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De risadinha em risadinha

O Ciúme Tem Cabelos Loiros

A rotina de uma turnê nacional é um borrão de luzes de aeroporto, cheiro de café requentado e o som constante de rodinhas de mala batendo no piso de hotéis. Para Ana, no entanto, esse caos era sua zona de conforto. Enquanto os 4 Amigos se preocupavam em testar piadas novas no grupo de WhatsApp, ela estava conferindo se o rider técnico do teatro em Campinas tinha sido cumprido à risca.

Naquela noite, o clima nos bastidores estava especialmente elétrico. Era uma gravação importante, a casa estava lotada e a energia da plateia transbordava para trás das cortinas. Ana circulava pelo backstage com seu rádio comunicador e o tablet inseparável, coordenando a equipe de filmagem.

Afonso, por outro lado, estava estranhamente inquieto. Ele não conseguia parar de seguir Ana com o olhar. Desde aquela conversa no café da manhã em Curitiba, algo tinha mudado. O que antes era uma "apatia profissional" — um respeito mútuo, mas distante — tinha se transformado em uma necessidade latente de estar por perto. Ele a observava ajustar a lapela de Márcio ou conferir o cronômetro de Dihh, e sentia uma pontada de algo que ele não queria admitir que era admiração.

— Afonso, respira. Você vai ter um treco antes de subir — Thiago comentou, dando um tapa nas costas do amigo. — A Ana tá ali, ela não vai fugir. O contrato dela é de exclusividade, esqueceu?

— Eu não estou olhando para a Ana, Thiago. Estou vendo se o cenário está reto — mentiu Afonso, sem muita convicção.

— Sei. O cenário agora usa calça jeans justa e prende o cabelo num coque? Porque é exatamente para lá que seus olhos estão apontados — Dihh Lopes passou por eles, rindo e ajeitando o microfone.

O show começou com a explosão habitual. A plateia de Campinas era quente, e os quatro estavam em sintonia total. Ana, posicionada perto da mesa de som lateral, monitorava tudo. Ela gostava daquela parte: o momento em que seu planejamento se tornava realidade.

Tudo corria bem até a metade do bloco do Thiago Ventura. Ele estava no meio de um raciocínio sobre as dificuldades de entender a mente feminina quando, subitamente, o som do seu microfone começou a falhar. Ruídos estáticos cortavam as frases, e a plateia começou a murmurar.

Pelo ponto eletrônico, o técnico de som gritou:

— Ana, o receptor do Thiago soltou do cinto! Ele vai ficar mudo em dez segundos. Alguém tem que ir lá prender, eu não consigo sair daqui agora!

Ana não hesitou. Ela conhecia o palco como a palma de sua mão. Sem pensar duas vezes, ela pegou a fita crepe reserva e o transmissor sobressalente, sinalizou para o operador de luz baixar levemente a intensidade lateral e entrou no palco.

Ela tentou ser o mais discreta possível, deslizando pelas sombras até chegar a Thiago, que tentava improvisar enquanto batia no microfone.

— Calma, Gu — sussurrou ela, aproximando-se por trás dele.

Thiago, percebendo a movimentação, virou-se e deu um sorriso para o público.

— Galera, a patroa chegou para consertar o que eu estraguei! — anunciou ele, fazendo a plateia rir.

Ana se ajoelhou rapidamente atrás dele, concentrada em prender o transmissor que havia escapado do clipe. Seus cabelos loiros, que ela havia soltado momentos antes porque o elástico quebrara, caíram sobre os ombros, brilhando sob o reflexo residual dos refletores.

Foi nesse exato momento que a dinâmica da noite mudou.

Afonso, que estava sentado em seu banco no canto do palco — o formato clássico do show dos 4 Amigos onde os outros três ficam observando quem está no solo —, sentiu um nó no estômago. Ele viu Ana ali, sob a luz, sendo o centro das atenções por alguns segundos. Ela parecia tão segura, tão dona de si, ignorando o fato de que havia três mil pessoas olhando.

— Ih, olha lá a loira! — um homem gritou da terceira fileira, sua voz ecoando por todo o teatro durante um breve silêncio técnico.

Thiago, sempre pronto para a piada, ia abrir a boca para responder, mas outro grito veio do fundo:

— Esquece o Thiago! Eu quero é a loira! Que gata!

