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dama e o vagabundo

Batida do Coração e o Baile do Reencontro

A ladeira da Vila Áurea parecia mais viva do que nunca naquela noite. O som dos paredões já ecoava lá de baixo, fazendo o chão vibrar sob os meus pés. Cheguei na casa da Rita e bati no portão com o ritmo da nossa amizade. Quando ela abriu, entreguei o pacote pardo que meu tio Bada tinha mandado e o maço de cigarros que eu tinha "descolado".

— Tá aqui, Ritinha. Missão cumprida — falei, entrando e jogando minha mochila no sofá.

— Valeu, Hanna! Você é um anjo, de verdade. Se não fosse por você, eu ia ter que subir aquela ladeira com o sol rachando — Rita disse, já abrindo o pacote e conferindo o conteúdo com aquele olhar atento de quem sabe o valor de cada grama do seu corre.

— Agora, deixa isso de lado e vamos focar no que importa — interrompeu Cacau, saindo do banheiro com uma chapinha na mão. — Hoje tem baile, e a gente não vai descer pra pista de qualquer jeito.

Passamos as horas seguintes naquele ritual que eu amava: música alta no radinho, cheiro de perfume doce e laquê, e muita risada. Eu retoquei a maquiagem, destacando bem os olhos castanhos, e deixei meu cabelo preto com as mechas azuis bem soltas, caindo pelas costas. Escolhi um short jeans desfiado, um cropped preto que valorizava meu corpo e meu tênis branco da Nike, que eu mantinha limpo como se fosse uma joia.

— Você tá gata demais, Hanna — comentou Rita, ajeitando o próprio argolão. — Cuidado pro Doni não ficar babando e esquecer as letras das músicas.

— Ah, para com isso! O Doni é meu irmãozinho, você sabe — rebati, mas no fundo, meu coração deu um pequeno solavanco. Não pelo Doni, mas pelo ambiente de baile, que sempre trazia memórias que eu tentava enterrar.

Quando finalmente descemos para o fluxo, a Vila estava em transe. Luzes coloridas, o cheiro de churrasquinho e o grave do funk que batia no peito. Fomos direto para perto do palco, onde o movimento era mais intenso. Avistei o Nando e o Doni conversando com uns caras. O Nando, com aquele jeito sério dele, parecia estar cuidando de tudo, enquanto o Doni transbordava aquela energia de quem estava prestes a conquistar o mundo.

— Salve, família! — gritei, chegando perto deles.

— Olha só, se não é a dona do azul mais perigoso da favela — Doni brincou, me dando um abraço rápido. — Tá bonitona, hein, Hanna?

— Eu sempre tô, Donizete. Você que demora pra perceber — respondi, rindo.

De repente, o DJ trocou a batida. Começou a tocar uma melodia que eu conhecia bem. Era a música nova do Doni, aquela que ele tinha me mostrado no salão. Meu sorriso aumentou, pronta para comemorar com ele, mas o sorriso morreu quando ouvi a voz. Não era o Doni cantando. Era um outro MC qualquer, usando a letra, o flow e a alma que o meu amigo tinha colocado naquela composição.

Olhei para o Doni e vi o rosto dele fechar na hora. O clima pesou. Nando cruzou os braços, com um olhar que prometia tempestade. Eu senti o estômago embrulhar. Eu odeio confusão, odeio a energia de briga que começa a subir quando algo assim acontece.

— Eu vou dar um giro, gente — anunciei, sem esperar resposta. — Preciso de um ar.

— Hanna, espera! — Rita tentou chamar, mas eu já estava me esquivando entre as pessoas.

Caminhei até uma parte mais afastada, perto de uma parede de tijolo aparente, longe do clarão principal do palco. Ali o som era mais abafado e eu conseguia respirar. Tirei um dos cigarros do bolso, mas antes mesmo de acender, senti uma presença incômoda.

— E aí, azulzinha? Tá sozinha por que? Uma boneca dessas não pode ficar perdida no escuro — um homem alto, que eu nunca tinha visto na quebrada, encostou o braço na parede, me cercando. O cheiro de bebida era forte.

— Não tô sozinha não, moço. Meu pessoal tá logo ali — respondi seca, tentando passar por baixo do braço dele.

— Calma aí, não precisa ter pressa. Vamos trocar uma ideia, você é muito linda — ele insistiu, segurando meu braço com uma força que começou a me deixar assustada.

— Solta ela agora.

A voz veio de trás dele. Uma voz rouca, firme, que eu reconheceria em qualquer lugar, mesmo depois de meses tentando esquecer. O homem se virou, irritado.

— E quem é você, ô comédia?

— Sou o cara que vai te quebrar se você não tirar a mão da minha namorada — Pulga disse, dando um passo à frente. Ele não estava brincando. O olhar dele estava frio, fixo no cara.

O homem mediu o Pulga de cima a baixo, viu a postura de quem não tinha medo de nada e resolveu que aquela briga não valia a pena.

— Foi mal, não sabia que tinha dono — resmungou e saiu andando, sumindo na multidão.

O silêncio caiu entre nós, quebrado apenas pelo batidão distante. Meu coração estava disparado, mas não era mais pelo susto do estranho. Era pelo Pulga estar ali, tão perto.

— Você tá bem? — ele perguntou, a voz suavizando um pouco, mas ainda mantendo aquela distância defensiva.

— O que deu em você, Pulga? — perguntei, sentindo uma mistura de alívio e raiva subindo pela garganta.

