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dama e o vagabundo

Entre o Grave e o Desejo

O silêncio da sala do Pulga era um contraste gritante com o caos que a gente tinha acabado de deixar para trás. Ali, entre quatro paredes, o cheiro de perfume barato e o calor da proximidade, a Vila Áurea parecia um cenário distante, um filme passando no mudo. O beijo dele ainda queimava nos meus lábios, um misto de alívio e uma fome que eu nem sabia que tinha guardada.

— Hanna... — ele sussurrou contra o meu pescoço, e eu senti um arrepio percorrer toda a minha espinha, descendo até a ponta dos pés. — Você não faz ideia do quanto eu me segurei.

— Então por que se segurou? — perguntei, sentindo minhas mãos apertarem o tecido da camiseta dele, puxando-o para mais perto, se é que isso era possível. — Você quase me perdeu por causa de uma bobagem.

Pulga soltou um suspiro pesado, as mãos grandes agora firmes na minha cintura, me prensando levemente contra a porta de entrada.

— Eu sou um otário, eu sei. Mas na nossa realidade, Hanna, as coisas são embaçadas. Eu não queria que ninguém te olhasse torto por estar com um cara como eu. Eu queria estar no topo antes de te chamar pra caminhar do meu lado.

— Eu não quero estar no topo com você, Pulga. Eu quero estar do seu lado na subida — respondi, olhando fundo nos olhos dele. — Eu não sou as outras garotas. Eu estudo, eu tenho meus planos, mas o que eu sinto por você não depende de status.

Ele não disse nada, apenas me beijou de novo, mas dessa vez foi diferente. Não era mais a urgência do reencontro, era uma promessa. As mãos dele começaram a explorar as curvas do meu corpo por cima do cropped, subindo devagar, fazendo minha respiração falhar. Eu sentia o coração dele batendo no mesmo ritmo que o meu, uma batida acelerada que nenhum DJ de baile conseguiria reproduzir.

— A gente precisa conversar sobre o que aconteceu lá fora — eu disse, tentando recuperar um pouco da razão enquanto ele distribuía beijos pela minha mandíbula. — O Doni... a música dele. O clima vai ficar tenso.

Pulga parou por um momento, a testa encostada na minha. Ele sabia que eu tinha razão. Na favela, um desrespeito como aquele — roubar a letra de um moleque que está começando — não passava batido.

— O Doni é sangue bom, mas é impulsivo — Pulga comentou, a voz ainda rouca. — Ele vai querer cobrar. E o Nando... bom, você conhece o Nando. Ele não deixa barato quando mexem com os nossos.

— Eu tenho medo, Pulga. Medo de onde isso vai parar. Eu só queria que a gente pudesse viver em paz, sem essa sombra de briga o tempo todo.

— A paz aqui é conquistada, Hanna. Não é dada de graça — ele disse, voltando a me olhar com aquela intensidade que me despia a alma. — Mas agora, eu não quero pensar no Doni, nem no Nando, nem em quem roubou música de quem. Eu só quero você.

Ele me pegou no colo com uma facilidade que me fez soltar um risinho de surpresa. Eu entrelacei minhas pernas na cintura dele e meus braços no seu pescoço, escondendo o rosto na curva do seu ombro. Ele me levou para o quarto, um espaço pequeno, mas que cheirava a ele. A luz da rua filtrava pela janela, pintando listras de sombra e claridade na cama desarrumada.

Quando ele me deitou, o mundo lá fora finalmente desapareceu por completo. Cada toque, cada carícia, era como se estivéssemos reescrevendo a nossa história, apagando os meses de indiferença forçada. O azul do meu cabelo se espalhava pelo travesseiro, e Pulga parecia fascinado por cada detalhe meu, como se estivesse me vendo pela primeira vez.

— Você é linda demais, Hanna — ele murmurou, a mão subindo pela minha coxa. — Às vezes eu acho que você é boa demais pra esse lugar.

— Esse lugar é a minha casa, Pulga. E você também é — respondi, puxando-o para baixo, para que não houvesse mais palavras, apenas o toque.

A noite passou em um borrão de sensações. Foi a primeira vez que eu me senti verdadeiramente vista, não como a "sobrinha do Bada" ou a "amiga inteligente da Rita", mas apenas como a Hanna. E o Pulga, longe da pose de bandido ou de cara marrento da quebrada, era doce de um jeito que ele nunca deixaria ninguém mais ver.

