Dance with Me.
O Som do Vinho e da Vertigem
O estúdio Westlake estava mergulhado em uma névoa de exaustão criativa. Eram duas da manhã e o ar condicionado parecia soprar notas de sintetizadores gelados sobre os ombros de todos. Michael estava na cabine há três horas, tentando aperfeiçoar um ad-lib que durava exatos quatro segundos, mas que para ele, definia a alma da canção.
Rio, sentado no sofá de couro desgastado da sala de controle, observava o amigo através do vidro duplo. Ele sentia a tensão nos ombros de Michael daqui. Sabia que, se não fizesse algo, Michael continuaria ali até suas cordas vocais pedirem clemência. Alexander se levantou, seus movimentos elegantes e um pouco mais lentos do que o habitual, e caminhou até sua bolsa de viagem de couro italiano.
— Niko, pare a fita — Rio ordenou com sua voz de veludo, embora houvesse uma autoridade suave nela.
— Mas o Michael está quase lá! Ele está no "vibe"! — protestou Niko, os dedos voando sobre os faders, o mullet platinado balançando conforme ele mexia a cabeça.
— O "vibe" dele agora é de um homem que esqueceu que tem um corpo — Rio rebateu, tirando duas garrafas da bolsa. Uma era um vinho tinto francês, safra antiga, de um rubi profundo. A outra, um whisky single malt que cheirava a turfa e carvalho. — Precisamos de lubrificante social. E artístico.
Niko parou, os olhos azul-acinzentados brilhando ao ver os rótulos.
— Rio, eu já disse que você é meu aristocrata favorito? Esqueça o que eu disse sobre seu cabelo. Você é um gênio.
Rio abriu as garrafas com a precisão de um cirurgião. Ele serviu uma dose generosa para Niko e encheu uma taça de cristal — que ele mesmo trouxera, pois se recusava a beber vinho bom em copos de plástico — para si. Michael saiu da cabine, limpando o suor da testa com as costas da mão, a expressão distante.
— Por que paramos? Eu estava sentindo... — Michael começou, mas parou ao ver a cena. — Rio? O que é isso?
— É uma intervenção, Michael — Rio disse, caminhando até ele e entregando-lhe uma pequena taça com apenas um dedo de vinho. — Beba. É para o seu sangue lembrar que ele é quente.
Michael hesitou, olhando para o líquido escuro. Ele não era de beber, mas havia algo no olhar de Rio — aquela mistura de calma e convite — que o desarmava. Ele tomou um gole pequeno e sentiu o calor descer pela garganta.
— É... intenso — Michael murmurou, um pequeno sorriso surgindo.
— Como tudo o que vale a pena nesta vida — Rio respondeu, já servindo-se da segunda taça.
Uma hora se passou. A música de fundo era um jazz suave de Chet Baker, quase inaudível sob o som da chuva que voltara a fustigar as janelas do estúdio. O cheiro de terra molhada infiltrava-se pelas frestas, misturando-se ao aroma amadeirado do whisky e ao perfume cítrico das balas de laranja que Rio espalhara sobre a mesa de som.
O problema — ou a solução — era que Rio Valentino não bebia com frequência, mas quando o fazia, sua reserva elegante derretia como cera sob uma chama. O Rio polido e observador dava lugar a um Rio expansivo, tátil e perigosamente afetuoso.
— Niko... meu querido ucraniano barulhento — Rio disse, passando o braço pesadamente pelos ombros do engenheiro de som. — Você já reparou que essa sua camisa de flamingos é, na verdade, uma obra de arte incompreendida? Ela representa o caos do pós-modernismo.
Niko, que estava tentando ajustar um compressor, quase caiu da cadeira com o peso de Rio.
— Rio, você está me esmagando. E você está cheirando a uvas caras e pecado. Sai pra lá!
Rio riu, um som rico e desinibido, e soltou Niko apenas para tropeçar levemente em direção a Michael. O cantor estava sentado no chão, encostado no piano, observando a cena com os olhos arregalados e divertidos. Rio se deixou cair ao lado dele, sem qualquer cerimônia, colando seu ombro ao de Michael.
— Michael... — Rio sussurrou, inclinando a cabeça até que seus cachos escuros roçassem a orelha do outro. — Você é muito brilhante. Sabia? Às vezes dói olhar para você. É como olhar direto para o sol.
Michael sentiu o rosto esquentar, e não era apenas pelo vinho.
— Você está bêbado, Rio — Michael disse baixinho, mas não se afastou. Pelo contrário, ele parecia gostar do calor humano que Rio emanava.
— Estou inspirado — corrigiu Rio, pegando a mão de Michael e começando a brincar com os dedos dele, traçando as linhas da palma com uma curiosidade infantil. — Olhe para isso. Cada linha é uma melodia. Você tem "Billie Jean" escrita bem aqui, entre a linha da vida e a do coração.
— Deixe-me ver isso — Niko interrompeu, aproximando-se com sua Polaroid. — Fiquem parados. Isso vai ser a capa do meu livro de memórias: "O dia em que o Jazz tentou seduzir o Pop e acabou no chão".
O flash disparou, cegando-os por um instante. Rio nem piscou; ele estava ocupado demais tentando abraçar Michael. Ele passou os dois braços ao redor da cintura do cantor, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Rio... — Michael riu, tentando desvencilhar-se sem muito esforço. — Você está ficando grudento.
