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De frente com a dor

O Horizonte Além do Vidro

O sol da manhã entrava pelas janelas do novo apartamento em que Amaia e Atlas agora viviam, longe dos muros sufocantes do Internato Saint Jude. Já haviam se passado alguns meses desde a formatura, mas a sensação de liberdade ainda parecia algo novo e, por vezes, assustadoramente frágil. No silêncio da sala, Amaia observava a poeira dançando nos raios de luz. Ela segurava um pincel, mas a tela à sua frente permanecia intocada.

— Você está fazendo aquele olhar de novo — a voz de Atlas ecoou da cozinha, acompanhada pelo som da cafeteira.

Ele apareceu na porta, encostado no batente. O cabelo escuro estava mais comprido do que nos tempos de escola, e a expressão rancorosa que ele costumava carregar como uma armadura havia se suavizado, embora o brilho rebelde em seus olhos nunca tivesse desaparecido de fato.

— Que olhar? — perguntou Amaia, forçando um sorriso.

— O olhar de quem está tentando carregar o mundo inteiro nas costas para ver se ele não quebra — Atlas caminhou até ela e deixou uma caneca de café na mesa de apoio. — O que foi? O advogado ligou de novo?

Amaia suspirou, deixando o pincel de lado.

— Não é o advogado. É só... hoje faz um ano. Um ano desde aquela festa. Um ano desde que a Noah se foi.

O nome de Noah ainda causava um pequeno tremor no ar, como uma corda de violino que acabara de ser cortada. Atlas sentou-se no chão ao lado do banco de Amaia, colocando a mão sobre o joelho dela.

— Eu sei — disse ele, a voz baixando de tom. — Damon me mandou uma mensagem mais cedo. Ele foi levar flores para ela no cemitério da cidade vizinha. Ele perguntou se queríamos ir.

Amaia sentiu o aperto familiar no peito. Um ataque de pânico espreitava nas sombras de sua mente, mas ela respirou fundo, usando as técnicas que aprendera. Ela não era mais a garota trancada atrás de cortinas rosas, sendo torturada pelas palavras de Helen Fontes.

— Eu não sei se consigo ir lá, Atlas. Eu sinto que, se eu for, vou admitir que ela realmente não vai mais abrir a porta e me chamar para alguma loucura.

— Ela já não vai mais abrir a porta, Amaia — Atlas falou com aquela honestidade brutal que, paradoxalmente, era o que mais a acalmava. — Mas ela está em cada cor que você coloca nessas telas. Ela está no fato de estarmos aqui hoje, vivos.

— Minha mãe me mandou uma carta — confessou Amaia, a voz trêmula. — Ela conseguiu o endereço através de um dos antigos contatos do seu pai. Ela diz que se arrepende, que quer me ver. Diz que a casa está vazia e que eu sou a única coisa que restou para ela.

Atlas endureceu os ombros. A menção a Helen Fontes era o suficiente para despertar o instinto protetor que ele desenvolvera no internato.

— Ela só está sozinha porque afastou todo mundo com aquele veneno dela. Você não deve nada a ela, Amaia. Nem um minuto do seu tempo, nem uma gota da sua paz.

— Eu sei — Amaia olhou para as próprias mãos, que não estavam mais sujas de carvão por desespero, mas sim de tinta por escolha. — Mas uma parte de mim ainda sente aquela culpa. A voz dela ainda ecoa na minha cabeça às vezes, dizendo que se eu estivesse no meu quarto, se eu não fosse tão carente...

— Pare — Atlas levantou-se e segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a focar apenas nele. — Escute bem. Você é a pessoa mais corajosa que eu já conheci. Você sobreviveu a uma tragédia e a uma mãe abusiva ao mesmo tempo. Você não é a causa da morte da Noah. Você foi a razão pela qual ela sorriu nos últimos meses de vida dela.

Amaia sentiu as lágrimas transbordarem, mas desta vez não eram lágrimas de desespero. Eram de alívio. Ela se inclinou e encostou a testa na dele.

— O que eu faria sem você?

— Você pintaria o mundo de qualquer forma — Atlas sorriu, um sorriso de lado que sempre a fazia sentir que tudo ficaria bem. — Mas eu gosto de estar aqui para segurar as tintas para você.

O interfone tocou, quebrando o momento. Era Damon. Ele subiu carregando uma caixa de pizzas e uma expressão que misturava melancolia e alegria. Damon fora o elo que mantivera a sanidade deles durante os meses de processo contra Helen Fontes, usando sua diplomacia de "filhinho de papai" para abrir portas que a rebeldia de Atlas apenas tentava derrubar.

