De risadinha
O Azul que se Perde na Noite
O beijo no terraço do Skyline parecia ter suspendido as leis da física que Ana tanto se esforçava para organizar. Por um momento, não havia cronogramas de voo, não havia contratos de exclusividade e, milagrosamente, não havia a voz estridente de Thiago Ventura ecoando em seus ouvidos. Havia apenas o calor da mão de Afonso em sua cintura e o gosto de uma promessa que vinha sendo cozinhada em banho-maria há meses.
Quando se afastaram, a respiração de Ana estava curta, e o brilho nos olhos de Afonso era algo que ela nunca tinha visto nem mesmo após os seus maiores especiais de comédia. Era uma mistura de triunfo e uma vulnerabilidade que a desarmava completamente.
— Você percebeu que agora não tem mais volta, né? — perguntou ele, a voz rouca, os dedos ainda brincando com uma mecha do cabelo loiro dela. — O "Padi" profissional acabou de ser demitido por justa causa.
Ana soltou uma risada baixa, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo. Ela olhou para o vestido azul, o mesmo que tinha causado tanto alvoroço no saguão do hotel, e depois voltou a olhar para o homem à sua frente. A inteligência e a calma que a tornavam a melhor gestora do grupo estavam ali, mas agora estavam a serviço de algo muito mais instintivo.
— Já que você gostou tanto desse vestido, Afonso... — Ela se aproximou, a voz caindo para um sussurro que fez os pelos do braço dele se arrepiarem. — Por que você não tira ele para você?
Afonso travou por um segundo, os olhos castanhos se arregalando levemente. Ele estava acostumado com a Ana que dizia "não esqueça o microfone" ou "o transfer chega em dez minutos". A Ana que lançava um desafio daqueles, com um olhar que misturava elegância e luxúria, era uma força da natureza para a qual ele não tinha roteiro preparado.
— Isso foi um convite ou uma ordem da minha superior? — ele brincou, embora seu coração estivesse batendo tão forte que ele tinha certeza de que ela podia ouvir.
— Considere como uma cláusula de urgência no nosso contrato — respondeu ela, sorrindo de forma enigmática.
Sem dizer mais nada, Ana segurou a mão dele. Seus dedos se entrelaçaram com firmeza, um contraste entre a delicadeza da pele dela e a pegada firme dele. Ela o guiou pelo lounge, ignorando os olhares curiosos que ainda restavam no local. Eles desceram o elevador em um silêncio carregado, um tipo de silêncio que gritava tudo o que eles vinham escondendo sob camadas de piadas internas e profissionalismo exacerbado.
Ao chegarem ao estacionamento subterrâneo, o som dos saltos de Ana ecoava no concreto, marcando um ritmo que acelerava o pulso de Afonso. Eles chegaram ao carro dele, um modelo confortável que ele usava para fugir do caos de São Paulo quando estava de folga, mas que em Belo Horizonte servia como o único refúgio privado que teriam longe dos olhos atentos dos outros três amigos no hotel.
Afonso destravou as portas. O som do "clique" pareceu o sinal de início de um show, mas desta vez, a plateia era de apenas duas pessoas.
— Tem certeza disso? — perguntou ele, parando diante da porta do motorista, ainda segurando a mão dela. — Se o Thiago descobrir que a gente sumiu, ele vai criar uma teoria da conspiração que vai durar até 2030.
— O Thiago não sabe nem onde guardou a própria meia, Afonso — disse ela, puxando-o pela gola da camisa polo. — E hoje, eu não sou a produtora dele. Eu não sou a administradora de ninguém.
Ela o empurrou levemente para dentro do carro. Afonso sentou-se no banco do motorista, mas antes que pudesse sequer colocar a chave na ignição, Ana entrou logo em seguida, fechando a porta e acomodando-se sobre o colo dele.
O espaço era reduzido, o que só tornava tudo mais intenso. O vestido de cetim azul deslizou sobre as pernas de Afonso, e o perfume de Ana inundou o interior do veículo. A luz fraca e amarelada do estacionamento entrava pelo para-brisa, desenhando sombras nos contornos do rosto dela.
— Ana... — ele começou, a voz falhando enquanto suas mãos encontravam o caminho natural para os quadris dela.
— Menos piadas, Afonso. Mais ação — interrompeu ela, selando os lábios nos dele com uma urgência que não permitia discussões.
