dama e o vagabundo
O Som do Silêncio e o Peso do Amanhã
A luz da lua entrava pela fresta da cortina, desenhando listras prateadas sobre o lençol bagunçado. O peito do Pulga subia e descia num ritmo calmo, o sono dele era pesado, mas eu continuava ali, com os olhos fixos no teto, sentindo cada centímetro do meu corpo vibrar. O silêncio da madrugada na Vila Áurea nunca era um silêncio absoluto; era composto pelo latido de um cachorro distante, o chiado de um rádio de comunicação em algum ponto de contenção e o estalo das telhas esfriando.
Eu me virei de lado, observando o rosto dele. Felipe. Era engraçado como, na frente dos outros, ele era o Pulga — o cara que não baixava a guarda, que resolvia as pendências com um olhar e que carregava a responsabilidade de manter a ordem no seu pedaço. Mas ali, naquela penumbra, ele era apenas o homem que tinha me abraçado como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo.
Passei a ponta dos dedos, quase sem tocar, pela cicatriz pequena que ele tinha perto da sobrancelha. Eu me perguntava quantas histórias de dor ele guardava para que eu pudesse ter aquela sensação de segurança. A gente vive num mundo onde o amor é um luxo, um intervalo entre um corre e outro, mas naquela noite, o intervalo parecia ter se tornado a música principal.
Com cuidado para não acordá-lo, levantei da cama. Meus pés descalços sentiram o chão frio, um contraste necessário para baixar a temperatura do meu rosto, que ainda queimava. Peguei a camiseta dele que estava jogada no chão e a vesti. Ela batia no meio das minhas coxas e tinha aquele cheiro característico de amaciante barato misturado com o perfume dele.
Caminhei até a pequena cozinha e bebi um copo de água, olhando pela janela. A Vila parecia um presépio de luzes e sombras. Pensei no Biel, dormindo agora na cama que um dia foi minha, sob os cuidados da Dona Sônia. Um aperto de gratidão apertou meu peito. Minha mãe era o meu maior exemplo de que, mesmo no meio do caos, a gente podia escolher a bondade.
— Perdeu o sono, azulzinha? — A voz rouca dele veio do corredor, me fazendo dar um pulinho.
— Ai, que susto, Felipe! — falei, colocando a mão no peito. — Só vim beber água. Minha cabeça não para de pensar em tudo o que aconteceu hoje.
Ele apareceu na cozinha, apenas de calça de moletom, com o cabelo bagunçado e aquele olhar de quem ainda estava metade no mundo dos sonhos. Ele se aproximou e me abraçou por trás, apoiando o queixo no meu ombro.
— É o moleque, né? — perguntou ele, a voz vibrando nas minhas costas.
— É. E o Doni. E o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, eu sinto que as peças estão começando a se encaixar, mas tenho medo de o vento soprar e bagunçar tudo de novo.
— O vento sempre sopra, Hanna — disse ele, me virando de frente para ele. — Mas agora a gente tem raiz. Você não tá mais sozinha nessa correria.
— Eu sei. É só que... — Suspirei, olhando para as minhas mãos. — Eu sempre fui a "certinha", a que estuda, a que dá conselhos. Ver o estado do Gabriel hoje me fez perceber que o estudo é importante, mas tem coisa que o livro não ensina. O livro não ensina a proteger uma criança de um sistema que quer engolir ela.
— Por isso que a gente se completa — Pulga disse, me puxando para um beijo calmo, com gosto de madrugada e promessas silenciosas. — Você traz a luz, e eu cuido de quem tentar apagar ela.
Voltamos para o quarto, mas antes de deitar, ele parou na frente do espelho e ficou me olhando.
— Sabe, Hanna... essa camiseta ficou melhor em você do que em mim. Acho que vou ter que te dar ela de vez.
— Mais uma pra minha coleção de "roupas que eu roubei do Pulga" — brinquei, sentindo a leveza voltar para o meu coração.
Dormimos o resto da noite abraçados, um sono sem sonhos, daqueles que restauram a alma. Quando acordei, o sol já estava alto e o cheiro de café vindo da vizinhança anunciava que o domingo de descanso tinha acabado. Pulga já não estava na cama.
Levantei, me arrumei e vesti minha roupa do dia anterior. No espelho, vi a marca no meu pescoço que ele tinha deixado. Sorri, ajeitando o cabelo azul para cobrir um pouco, mas sem me importar de verdade. Saí da casa dele e fui direto para a minha.
