De risadinha em risadinha
O Silêncio Depois da Tempestade
A manhã seguinte em Goiânia surgiu com um céu de azul límpido, mas dentro do quarto 402, o tempo ainda seguia seu próprio ritmo, lento e cuidadoso. Ana acordou sob o peso de um cobertor extra que Afonso havia buscado no armário durante a madrugada. A dor aguda e retorcida que a havia nocauteado no dia anterior tinha se transformado em um cansaço surdo, uma sensação de que seu corpo fora desmontado e remontado às pressas.
Ela virou o rosto levemente e o viu. Afonso estava sentado na poltrona ao lado da cama, com o boné caído sobre os olhos e os braços cruzados, em um sono que parecia tudo, menos confortável. Ele não a tinha deixado sozinha nem por um segundo.
Ana tentou se mexer, e o leve roçar do lençol foi o suficiente para que ele despertasse. Afonso levantou o boné com o dedo indicador e piscou algumas vezes, tentando focar a visão.
— Ei — disse ele, a voz rouca de quem passou a noite em claro. — Como você está se sentindo?
— Melhor — ela sussurrou, percebendo que sua voz também estava fraca. — A cor voltou para o meu rosto?
Afonso inclinou-se para frente, examinando-a com uma seriedade que ainda a desarmava. Ele estendeu a mão e tocou a testa dela, depois a bochecha.
— Um pouco. Você ainda está pálida, mas não parece mais um fantasma de filme de terror. Bebe um pouco de água.
Ele entregou o copo com um canudo que Thiago tinha insistido em comprar ("para ela não ter que fazer esforço nem para beber", dissera o Ventura). Ana bebeu, sentindo a hidratação renovar suas forças.
— Que horas são? — perguntou ela, o instinto de administradora despertando.
— Quase oito.
— Oito?! — Ana tentou se sentar rapidamente, mas uma fisgada no ventre a fez gemer e recuar. — Afonso, a sessão extra é às dez! Eu preciso estar no teatro em meia hora para conferir a entrada do público e...
— Shhh. Para — disse ele, colocando as mãos nos ombros dela e obrigando-a a deitar novamente. — Escuta bem o que eu vou te dizer, Ana. Se você colocar um pé fora dessa cama antes das nove, eu ligo para a sua mãe. E eu sei que você tem medo dela.
Ana parou, olhando-o com indignação.
— Você não ousaria.
— Tenta a sorte — ele desafiou, com um sorrisinho de canto. — O Dihh e o Márcio já estão lá. O Thiago foi buscar o café da manhã para você. A logística está funcionando, Ana. Pela primeira vez em quatro anos, a gente está provando que aprendeu alguma coisa com você.
— Isso é assustador — ela murmurou, mas relaxou contra os travesseiros.
Momentos depois, batidas rítmicas soaram na porta. Era Thiago, equilibrando uma bandeja de prata com a habilidade de um garçom de cruzeiro.
— A rainha acordou! — exclamou ele, entrando no quarto com um chute suave na porta para fechá-la. — Trouxe ovos mexidos, torradas e um suco de laranja que o cara do restaurante jurou que tem vitamina C suficiente para ressuscitar um defunto.
— Obrigada, Thiago — disse Ana, sentindo o cheiro da comida e percebendo que estava faminta.
— Não me agradeça. Agradeça ao Afonso, que quase bateu no recepcionista porque o elevador demorou trinta segundos a mais do que o normal — Thiago piscou para ela. — Como está a "coisa de mulher"? Já parou de tentar te assassinar?
Ana riu, uma risada curta que ainda doía um pouco.
— Está sob controle. O remédio que você comprou é milagroso.
— Eu sou um mestre das farmácias — Thiago gabou-se, sentando-se aos pés da cama. — Mas falando sério, Ana... a gente deu um jeito no teatro. O pessoal entendeu. Teve até fã mandando mensagem no Instagram perguntando se a "loira da produção" estava bem, porque viram a gente saindo correndo ontem.
— Sério? — ela se surpreendeu.
— Você é famosa, Ana — disse Afonso, servindo o suco para ela. — As pessoas notam quem é que realmente manda naquela bagunça.
Eles ficaram ali por um tempo, em um momento de calmaria que raramente existia durante uma turnê. Thiago fazia piadas leves, evitando os temas mais pesados para não forçar o riso dela, e Afonso não saía do lado da cama. Era uma dinâmica nova: os comediantes cuidando da cuidadora.
— Bom — disse Thiago, levantando-se e limpando as mãos na calça —, eu preciso ir. O Dihh me mandou dez mensagens dizendo que o som do microfone do Márcio está com chiado e que ele não sabe qual cabo trocar.
Ana fez menção de falar, mas Afonso a calou com um olhar.
— É o cabo XLR reserva que está na maleta B, embaixo da mesa de som — disse Ana, suspirando. — Avisa o Dihh.
— Viu? — Thiago riu, caminhando até a porta. — Mesmo morrendo, ela sabe onde estão os cabos. Melhora aí, chefinha. A gente se vê no show. Ou melhor, a gente se vê depois do show, porque você vai ficar aqui descansando.
Quando Thiago saiu, o quarto mergulhou novamente em um silêncio suave. Afonso pegou a bandeja vazia e a colocou de lado.
— Você vai mesmo fazer o show sem mim por perto? — perguntou ela, olhando para ele.
