De risadinha
O Azul que Hipnotiza
A turnê em Belo Horizonte estava sendo um sucesso absoluto, mas para Afonso Padilha, o palco parecia ter se tornado o lugar mais calmo de sua rotina. O verdadeiro desafio estava nos bastidores, onde cada troca de olhares com Ana parecia carregar uma voltagem elétrica que ele ainda não sabia bem como manejar. O convite para o café tinha sido um passo, mas a rotina frenética de shows e viagens sempre parecia colocar um obstáculo entre os dois.
Naquela noite de sábado, após a segunda sessão esgotada no Grande Teatro, o grupo retornou ao hotel em um clima de euforia contida. O cansaço físico era evidente, mas a adrenalina ainda pulsava. Afonso estava no saguão, conferindo algumas mensagens no celular, enquanto Thiago, Márcio e Dihh discutiam onde pediriam pizza.
— Eu não quero pizza, quero comida de verdade — reclamou Márcio, jogando-se em uma das poltronas de couro do lobby. — Alguém liga para a Ana e pergunta se o serviço de quarto aqui presta.
— Deixa a menina em paz, Márcio — Afonso interveio, sem tirar os olhos da tela, embora seus ouvidos estivessem atentos a qualquer menção ao nome dela. — Ela trabalhou o dobro que a gente hoje. Teve aquele problema com os ingressos duplicados na fila e ela resolveu tudo em dez minutos.
— O Afonso agora é o advogado oficial da Ana — zombou Dihh, cutucando Thiago com o cotovelo. — Se você falar "A" de Ana, ele já vem com o código penal da paixão.
— Não é paixão, é justiça — murmurou Afonso, sentindo o rosto esquentar.
Antes que Thiago pudesse lançar a próxima piada, o som do elevador ecoou pelo saguão silencioso. As portas se abriram e, por um momento, o tempo pareceu sofrer um curto-circuito na cabeça de Afonso.
Ana saiu do elevador. Mas não era a Ana da planilha, do coque apressado e do blazer corporativo.
Ela usava um vestido de cetim azul-marinho que parecia ter sido esculpido em seu corpo. O tecido brilhava suavemente sob as luzes quentes do hotel, caindo com uma fluidez que acompanhava cada passo firme que ela dava. O cabelo loiro estava preso em um coque sofisticado, mas alguns fios soltos emolduravam o rosto, destacando os olhos castanhos claros que, naquela noite, pareciam mais profundos e brilhantes.
— Caramba... — a voz de Thiago Ventura saiu num sussurro audível, os olhos arregalados. — Aquilo ali é a nossa produtora ou uma estrela de cinema que errou o set?
Afonso não conseguiu responder. Sua boca secou instantaneamente. Ele observou, hipnotizado, enquanto Ana caminhava em direção a eles, ajeitando a alça de uma pequena bolsa de mão. Quando ela se aproximou e virou levemente para conferir algo no balcão da recepção, o coração de Afonso deu um solavanco: o vestido tinha um decote profundo nas costas, revelando a pele clara e a curva delicada de sua coluna até quase a cintura. Era uma elegância que beirava o perigoso.
— Boa noite, meninos — disse ela, com um sorriso leve, notando o silêncio sepulcral que havia caído sobre o grupo. — Estão com cara de quem viu um fantasma. Algum problema com o check-out de amanhã?
— Problema? — Thiago finalmente recuperou a voz, embora continuasse babando visivelmente. — Ana, se você aparecer assim no palco, a gente não precisa nem contar piada. O público aplaude de pé por duas horas só por te olhar. Você tá... uau.
— Obrigada, Thiago — ela riu, parecendo genuinamente achando graça da reação exagerada dele. — Mas acho que o público prefere o "Modo Maloqueiro" de vocês.
Márcio e Dihh também murmuraram elogios, ainda meio atordoados pela transformação. Afonso, no entanto, permanecia em silêncio, com o olhar fixo nela. Ele sentia uma mistura de admiração profunda e um ciúme irracional que ele não tinha o direito de sentir.
— Você vai sair? — Afonso finalmente perguntou, sua voz saindo um pouco mais rouca do que o planejado.
Ana olhou para ele, e por um segundo, a barreira profissional estremeceu. Ela percebeu a forma como ele a olhava — não era a olhada de "baba ovo" de Thiago, era algo mais denso, mais focado.
