De frente com a dor
Sombras e Pigmentos
O silêncio no quarto de Atlas era diferente do silêncio no quarto de Amaia. No dela, o vazio era pesado, carregado pelo cheiro de mofo e pelo eco das palavras venenosas de sua mãe. Aqui, entre as paredes cinzas e os móveis de design minimalista, o silêncio tinha textura. Tinha o som do grafite deslizando no papel e a respiração ritmada de Atlas enquanto ele fingia ler um livro de economia que seu pai o obrigara a estudar.
Amaia estava sentada no chão, cercada por telas que Damon havia contrabandeado para dentro do dormitório masculino. Ela trabalhava em uma pintura nova: uma mistura de azul profundo e toques de dourado. Não era mais sobre a noite do acidente. Era sobre o céu que ela via da janela de Atlas.
— Minha mãe enviou um e-mail para o diretor — começou Amaia, sem desviar os olhos da tela. — Ela quer que eu seja transferida para uma ala de monitoramento psicológico integral. Ela diz que eu sou instável demais para conviver com os outros alunos.
Atlas fechou o livro com um estrondo seco. Ele se levantou da cama, os movimentos fluidos e perigosos de quem carregava uma herança de raiva mal resolvida.
— Ela não vai fazer isso — afirmou ele, a voz rouca. — Helen Fontes pode ser uma víbora, mas ela gosta de status. Mandar a filha para uma ala psiquiátrica mancharia a imagem de "família perfeita" que ela tenta manter, apesar de você ser a única coisa real naquela árvore genealógica.
— Você não a conhece quando as portas estão fechadas, Atlas — Amaia finalmente o olhou. Seus olhos, antes tão brilhantes, agora tinham olheiras profundas, mas havia uma faísca de resistência ali que Atlas tinha ajudado a acender. — Ela me olha e vê o cadáver da Noah. Ela me disse hoje de manhã, antes da primeira aula, que cada vez que eu respiro, é um insulto à memória da melhor amiga que eu "deixei morrer".
Atlas atravessou o quarto em três passos largos. Ele se ajoelhou na frente dela, sujando o joelho da calça de grife com um pouco de tinta azul que havia caído no chão. Ele segurou as mãos de Amaia, ignorando o fato de que elas estavam manchadas de pigmento.
— Olhe para mim, Amaia — ordenou ele. Quando ela obedeceu, ele continuou: — Noah não está morta por sua causa. Noah morreu porque o mundo é um lugar de merda e porque aquele desgraçado era um covarde. Se você deixar sua mãe vencer, se você acreditar nela, então aquele tiro vai ter matado duas pessoas em vez de uma. E eu não vou deixar isso acontecer.
— Por que você se importa tanto? — sussurrou ela, a mesma pergunta que sempre voltava. — Você podia estar em qualquer lugar. Podia estar em festas, gastando o dinheiro da sua família, sendo o rebelde que todo mundo espera que você seja.
Atlas deu um sorriso amargo, um daqueles que não chegava aos olhos.
— Porque antes de você aparecer naquela festa, eu era apenas um fantasma neste internato. Eu tinha o Damon, sim, mas eu estava vazio. Quando eu vi você... e quando vi o que aconteceu... eu senti que, se eu pudesse salvar você desse abismo, talvez eu pudesse me salvar também.
A porta do quarto se abriu e Damon entrou, carregando duas sacolas de papel que cheiravam a hambúrguer e batatas fritas. Ele parou, observando a intensidade do momento entre os dois, e soltou um suspiro suave.
— Atrapalho o drama ou o jantar está servido? — perguntou Damon, tentando aliviar a tensão. — Consegui passar pela segurança com o "suborno" habitual. O porteiro agora tem um relógio novo e nós temos comida de verdade.
Amaia soltou as mãos de Atlas, sentindo o rosto esquentar. Ela se afastou da tela e limpou as mãos em um pano velho.
— Obrigada, Damon. Eu nem percebi que estava com fome.