— Como assim, o que deu em mim? O cara tava te incomodando, eu só ajudei — ele respondeu, desviando o olhar para o chão.

— Não, não é disso que eu tô falando. "Minha namorada"? Sério? — Cruzei os braços, sentindo meus olhos arderem. — Meses atrás, quando eu tomei coragem e disse que gostava de você, você me deu um fora. Disse que não sentia o mesmo, que a gente era só amigo. E agora você aparece do nada fazendo cena de ciúme?

Pulga suspirou pesado, passando a mão pelo cabelo. Ele parecia travado, como se as palavras estivessem entaladas.

— Hanna, não é tão simples...

— É simples sim! Eu me senti uma idiota. Achei que tinha estragado a nossa amizade por causa de um sentimento que só eu tinha — desabafei, a voz tremendo um pouco.

— Eu sentia o mesmo, tá legal? — ele disparou, finalmente olhando para mim. — Eu sempre senti.

Eu paralisei. O mundo ao redor pareceu ficar mudo.

— Então por que você mentiu? Por que me deixou sofrer daquele jeito?

— Porque eu tive medo, Hanna! — Ele deu um passo para mais perto, e eu pude ver a angústia nos olhos dele. — Naquela época, o pessoal ficava comentando, fazendo piada... Eu achei que o que você tinha me falado era uma aposta. Que as suas amigas tinham te desafiado a ver se o "Pulga" caía na sua. Eu não queria ser motivo de chacota, não queria ser o otário da vez.

— Uma aposta? — Eu fiz uma cara de total indignação. — Pulga, você me conhece desde pequena. Você sabe que eu odeio esse tipo de coisa. Eu nunca brincaria com o que eu sinto.

— Eu sei disso agora. Mas na hora, a cabeça ficou confusa — ele admitiu, a voz baixa. — Eu me arrependi no segundo em que vi você saindo chorando, mas o orgulho foi maior.

Ficamos nos olhando por um longo tempo. A mágoa ainda estava lá, mas a verdade dele também. O barulho do baile parecia estar em outro planeta.

— Vamos sair daqui? — ele sugeriu. — A gente precisa conversar de verdade, sem esse barulho todo.

Eu apenas assenti. Ele pegou na minha mão — um toque morno que enviou choques pelo meu braço — e me guiou por entre as vielas, longe do palco, longe da Rita e do Doni, até chegarmos na casa dele. Era um lugar simples, mas que ele mantinha com cuidado.

Assim que entramos, ele acendeu a luz da sala. O silêncio da casa era quase ensurdecedor depois de tanto barulho. Pulga se encostou na mesa, ainda segurando aquele ar de quem tinha muito a dizer, mas não sabia por onde começar.

— Eu realmente gosto de você, Hanna. De verdade — ele começou a falar, mas a voz estava diferente.

Ele não conseguia olhar nos meus olhos. Enquanto falava, o olhar dele descia para a minha boca e voltava para o meu pescoço, num ciclo hipnótico. Eu sentia a tensão sexual crescendo entre nós, uma eletricidade que tornava o ar pesado.

— Eu tentei te esquecer, tentei ficar com outras garotas, mas sempre que eu fechava os olhos, era aquele seu sorriso abusado e esse seu cabelo azul que apareciam — ele continuou, dando um passo na minha direção.

Eu estava encostada na porta, sentindo meu corpo reagir à proximidade dele.

— Você me machucou muito, Pulga — sussurrei, embora minha resistência estivesse derretendo.

— Eu sei. E eu vou passar o resto da vida tentando compensar isso, se você me deixar — ele disse, já colado em mim.

Ele estendeu a mão e tocou uma das minhas mechas azuis, enrolando-a no dedo. O olhar dele estava faminto agora, sem esconder mais nada.

— Posso? — ele perguntou, a voz quase um suspiro contra os meus lábios.

Eu não respondi com palavras. Apenas fechei os olhos e inclinei a cabeça levemente. Foi o sinal que ele precisava.

O beijo do Pulga não foi nada parecido com o que eu tinha imaginado nos meus sonhos de adolescente. Foi intenso, urgente, quase desesperado. Ele me puxou pela cintura, colando nossos corpos de um jeito que não sobrava espaço nem para o ar. Era um beijo faminto, como se ele estivesse tentando recuperar todos os meses que passamos separados por causa do medo e das mentiras.

Minhas mãos subiram para a nuca dele, puxando-o para mais perto, enquanto eu sentia o gosto dele e o calor da sua pele. Naquele momento, toda a raiva, toda a dúvida e toda a insegurança sumiram. Só existia o aqui e o agora.

Ele parou o beijo por um segundo, apenas para encostar a testa na minha, a respiração ofegante.

— Nunca mais vou deixar você pensar que não é correspondida — ele prometeu, a voz rouca. — Você é a única, Hanna. Sempre foi.

Eu sorri, sentindo uma felicidade genuína transbordar. O amor na Vila Áurea podia ser complicado, cheio de idas e vindas, mas quando era real, batia mais forte que qualquer grave de paredão.

— É bom mesmo, Pulga — respondi, puxando-o para outro beijo. — Porque agora que você me teve de volta, não vai ser tão fácil me deixar ir.

Lá fora, a música continuava, o baile seguia seu curso e a vida na favela não parava. Mas ali dentro, entre as paredes daquela casa e o calor daquele abraço, o tempo tinha finalmente decidido esperar por nós dois. O meu azul-esperança tinha encontrado o seu porto seguro.