— Vou sim — respondeu ela, aproximando-se um pouco mais de Afonso. — Algumas amigas do mestrado moram aqui em BH e marcaram de se encontrar em um lounge aqui perto. Como amanhã o voo é só à tarde, achei que merecia uma folga do "universo 4 Amigos".
— Amigas, é? — Dihh Lopes arqueou a sobrancelha, cruzando os braços. — Sei não, hein. Esse vestido azul aí tá com cara de "vou encontrar o amor da minha vida e deixar quatro humoristas órfãos".
— Não seja dramático, Dihh — Ana revirou os olhos com diversão. — São só amigas. E mesmo que não fossem, eu sou uma mulher solteira, lembram?
A frase ecoou na mente de Afonso como um desafio. *Solteira.*
— Onde é esse lugar? — Afonso perguntou, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente.
— É um lugar chamado "Skyline" — ela respondeu, conferindo o relógio de pulso. — Por quê? Vai me dizer que quer ir também?
Thiago soltou uma risadinha abafada.
— Ele? O Afonso? Ele não aguenta meia hora de lounge, Ana. Ele vai querer saber se tem pinhão no cardápio e se pode sentar de moletom.
— Eu aguento o que eu quiser, Thiago — rebateu Afonso, sem tirar os olhos de Ana. — Só acho que... bom, é tarde. BH pode ser perigosa.
Ana soltou uma risada cristalina, aquela que Afonso tanto gostava.
— Afonso Padilha, você está tentando ser meu guarda-costas? Eu administro a carreira de vocês quatro, resolvo contratos com advogados tubarões e organizo turnês internacionais. Você acha mesmo que eu não sei pegar um Uber com segurança?
Afonso sentiu-se um idiota, mas não conseguiu evitar o sorriso.
— É, você tem razão. Você provavelmente daria uma chave de braço em qualquer um que tentasse te incomodar.
— Exatamente — ela deu um passo à frente e, por um breve momento, tocou o ombro de Afonso. O perfume dela, uma mistura de baunilha com algo cítrico, o atingiu como um soco. — Não me esperem acordados. E por favor, tentem não quebrar o hotel enquanto eu estiver fora.
Ela se despediu com um aceno e caminhou em direção à porta giratória. Os quatro ficaram parados, observando a silhueta azul desaparecer na noite de Belo Horizonte.
— Mano... — Thiago suspirou, quebrando o silêncio. — O que foi aquilo? O decote daquela mulher deveria ser considerado arma letal.
— O Afonso tá em choque — apontou Márcio, rindo e balançando a mão na frente do rosto do amigo. — Ei, terra chamando Padilha! A loira já foi, cara. Pode fechar a boca.
Afonso empurrou a mão de Márcio, irritado consigo mesmo por ser tão transparente.
— Ela é bonita, ué. Qual o problema de reconhecer isso?
— O problema não é reconhecer, é o jeito que você reconhece — Dihh interveio, ficando sério por um momento. — Você parecia um cachorro vendo um frango de padaria, Afonso. E o pior: ela sabe. Ela sabe o poder que tem sobre você e, se eu não conhecesse a Ana, diria que aquele vestido foi escolhido a dedo só pra ver se o seu coração ainda batia no ritmo certo.
— Vocês viajam demais — Afonso resmungou, caminhando em direção ao elevador. — Eu vou dormir.
— Vai dormir nada! — Thiago correu atrás dele. — Você vai ficar no quarto olhando pro teto e imaginando quem são os "amigos" que estão com ela. Admite, Padilha. Você tá louco pra ir atrás dela.
— Eu não vou atrás de ninguém — mentiu Afonso, entrando no elevador.
— Se você não for, eu vou! — gritou Thiago antes das portas se fecharem. — Ela tá maravilhosa demais pra ficar solta por aí!
Dentro do elevador, Afonso encostou a cabeça no espelho frio. A imagem de Ana naquele vestido azul não saía de sua mente. Ele se sentia um adolescente. Ele era um dos humoristas mais bem-sucedidos do país, acostumado a lidar com multidões, mas bastava um olhar castanho e um decote nas costas para ele se sentir completamente desarmado.
Ele chegou ao quarto, jogou a chave sobre a mesa e tentou ligar a TV. Nada prendia sua atenção. Dez minutos se passaram. Vinte. Ele pegou o celular e abriu o Instagram. Viu que Ana tinha postado um story.
