De risadinha em risadinha
O Sorriso Mais Caro da Turnê
O Teatro Municipal de Campinas estava fervendo. O ar-condicionado, embora estivesse no máximo, parecia não dar conta da energia de quase três mil pessoas que aguardavam o quadro final do show. Nos bastidores, Ana conferia o cronômetro. Tudo estava correndo dentro do planejado, uma raridade em se tratando dos 4 Amigos.
Ela estava posicionada na lateral, logo atrás da cortina, com o rádio no cinto e o tablet em mãos. O bloco de Thiago Ventura estava no auge. Ele falava sobre as dificuldades de namorar quando se vem da quebrada, e a plateia respondia com gargalhadas estrondosas. Foi nesse momento que um cabo do monitor de retorno de Thiago se soltou, gerando um ruído agudo que ecoou por todo o sistema de som.
— Ana, o retorno do Gu caiu. Ele não vai se ouvir — a voz do técnico soou no ponto eletrônico dela.
Sem hesitar, Ana entrou no palco. Ela se moveu com a agilidade de quem já fez aquilo centenas de vezes, deslizando pelas sombras laterais até chegar perto de Thiago. Ela se abaixou, os cabelos castanhos presos em um coque apressado, mas com algumas mechas soltas que emolduravam seu rosto concentrado.
Thiago, percebendo a movimentação, não perdeu a oportunidade.
— Calma aí, galera, que a patroa veio consertar a bagunça! — ele anunciou, apontando para Ana.
A plateia aplaudiu. Ana deu um sorriso contido, aquele sorriso profissional que ela usava para sinalizar que estava tudo sob controle, e rapidamente encaixou o cabo. Quando ela se levantou para sair, o refletor seguiu seu movimento por um segundo a mais do que deveria.
— Ô, Thiago! — um grito vindo do meio da plateia cortou o riso geral. — Esquece a piada! Essa administradora aí tá solteira?
Thiago arregalou os olhos e deu uma olhada rápida para o lado, onde Afonso, Dihh e Márcio estavam sentados em seus respectivos bancos, observando o solo do amigo.
— Solteira? — Thiago repetiu, com um brilho malicioso no olhar. — Meu parceiro, a Ana não está apenas solteira. Ela é o melhor partido desse estado! Ela organiza agenda, faz planilha, resolve B.O. e ainda tem paciência de cuidar de quatro marmanjos. Alguém aí quer o currículo dela?
Ana sentiu o rosto queimar. Ela olhou para Thiago com um "riso nos olhos", aquela expressão de quem está achando a palhaçada divertida, mas que promete vingança nos bastidores. Ela balançou a cabeça negativamente, rindo da audácia de Thiago, e começou a caminhar de volta para a coxia.
— E olha esse sorriso! — outro homem gritou da primeira fila. — Ela tem o sorriso mais lindo que já passou por esse palco!
A plateia explodiu em assobios e palmas. Ana acelerou o passo, desaparecendo atrás da cortina enquanto soltava uma risada abafada, achando graça da situação inusitada.
No entanto, no palco, o clima mudou sutilmente para quem sabia observar.
Afonso Padilha, que até então estava rindo das piadas de Thiago, sentiu um peso súbito no estômago. Ele não disse nada. Não pegou o microfone para retrucar, não fez uma piada de improviso. Ele apenas deu uma risada falsa, curta e seca, que mal chegou aos seus olhos. Ele ajeitou o boné, desviando o olhar da plateia e focando em um ponto qualquer no chão do palco.
Dihh Lopes, sentado ao lado dele, percebeu na hora. Ele trocou um olhar rápido com Márcio Donato. Eles se conheciam há anos; sabiam ler as nuances do silêncio de Afonso. O comediante, geralmente o primeiro a entrar na pilha da zoação, estava estranhamente quieto, com a mandíbula levemente travada.
— É, Thiago... — Dihh comentou no microfone, tentando testar o terreno. — Cuidado que tem gente aqui no palco que vai começar a cobrar comissão por cada elogio que a Ana recebe.
Afonso forçou outro sorriso, mas permaneceu mudo. Ele sentia uma irritação irracional borbulhando. Por que diabos aquele cara tinha que gritar sobre o sorriso dela? E por que Thiago tinha que alimentar a ideia de que ela estava disponível para qualquer um naquela plateia?