A plateia explodiu em assobios e gritos de aprovação. Ana sentiu o rosto queimar, mas manteve o foco, terminando de prender o equipamento. Ela deu um tapinha nas costas de Thiago, sinalizando que estava pronto, e começou a se retirar rapidamente.

Afonso, no entanto, não estava rindo.

Ele sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço que não tinha nada a ver com os refletores do palco. Seus dedos apertaram a borda do banco de madeira. Onde antes havia o comediante brincalhão, agora havia um homem com a mandíbula travada, encarando o sujeito que gritara na terceira fileira.

— Ô, amigão — Afonso interrompeu, pegando o microfone antes mesmo de Thiago retomar a piada. Sua voz saiu mais grave do que o normal, cortando a euforia da plateia. — Vamos focar no show? A "loira" é quem manda nessa porra toda. Se ela se irritar, ela cancela o show, confisca o seu ingresso e ainda te faz pedir desculpa por escrito.

O tom de Afonso não era o de quem estava fazendo um esquete. Havia uma possessividade velada, uma urgência em tirar o foco de Ana e colocá-lo de volta na ordem das coisas.

Dihh e Márcio se entreolharam imediatamente. O radar de zoeira apitou no volume máximo.

— Eita... — Márcio murmurou, inclinando-se para o lado de Dihh. — O apêndice inflamou.

Ana saiu do palco e voltou para o seu posto, o coração batendo forte. Ela ouviu o que Afonso disse e sentiu uma mistura estranha de gratidão e confusão. Por que ele tinha reagido daquele jeito? Ele nunca interrompia o solo dos outros, a menos que fosse para uma piada muito boa. E aquilo não tinha sido uma piada.

O show continuou, mas o clima no palco estava diferente. Afonso estava mais elétrico, mais afiado, e seus olhos não saíam da lateral onde Ana estava.

Assim que as cortinas se fecharam e os aplausos finais cessaram, o grupo caminhou para o backstage. Ana estava lá, de braços cruzados, esperando por eles com as garrafas de água.

— Ótimo show, meninos. Tirando o incidente do microfone, a gravação ficou perfeita — disse ela, tentando manter o tom profissional.

— "Tirando o incidente do microfone"? — Thiago repetiu, pegando a água. — Ana, você virou a estrela da noite! O cara quase pulou o fosso para te pedir em casamento.

— O cara era um idiota — rosnou Afonso, passando direto por eles e indo em direção ao camarim.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som dos passos pesados de Afonso. Dihh, Thiago e Márcio cercaram Ana como três hienas que acabaram de encontrar uma presa suculenta.

— Você viu isso? — Dihh perguntou, os olhos brilhando de malícia.

— Vi o quê? O Afonso sendo... o Afonso? — Ana tentou desconversar, começando a caminhar para recolher os equipamentos.

— Não, não, não — Márcio se colocou na frente dela. — O Afonso não é "o Afonso" desse jeito. Ele ficou com ciúmes, Ana. Ciúme real. Ele quase desceu lá para dar uma voadora no maluco da terceira fileira.

— Vocês estão imaginando coisas — Ana rebateu, mas sentia suas bochechas voltarem a arder. — Ele só estava defendendo a equipe. Ele sabe que se a plateia começar a desrespeitar os funcionários, o show perde o controle.

— Ah, tá bom! — Thiago gargalhou. — E eu sou o Batman. Ana, o cara ficou verde! Se o Hulk tivesse um filho com o ciúme, seria o Afonso naquele momento.

Ana suspirou, empurrando-os levemente para passar.

— Eu tenho relatórios para fechar. Parem de inventar fanfic da vida real.

Ela se dirigiu ao camarim principal para pegar sua mochila. Ao entrar, deu de cara com Afonso. Ele estava sentado no sofá, com a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas. Ele parecia ter perdido toda a energia que exibira no palco minutos antes.

— Ei — disse ela suavemente. — Você foi bem hoje. Apesar do... estresse.

Afonso levantou o olhar. Ele parecia exausto.

— Desculpa por ter interrompido o Thiago. Foi pouco profissional.

Ana se aproximou e encostou na mesa de maquiagem.

— Foi um pouco estranho, sim. Mas eu entendi. Você estava tentando me proteger, eu acho.

Afonso soltou um riso seco e se levantou, caminhando até ficar a poucos centímetros dela. O cheiro de suor e perfume de palco o envolvia, mas para Ana, era apenas o cheiro dele.