— Você nunca percebe — comentou Damon, distribuindo as caixas de comida na mesa de centro. — Você e o Atlas são iguais. Se deixarem, vocês se consomem na própria intensidade até não sobrar nada. Por isso eu existo. Alguém tem que lembrar vocês de que o corpo humano precisa de calorias e não apenas de angústia existencial.
Eles comeram sentados no chão, um ritual que se tornara comum nas últimas semanas. Damon falava sobre as fofocas do Saint Jude, sobre como os professores estavam desconfiados da súbita melhora de Atlas nas notas e sobre como a ausência de Amaia nos eventos sociais estava gerando boatos.
— Dizem que você fugiu para a Europa — riu Damon. — Ou que entrou para um convento.
— Quase isso — disse Atlas, lançando um olhar de soslaio para Amaia. — Ela está no meu santuário particular.
O clima era leve, até que o celular de Amaia começou a vibrar incessantemente sobre o tapete. O nome "MÃE" brilhava na tela como um aviso de perigo. O pânico, aquele velho conhecido, começou a subir pela garganta de Amaia. Seus dedos tremeram.
Atlas alcançou o aparelho antes dela. Ele olhou para a tela e depois para Amaia.
— Não atenda — disse ele.
— Ela vai vir atrás de mim, Atlas. Se eu não atender, ela vai fazer um escândalo.
— Deixe que faça — Atlas desligou o celular e o colocou no bolso da própria jaqueta. — Hoje não. Hoje você vai terminar aquela pintura e depois vamos assistir a algum filme idiota que o Damon escolheu. Você precisa de uma noite sem a voz dela na sua cabeça.
— Atlas, você está brincando com fogo — avisou Damon, embora seu tom fosse de apoio. — Helen Fontes é instável. Se ela descobrir que a Amaia está passando as noites aqui...
— O que ela vai fazer? — Atlas desafiou, os olhos brilhando com uma rebeldia perigosa. — Me expulsar? Meu pai é o maior doador desta instituição. Ele paga o salário do diretor e as reformas da capela. Eu sou intocável aqui dentro, e por extensão, a Amaia também é.
Amaia sentiu uma mistura de gratidão e medo. Ela nunca tivera ninguém que enfrentasse o mundo por ela. Noah sempre a protegera de forma doce, mas Atlas... Atlas era um escudo de ferro.
Mais tarde, após Damon cair no sono no sofá, Amaia e Atlas ficaram sozinhos perto da grande janela. A chuva batia no vidro, criando um ritmo hipnótico. Amaia estava encostada no peito de Atlas, sentindo a batida constante de seu coração.
— Às vezes eu esqueço como é o rosto dela — confessou Amaia em voz baixa. — O rosto da Noah. Quando tento lembrar, a imagem do sangue apaga tudo.
Atlas apertou o abraço, descansando o queixo no topo da cabeça dela.
— É por isso que você pinta as flores, não é? Porque ela gostava delas.
— Sim. Ela dizia que as flores eram as únicas coisas que sabiam crescer em silêncio sem incomodar ninguém.
— Ela estava errada sobre uma coisa — disse Atlas. — Algumas flores precisam de barulho. Precisam de tempestade para espalhar as sementes. Você é uma dessas, Amaia. Você passou a vida tentando ser invisível para não irritar sua mãe, para não incomodar a Noah... mas você tem uma voz. E ela sai pelas suas mãos, nessas telas.
Amaia virou-se nos braços dele, procurando seus olhos na penumbra do quarto.
— E você, Atlas? O que você é?
— Eu sou o que sobra depois do incêndio — respondeu ele, com uma sinceridade que a desarmou. — Eu sou cinzas e rancor. Mas, desde que você começou a pintar no meu quarto, parece que as cinzas estão servindo de adubo para alguma coisa nova.
Ele se inclinou e a beijou. Não foi um beijo desesperado como o da noite da tempestade, mas algo profundo e lento, um reconhecimento de duas almas que encontraram um porto seguro no meio do caos. Amaia sentiu que, naquele momento, as paredes do internato não eram mais uma prisão. Eram apenas o cenário de algo que ela nunca permitira a si mesma sentir: esperança.
No entanto, o destino no Saint Jude raramente era gentil por muito tempo.
