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dama e o vagabundo

Ritmo, Suor e Refúgio

A Vila Áurea parecia não dormir nunca, mas dentro das quatro paredes do quarto do Pulga, o tempo funcionava de um jeito diferente. O som abafado de um funk que tocava em algum paredão distante servia apenas como trilha sonora para o que a gente vivia ali dentro. Depois de toda a tensão com o tio Bada e a correria para garantir que o Biel estivesse seguro com a minha mãe, o cansaço batia, mas era um cansaço bom, misturado com uma adrenalina que só o Felipe conseguia despertar em mim.

— Vai tomar banho primeiro ou eu vou? — perguntou ele, jogando a chave da moto em cima da cômoda e tirando a camisa, revelando as tatuagens que eu já conhecia de cor.

— Pode ir você, eu vou separar uma roupa — respondi, sentando na beirada da cama e observando ele sumir pelo corredor.

Abri a gaveta onde ele deixava algumas coisas minhas. A intimidade que a gente tinha construído era algo que eu nunca imaginei ter com ninguém, muito menos com o cara que todo mundo no morro respeitava e temia. Escolhi um short bem curto, daqueles de jogar vôlei que ficavam colados no corpo, e peguei uma blusa dele do Corinthians que ficava enorme em mim, mas que tinha o cheiro dele impregnado em cada fibra.

Quando ele saiu do banho, com a toalha na cintura e o cabelo úmido, eu já estava trocada. Ele me olhou de cima a baixo, um sorriso de lado surgindo naqueles lábios que sabiam exatamente como me tirar o fôlego.

— Essa blusa fica melhor em você do que em mim, azulzinha — comentou ele, sentando na cama e ligando a TV em um volume baixo.

— Eu sei, Felipe. Tudo o que é seu fica melhor em mim — brinquei, dando uma piscadela.

Fui para o banheiro, tomei uma ducha rápida e, quando voltei, ele já estava deitado, coberto até a cintura, concentrado em algum filme de ação que passava no cabo. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho da tela e por um abajur fraco no canto.

Eu sabia que ele estava cansado, mas a Hanna brincalhona e provocadora nunca perdia a oportunidade. Em vez de dar a volta na cama para deitar do meu lado, resolvi passar por cima dele. Apoiei as mãos no colchão, uma de cada lado do corpo dele, e comecei a me movimentar para atravessar.

— O que você tá arrumando, Hanna? — perguntou ele, com a voz já ficando mais rouca, os olhos saindo da TV para focar em mim.

— Ué, só estou indo pro meu lado — respondi com a voz mais inocente que consegui fingir, parando exatamente em cima dele, sentindo o calor da sua pele contra o tecido fino do meu short.

Tentei continuar o movimento, mas senti suas mãos grandes e firmes agarrarem minha cintura, me prendendo ali. Ele me puxou para baixo com força, fazendo meu peito colar no dele.

— Você não vai a lugar nenhum assim, tão rápido — sussurrou ele, antes de selar nossos lábios.

O beijo começou faminto, urgente, como se a gente estivesse tentando recuperar o tempo perdido durante o dia. Era intenso, com gosto de desejo acumulado. As mãos dele subiram para a minha nuca, os dedos se perdendo entre as minhas mechas pretas e azuis, puxando-me para mais perto até que não sobrasse ar entre nós.

— Felipe... — suspirei entre os beijos.

Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, desceu os beijos para o meu pescoço, encontrando aquele ponto sensível que me fazia estremecer. Senti suas mãos subirem por baixo da blusa do Corinthians e, com uma agilidade que só ele tinha, ele a tirou, jogando-a em algum lugar do chão.

Eu me movimentava devagar no colo dele, sentindo cada reação do seu corpo à minha proximidade. Fechei os olhos, deixando a cabeça pender para trás enquanto ele explorava minha pele com lábios e dentes, descendo o caminho até o meu colo. O prazer era um calor que subia da barriga e se espalhava por tudo, me fazendo esquecer de qualquer outra coisa que não fosse o toque dele.

— Você é linda demais, sabia? — ele murmurou contra a minha pele, a voz vibrando dentro de mim.

Ele se deitou completamente, me puxando para ficar por cima. Eu continuava a me movimentar, sentindo o ritmo da nossa conexão, mas logo senti as mãos dele na minha cintura, guiando meus movimentos, ditando o tempo.

