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De risadinha

O Dilema do Radar Quebrado

A sala do apartamento de Ana era o reflexo exato de sua personalidade: organizada, com uma iluminação quente e acolhedora, e um frigobar que, para a alegria dos quatro homens jogados em seu sofá, estava impecavelmente abastecido. O show em São Paulo havia sido um triunfo, e o clima de "pós-jogo" — como Thiago Ventura gostava de chamar — havia migrado do camarim diretamente para o tapete da produtora.

Era um momento raro. Ali, sem câmeras, sem microfones e sem a pressão de mil pessoas esperando uma punchline a cada dez segundos, eles eram apenas amigos. Ou quase isso, já que a tensão entre Afonso e Ana flutuava no ar como fumaça de incenso, densa o suficiente para ser notada, mas sutil o suficiente para que ela fingisse que não existia.

— Eu estou falando para vocês, mulher é um bicho que vem com manual em aramaico e a gente tenta ler com tradutor do Google — exclamou Márcio Donato, gesticulando com uma fatia de pizza na mão. — Eu mandei uma mensagem perguntando "tudo bem?", e ela me respondeu com um "tá". Um "tá", Ana! Você sabe o que isso significa no dicionário feminino?

Ana, que estava sentada em uma poltrona lateral com uma taça de vinho, soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Significa que ela está sem paciência para a sua falta de criatividade, Márcio — respondeu ela, divertida. — "Tudo bem" é pergunta de quem não tem assunto.

— Viu? Eu falei! — Thiago apontou para Márcio, rindo. — A Ana é o nosso oráculo. Se ela diz que o Márcio é um tonto, é porque a ciência comprova. Mas o Afonso também não fica atrás. O cara está há meses tentando decifrar o sinal de uma certa operadora e a conexão sempre cai.

Afonso, que estava sentado no chão, encostado no sofá bem perto dos pés de Ana, deu um gole na sua cerveja e tentou manter a expressão neutra, embora suas orelhas estivessem levemente vermelhas.

— Eu não estou tentando decifrar nada, Thiago. Eu sou um homem de passos cautelosos. Eu respeito a logística — brincou Afonso, lançando um olhar rápido para Ana, que desviou o dela imediatamente para a taça.

— Passos cautelosos? — Dihh Lopes interveio, com seu tom analítico de sempre. — Você está parecendo um GPS quebrado, Padilha. Recalculando a rota há seis meses. Mas a verdade é que mulher é complicada mesmo. É muita camada, muito subtexto. A gente, que é homem, é simples. A gente quer comer, dormir e não ser xingado sem motivo.

Ana deu um gole maior no vinho, sentindo o calor da bebida e a descontração do momento. A convivência intensa com eles a tinha deixado mais solta. Ela já não sentia a necessidade de ser a "gerente" 24 horas por dia, embora o instinto de organização ainda a fizesse recolher os guardanapos usados da mesa de centro enquanto eles falavam.

— Vocês reclamam demais — disse Ana, recostando-se na poltrona e cruzando as pernas. — Mulher não é complicada. Mulher só é seletiva e tem um radar para bobagem muito mais calibrado que o de vocês. Ainda bem que vocês estão aí se "complicando" com as mulheres, tentando entender o que elas querem.

— Ah, é? E por que o "ainda bem"? — perguntou Thiago, arqueando a sobrancelha.

Ana soltou um suspiro dramático, com um sorriso travesso brincando nos lábios.

— Porque ruim está para mim, meus queridos. Vocês ao menos têm opções para tentar decifrar. Eu estou num nível de seca e desilusão que nem homem hétero eu estou conseguindo achar mais no mercado. Parece que entraram em extinção ou os que sobraram esqueceram de baixar o pacote de atualização de "bom senso".

A sala mergulhou em um segundo de silêncio antes de explodir em gargalhadas. Afonso quase engasgou com a cerveja, olhando para ela com uma mistura de choque e diversão.