— Eu trouxe reforços — disse Damon, entrando e chutando a porta para fechar. — E antes que vocês perguntem, não, eu não vou deixar vocês dois se afogarem em existencialismo hoje. Nós vamos celebrar a vida da Noah, não a morte dela.

Eles se sentaram no tapete da sala, o mesmo lugar onde meses antes planejavam como fugir das garras de Helen. Damon contou histórias de Noah que Amaia ainda não conhecia — de quando ela tentou tingir o cabelo de azul no banheiro do internato e acabou manchando até o teto, ou de como ela costumava roubar doces da despensa do diretor para distribuir para os alunos mais novos.

— Ela era um caos — riu Damon, limpando uma lágrima do canto do olho. — Um caos amável.

— Ela teria adorado este apartamento — comentou Amaia, olhando ao redor. — Ela diria que as paredes são muito sérias e que precisamos de mais glitter.

— Por favor, nada de glitter — Atlas resmungou, mas havia um brilho divertido em seus olhos.

A conversa fluiu para o futuro. Damon estava começando a trabalhar na empresa de seu pai, tentando mudar as coisas de dentro para fora. Atlas estava investindo em uma galeria de arte independente, um lugar onde jovens talentos — especialmente aqueles "quebrados" pelo sistema — pudessem expor seus trabalhos. E Amaia... Amaia finalmente fora aceita na faculdade de Belas Artes.

No final da tarde, quando Damon se despediu, o clima no apartamento mudou para algo mais íntimo. A luz do crepúsculo pintava as paredes de laranja e roxo, as cores favoritas de Noah.

— Você quer tentar? — perguntou Atlas, apontando para a tela em branco.

Amaia pegou o pincel. Ela não pensou em Helen, não pensou no som do tiro, nem no sangue no chão do internato. Ela pensou no riso de Noah, no apoio constante de Damon e na mão de Atlas que nunca a soltara, nem mesmo nos dias mais sombrios.

— Sim — disse ela.

Ela começou a pintar. Não eram flores crescendo em silêncio, como ela costumava fazer. Eram explosões de cores, formas abstratas que pareciam gritar de vida. Atlas sentou-se atrás dela, observando cada movimento. Ele sabia que cada pincelada era uma barreira a mais entre Amaia e o passado que sua mãe tentava arrastá-la de volta.

— Atlas? — ela chamou, sem parar de pintar.

— Sim?

— Obrigada por não ter desistido de mim quando eu era apenas uma sombra naquele corredor.

Atlas levantou-se e abraçou-a por trás, descansando o rosto em seu ombro, observando a obra de arte que nascia.

— Eu não desisti de você porque, no momento em que te vi, eu soube que você era a luz que faltava no meu próprio escuro. Nós nos salvamos, Amaia.

Eles ficaram ali por muito tempo, enquanto a noite caía sobre a cidade. O internato Saint Jude era agora apenas uma memória distante, um capítulo doloroso de um livro que eles haviam decidido continuar escrevendo juntos.

As janelas de seu novo lar não precisavam mais de desenhos para esconder o mundo. Elas eram grandes, limpas e transparentes, porque Amaia finalmente não tinha mais medo do que estava lá fora. Ela tinha o controle das cores agora. E, pela primeira vez em sua vida, o horizonte parecia infinito.

— Sabe de uma coisa? — Amaia disse, soltando o pincel e virando-se para ele. — Eu vou responder a carta da minha mãe.

Atlas franziu a testa, prestes a protestar, mas ela colocou um dedo sobre seus lábios.

— Vou responder para dizer que ela estava certa sobre uma coisa. Eu mudei. Mas não sou a pessoa que ela queria que eu fosse. Vou dizer que a culpa não mora mais aqui e que ela não tem mais poder sobre os meus sonhos. E depois disso, nunca mais vou olhar para trás.

Atlas relaxou e sorriu, puxando-a para um beijo que selava aquele novo começo.

— Essa é a minha garota.

Naquela noite, Amaia dormiu sem pesadelos. Ela sonhou com um campo de girassóis onde Noah corria livre, sem medo de ex-namorados ou de sombras do passado. E quando acordou, a primeira coisa que viu foi o rosto de Atlas, o garoto rebelde que se tornara seu porto seguro, e a luz do sol que, finalmente, não parecia mais uma ameaça, mas um convite.