As mãos de Afonso subiram pelas costas de Ana, encontrando a pele nua que o decote profundo revelava. O toque era elétrico. Ele sentiu a suavidade da pele dela e a firmeza dos músculos, um lembrete de que aquela mulher, embora pequena em estatura, tinha uma força que o dominava completamente. Seus dedos traçaram a linha da coluna dela, descendo até onde o tecido azul começava novamente, e ele sentiu um suspiro trêmulo escapar dos lábios dela contra os seus.
— Você não tem ideia de quanto tempo eu imaginei isso — sussurrou Afonso entre beijos no pescoço de Ana, sentindo o corpo dela reagir a cada toque. — Ver você mandando em tudo, resolvendo o mundo... eu só queria saber se você era tão intensa assim quando não estava com um tablet na mão.
— E qual é o veredito, Padilha? — perguntou ela, inclinando a cabeça para trás, permitindo que ele explorasse a linha de sua mandíbula.
— O veredito é que eu estou ferrado — ele riu baixo, uma risada rouca e genuína. — Porque eu nunca mais vou conseguir prestar atenção em uma reunião de pauta sem lembrar desse momento.
Ana riu, um som doce que preencheu o carro, e começou a desabotoar os primeiros botões da camisa dele.
— Então é melhor a gente aproveitar, porque amanhã às oito da manhã eu vou bater na sua porta perguntando se você já arrumou a mala.
— Você é cruel, sabia? — disse ele, ajudando-a com o fecho invisível na lateral do vestido.
— Sou eficiente — corrigiu ela, sentindo o vestido começar a ceder sob as mãos dele. — E a eficiência exige que não percamos tempo com o que não importa.
O cetim azul finalmente deslizou, revelando mais do que apenas a pele, mas a entrega total de Ana. Naquele momento, no banco de um carro em um estacionamento qualquer de Belo Horizonte, o comediante mais observador do Brasil não conseguia ver nada além da mulher que mantinha seu mundo nos eixos.
Afonso a abraçou com força, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. Não era apenas desejo; era uma conexão que vinha sendo construída em aeroportos, em jantares apressados e em olhares trocados por trás das cortinas de teatros lotados.
— Ana — chamou ele, fazendo-a olhar nos seus olhos. — Eu sei que a gente vive na zona, que minha vida é uma piada constante... mas com você, eu não estou brincando.
Ana suavizou o olhar, a expressão de "chefe" desaparecendo completamente para dar lugar a algo terno. Ela acariciou o rosto dele, sentindo a leve textura da barba.
— Eu sei, Afonso. Se eu achasse que você estava brincando, eu já teria te substituído por um estagiário — ela brincou, mas logo ficou séria. — Eu também não estou.
Eles ficaram ali por um tempo, o mundo exterior esquecido. O silêncio do carro só era quebrado pela respiração pesada e pelo som distante de algum ventilador do estacionamento. Era um momento de paz que nenhum deles sabia que precisava tanto.
No entanto, o universo dos 4 Amigos nunca permitia que o silêncio durasse muito. O celular de Afonso, jogado no console central, começou a vibrar freneticamente. A tela brilhou, iluminando o interior do carro com uma luz azulada e fria.
*Notificação: Grupo "Os 4 Cavaleiros do Apocalipse"* *Thiago Ventura: "Gente, o carro do Afonso não tá na vaga dele. Repito: O CAMELO SAIU DO DESERTO!"* *Márcio Donato: "Será que ele sequestrou a Ana ou a Ana finalmente internou ele?"* *Dihh Lopes: "Se eles não aparecerem em 15 minutos, eu vou ligar pro 190 e denunciar o roubo de uma administradora de alto nível."*
Ana olhou para a tela e depois para Afonso, que tinha uma expressão de puro desespero cômico.
— Eles são uns desgraçados — resmungou Afonso, batendo a cabeça de leve no encosto do banco. — Eles estragam tudo. Até os meus momentos de galã de cinema.
Ana começou a rir, uma gargalhada que a fez perder o ar. Ela se ajeitou, puxando o vestido azul de volta para o lugar com a praticidade que era sua marca registrada.
— Bom, pelo menos eles confirmaram uma coisa — disse ela, enquanto ajudava Afonso a abotoar a camisa.
— O quê? Que eles precisam de terapia urgente?
— Não — Ana deu um selinho rápido nele e começou a passar os dedos pelo cabelo dele para desarrumar o "ninho" que ela mesma tinha criado. — Que a gente é péssimo em esconder as coisas.
Afonso suspirou, mas não conseguia parar de sorrir. Ele ligou o carro, o motor roncando baixo no silêncio do subsolo.