— Como é que é? — Thiago se inclinou para frente, quase caindo do sofá. — A nossa produtora executiva, mestranda, loira, que resolve a vida de quatro marmanjos, está dizendo que o radar dela quebrou?

— Quebrou não, Thiago. Ele foi desativado para manutenção prolongada — brincou Ana, gesticulando com a mão livre. — É sério. Ou o cara é incrível, mas é casado. Ou é solteiro, mas tem a maturidade emocional de um Golden Retriever. Ou, o que acontece com 90% dos caras que se aproximam de mim ultimamente, eles descobrem que eu trabalho com vocês e passam o encontro inteiro perguntando se o Afonso é baixo mesmo ou se o Thiago é louco. É exaustivo.

Afonso sentiu uma pontada de algo que não soube identificar. Se era ciúme dos encontros que ela mencionou ou se era a oportunidade perfeita que ela acabara de abrir.

— Então o problema é a gente? — perguntou Afonso, virando o corpo para ficar mais de frente para ela. — A gente está estragando a sua vida amorosa, Ana?

— De certa forma, sim — ela riu, olhando diretamente para ele. — Vocês elevaram o meu nível de tolerância para piada ruim, mas baixaram minha paciência para homem que se acha o centro do universo. E, vamos combinar, o mercado de "homem hétero funcional" está em baixa. Às vezes eu olho ao redor e penso: "Será que eu perdi algum memorando onde avisaram que agora ser interessante é opcional?".

— Eu me sinto ofendido como representante da classe — disse Márcio, embora estivesse rindo. — Mas eu entendo. Se eu fosse mulher e tivesse que aguentar o Thiago o dia inteiro, eu também viraria celibatária.

— Ei! — Thiago protestou. — Eu sou um partido e tanto. Mas o ponto aqui é o Afonso. O Afonso está aqui, solteiro, disponível, é hétero — eu acho — e não pergunta sobre si mesmo nos encontros porque ele já se conhece. Por que você não olha para o que está no seu raio de alcance, Ana?

A atmosfera na sala mudou instantaneamente. A brincadeira de Thiago tinha um fundo de verdade que todos ali conheciam, mas que ninguém costumava colocar na mesa de forma tão direta. Ana sentiu o coração dar um solavanco. Ela olhou para Afonso, que não desviou o olhar. Pelo contrário, ele parecia estar esperando a resposta dela com uma intensidade que a fez perder o fôlego por um segundo.

— O Afonso? — Ana tentou recuperar o tom de piada, embora sua voz tenha saído um pouco mais trêmula do que o planejado. — O Afonso é meu problema logístico número um. Eu não misturo planilhas com... com outras coisas. O radar pode estar quebrado, mas o meu profissionalismo ainda tem bateria.

— Ah, para com isso — disse Dihh, levantando-se para pegar mais uma fatia de pizza. — A gente sabe que entre um aeroporto e outro, o profissionalismo de vocês dois já trocou olhares que não estão em nenhum contrato. Ana, você diz que não acha homem hétero, mas tem um aqui que está quase pintando um outdoor na Marginal Pinheiros para você notar que ele não quer só discutir o roteiro do próximo solo.

Afonso deu uma risada nervosa, mas não negou. Ele olhou para Ana e, por um momento, a fachada de comediante caiu.

— Eles são uns idiotas, Ana. Mas... — ele fez uma pausa, e o silêncio na sala tornou-se absoluto. — Eles não estão totalmente errados sobre o outdoor. Eu só não achei a tinta certa ainda.

Ana sentiu o rosto esquentar. Ela nunca imaginou que aquela conversa de After terminaria com Afonso Padilha sendo tão direto na frente dos outros três. Ela olhou para as mãos, brincando com o anel no dedo.

— Eu sou uma mulher de administração, Afonso — sussurrou ela, embora todos pudessem ouvir. — Eu gosto de riscos calculados. E você... você é um improviso constante.

— Mas o improviso é a melhor parte do show, não é? — rebateu ele, esticando a mão e tocando levemente o tornozelo dela, que estava próximo ao seu ombro. — Você mesma diz que eu sou bom nisso.