Na manhã seguinte, o despertador mal havia tocado quando batidas violentas ecoaram na porta do quarto. Não era o toque rítmico de Damon ou a batida educada de um inspetor. Era o som de alguém que queria destruir a madeira.
Atlas levantou-se de um salto, pegando uma camiseta no chão e vestindo-a rapidamente. Amaia, que dormira na poltrona coberta por uma manta, acordou sobressaltada, o coração já martelando contra as costelas.
— Fique atrás de mim — sussurrou Atlas.
Ele abriu a porta. Helen Fontes estava parada no corredor, o rosto pálido de fúria, os olhos injetados. Atrás dela, o diretor da escola parecia desconfortável, limpando o suor da testa com um lenço.
— Eu sabia! — gritou Helen, empurrando a porta e entrando no quarto sem ser convidada. — Eu sabia que você estava se escondendo aqui com esse... esse marginal!
— Saia do meu quarto, Sra. Fontes — disse Atlas, sua voz fria como gelo, mantendo-se entre ela e Amaia.
— Como ousa me dar ordens? — Helen se voltou para o diretor. — Veja isso! Minha filha, uma garota traumatizada, sendo mantida aqui por este delinquente. Eu exijo que ela seja retirada imediatamente e levada para a clínica de repouso que eu selecionei.
Amaia deu um passo à frente, as mãos tremendo, mas a voz firme.
— Eu não vou a lugar nenhum com você, mãe.
Helen soltou uma risada estridente e cruel.
— Ah, você vai. Você não tem escolha. Você é menor de idade e é mentalmente instável. Eu tenho os laudos, Amaia. Eu tenho as provas de que você não consegue distinguir a realidade da fantasia desde que matou sua amiga.
— Ela não matou ninguém! — Atlas rugiu, dando um passo em direção a Helen. O diretor interveio, colocando-se entre os dois.
— Sr. Torrance, por favor, acalme-se. Sra. Fontes, este é um assunto delicado...
— Delicado? — Helen apontou para as janelas pintadas de Amaia. — Olhem para este quarto! Olhem para o que ela está fazendo! Ela está perdendo o juízo, vivendo em um mundo de cores e mentiras para fugir da culpa. Ela precisa de tratamento forçado.
— O que ela precisa é ficar longe de você — disse Atlas, cruzando os braços. — E se você tentar levá-la à força, eu garanto que os advogados da minha família estarão na sua porta antes do meio-dia. Meu pai não gosta de escândalos, mas ele gosta menos ainda de ver os investimentos dele — ele apontou para si mesmo e para o colégio — serem ameaçados por dramas familiares de terceiros.
Helen hesitou por um segundo ao ouvir o nome dos Torrance, mas o seu rancor era mais forte que o seu medo.
— Você acha que o dinheiro do seu pai pode comprar o silêncio da consciência dela? — ela se voltou para Amaia, os olhos cheios de veneno. — Você pode se esconder aqui, Amaia. Pode dormir na cama deste garoto e pintar as janelas dele. Mas quando você fechar os olhos, você ainda vai ver a Noah. E você vai saber que, enquanto você está aqui brincando de romance, ela está debaixo da terra por sua causa.
— Chega! — Amaia gritou. O silêncio que se seguiu foi absoluto. — Chega, mãe. Por anos eu aceitei cada palavra sua. Eu aceitei que eu era o fardo, que eu era o erro. E quando a Noah morreu, eu deixei você me convencer de que eu era a assassina. Mas a verdade é que você odeia o fato de eu ter sobrevivido porque você nunca suportou me ver feliz. Você usa a morte da minha melhor amiga como uma arma para me manter sob seu controle.
Helen tentou falar, mas Amaia continuou, a voz subindo de tom, purgada por semanas de silêncio.
— Noah me amava. Ela me levou àquela festa porque queria que eu vivesse, que eu conhecesse pessoas, que eu saísse daquela concha que você construiu ao meu redor. E eu conheci o Atlas. E eu conheci o Damon. Se eu estou sofrendo, é porque eu perdi a pessoa que mais se importava comigo. Mas eu não vou deixar você usar o luto dela para me destruir.