Quando o sol começou a dar os primeiros sinais de vida, iluminando o morro com tons de laranja e rosa, eu estava deitada no peito dele, ouvindo sua respiração calma. Eu sabia que, assim que eu saísse daquela porta, os problemas estariam lá me esperando. A Rita estaria preocupada, o Doni estaria furioso e o meu tio Bada... bom, eu nem queria pensar no que o meu tio diria se soubesse onde eu passei a noite.

— Tenho que ir — sussurrei, sentindo o peso da realidade voltando.

Pulga me apertou um pouco mais forte antes de me soltar.

— Eu te levo. O movimento de manhã é perigoso pra você andar sozinha.

— Não precisa, Pulga. Se te virem saindo comigo a essa hora, a fofoca vai correr mais rápido que o 190.

— Que corra — ele disse, sentando-se na cama e me olhando com seriedade. — Eu não vou mais me esconder, Hanna. Se alguém tiver algum problema com a gente, vai ter que se ver comigo.

Eu sorri, sentindo um calor no peito. Ele realmente tinha mudado.

Me vesti rápido, ajeitando o cabelo azul que agora estava uma bagunça deliciosa. Saímos da casa dele com cuidado, mas sem nos escondermos. A Vila estava acordando; o cheiro de pão fresco começava a substituir o cheiro de cerveja derramada da noite anterior. Alguns olhares se voltaram para nós, mas ninguém disse nada. O respeito — ou o medo — que o Pulga impunha era real.

Quando chegamos perto da casa da Rita, eu parei.

— Daqui eu sigo sozinha.

— Hanna — ele me chamou, segurando minha mão. — Isso não foi só uma noite, tá ligado?

— Eu sei que não foi, Pulga. Pra mim também não.

Ele me deu um selinho rápido e ficou parado me observando subir os degraus. Assim que entrei na casa da Rita, dei de cara com ela e a Cacau sentadas na mesa da cozinha, com caras de quem não tinham dormido nada.

— Olha só quem resolveu aparecer! — Cacau exclamou, com um sorriso malicioso. — E com o cabelo mais bagunçado do que quando saiu, hein?

— Nem comecem — eu disse, tentando manter a pose, mas o sorriso no meu rosto me entregava.

— A gente viu você saindo com o Pulga lá no baile, Hanna — Rita disse, ficando um pouco mais séria. — O bicho pegou lá depois que você saiu. O Doni quase partiu pra cima do MC que tava cantando a letra dele. O Nando teve que segurar.

— Eu imaginei — suspirei, sentando-me com elas. — E o Doni? Onde ele tá?

— Tá lá no estúdio, jurando vingança. Ele tá mal, Hanna. Sentindo que o sonho dele foi roubado antes mesmo de começar.

Senti uma pontada de culpa. Enquanto eu estava vivendo o meu momento de felicidade, meu melhor amigo estava passando por um dos piores momentos da vida dele.

— Eu vou falar com ele — anunciei.

— Agora? Você nem dormiu, menina — Cacau disse.

— Se eu não for agora, ele vai fazer alguma besteira. Eu conheço o Donizete.

Saí da casa da Rita e segui em direção ao estúdio improvisado que o Doni usava. O caminho era familiar, mas cada esquina parecia carregar um peso diferente hoje. Eu via os meninos da contenção nos cantos, o rádio comunicador chiando, e pensava no que o Pulga tinha dito: a paz aqui é conquistada.

Cheguei no estúdio e ouvi a batida alta. Era a mesma música, mas agora o Doni estava gravando por cima, a voz carregada de ódio e frustração. Bati na porta e entrei sem esperar.

Doni estava com os fones de ouvido, os olhos vermelhos. Quando me viu, ele desligou o som abruptamente.

— Veio me dar mais um sermão, Hanna? Veio dizer que eu devia estar na escola enquanto os caras roubam o que é meu? — ele disparou, a voz embargada.

— Não, Doni. Eu vim te dizer que eu sinto muito. E que eu tô aqui com você — falei, aproximando-me e colocando a mão no ombro dele.

Ele desmoronou. O MC marrento deu lugar ao moleque de 18 anos que só queria uma chance. Ele sentou na cadeira e escondeu o rosto nas mãos.

— Eles levaram tudo, Hanna. A letra, o flow... o pessoal na pista tava cantando como se fosse deles. Como é que eu vou subir agora? Todo mundo vai achar que eu é que sou o plagiador.