O clima na casa da Dona Sônia era de operação de guerra. Rita e Cacau estavam lá, sentadas à mesa com o Gabriel, que devorava um prato de rabanadas como se fosse um rei.
— Olha ela aí! — gritou Rita, com aquele sorriso de quem sabia de tudo sem precisar de uma palavra. — A Bela Adormecida resolveu aparecer.
— Bom dia pra você também, Rita — respondi, dando um beijo no topo da cabeça do Biel. — E aí, pequeno? Dormiu bem?
— Dormi, Hanna! A sua mãe me deu um pijama de ursinho que era do seu irmão. E ela disse que hoje a gente vai no mercado comprar iogurte de morango! — O entusiasmo dele era contagiante.
Minha mãe saiu da cozinha com uma jarra de suco, me olhando com aquele olhar de "depois a gente conversa".
— Hanna, o seu tio Bada ligou — disse ela, o tom ficando mais sério. — Ele quer falar com você. Disse que é sobre uma encomenda que ficou pendente, mas eu senti que tinha mais coisa no meio.
Senti um frio na barriga. O tio Bada raramente me chamava de forma oficial. Geralmente, nossas conversas eram rápidas e leves. Se ele tinha ligado para a minha mãe, o assunto era sério.
— Eu vou lá agora — respondi, pegando um pedaço de pão. — Rita, você vem comigo?
— Vou sim. Também tenho que prestar contas de umas coisas pra ele — Rita disse, levantando-se.
Caminhamos pela Vila sob o sol quente. O movimento de segunda-feira era intenso: entregadores de gás, motoboys subindo e descendo, e a molecada indo para a escola. Passamos pela frente do estúdio e vi o Doni sentado na calçada, com um caderno na mão, escrevendo furiosamente.
— E aí, MC? — chamei. — Já saiu o hit?
— Tá saindo, Hanna! — Doni levantou o caderno, os olhos brilhando de novo. — O Nando me deu umas ideias pesadas sobre como transformar a raiva em rima. O cara que roubou minha letra vai passar vergonha quando ouvir essa aqui.
— É assim que se faz, Doni! — Rita incentivou. — Usa a voz, que é a única coisa que ninguém pode te tirar.
Seguimos caminho até a casa do tio Bada. Chegando lá, os caras da frente apenas acenaram. Entramos e encontramos meu tio no escritório, cercado por papéis e alguns rádios. Ele parecia cansado.
— Bença, tio — falamos em coro.
— Deus abençoe, meninas. Sentem aí — ele apontou para as cadeiras de madeira. — Rita, o seu assunto eu resolvo com o Nando depois. Hanna, quero falar com você.
Rita entendeu o recado e saiu para o quintal, provavelmente para trocar ideia com os meninos que ficavam por ali. Fiquei sozinha com o homem que era a lei e a ordem naquela parte do morro.
— Fiquei sabendo do que aconteceu ontem na Praça da Paz — começou ele, cruzando os braços sobre a mesa. — O fiscal da prefeitura, o menino do Jorge... e a cena que você e o Pulga fizeram.
Baixei o olhar por um segundo, mas logo o encarei de volta.
— A gente não podia deixar ele ser levado, tio. O senhor conhece a situação. O Biel não tem ninguém por ele.
— Eu sei, Hanna. E não estou dizendo que você agiu errado. Pelo contrário — ele suspirou, e por um momento vi o cansaço nos olhos dele. — Eu sempre quis que você ficasse longe da confusão, que focasse nos seus livros. Mas a Vila tem um jeito de puxar a gente pra realidade, não tem?
— Tem sim, tio.
— O Jorge é um problema antigo. Ele deve pra muita gente, e a paciência do pessoal tá acabando. Se o menino ficar com a sua mãe, ele vai estar seguro. Eu já mandei avisar que, a partir de hoje, ninguém mexe com o Jorge enquanto ele não assinar os papéis da guarda. Depois disso... bom, o destino dele não é mais problema nosso.
— Obrigada, tio Bada. De verdade.
— Não me agradeça ainda. Tem outra coisa — ele se inclinou para frente. — O Pulga. Eu vejo como vocês estão. Ele é um bom rapaz, fiel à família, mas a vida dele é perigosa. Você tem certeza de que quer carregar esse peso, Hanna? Você tem um futuro brilhante pela frente. Faculdade, asfalto... não quero que você se prenda aqui por causa de um sentimento que pode te custar caro.
