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De risadinha

O Silêncio Além dos Aplausos

O silêncio do apartamento de Ana era um luxo que ela raramente se permitia desfrutar. Naquela noite de sábado, enquanto o Teatro Gazeta fervilhava com a última sessão dos 4 Amigos, ela estava oficialmente de folga — um milagre administrativo que ela mesma havia cavado em sua agenda de mestranda e produtora. O som ambiente era apenas o da chuva fina batendo contra a vidraça do décimo andar e o jazz suave que saía da caixa de som Bluetooth.

Ana estava vestida com um camisete de cetim champanhe e um short confortável, os cabelos loiros presos em um coque frouxo, e uma taça de vinho tinto repousava sobre a mesa de centro, cercada por livros de Marketing que ela tentava, sem muito sucesso, ler. Sua mente, no entanto, teimava em viajar para o camarim do teatro. Ela conseguia visualizar exatamente o que estava acontecendo agora: Thiago fazendo alguma piada de última hora, Dihh conferindo o roteiro, Márcio reclamando do calor e Afonso... Afonso provavelmente estaria olhando para o celular, esperando um sinal dela.

Desde aquela noite no After em seu apartamento, a dinâmica entre os dois havia mudado drasticamente. O flerte, que antes era uma névoa sutil, transformara-se em um incêndio controlado. Eles haviam estabelecido um pacto silencioso de profissionalismo absoluto na frente da equipe, mas, quando as luzes se apagavam e os outros três iam embora, o improviso tomava conta.

O celular de Ana vibrou sobre o sofá. Uma mensagem no grupo "Os 4 Cavaleiros": *Thiago: "Show foda! Público de SP é diferenciado. O Padilha saiu voando, nem esperou a pizza. Tá com pressa, garoto?"*

Ana sorriu, sentindo um calor subir pelo pescoço. Ela sabia exatamente para onde Afonso estava indo.

Menos de vinte minutos depois, o interfone tocou.

— Pois não? — perguntou ela, embora seu coração já soubesse a resposta.

— Sou eu. O seu problema logístico número um — a voz de Afonso veio rouca e carregada de adrenalina pós-palco.

— Pode subir, Padilha.

Ana abriu a porta antes mesmo de ele tocar a campainha. Afonso estava parado no corredor, ainda vestindo a jaqueta preta que usara no show, o cabelo levemente bagunçado e o olhar intenso de quem não tinha passado os últimos quilômetros pensando em piadas. Assim que ele entrou, a energia do apartamento mudou. O silêncio calmo foi substituído por uma tensão elétrica.

Ele não disse nada de imediato. Apenas fechou a porta com o pé e a prensou levemente contra a madeira, as mãos encontrando a cintura dela com uma possessividade que a fez perder o fôlego.

— Você não faz ideia do quanto foi difícil terminar aquele set sabendo que você estava aqui — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela. — O Dihh fez uma piada sobre produtores e eu quase entreguei o jogo só de pensar em você.

— Você é um péssimo ator, Afonso — Ana riu baixo, as mãos subindo pelo peito dele, sentindo o coração dele bater tão rápido quanto o dela. — O Thiago já desconfia de tudo.

— Que o Thiago vá para o inferno — disse ele, selando os lábios nos dela.

O beijo foi urgente, faminto, com o gosto residual da adrenalina do palco e o desejo acumulado de dias de discrição forçada. Afonso a puxou para mais perto, eliminando qualquer espaço, enquanto Ana se perdia na sensação das mãos dele em sua pele. Ele a conduziu em direção ao sofá, mas não parou por ali.

— Eu não vim aqui para conversar sobre o borderô do show, Ana — ele murmurou entre beijos no pescoço dela, fazendo-a estremecer.

— Eu imaginei que não — respondeu ela, a voz falhando enquanto ele descia as mãos para a barra do seu camisete. — Mas você sabe que amanhã cedo eu volto a ser sua chefe, não sabe?

Afonso parou por um segundo, olhando-a nos olhos. O brilho castanho estava escuro de desejo, mas havia uma ternura ali que ele só mostrava a ela.