O diretor, percebendo que a situação havia fugido de qualquer controle pedagógico, pigarreou.
— Sra. Fontes, talvez seja melhor conversarmos na minha sala. Sr. Torrance, Srta. Fontes... por favor, permaneçam aqui por enquanto.
Quando a porta se fechou, Amaia desabou na poltrona. A adrenalina estava desaparecendo, deixando apenas um cansaço avassalador. Atlas ajoelhou-se ao lado dela e pegou suas mãos.
— Você foi incrível — disse ele, com um orgulho genuíno brilhando nos olhos.
— Eu estou com medo, Atlas. Ela não vai parar.
— Eu sei. Mas agora você não está mais sozinha na trincheira — ele beijou a palma da mão dela. — Eu vou ligar para o meu pai. Pela primeira vez na vida, vou pedir um favor a ele. Vou pedir que ele use toda a influência que tem para garantir que sua mãe perca a sua tutela ou, pelo menos, seja mantida a quilômetros de distância de você.
— Você faria isso? — perguntou ela, surpresa. Atlas odiava pedir qualquer coisa aos pais.
— Eu faria qualquer coisa para manter essas cores nas janelas — respondeu ele, olhando para a pintura azul e dourada. — Porque essas cores são a única prova de que ainda existe algo bonito neste lugar.
Damon, que estivera observando tudo da porta do banheiro, apareceu com três copos de suco de laranja.
— Bem, parece que a guerra começou — disse ele, entregando um copo para cada um. — Mas, para quem sobreviveu àquela festa, uma mãe rancorosa e um diretor nervoso são apenas figurantes.
Eles riram, um riso nervoso, mas real.
Nos dias que se seguiram, a batalha foi intensa. Helen tentou mover processos, tentou envolver a assistência social, mas a influência da família Torrance era uma barreira intransponível. Atlas, pela primeira vez, usou seu sobrenome como uma arma para o bem. Ele se tornou o guardião de Amaia, garantindo que ela frequentasse as sessões de terapia — desta vez com um profissional de verdade, escolhido por Damon, e não um indicado por Helen.
Amaia voltou a frequentar as aulas. Sua média começou a subir. Ela ainda tinha pesadelos, ainda tinha momentos em que o som de uma porta batendo a fazia estremecer, mas agora, ela tinha para onde voltar. O quarto de Atlas e Damon tornou-se seu estúdio oficial.
Meses depois, no dia da formatura, Amaia estava diante da janela do quarto. Ela havia pintado um mural inteiro no vidro. Não era mais para esconder o mundo. Eram três figuras caminhando em direção ao sol: ela, Atlas e Damon. E no céu, quase imperceptível entre as nuvens de tinta, havia uma pequena estrela brilhando mais forte que as outras — a estrela de Noah.
Atlas aproximou-se dela, vestindo a beca de formatura, parecendo menos um rebelde e mais um homem que finalmente encontrara seu propósito.
— Pronta para sair daqui? — perguntou ele, estendendo a mão.
Amaia olhou para o quarto, para as manchas de tinta no chão cinza, para as memórias de dor que haviam sido transformadas em amor.
— Pronta — respondeu ela, segurando a mão dele com firmeza.
Eles caminharam pelo corredor do Saint Jude, passando pela ala onde Amaia costumava se esconder. Helen Fontes não estava na plateia; ela havia sido afastada legalmente meses atrás. Mas Amaia não sentia falta. Ela olhou para o lado e viu Damon sorrindo, e para o outro e viu Atlas, o garoto complicado que a ensinara que cicatrizes podiam ser belas se fossem curadas com a pessoa certa.
Ao saírem pelos portões dourados do internato, Amaia sentiu o vento no rosto. Pela primeira vez, o futuro não parecia um abismo escuro, mas uma tela em branco, esperando pelas cores que ela e Atlas pintariam juntos. A culpa finalmente havia silenciado, dando lugar a uma saudade doce e à certeza de que, onde quer que Noah estivesse, ela estaria sorrindo ao ver que sua melhor amiga finalmente aprendera a voar.