Assim que o show acabou e as luzes se apagaram, o quarteto caminhou para o backstage. Ana estava lá, como sempre, entregando as toalhas e as garrafas de água.
— Mandaram bem, meninos. Público de Campinas nunca decepciona — disse ela, voltando a conferir o tablet.
— Especialmente o fã da terceira fileira, né, Ana? — Thiago brincou, dando uma cotovelada nela. — "O sorriso mais lindo"! O cara quase teve um infarto lá embaixo.
— Deixa de ser palhaço, Thiago — Ana riu, empurrando o braço dele. — Vai trocar de roupa que a van sai em vinte minutos.
Afonso passou por ela sem dizer uma palavra. Ele apenas pegou a garrafa de água da mão dela, seus dedos roçando os dela por um milésimo de segundo, e seguiu direto para o camarim privativo.
— Eita... — Márcio murmurou, observando as costas de Afonso desaparecerem no corredor. — Alguém hoje vai dormir de bico.
— O que foi que aconteceu com ele? — Ana perguntou, franzindo o cenho, genuinamente confusa. — Ele errou algum texto?
— O texto dele foi ótimo, Ana — Dihh respondeu, cruzando os braços e sorrindo de lado. — O problema foi o subtexto da plateia.
Ana balançou a cabeça, sem entender, e voltou para suas planilhas. Mas o silêncio de Afonso ficou ecoando em sua mente.
Cerca de dez minutos depois, quando a maior parte da equipe técnica já estava desmontando o cenário, Ana entrou no camarim para avisar sobre o transporte. Afonso estava sozinho, sentado diante do espelho, tirando o excesso de suor do rosto com uma toalha.
— Afonso? A van já encostou. O pessoal está só esperando você e o Márcio — ela disse, parando à porta.
— Já vou — ele respondeu, a voz mais baixa que o normal.
Ana entrou no camarim e fechou a porta atrás de si. Ela conhecia Afonso o suficiente para saber quando o "modo comediante" estava desligado e algo o estava incomodando.
— O que foi? Você está estranho desde o final do show. Aconteceu alguma coisa na gravação? Algum problema com o áudio que eu não vi?
Afonso largou a toalha e olhou para ela através do reflexo do espelho.
— Não foi o áudio, Ana.
— Então o que foi? — Ela se aproximou, preocupada. — Se for sobre o cronograma de amanhã, eu posso tentar adiar o voo para o meio-dia, se você estiver muito cansado...
Afonso se virou na cadeira, encarando-a diretamente. A intensidade no olhar dele fez Ana travar no lugar.
— Você achou engraçado? — ele perguntou.
— O quê?
— O Thiago fazendo leilão de você no palco. O cara gritando que você é gata, que tem o sorriso mais lindo. Você estava lá, toda sorridente, achando a maior graça da palhaçada.
Ana piscou, surpresa. Ela soltou uma risada curta, mas parou ao ver que ele não estava brincando.
— Afonso, é o show. O Thiago é um idiota, ele faz isso com todo mundo. Ele já tentou "vender" até a mãe dele no palco. Eu só achei engraçado porque foi inesperado.
— Pois eu não achei graça nenhuma — Afonso se levantou, diminuindo a distância entre eles. — Eu não gosto de ver você sendo tratada como se fosse... sei lá, um prêmio de rifa.
Ana cruzou os braços, seu lado sarcástico começando a emergir para esconder o fato de que seu coração estava acelerando.
— Ah, entendi. Então o grande Afonso Padilha, o rei do improviso, ficou incomodado com uma interação da plateia? Por que, Afonso? Achei que você fosse o primeiro a incentivar a participação do público.
— Não quando o público resolve focar na única coisa que eu... — Ele parou, mordendo o lábio inferior, parecendo lutar contra as palavras que queriam sair.
— Na única coisa que você o quê? — Ana deu um passo à frente, desafiando-o com o olhar.
Afonso suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado. A vulnerabilidade em seu rosto era algo que ele raramente mostrava fora de suas piadas mais pessoais.