— Amanhã você pode me dar as ordens que quiser. Pode me colocar no assento do meio do avião, pode me fazer ler cem contratos... mas agora, neste exato momento, a única pessoa que manda aqui é o que a gente sente.

Ele a pegou no colo, uma manobra súbita que arrancou uma risada surpresa dela, e a levou em direção ao quarto. No caminho, a jaqueta dele foi deixada pelo chão, assim como os livros de marketing de Ana, que finalmente foram esquecidos.

A luz do corredor projetava sombras longas na cama de lençóis brancos. Quando Afonso a deitou, o contraste do cetim champanhe contra a pele alva de Ana parecia algo saído de um filme que ele nunca teria coragem de roteirizar. Ele se posicionou sobre ela, os braços sustentando o peso do corpo enquanto admirava a mulher que, sozinha, conseguia domar o caos de sua vida.

— Você é linda demais para ser verdade, sabia? — disse ele, a voz suave. — Às vezes eu acho que te inventei para suportar a rotina.

— Se você me inventou, caprichou na teimosia — ela brincou, puxando-o pela nuca para outro beijo. — Agora para de falar e me mostra se o seu improviso é tão bom quanto dizem.

Afonso não precisou de um segundo convite. Suas mãos, antes tão cuidadosas, tornaram-se exploradoras. Ele deslizou o camisete dela para cima, revelando a curva da cintura e a pele quente que reagia a cada toque seu. Ana arqueou o corpo quando sentiu os lábios dele encontrarem o vale entre seus seios, soltando um suspiro que foi música para os ouvidos de Afonso.

Tudo entre eles era intenso. A química que tentavam esconder nos bastidores explodia ali, entre quatro paredes, sem roteiro, sem plateia e sem interrupções. Cada toque era uma descoberta, cada gemido abafado era uma confirmação de que o que existia entre o humorista e a produtora era muito mais do que uma conveniência de turnê.

Ana sentia que estava perdendo o controle — algo que ela sempre detestou —, mas com Afonso, a perda de controle parecia a única coisa lógica a se fazer. Ela explorou o corpo dele, sentindo os músculos tensos das costas, a respiração pesada que soprava contra seu ouvido. Quando eles finalmente se tornaram um só, o tempo pareceu colapsar. Não havia mais 4 Amigos, não havia logística, não havia São Paulo lá fora. Havia apenas a sincronia perfeita de dois corpos que se conheciam pelo intelecto e agora se reconheciam pelo toque.

O ápice veio como uma onda avassaladora, deixando-os exaustos e entrelaçados em meio aos lençóis bagunçados. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era o silêncio de quem finalmente havia dito tudo o que precisava sem usar uma única palavra.

Horas depois, a chuva lá fora havia parado. A única luz no quarto vinha dos prédios vizinhos, filtrada pela cortina fina. Afonso estava deitado de lado, observando Ana, que descansava a cabeça em seu peito, traçando desenhos imaginários nas tatuagens do braço dele.

— Sabe o que é engraçado? — perguntou ele, a voz carregada de sono e satisfação.

— O quê? — Ana murmurou, fechando os olhos.

— Que daqui a algumas horas, a gente vai estar no aeroporto, e você vai estar com aquela cara de "eu sou a pessoa mais séria deste recinto", me dando bronca porque eu perdi meu cartão de embarque.

Ana soltou uma risadinha baixa, beijando o ombro dele.

— E você vai perder, não vai?

— Com certeza. Só para ver você revirando os olhos e me chamando de irresponsável. É o meu fetiche favorito agora.

— Você é ridículo, Afonso Padilha — ela disse, levantando a cabeça para olhá-lo. — Mas, para sua informação, eu já imprimi uma cópia reserva do seu cartão. Eu te conheço.

Afonso a puxou para um abraço apertado, rindo contra o cabelo dela.

— Viu? É por isso que eu te amo. Você resolve problemas antes mesmo de eu criá-los.