Era um vídeo curto, com música ambiente ao fundo. Ela estava brindando com duas mulheres — realmente pareciam ser apenas amigas, para o alívio momentâneo de Afonso — e a legenda dizia apenas: *"Finalmente, um tempo para ser a Ana, não a produtora."*
No vídeo, ela sorria de um jeito que ele raramente via. Era um sorriso relaxado, sem a pressão de conferir se o som estava bom ou se o camarim tinha toalhas limpas. Ela parecia leve. E, por algum motivo, aquilo o incomodou. Ele queria ser o motivo daquela leveza.
— Quer saber? Que se dane — murmurou ele para o quarto vazio.
Afonso levantou-se com uma determinação repentina. Ele não era de fazer esse tipo de coisa, mas a ideia de Ana estar em algum lugar, linda daquele jeito, e ele estar ali comendo amendoim do frigobar era insuportável.
Ele trocou a camiseta por uma camisa polo preta mais alinhada, passou um perfume e, antes que sua consciência o impedisse, desceu novamente para o saguão.
Para sua infelicidade, os três patetas ainda estavam lá, agora devorando as pizzas que haviam chegado.
— Ué, mudou de ideia? — Thiago perguntou com a boca cheia de mussarela. — Vai passear, "Padi"?
— Vou tomar um ar — respondeu Afonso, tentando passar reto.
— O ar lá no Skyline é ótimo nessa época do ano, né? — Dihh comentou, sem nem olhar para ele, apenas focando na sua fatia de pizza.
Afonso parou, suspirou e olhou para os amigos.
— Se algum de vocês postar qualquer coisa ou me seguir, eu juro que cancelo a participação de vocês no meu próximo especial.
— A gente não vai fazer nada, cara — Márcio levantou as mãos em sinal de paz. — Só estamos aqui torcendo pelo nosso menino. Vai lá, conquista a patroa.
— E pelo amor de Deus — Thiago gritou quando Afonso já estava na porta —, tenta não gaguejar quando vir as costas dela de novo!
Afonso ignorou as risadas que ecoaram atrás dele e entrou no Uber. O trajeto até o lounge pareceu durar uma eternidade. O Skyline ficava no topo de um prédio comercial, com uma vista deslumbrante da cidade. Quando ele chegou, o ambiente estava meia-luz, com um som de jazz moderno e pessoas bem vestidas circulando com taças de vinho e coquetéis.
Ele se sentiu um pouco fora de lugar, mas seus olhos começaram a escanear o ambiente freneticamente. Não foi difícil encontrá-la. O azul do vestido era como um farol.
Ana estava em uma mesa alta, perto da mureta de vidro que dava para a cidade. Ela estava de costas para a entrada — e lá estava ele, o decote que quase causou um AVC coletivo nos 4 Amigos. Afonso respirou fundo, ajeitou a camisa e caminhou até lá.
— Sabe, eu ouvi dizer que o Wi-Fi desse lugar é péssimo — disse ele, parando a poucos centímetros dela.
Ana se virou bruscamente, a surpresa estampada no rosto. Ao vê-lo, seus olhos se arregalaram e, logo em seguida, um sorriso travesso começou a se formar.
— Afonso? O que você está fazendo aqui?
— Eu... bom, eu percebi que esqueci de te dar um relatório importante — ele improvisou, aproximando-se mais.
— Um relatório? À meia-noite de um sábado? — Ela cruzou os braços, o tecido de cetim se ajustando ainda mais ao corpo. — E qual seria o assunto desse relatório, Padilha?
Afonso olhou para as amigas dela, que observavam a cena com sorrisinhos curiosos, e depois voltou a focar em Ana. O brilho da cidade refletia nos olhos dela, e por um momento, o humorista brincalhão deu lugar a um homem que sabia exatamente o que queria.
— O relatório diz que você está bonita demais para ficar apenas em fotos de Instagram — disse ele, baixando o tom de voz. — E que eu fui um idiota por não ter dito isso lá no hotel.
Ana ficou em silêncio por um segundo, a respiração falhando levemente. Ela não esperava aquela atitude direta. O Afonso que ela conhecia sempre fugia pela tangente com uma piada, mas aquele Afonso ali, parado na sua frente com um olhar decidido, era novo. E ela gostou.
— É um relatório bem específico — comentou ela, a voz suave. — E o que o "diretor" sugere que eu faça com essa informação?
