Dance with Me.
Frequências Proibidas e o Som do Orvalho
A madrugada em Los Angeles tinha um peso diferente depois de uma tempestade. O asfalto ainda brilhava sob os postes de luz, e o cheiro de terra molhada subia como um incenso natural que Rio inspirava profundamente enquanto caminhava pelo corredor silencioso do estúdio. Eram quase quatro da manhã. O silêncio era absoluto, exceto pelo zumbido distante de um gerador e o clique rítmico dos sapatos de Rio no piso de madeira.
Ele entrou na Sala B, onde as luzes estavam baixas, banhando o ambiente em um tom âmbar quente. Michael estava lá, sentado ao piano, mas não tocava. Ele apenas encarava as teclas pretas e brancas como se estivesse lendo uma partitura invisível escrita no marfim. Ele não usava a jaqueta militar hoje; estava apenas com uma camisa de cetim azul-escuro, os primeiros botões abertos, parecendo exausto e, ao mesmo tempo, eletrizado.
— A música não quer sair, ou ela está apenas tímida? — Rio perguntou, sua voz aveludada quebrando o silêncio sem assustar.
Michael levantou o olhar. Seus olhos pareciam maiores naquela penumbra, carregados de uma intensidade que ele raramente mostrava às câmeras.
— Ela está aqui, Rio — Michael sussurrou, batucando um ritmo nervoso na lateral de madeira do piano. — Mas o ritmo... ele precisa ser mais sujo. Mais visceral. Quincy quer que seja perfeito, mas eu quero que ela sangre.
Rio caminhou até ele, sentando-se no banco do piano, respeitando o espaço, mas perto o suficiente para sentir o calor que emanava de Michael. Ele tirou uma bala de laranja do bolso, descascou-a com dedos ágeis e a ofereceu. Michael aceitou, seus dedos roçando a palma da mão de Rio por um segundo a mais do que o necessário.
— Você quer o visceral? — Rio murmurou, inclinando-se para o teclado e tocando uma nota grave, profunda, que vibrou no peito dos dois. — O jazz me ensinou que a perfeição é a morte da alma, Michael. A alma está no erro, no suspiro que escapa, no desejo que a gente tenta esconder na letra.
Michael observava as mãos de Rio. Ele sempre achou as mãos de Alexander Rio Valentino fascinantes; eram mãos de um aristocrata, mas com a força de alguém que sabia exatamente como desvendar um instrumento. Ou uma pessoa.
— Às vezes eu sinto que estou escondendo tudo — Michael confessou, a voz quase inaudível. — O tempo todo.
Rio não respondeu com palavras. Ele apenas sustentou o olhar de Michael. Havia uma eletricidade estática entre eles, algo que ia muito além da colaboração musical. Rio era mestre em ler as entrelinhas. Ele via a fome de toque, a carência de ser visto não como um ídolo, mas como um homem. E Rio, por trás de sua fachada de elegância andrógina e calma absoluta, possuía uma natureza muito mais voraz do que deixava transparecer. Ele sabia exatamente o que estava fazendo quando se aproximou um pouco mais.
— Você não precisa esconder nada de mim — disse Rio.
O movimento foi lento, quase coreografado. Rio levou a mão à nuca de Michael, os dedos se perdendo nos cachos úmidos. Michael não recuou; pelo contrário, ele inclinou a cabeça, fechando os olhos e soltando um suspiro trêmulo. Quando Rio o beijou, não foi um toque tímido. Foi um beijo carregado de toda a sofisticação e o perigo que o jazz representava. Tinha gosto de laranja e de uma urgência contida por anos.
Michael soltou um som baixo na garganta, uma mistura de surpresa e entrega, as mãos agarrando o tecido da camisa de seda de Rio. O beijo se aprofundou, a língua de Rio explorando a boca de Michael com uma confiança que fez o cantor estremecer. Naquele momento, não havia "Thriller", não havia gravadoras, não havia o mundo lá fora. Havia apenas a textura da pele e o som da respiração pesada ecoando nas paredes acústicas.
A porta se abriu com a sutileza de um furacão.
— Mas que raios, o silêncio aqui está tão pesado que eu achei que vocês tivessem morrido artisticamente por falta de glicose! — A voz de Niko ecoou, seguida pelo som seco de uma Polaroid batendo.
Os dois se separaram instantaneamente. Michael virou o rosto para o piano, ajustando o colarinho com dedos trêmulos, enquanto Rio, com uma calma irritante, apenas se recostou no banco, limpando o canto da boca com o polegar.
— Niko, você já ouviu falar em bater? — Rio perguntou, sua voz voltando ao tom casual, embora seus olhos ainda estivessem dilatados.
— Eu bati! Com a alma! — Niko entrou balançando a foto que acabara de tirar, onde se via apenas dois vultos próximos sob a luz âmbar. — Trouxe hambúrgueres. Michael, você está vermelho. É alergia a jazz ou o Rio está te contando piadas sujas de novo?
— Só estávamos... discutindo a ponte da música — Michael disse, sua voz falhando levemente antes de recuperar o tom suave.
— Sei, a "ponte" — Niko revirou os olhos e jogou um saco de papel em cima do piano. — Comam. Se eu tiver que mixar mais uma faixa com vocês dois desmaiando de fome, eu peço demissão e vou trabalhar com o Prince. Ele pelo menos usa cores que combinam com meu humor.
Niko sentou-se de lado em uma cadeira giratória, estalando os dedos e assoviando uma melodia desconexa. Michael pegou um hambúrguer, mas seus olhos encontraram os de Rio por um breve segundo. O segredo agora estava selado, não apenas em guardanapos, mas na pele.