Ana congelou por um segundo. A palavra "amor" havia saído da boca dele com uma facilidade assustadora, sem o peso da piada ou a proteção do sarcasmo. Ela se afastou um pouco para encarar o rosto dele. Afonso não desviou o olhar; ele parecia sustentar cada letra do que acabara de dizer.

— Você... o quê? — perguntou ela, a voz pequena.

— Eu amo você, Ana — repetiu ele, agora com uma seriedade que a desarmou completamente. — Eu amo o jeito que você organiza o mundo, amo o jeito que você briga comigo quando eu estou sendo um tonto, e amo o fato de que você é a única pessoa que me faz querer ser alguém melhor, mesmo que eu continue contando piadas de quinta categoria.

Ana sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela, a mulher das planilhas e das certezas, não tinha uma resposta pronta para aquilo.

— Eu também — sussurrou ela, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu também amo você, seu idiota. Mesmo que isso estrague completamente a minha média de produtividade.

Afonso riu, beijando o topo da cabeça dela.

— Não se preocupa, chefe. O prejuízo a gente compensa no After.

Eles ficaram ali, abraçados, enquanto a madrugada avançava. Para o mundo, eles eram a produtora eficiente e o comediante de sucesso. Mas ali, naquele quarto, eles eram apenas o porto seguro um do outro.

Quando o despertador de Ana tocou, às cinco da manhã, a realidade voltou a bater à porta. Ela se levantou com a eficiência de sempre, mas havia um brilho diferente em seu olhar. Enquanto ela se vestia e prendia o cabelo, Afonso a observava da cama, ainda enrolado nos lençóis.

— Hora de voltar para o personagem? — perguntou ele, espreguiçando-se.

Ana parou na frente do espelho, ajeitando a gola da camisa social. Ela olhou para o reflexo dele e sorriu.

— O personagem é só para os outros, Afonso. Para você, eu sou só a Ana. Mas sim, levanta logo. O transfer chega em quarenta minutos e se o Thiago chegar antes de você, eu não vou conseguir segurar as piadas dele.

Afonso se levantou, caminhando até ela e abraçando-a por trás, olhando para os dois no espelho.

— Ele vai notar, Ana. Ele sempre nota.

— Deixa ele notar — disse ela, virando-se nos braços dele para um último beijo rápido. — Desde que a gente saiba o que acontece quando as cortinas fecham, o resto é só ruído.

No aeroporto, horas depois, a cena era a de sempre. Thiago, Márcio e Dihh estavam sentados perto do portão de embarque, cercados por malas e fãs que pediam fotos. Ana caminhava de um lado para o outro, tablet na mão, conferindo passaportes.

Afonso chegou por último, andando devagar, com um sorriso de quem tinha ganhado na loteria e não podia contar para ninguém.

— Ih, olha lá — cutucou Thiago, apontando para Afonso. — O Padilha tá com aquela cara de quem passou a noite revisando o dicionário. Tá muito radiante pro meu gosto.

— Deve ter sido o café de Porto Alegre — comentou Dihh, com um olhar cínico para Ana. — Ou talvez a "folga" da Ana tenha feito bem para o moral do grupo.

Ana não disse nada. Ela apenas entregou o cartão de embarque para Afonso sem olhar nos olhos dele, mantendo a postura profissional que era sua armadura.

— Sua passagem, Afonso. Não perca — disse ela, com a voz firme.

— Obrigado, Ana — respondeu ele, pegando o papel.

Por um breve segundo, as pontas de seus dedos se tocaram. Foi um toque elétrico, carregado de todas as lembranças da noite anterior. Afonso deu uma piscadela quase imperceptível antes de seguir para a fila, deixando Ana para trás com o coração acelerado e um sorriso escondido.

Ela voltou para o seu tablet, conferindo a próxima data em Curitiba. O trabalho continuava, a logística era implacável e o cronograma estava apertado. Mas, agora, Ana sabia que, não importava o quão caótico fosse o palco, os bastidores de sua vida estavam finalmente em perfeita ordem. Porque, longe de onde ninguém estava olhando, ela e Afonso haviam encontrado a melhor piada de todas: a de que o amor, no fim das contas, é o único improviso que realmente vale a pena.