Aquelas palavras bateram fundo. Era o mesmo medo que eu sentia às vezes, mas ouvi-las do meu tio tornava tudo mais real.
— Eu amo o Felipe, tio. E eu não acho que amar ele signifique desistir do meu futuro. Ele é o primeiro a me incentivar a estudar. A gente vai dar um jeito.
Bada deu um sorriso triste e assentiu.
— Você tem o gênio da sua mãe. Teimosa que só. Tá certo, Hanna. Vá lá. E diga ao Pulga que eu quero falar com ele mais tarde. Temos que alinhar umas coisas sobre o galpão e sobre a segurança da área da sua mãe.
Saí dali com a cabeça a mil. Encontrei a Rita no portão e começamos a descer.
— E aí? O coroa deu sermão? — perguntou ela.
— Um pouco. Mas ele vai ajudar com o Biel. Isso é o que importa agora.
No caminho de volta, passamos pelo salão dos gêmeos. Eu precisava de um momento de futilidade para acalmar os nervos. Entrei e os meninos já estavam na atividade.
— Olha a nossa musa azul! — brincou um deles. — Veio retocar ou só veio brilhar?
— Só vim dar um "oi" e ver se o mundo ainda tá girando — respondi, sentando na cadeira de espera.
Fiquei ali observando o movimento, as risadas, o som da máquina de corte. Era a vida seguindo, apesar de tudo. Rita ficou conversando com a Cacau, que tinha acabado de chegar com umas sacolas de roupas novas para revender.
— Hanna, olha esse conjunto! — Cacau esticou um vestido preto básico, mas com um corte lindo. — É a sua cara. Imagina você usando isso num jantar com o seu MC?
— Ele não é MC, Cacau! — rimos todas. — Mas o vestido é lindo mesmo. Guarda pra mim?
— Com certeza, patroa!
Enquanto elas se perdiam em fofocas sobre o baile passado e planos para o próximo, eu me perdi nos meus pensamentos. A Vila Áurea era um labirinto. Às vezes você achava a saída, mas o coração te puxava de volta para o centro. E o meu centro agora tinha nome, sobrenome e um abraço que curava qualquer trauma de "madeireira pesada".
Ao final da tarde, voltei para casa. O sol estava se pondo, criando aquele espetáculo de cores que eu tanto amava. Entrei e vi o Biel sentado no chão, desenhando num caderno novo que o Pulga devia ter mandado entregar.
— Olha, Hanna! — ele correu até mim, mostrando o desenho.
Era uma casa, com um sol bem grande e três pessoas desenhadas com palitinhos. Uma tinha o cabelo azul, a outra era grande e forte, e a menorzinha estava no meio, de mãos dadas com as outras duas.
Senti as lágrimas virem, mas as segurei. Ajoelhei-me e dei um beijo na bochecha dele.
— Tá lindo, Biel. Quem são esses?
— É você, o tio Pulga e eu. A nossa família de mentirinha que vai virar de verdade, né?
— É sim, meu amor. Vai virar de verdade.
Naquela noite, jantamos todos juntos na casa da minha mãe. Pulga apareceu mais tarde, com o semblante sério de quem tinha acabado de ter uma conversa pesada com o Bada, mas relaxou assim que viu o Biel e o prato de comida que a Dona Sônia colocou na frente dele.
A vida na Vila Áurea não era um conto de fadas. O perigo estava sempre ali, na esquina, nas sombras, nas decisões difíceis. Mas enquanto houvesse aquele azul no meu cabelo, aquela força no abraço do Felipe e aquele sorriso no rosto do Gabriel, eu sabia que a gente ia continuar caminhando.
— Tá tudo bem? — sussurrou o Pulga no meu ouvido, enquanto ajudávamos a arrumar a bagunça depois da janta.
— Tá tudo ótimo — respondi, encostando minha cabeça no ombro dele. — Pela primeira vez, eu sinto que o som da Vila não é só barulho. É música.
Ele sorriu e me beijou, um beijo que selava não apenas o nosso desejo, mas o nosso compromisso com tudo o que tínhamos construído naquelas últimas quarenta e oito horas. A noite caiu sobre o morro, mas para nós, era apenas o começo de um novo dia, cheio de lutas, sim, mas também cheio de uma esperança que brilhava mais do que qualquer luz do asfalto. E assim, entre o grave do funk e o silêncio do afeto, a gente seguia escrevendo a nossa história, um verso de cada vez.