— Na única pessoa que faz esse caos todo valer a pena para mim, Ana.
O silêncio que se seguiu no camarim era tão denso que Ana sentia que poderia tocá-lo. As palavras dele pairavam no ar, mudando completamente a gravidade da conversa. Ela abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu.
— Eu vejo como você trabalha — ele continuou, a voz agora suave, quase um sussurro. — Vejo como você cuida de cada detalhe para que a gente brilhe. E aí, quando você entra no palco e aquele cara começa a gritar, eu só sinto vontade de dizer para todo mundo que eles não sabem de nada. Eles veem o sorriso, mas eu vejo a mulher incrível que está por trás dele. E eu não quero o Thiago fazendo propaganda de você.
Ana sentiu um calor reconfortante se espalhar pelo peito. A irritação dele não era egoísmo; era uma proteção desajeitada, um ciúme que ele ainda não sabia como administrar.
— Afonso... — ela começou, sua voz suavizando. — O Thiago é um bobo. Ninguém leva o que ele diz a sério.
— Eu levo — ele rebateu instantaneamente. — Porque eu sei que metade do que ele disse é verdade. Você é o melhor partido desse estado. E eu fico aqui, tentando achar o momento certo de te convidar para jantar sem parecer que estou misturando as coisas, enquanto um aleatório em Campinas ganha um sorriso seu de graça.
Ana soltou um suspiro longo, um meio sorriso — o verdadeiro, não o profissional — surgindo em seus lábios.
— De graça não foi, Afonso. Eu tive que aguentar a zoação dele por dez minutos nos bastidores.
Afonso soltou uma risada curta, a tensão em seus ombros finalmente começando a ceder.
— É, eu imagino.
— E para sua informação — Ana continuou, aproximando-se um pouco mais e ajeitando a gola da jaqueta dele —, o sorriso que eu dei no palco foi de nervoso. O sorriso que eu dou quando estou com você é bem diferente.
Afonso olhou para ela, seus olhos brilhando com uma nova esperança.
— É mesmo? E como eu faço para garantir que esse sorriso seja exclusivo meu hoje à noite?
Ana consultou o tablet por hábito, mas o fechou logo em seguida, jogando-o sobre o sofá do camarim.
— Bom, a van vai levar os meninos para o hotel. Mas eu "esqueci" de conferir uma nota fiscal aqui no teatro e vou precisar de mais meia hora. Se alguém quiser ficar comigo para me ajudar... e depois talvez pedir um delivery no quarto...
Afonso abriu um sorriso largo, o primeiro sorriso genuíno daquela noite.
— Eu sou ótimo com notas fiscais. Mentira, eu sou péssimo, mas sou ótimo em fazer companhia.
Nesse momento, a porta do camarim foi levemente aberta e a cabeça de Thiago Ventura apareceu na fresta.
— Ô, casal de comercial de margarina! A van vai sair! O Afonso vem ou vai ficar aí tentando entender como funciona um CNPJ?
Afonso pegou uma almofada do sofá e jogou na direção da porta.
— Vai embora, Thiago! Avisa o motorista que a gente vai depois por conta própria!
— "A gente", é? — Thiago gargalhou, fechando a porta enquanto gritava pelo corredor: — DIHH! MÁRCIO! PODEM PAGAR! O AFONSO FINALMENTE TOMOU ATITUDE! EU DISSE QUE A PROPAGANDA IA FUNCIONAR!
Ana escondeu o rosto nas mãos, rindo da inconveniência dos amigos, enquanto Afonso apenas balançava a cabeça, rindo junto.
— Eles nunca vão nos deixar em paz, não é? — ela perguntou.
— Nunca — Afonso concordou, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. — Mas se o preço de ter você por perto é aguentar as piadas do Thiago, eu diria que é o ingresso mais barato que já paguei na vida.
Ana olhou para ele, e ali, no silêncio do camarim de Campinas, Afonso finalmente recebeu o sorriso que tanto queria. Não era para a plateia, não era para as câmeras, e certamente não era profissional. Era apenas para ele.
E nos bastidores daquela turnê, os dois perceberam que, embora o show tivesse que continuar, a melhor parte da história acontecia quando as cortinas estavam fechadas.