Thiago, Márcio e Dihh trocaram olhares de "finalmente".

— Bom — disse Thiago, levantando-se bruscamente —, eu acho que a pizza acabou e o meu sono chegou. Márcio, Dihh, vamos? Eu não quero estar aqui quando a administradora começar a calcular o ROI desse beijo que está para acontecer.

— O quê? Já? — Márcio tentou protestar, mas foi puxado pelo braço por Dihh.

— Vamos logo, Márcio. Deixa de ser empata-foda logístico — murmurou Dihh, empurrando os amigos em direção à porta.

Em menos de um minuto, o apartamento de Ana passou de uma sala de roteiristas barulhenta para um silêncio quase ensurdecedor. Ana permaneceu na poltrona, e Afonso continuou no chão, mas agora ele se virou completamente para ela, apoiando os braços nos joelhos.

— Eles são sutis como uma britadeira — comentou Ana, quebrando o gelo, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.

— Eles são uns desgraçados — concordou Afonso, rindo baixo. — Mas eles têm razão em uma coisa. Eu cansei de ser o "item pendente" na sua lista, Ana.

Ele se levantou devagar e sentou-se na beirada do sofá, ficando na altura dos olhos dela.

— Você disse que não acha mais homem hétero interessante. Isso foi uma indireta para eu me esforçar mais ou um aviso de que eu não tenho chance?

Ana olhou para ele, realmente olhou. Viu o cansaço das viagens sob os olhos, o sorriso que ela tanto admirava e a sinceridade que ele raramente mostrava ao mundo.

— Foi um desabafo — confessou ela. — É difícil, Afonso. Eu vejo você com as suas fãs, vejo as notícias, vejo o mundo em que você vive. Eu sou a pessoa que organiza o seu caos. Eu tenho medo de que, se eu entrar nele de outro jeito, eu perca o controle de tudo.

— E se o controle for superestimado? — Ele se inclinou para frente, encurtando a distância. — Eu não sou o cara das notícias, Ana. Eu sou o cara que te manda mensagem às duas da manhã perguntando se você chegou bem. Eu sou o cara que você faz rir sem nem precisar contar piada.

Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando a maçã do rosto.

— O seu radar não está quebrado. Ele só está focado na direção errada. Para de olhar para fora e olha para quem está aqui, dividindo a pizza fria e o After com você.

Ana sentiu a última barreira de sua resistência profissional desmoronar. Ela largou a taça de vinho na mesa lateral e, finalmente, deixou que suas mãos encontrassem os ombros dele.

— Você é um péssimo agenciado, sabia? — sussurrou ela, aproximando o rosto do dele. — Está quebrando todas as regras do manual.

— Eu nunca li o manual, Ana. Eu prefiro o improviso.

E, no silêncio do seu apartamento, longe das câmeras e das provocações dos amigos, o improviso aconteceu. O beijo foi lento, carregado de toda a tensão que vinha se acumulando entre hotéis e teatros por meses. Não havia planilhas, não havia cronogramas e, por um momento, Ana percebeu que o radar dela não estava apenas funcionando; ele tinha acabado de encontrar exatamente o que estava procurando.

Quando se afastaram, Afonso sorriu, encostando a testa na dela.

— E aí? O mercado ainda está em baixa ou o estoque acabou de ser renovado?

Ana riu, uma risada leve e feliz que parecia iluminar a sala.

— Eu acho que encontrei um exemplar único. Mas ele ainda precisa de um pouco de treinamento administrativo.

— Eu sou um aluno muito aplicado — ele piscou, puxando-a para mais perto.

Naquela noite, Ana descobriu que, embora o mundo lá fora pudesse ser complicado e os homens pudessem parecer uma espécie em crise, às vezes a melhor história de amor é aquela que você não planeja, não organiza e não coloca em uma planilha. Ela simplesmente acontece nos bastidores, quando ninguém mais está olhando, e prova que, mesmo para a mais organizada das mulheres, o melhor da vida é o que a gente não consegue controlar.