— Eu não estava tentando proteger a "equipe", Ana. Eu fiquei puto porque aquele cara não tinha o direito de falar de você daquele jeito.

— É uma plateia de comédia, Afonso. As pessoas falam bobagens.

— Mas não sobre você — ele rebateu, a voz baixando para um tom confessional. — Eu não gosto que olhem para você desse jeito. Eu não gosto que... — Ele parou, percebendo que estava prestes a dizer demais.

— Você não gosta que...? — Ana o incentivou, o coração martelando contra as costelas.

Afonso olhou para os próprios pés e depois de volta para os olhos dela, que brilhavam sob as luzes fluorescentes do camarim.

— Eu não gosto de ter que dividir sua atenção com três mil pessoas e ainda ter que ouvir um idiota qualquer achando que pode te elogiar assim.

Ana ficou em silêncio por um momento, processando a intensidade daquelas palavras. Ela, que sempre tinha uma resposta pronta, uma planilha para cada problema e um plano de contingência para cada desastre, estava completamente sem palavras.

— Afonso... — ela começou, mas a porta do camarim foi escancarada.

— O AMOR É LINDO! — gritou Márcio, entrando com um balde de gelo e cervejas.

— MEU DEUS, O CLIMA TÁ TÃO PESADO QUE EU ACHO QUE VOU PRECISAR DE UM GUINDASTE PARA SAIR DAQUI! — Thiago berrou logo atrás, rindo histericamente.

Dihh Lopes entrou por último, segurando o celular como se estivesse filmando um documentário da National Geographic.

— E aqui vemos o *Aponsus Padilhus* em seu habitat natural, tentando cortejar a fêmea alfa da administração, enquanto luta contra seus instintos primitivos de dar porrada em fãs aleatórios.

Afonso fechou os olhos com força, soltando um suspiro de frustração, enquanto Ana escondia o rosto nas mãos, rindo apesar do embaraço.

— Vocês não têm nada melhor para fazer? — Afonso perguntou, embora o canto de sua boca estivesse começando a ceder a um sorriso.

— Nada é melhor do que isso — respondeu Thiago, abrindo uma cerveja e entregando para Afonso. — Mas sério, Padilha... "A loira é quem manda nessa porra toda"? Foi a coisa mais brega e fofa que eu já vi você fazer.

— Foi horrível — Dihh concordou, sentando-se no braço do sofá. — Mas funcionou. A Ana está vermelha até agora.

Ana recuperou a compostura e ajeitou os óculos, lançando seu melhor olhar de "eu sou a chefe aqui".

— Já que vocês estão tão cheios de energia, podem começar a carregar as malas extras para a van. Temos um voo para o Rio em quatro horas.

Os três reclamaram em uníssono, mas começaram a se movimentar. Ana aproveitou a distração para pegar sua mochila e se dirigir à porta. Antes de sair, ela sentiu uma mão segurar seu pulso levemente.

Ela se virou e encontrou Afonso. Ele não estava mais sorrindo.

— Eu falei sério — ele sussurrou, para que apenas ela ouvisse.

Ana olhou para ele, a seriedade em seu rosto desarmando qualquer barreira profissional que ela ainda tentasse manter.

— Eu sei que falou — ela respondeu no mesmo tom. — E, para registro... eu prefiro quando você é o único que me chama de loira nos bastidores.

Ela deu um passo à frente e, num impulso que surpreendeu a ambos, deixou um beijo rápido e casto no rosto dele, perto do canto da boca. Antes que ele pudesse reagir, ela já estava no corredor, gritando ordens para os carregadores e conferindo o tablet.

Afonso ficou parado no meio do camarim, a mão tocando o lugar onde a pele dela encostara na sua. Ele sentia como se tivesse acabado de ganhar o especial de comédia mais importante da sua vida.

— Ei, Romeu do Paraná! — a voz de Dihh ecoou do corredor. — A "loira" disse que se você não estiver na van em cinco minutos, você vai no bagageiro!

Afonso riu, pegou sua jaqueta e saiu correndo. A turnê ainda estava no começo, e ele sabia que teria que aguentar muita zoação dos amigos. Mas, enquanto via Ana organizada e impecável coordenando tudo lá fora, ele percebeu que qualquer piada valeria a pena.

Afinal, nos bastidores daquela turnê, a melhor piada era o fato de ele ter achado, por um segundo sequer, que conseguiria manter o coração fora do cronograma de Ana.