— Não vão, Doni. Porque a sua verdade ninguém copia. A gente vai dar um jeito. O Nando tem contatos, o meu tio tem influência... a gente não vai deixar isso assim.

Doni levantou a cabeça, me olhando com curiosidade.

— E você? Onde tava? A Rita disse que você sumiu com o Pulga.

Senti meu rosto esquentar, mas não desviei o olhar.

— Eu tava resolvendo a minha vida, Doni. Assim como você vai resolver a sua. O Pulga... a gente se entendeu.

Doni soltou um riso fraco, balançando a cabeça.

— O mundo tá acabando e você tá aí, vivendo seu romance de novela. Só você mesmo, Hanna.

— Alguém tem que trazer um pouco de cor pra esse lugar, não acha? — brinquei, apontando para o meu cabelo azul.

— É... talvez você tenha razão.

Passamos o resto da manhã ali, conversando. Eu ajudei o Doni a organizar as ideias para uma nova letra, uma "diss" que ia colocar os pontos nos is sem precisar de violência, apenas com o poder da rima. Era o meu jeito de ajudar: usando a inteligência e o estudo que eu tanto valorizava.

Por volta do meio-dia, meu celular vibrou. Era uma mensagem do Pulga.

"Tô aqui na praça. Queria te ver."

Meu coração deu um salto. Olhei para o Doni, que deu de ombros.

— Vai lá, vai. Eu vou ficar bem. Vou focar nessa letra nova aqui.

Saí do estúdio sentindo que, apesar dos problemas, as coisas estavam se encaixando. Quando cheguei na praça, o Pulga estava sentado em um banco, observando o movimento. Ele não estava com a cara de poucos amigos de sempre; parecia pensativo.

— E aí? — falei, sentando ao lado dele.

— E aí. Como foi com o moleque?

— Ele tá melhor. Vai responder com música. É o melhor caminho.

Pulga assentiu.

— É. O Nando também acha. Ele mandou avisar que o cara que roubou a letra já tá "avisado". Não vai mais tocar por aqui.

Eu senti um frio na barriga. "Avisado" na favela podia significar muitas coisas. Mas decidi não perguntar. Eu tinha escolhido estar ali, naquele mundo, com aquele homem. E eu sabia que o preço daquela vida era a ambiguidade constante entre o certo e o errado.

— Hanna — ele disse, pegando a minha mão e brincando com os meus dedos. — Eu andei pensando. Eu quero fazer as coisas direito com você. Sem mentira, sem medo de aposta, sem nada disso.

— E o que seria "fazer as coisas direito"? — perguntei, com um sorriso provocante.

— Quero te levar pra jantar. Fora da Vila. No asfalto. Onde ninguém conheça o Pulga ou a sobrinha do Bada. Onde a gente seja só o Felipe e a Hanna.

Ouvir o nome real dele — Felipe — vindo da própria boca dele foi como um choque de realidade. Era um lado dele que quase ninguém conhecia. O lado que ele estava me oferecendo.

— Eu adoraria, Felipe — respondi, enfatizando o nome.

Ele sorriu, um sorriso largo e sincero que iluminou o rosto dele. Naquele momento, no meio da praça da Vila Áurea, com o som das motos passando e as crianças correndo, eu percebi que a minha vida tinha acabado de mudar para sempre.

Eu ainda era a Hanna: fofa, inteligente, brincalhona e gentil. Ainda tinha meu cabelo azul e meus sonhos de faculdade. Mas agora, eu tinha algo mais. Eu tinha um amor que tinha sido testado pelo tempo e pelo orgulho, e que tinha saído mais forte.

A caminhada na favela nunca era em linha reta. Tinha subidas íngremes, vielas apertadas e muitos obstáculos. Mas com o Pulga ao meu lado, e com a Ritinha e o Doni como minha família de coração, eu sentia que podia enfrentar qualquer ladeira.

— Vamos? — ele perguntou, levantando-se e estendendo a mão para mim.

— Vamos — respondi, segurando a mão dele com firmeza.

Enquanto caminhávamos juntos pela rua principal, eu olhei para cima e vi o céu de um azul límpido, quase da cor das minhas mechas. Era um sinal. O azul não era mais apenas a cor da minha rebeldia. Era a cor da minha esperança. E na Vila Áurea, a esperança era o que nos mantinha vivos, uma batida de cada vez.