— Mais rápido — sussurrou ele, e eu obedeci, sabendo exatamente o que ele gostava, sentindo o controle escapar das minhas mãos enquanto ele assumia o comando daquela dança.

Em um movimento rápido, ele inverteu as posições, me deixando por baixo dele no colchão macio. Pulga me beijava com uma intensidade nova, descendo pelo meu pescoço até os meus seios, onde ele se demorou, me fazendo arquear as costas e soltar um gemido baixo que se perdeu no silêncio do quarto.

Quando ele desceu para o meu quadril, senti seus dedos puxarem levemente a borda do meu short de vôlei. O toque frio do ar contra a pele aquecida me deu arrepios imediatos. Ele beijou a linha do meu quadril, e eu não consegui segurar um gemido mais alto, minhas mãos enterrando-se no cabelo dele, puxando-o para mais perto.

O tempo pareceu parar ali, naquele emaranhado de lençóis e desejo, até que, exaustos e satisfeitos, ele rolou para o lado, me puxando para o seu braço. Ficamos ali, os dois ofegantes, olhando para a TV sem realmente ver nada, apenas sentindo o coração um do outro voltando ao ritmo normal.

— Tá tudo bem? — perguntou ele, me dando um beijo na testa.

— Tá maravilhoso — respondi, me aconchegando no peito dele.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, o conforto da companhia um do outro preenchendo o quarto. Eu estava quase pegando no sono quando senti ele se mexer, virando-se para mim com um olhar pidão que eu já conhecia bem.

— Hanna... — começou ele, a voz manhosa, muito diferente do Pulga que mandava na quebrada.

— O que foi, Felipe?

— Eu queria mamar — disse ele, sem o menor pingo de vergonha, apontando com o queixo para o meu peito.

Eu ri, incrédula, olhando para ele.

— Felipe, a gente acabou de fazer! Você não cansa, não?

— Mas não é por causa disso — insistiu ele, fazendo um biquinho que me fazia perder toda a postura de durona. — É que eu gosto. Me acalma. Deixa, vai?

— E se eu não deixar? — perguntei, cruzando os braços, tentando segurar o riso. — Você vai fazer birra, é?

— Vou — respondeu ele prontamente, assentindo com a cabeça como se fosse a coisa mais lógica do mundo. — Vou ficar chateado o resto da noite.

Eu olhei para aquele homem enorme, cheio de marra, que agora parecia um menino pedindo carinho, e não aguentei. O lado "fofa e gentil" que todo mundo dizia que eu tinha falou mais alto.

— Tá bom, tá bom. Vem cá, seu bebezão — cedi, abrindo um pouco o espaço para ele.

O sorriso que ele deu foi tão alegre que parecia que ele tinha acabado de ganhar na loteria. Ele se ajeitou, enfiando-se debaixo da coberta, e eu senti sua boca quente e macia no meu peito. Continuei assistindo ao filme, passando a mão pelos cabelos dele, sentindo a sucção suave que, estranhamente, também me relaxava.

Era um momento de vulnerabilidade dele que poucas pessoas no mundo teriam a chance de ver. O Pulga, o Felipe, o cara que carregava o peso da Vila Áurea nas costas, ali, buscando conforto no meu colo. Eu o observava pelo canto do olho enquanto ele se perdia naquele gesto, a respiração dele tornando-se cada vez mais pesada e regular.

Depois de um tempo, ele parou. Saiu debaixo da coberta com os olhos quase fechados de sono, arrumou meu sutiã com um cuidado surpreendente e deitou a cabeça no meu peito, usando meu corpo como travesseiro.

— Boa noite, azulzinha — murmurou ele, a voz já sumindo.

— Boa noite, marrento — respondi baixinho, beijando o topo da cabeça dele.

Fiquei olhando para ele por mais alguns minutos. Ele era tão fofo dormindo, com o rosto relaxado, sem a tensão constante de quem vive em alerta. Naquele momento, eu tive a certeza de que, apesar de todos os perigos e de toda a confusão da nossa vida, aquele era o meu lugar.

Não demorou muito para que o sono também me vencesse. Adormeci sentindo o peso reconfortante do corpo dele sobre o meu, embalada pelo som da sua respiração e pelo brilho azul das minhas mechas que caíam sobre o rosto do homem que tinha se tornado o meu mundo. Na Vila Áurea, o amanhã era sempre uma incerteza, mas aquela noite, envolta em carinho e desejo, era a única certeza que eu precisava ter.