— O que a gente faz agora, chefe? — perguntou ele, voltando ao tom brincalhão, mas com um brilho de cumplicidade nos olhos.
Ana olhou para o espelho retrovisor, ajeitando o batom com o dedo, e depois olhou para ele com aquela autoridade que ele tanto admirava.
— Agora, a gente volta para o hotel, entra por portas separadas e amanhã a gente finge que nada aconteceu enquanto o Thiago faz piada. Mas... — Ela fez uma pausa, colocando a mão sobre a dele que estava na marcha do carro. — Quando a gente chegar em São Paulo, na segunda-feira, você vai me levar para jantar. Em um lugar onde não tenha ninguém da equipe, ninguém com um celular na mão e, de preferência, um lugar onde a gente possa terminar o que começou aqui sem o risco de o Dihh Lopes ligar para a polícia.
Afonso apertou a mão dela, sentindo uma felicidade genuína transbordar.
— Fechado. Mas eu posso escolher o vinho?
— Pode, Padilha. Mas se escolher um vinho doce demais, eu te demito.
— Sim, senhora — ele riu, engatando a marcha ré.
Enquanto saíam do estacionamento e ganhavam as ruas de Belo Horizonte, Afonso sentia que a turnê tinha acabado de ganhar um significado completamente novo. O show no palco era ótimo, os aplausos eram gratificantes, mas o que ele tinha ali, naquele carro, era a única coisa que realmente importava.
Ao chegarem ao hotel, a recepção estava calma. Eles conseguiram subir sem serem interceptados pelo "comitê de boas-vindas" no saguão, o que foi um pequeno milagre. No corredor dos quartos, antes de se separarem, Afonso a puxou para um último beijo.
— Boa noite, Ana — sussurrou ele na porta do quarto dela.
— Boa noite, Afonso. E vê se dorme. A gente tem que estar no lobby às nove.
— Eu vou tentar. Mas acho que vou passar a noite revisando aquele seu "relatório" na minha cabeça.
Ana piscou para ele e entrou no quarto, fechando a porta com um sorriso vitorioso.
No dia seguinte, o aeroporto de Confins estava o caos de sempre. Thiago Ventura não parava de cantar músicas românticas de forma desafinada sempre que Afonso passava por perto. Márcio Donato ficava perguntando se "o ar de BH era bom para a pele", enquanto Dihh Lopes apenas observava tudo com um sorriso de quem sabia de cada detalhe, mesmo sem ter visto nada.
Ana, como sempre, estava impecável. De óculos escuros, tablet na mão e um café grande, ela organizava o embarque com a precisão de um general.
— Afonso, sua passagem — disse ela, entregando o bilhete sem desviar os olhos da tela.
— Obrigado, Ana — respondeu ele, pegando o papel.
Por um breve segundo, seus dedos se tocaram. Foi um toque rápido, quase imperceptível para quem olhava de longe. Mas para eles, foi o lembrete de que o azul daquela noite ainda estava bem ali, escondido sob a rotina, esperando pelo próximo momento em que as luzes se apagassem e o show desse lugar à vida real.
— Ih, olha lá! — gritou Thiago, apontando para os dois. — O toque de dedos! O "contato imediato de terceiro grau"! Eu vi, hein!
Ana nem sequer se abalou. Ela olhou para Thiago por cima dos óculos e disse, com a voz mais calma do mundo:
— Thiago, se você não calar a boca agora, eu vou te colocar no assento do meio, entre duas crianças chorando e uma senhora que tem medo de voar. E eu vou "esquecer" de pedir o seu lanche especial.
Thiago parou de rir instantaneamente, fazendo um sinal de zíper na boca.
— Viu? — sussurrou Afonso para Dihh enquanto caminhavam para o portão de embarque. — É por isso que eu amo essa mulher. Ela é a única pessoa no mundo que consegue domar esse zoológico.
— É, Padilha — Dihh respondeu, batendo no ombro do amigo. — Mas toma cuidado. Quem doma o leão geralmente acaba sendo devorado por ele. E, pelo seu sorriso, eu acho que você já foi jantado faz tempo.
Afonso olhou para Ana, que caminhava à frente deles com sua elegância discreta, e não pôde deixar de concordar. Ele estava completamente rendido. E, honestamente, não havia nenhum outro lugar no mundo onde ele preferiria estar do que na mira daquela loira inteligente, organizada e perigosamente inesquecível.