, recuperando um pouco de sua postura, embora ainda parecesse que poderia desmaiar a qualquer momento. — Ele me destruiu do único jeito que um rei aceitaria ser destruído. Eu nunca... eu nunca senti nada parecido. Foi... foi demais. Meu corpo simplesmente não sabia como reagir, então... eu chorei.

Hades caminhou de volta para o lado da cama e colocou a mão no ombro de Qin. O imperador imediatamente se inclinou para o toque, fechando os olhos e soltando um suspiro de puro contentamento.

— Ele é um humano teimoso — explicou Hades para o grupo atônito na porta. — Ele tentou lutar contra a própria sensação até o último segundo. O choro foi apenas o resultado da sobrecarga da sinestesia dele. Ele está perfeitamente bem.

— Bem? — questionou Jack, o Estripador, observando a cor da aura de Qin, que agora brilhava em um tom de ouro e lavanda profundo, a cor da satisfação absoluta. — Ele parece ter visto o próprio Criador e voltado para contar a história.

— Eu vi — murmurou Qin, olhando para Hades com uma intensidade que fez os deuses presentes desviarem o olhar. — Eu vi o que significa ser verdadeiramente amado por um Deus.

Zeus soltou uma risada longa e barulhenta, quebrando a tensão.

— Bem, parece que o alarme foi falso! Nosso irmão apenas levou o imperador para uma viagem sem volta ao paraíso!

— Ou ao inferno — brincou Buda, dando de ombros. — Mas, vindo do Hades, deve ser a mesma coisa.

— Agora, se não se importam — disse Hades, começando a fechar a porta —, meu marido precisa de repouso. E eu pretendo garantir que ele não seja incomodado por mais ninguém.

— Esperem! — gritou Qin, fazendo um esforço para se sentar mais ereto, o cobertor escorregando e revelando as marcas roxas em seu pescoço. — Antes de irem...

Todos pararam.

— Digam aos outros — disse Qin, o sorriso arrogante retornando plenamente ao seu rosto, apesar das marcas de lágrimas. — Digam que o Primeiro Imperador da China não se curva a ninguém... exceto quando o Rei do Submundo pede com jeitinho.

Hades revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o brilho de adoração em seu olhar enquanto fechava a porta na cara dos espectadores.

No corredor, o grupo começou a se dispersar.

— Isso foi... esclarecedor — comentou Kojiro, coçando a cabeça. — Eu nunca pensei que ouviria o Qin chorar daquela forma por prazer.

— É a intensidade deles — disse Brunhilde, suspirando de alívio. — Eles são dois extremos que se colidiram. O resultado nunca seria algo silencioso ou calmo.

Dentro do quarto, o silêncio era agora confortável. Hades sentou-se na cama e puxou Qin para o seu colo. O chinês não protestou, aninhando-se no peito do deus como se aquele fosse o único lugar seguro em todo o Valhalla.

— Você me assustou — admitiu Hades em voz baixa, beijando o topo da cabeça de Qin. — Por um momento, achei que realmente tinha passado do ponto.

— Eu disse para você não parar — lembrou Qin, a voz voltando ao normal, embora ainda suave. — Eu precisava daquilo, Hades. Eu precisava sentir que, por um momento, eu não tinha que ser o pilar de ninguém. Eu podia apenas... ser.

— Você sempre pode ser apenas você comigo, Qin.

Qin levantou o rosto, os olhos agora limpos, brilhando com uma determinação renovada.

— Mas da próxima vez... — Qin deu um sorrisinho malicioso — ...eu vou fazer você chorar.

Hades soltou uma risada rica e profunda, apertando Qin em seus braços.

— Eu adoraria ver você tentar, meu imperador.

— Ah, eu não vou tentar — disse Qin, fechando os olhos e deixando-se levar pelo cansaço feliz. — Eu sou o Rei. E um rei sempre consegue o que quer.

E enquanto o Valhalla voltava à sua rotina de batalhas e intrigas, no coração do Submundo, o Imperador e o Rei descansavam na glória de uma entrega que nenhum outro ser, divino ou mortal, jamais seria capaz de compreender plenamente. O choro de Qin não foi um sinal de fraqueza, mas o coroamento de uma união que desafiava a própria morte.