— Eu sugiro que você me pague um drink — ele sorriu, recuperando um pouco da sua confiança habitual. — E que me deixe ficar aqui cinco minutos. Se eu contar uma piada ruim, você me expulsa.
— Só cinco minutos? — Ana arqueou a sobrancelha, dando um passo em direção a ele, diminuindo o espaço pessoal entre os dois.
— Bom, se a piada for boa... a gente pode estender o contrato — ele brincou, mas sua mão, quase involuntariamente, roçou a lateral do braço dela, onde o cetim terminava e a pele começava.
Ana olhou para a mão dele e depois para os olhos dele.
— Suas amigas não vão se importar? — ele perguntou, indicando a mesa.
— Elas já estavam de saída — mentiu Ana, sem nem olhar para as amigas, que prontamente entenderam o recado e começaram a pegar suas bolsas, trocando olhares de "depois você nos conta tudo".
Quando ficaram a sós na mureta, com o vento frio de BH soprando levemente e as luzes da cidade a seus pés, o clima mudou. O silêncio não era desconfortável; era carregado de possibilidades.
— Você veio mesmo até aqui só por causa do vestido? — ela perguntou, divertida, apoiando os cotovelos no parapeito, o que realçou ainda mais a curvatura das suas costas.
Afonso parou ao lado dela, olhando para o horizonte, mas sua mente estava totalmente focada na mulher ao seu lado.
— O vestido ajudou — admitiu ele, rindo baixo. — Mas eu vim porque... eu não sei, Ana. Às vezes eu sinto que se eu não der um passo, você vai continuar sendo apenas a "mulher incrível que resolve tudo", e eu vou continuar sendo o "cara que faz piada". E eu queria que, pelo menos por uma noite, a gente fosse só o Afonso e a Ana.
Ana sentiu um frio na barriga que nenhuma planilha de custos jamais provocou. Ela se virou para ele, ficando de frente, a poucos centímetros de distância.
— E quem é o Afonso quando não está no palco? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.
Afonso olhou para ela, sentindo que aquele era o momento. Sem câmeras, sem Thiago Ventura fazendo piada, sem a pressão do show.
— É um cara que está muito, muito interessado na gerente de marketing dele — respondeu ele.
Ele levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha loira que o vento havia colocado sobre seus olhos. Ana não recuou. Pelo contrário, ela inclinou levemente o rosto para o toque dele.
— Você é um perigo, Padilha — murmurou ela.
— O improviso tem riscos, lembra? — ele repetiu as palavras dela de noites atrás.
— Lembro.
— E vale a pena?
Ana sorriu, um sorriso que Afonso guardaria na memória por muito tempo.
— Acho que a gente precisa analisar os dados mais de perto para ter certeza.
Afonso não precisou de mais nenhum incentivo. Ele inclinou o rosto e a beijou. Foi um beijo lento, que começou com a hesitação de quem tem medo de quebrar uma parceria profissional valiosa, mas que rapidamente se transformou em algo urgente e profundo. O sabor de Ana era exatamente como ele imaginava: doce, intenso e viciante.
Quando se separaram, ambos estavam um pouco ofegantes. Ana encostou a testa na dele, fechando os olhos.
— Eu acho que os dados são promissores — disse ela, rindo baixo.
— Eu diria que é o melhor investimento da minha vida — Afonso respondeu, ainda abraçado a ela pela cintura, sentindo a suavidade do cetim azul sob seus dedos.
Enquanto isso, de volta ao hotel, o celular de Afonso vibrou no bolso. Era uma mensagem no grupo dos 4 Amigos.
*Thiago: "A gente sabe que você tá aí. Se não mandar uma foto de prova que o beijo aconteceu, a gente vai invadir o lounge de pijama."*
Afonso olhou para a tela, riu e guardou o celular novamente.
— O que foi? — perguntou Ana.
— Só os meninos. Eles estão sendo eles mesmos.
— Eles vão nos infernizar amanhã no aeroporto, não vão?
— Com certeza — Afonso a puxou para mais perto, ignorando o mundo ao redor. — Mas deixa eles. Eles podem ter a piada, mas eu tenho a Ana. E o vestido azul.
Ana riu e o beijou novamente, sentindo que, pela primeira vez, os bastidores eram muito mais interessantes do que qualquer luz de palco. O "slow burn" estava finalmente começando a queimar, e nenhum dos dois tinha pressa de apagar o fogo.