***
Duas noites depois, a rotina de gravação foi interrompida por uma viagem súbita de Michael para tratar de negócios da Epic Records. Rio estava em sua própria casa, uma residência de estilo clássico onde o cheiro de discos velhos e o perfume de Zelda preenchiam o ar. Chovia lá fora, uma garoa fina que batia na vidraça do quarto.
Rio estava deitado na cama, apenas de calça de pijama de cetim, com seu caderno de letras aberto ao lado. Ele tentava escrever, mas sua mente voltava obsessivamente ao toque de Michael no estúdio. O telefone na cabeceira tocou por volta das duas da manhã.
— Alô? — Rio atendeu, sua voz rouca pelo sono que ainda não chegara.
— Rio... sou eu.
A voz de Michael do outro lado da linha soava pequena, abafada, como se ele estivesse debaixo das cobertas em algum hotel impessoal.
— Michael? Aconteceu algo? — Rio sentou-se, a preocupação imediata em seu tom.
— Eu não consigo dormir — Michael confessou. — O quarto é grande demais. O silêncio é barulhento. E eu... eu não consigo parar de pensar naquela noite. No estúdio.
Rio sorriu no escuro, um sorriso predatório e doce ao mesmo tempo. Ele se recostou nos travesseiros, sentindo o frio da noite contra seu peito nu.
— O que exatamente você está pensando, Michael? — Rio perguntou, baixando o tom de voz até que fosse apenas um sussurro vibrante no ouvido do outro.
Houve um silêncio do outro lado, preenchido apenas pela respiração pesada de Michael.
— Do jeito que você me olhou — Michael disse finalmente. — E de como eu me senti. Eu me sinto... inquieto.
— Inquieto é uma palavra educada para o que você está sentindo — Rio rebateu, sua mão descendo lentamente pelo próprio abdômen, sentindo a tensão crescer. — Você quer que eu descreva o que eu faria se estivesse aí? Se não houvesse o Niko ou as câmeras?
— Sim — o sussurro de Michael foi quase um gemido.
Rio começou a falar. Ele não usava gírias vulgares; sua safadeza era envolta em poesia e descrição sensorial, o que a tornava mil vezes mais intensa. Ele descreveu o toque de suas mãos, a pressão de seus corpos, a forma como exploraria cada centímetro da pele de Michael até que ele perdesse o fôlego. Do outro lado da linha, Rio podia ouvir os sons que Michael tentava abafar — o roçar de tecidos, a respiração que se tornava rítmica e urgente.
— Você está se tocando, Michael? — Rio perguntou, fechando os olhos, sua própria mão trabalhando com precisão por baixo do cetim da calça.
— Sim... oh Deus, Rio...
— Imagine que são meus dedos — Rio comandou, a voz firme e aveludada. — Imagine que eu estou sussurrando no seu pescoço enquanto você faz isso. Devagar... sinta o ritmo. Como uma linha de baixo que não para.
O telefone transformou-se em um condutor de eletricidade pura. Rio guiava Michael através daquela intimidade à distância, usando as palavras como instrumentos. Ele sentia o próprio ápice chegando, uma onda de calor que parecia sincronizada com os sons ofegantes que vinham de Michael.
Quando finalmente aconteceu, o silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi uma partitura finalizada.
— Rio? — Michael chamou após alguns minutos, a voz carregada de uma vulnerabilidade extrema.
— Estou aqui, Michael.
— Obrigado. Eu... eu acho que consigo dormir agora.
— Durma bem, anjo — Rio disse suavemente. — Nos vemos no estúdio amanhã.
Rio desligou o telefone e ficou olhando para o teto por um longo tempo. Ele pegou o caderno de letras e, com uma caneta que estava na cabeceira, escreveu apenas uma frase em um canto sujo de café: "A maior música que compusemos nunca será gravada."
Ele se virou para o lado, sentindo o cheiro da chuva que agora aumentava lá fora. Zelda, no pé da cama, soltou um suspiro profundo em seus sonhos. Rio fechou os olhos, sabendo que o jogo entre a luz de Michael e a sua sombra estava apenas começando, e que o preço daquela harmonia seria, possivelmente, o mais alto que ele já pagara.
No dia seguinte, no estúdio, Michael chegou usando óculos escuros e uma jaqueta amarela vibrante. Ele parecia renovado, embora evitasse o olhar direto de Rio por algum tempo. Niko, como sempre, estava no centro do caos, tentando consertar um cabo de microfone enquanto mastigava um chiclete de canela.
— Bom dia, pombinhos da arte! — Niko gritou. — Rio, você está com olheiras. Michael, você parece que ganhou na loteria. O que eu perdi?
Rio passou por Michael e, sem que Niko visse, deixou cair uma bala de laranja no colo do cantor enquanto ele se sentava.
— Apenas uma boa noite de sono, Niko — Rio respondeu, piscando para Michael. — Apenas isso.
Michael pegou a bala, um sorriso discreto e cúmplice surgindo em seus lábios. Ele sabia, e Rio sabia, que a música de "Thriller" estava prestes a mudar o mundo, mas o que eles tinham — aquela frequência proibida sintonizada na madrugada — era a única coisa que realmente pertencia a eles.
Rio sentou-se ao piano e começou a tocar uma melodia lenta, melancólica, que gradualmente ganhava força e brilho. Michael aproximou-se, encostando-se no piano, e começou a cantarolar sem palavras, apenas sentindo a vibração da madeira.
— Isso — Michael disse, fechando os olhos. — É exatamente esse o som.
— É o som de quem não tem mais nada a esconder — Rio completou, seus olhos fixos nos de Michael, prometendo silêncios e sons que o mundo jamais ousaria imaginar.