— Eu sou um polvo — declarou Rio contra a pele de Michael. — Um polvo que aprecia a boa música. Michael, por que você é tão... macio? Você não tem ossos? Você é feito de nuvens?
— Eu acho que vou precisar de um guincho para tirar o Rio de cima de você, Michael — Niko comentou, virando o resto do seu whisky. — Ele fica assim. Da última vez, ele tentou convencer um segurança de que eles eram irmãos de alma porque ambos gostavam de sapatos de camurça.
Rio levantou a cabeça, os olhos brilhando com uma lucidez embriagada.
— Ele tinha um bom gosto impecável, Niko! Não me julgue.
De repente, Rio soltou Michael e se arrastou até o piano. Ele se apoiou nas teclas, produzindo um acorde dissonante e alto que fez Zelda, que dormia no canto, levantar uma orelha em sinal de protesto.
— Eu tive uma ideia — Rio anunciou, batucando um ritmo frenético na madeira do piano. — Uma batida de coração. Michael, me dê um ritmo. Algo que soe como... um encontro às escondidas na chuva.
Michael, contagiado pela energia caótica, começou a estalar os dedos e a fazer um beatbox suave, um som de percussão bucal que era sua marca registrada. Rio começou a tocar notas agudas e rápidas no piano, imitando o som das gotas d'água batendo no vidro.
— Sim! Isso! — gritou Niko, correndo para a mesa de som e ligando os microfones de ambiente. — Não parem!
— "Sob a marquise, o vinho derrama..." — Rio começou a cantarolar, a voz mais rouca e profunda do que o normal, arrastando as palavras com uma sensualidade preguiçosa. — "E o seu olhar me tira a calma..."
Michael improvisou uma harmonia por cima, sua voz subindo em um falsete puro e cristalino que cortava a névoa do álcool como uma lâmina de luz. Eles ficaram ali, criando, sem papel, sem guardanapos, apenas dois artistas se perdendo um no outro através do som.
Depois de alguns minutos, a música morreu naturalmente. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração de ambos. Rio se virou para Michael, ainda sentado no banco do piano, e estendeu a mão.
— Venha aqui — Rio pediu.
Michael se aproximou e Rio o puxou para um abraço apertado. Desta vez, não era uma brincadeira bêbada. Era algo profundo, um reconhecimento silencioso. Rio segurou o rosto de Michael entre as mãos, os polegares acariciando as maçãs do rosto do cantor.
— Você é o único que entende, não é? — Rio perguntou, a voz subitamente séria. — O peso de carregar tudo isso dentro da gente.
Michael olhou nos olhos de Rio e viu ali uma solidão que espelhava a sua.
— Às vezes eu sinto que vou explodir se não colocar para fora — Michael confessou.
— Então não exploda sozinho — Rio sussurrou, inclinando-se até que suas testas se encostassem. — Exploda comigo.
Niko, sentindo que o momento estava ficando "profundo demais para o seu gosto", pigarreou alto.
— Certo, filósofos de bar. Já são quatro da manhã. Vocês já comeram hoje ou querem morrer de fome artisticamente? Porque eu tenho um resto de pizza fria e uma vontade enorme de dormir.
Rio soltou Michael, mas manteve uma mão apoiada no ombro dele, como se precisasse daquele contato para se manter ancorado.
— Pizza soa como um banquete, Nikolai — Rio disse, recuperando um pouco de sua dignidade, embora ainda estivesse visivelmente tonto. — Mas só se você prometer não tirar mais fotos por hoje.
— Promessa de produtor vale menos que nota de três dólares, você sabe disso — Niko riu, guardando a Polaroid revelada no bolso da camisa. — Mas essa aqui... essa eu vou guardar para mim.
Eles caminharam até a pequena cozinha do estúdio. Rio insistia em andar abraçado a Michael, tropeçando nos próprios pés e rindo de piadas que só ele entendia. Michael o guiava com paciência, um sorriso constante nos lábios, sentindo-se mais leve do que se sentira em meses.
— Rio, você vai ter uma ressaca monumental amanhã — Michael avisou, ajudando-o a se sentar em um banquinho.
— A ressaca é o preço que pagamos pela verdade — Rio filosofou, pegando uma fatia de pizza e olhando para ela como se fosse um objeto sagrado. — Michael, você quer uma bala de laranja? Eu acho que tenho uma... aqui.
Ele tateou os bolsos e tirou uma bala amassada, entregando-a a Michael com a solenidade de quem entrega uma medalha de honra. Michael a aceitou, rindo baixinho.
— Obrigado, Rio.
— De nada, meu sol — Rio disse, antes de encostar a cabeça no ombro de Michael e fechar os olhos. — Não se apague, está bem? O mundo é escuro demais sem você.
Michael não respondeu com palavras. Ele apenas descansou a cabeça sobre a de Rio, observando a chuva diminuir lá fora. Niko, sentado do outro lado da mesa, observava os dois em silêncio por um momento raro. Ele sabia que o que estava presenciando era frágil e extraordinário.
— Vocês dois são um desastre — Niko murmurou, com um carinho que raramente demonstrava. — Um desastre lindo de se ouvir.
A madrugada terminou assim: com o cheiro de pizza e chuva, o brilho de garrafas vazias e a promessa silenciosa de que, enquanto houvesse música e alguém para segurar a mão do outro na escuridão, eles ficariam bem. Rio acabou dormindo ali mesmo, no ombro de Michael, com um sorriso de satisfação estampado no rosto. E Michael, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu pressa de ir a lugar nenhum.