— Vou. Mas vai ser estranho — admitiu Afonso, sentando-se na beira da cama e pegando a mão dela. — Eu me acostumei a procurar o seu boné ou o seu coque loiro no canto do palco antes de começar a primeira piada. É o meu ponto de equilíbrio.
— Você vai se sair bem. Você é o Afonso Padilha — ela apertou a mão dele.
— Eu sou o Afonso Padilha que quase teve um ataque cardíaco ontem quando viu você pálida daquele jeito — ele corrigiu, o tom de voz baixando. — Ana, eu sei que a gente brinca com tudo, mas ver você vulnerável assim... me fez perceber que eu não quero só os momentos bons. Eu quero os dias de cólica, os dias de mau humor, os dias em que você não consegue levantar da cama.
Ana sentiu os olhos marejarem. O cansaço físico a deixava mais sensível, mas as palavras dele eram o que realmente a abalava.
— Você é um idiota fofo, sabia? — ela disse, puxando-o para um abraço desajeitado.
— Eu sou um sobrevivente — ele brincou, colando a testa na dela. — Agora, eu preciso ir. Mas eu vou deixar meu celular ligado no volume máximo. Se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você liga.
— Eu vou ficar bem, Afonso. Vá lá e faça as pessoas rirem.
Ele deu um beijo demorado na testa dela e saiu, relutante.
Ana passou as horas seguintes em um estado de sonolência produtiva. Ela conferiu alguns e-mails, respondeu mensagens de fornecedores e, pela primeira vez em anos, permitiu-se não estar presente fisicamente. Ela ouviu o barulho da van saindo do hotel e, horas depois, o silêncio que indicava que o show estava acontecendo.
Por volta das treze horas, seu celular começou a vibrar sem parar. Era o grupo dos 4 Amigos.
— SHOW INCRÍVEL! — escreveu Dihh, postando uma foto da plateia lotada de Goiânia aplaudindo de pé.
— O Padilha fez uma piada sobre "homens comprando absorvente" que quase derrubou o teatro — postou Márcio. — Acho que ele se inspirou no trauma de ontem.
Ana sorriu, sentindo um calor no peito. Ela sabia exatamente do que eles estavam falando.
No final da tarde, a porta do quarto se abriu novamente. Mas não foi apenas Afonso que entrou. Os quatro estavam lá, cada um carregando alguma coisa. Dihh trazia um buquê de flores levemente amassado, Márcio trazia uma caixa de bombons e Thiago trazia... um urso de pelúcia gigante que usava um boné igual ao do Afonso.
— O que é isso? — Ana riu, sentando-se na cama com muito mais facilidade do que pela manhã.
— É o "Administrador Substituto" — disse Thiago, colocando o urso na poltrona. — Para quando você precisar tirar folga, ele fica lá no backstage fingindo que está conferindo a lista de convidados.
— Vocês são loucos — disse ela, emocionada, enquanto recebia o buquê de Dihh.
— Como você está, Ana? — perguntou Dihh, aproximando-se com um olhar genuinamente preocupado. — A cor voltou de vez, hein?
— Estou muito melhor. Acho que amanhã já consigo viajar com vocês para a próxima cidade.
— Nada disso — Afonso interveio, cruzando os braços. — Amanhã é dia de folga no cronograma, lembra? A gente vai ficar aqui mais um dia. Eu já liguei para o hotel e estendi as reservas.
— Afonso, a gente tem o voo para Brasília! — protestou Ana.
— O voo foi alterado — disse Márcio, piscando para ela. — Uma certa administradora nos ensinou que, com a antecedência certa e a justificativa de "saúde", a multa não é tão alta.
Ana olhou para os quatro, percebendo que eles tinham realmente tomado as rédeas da situação para protegê-la.
— Eu não sei o que dizer — confessou ela.
— Não diz nada — disse Thiago, sentando-se no chão. — Só aceita que, por vinte e quatro horas, você é a nossa convidada de honra e não a nossa chefe. Agora, quem quer pizza? Eu pedi cinco.
A noite seguiu assim: os cinco amontoados no quarto de hotel, comendo pizza em cima de caixas de papelão e contando histórias de turnês passadas. O clima de romance entre Ana e Afonso era evidente, mas agora não era mais motivo apenas de piada; era algo que o grupo tinha abraçado como parte da família.
Quando Thiago, Dihh e Márcio finalmente se retiraram para seus próprios quartos, o silêncio voltou a reinar. Afonso ajudou Ana a se ajeitar para dormir, retirando as caixas de pizza e organizando o quarto.
— Você foi ótimo hoje, não foi? — perguntou ela, enquanto ele apagava as luzes principais, deixando apenas o abajur aceso.
— Eu fui. Mas eu senti sua falta em cada segundo — ele confessou, deitando-se por cima da colcha, ao lado dela. — Senti falta de você reclamando que eu estava perdendo muito tempo com a interação da plateia.
— E você estava?
— Com certeza — ele riu. — Mas não tinha ninguém para me dar bronca.
Ana esticou o braço e acariciou o rosto dele. O cansaço da dor tinha passado, substituído por uma paz profunda.
— Afonso... obrigada por ontem. E por hoje. Eu não costumo deixar as pessoas verem quando eu estou fraca.
— Eu sei — ele segurou a mão dela e a beijou. — Mas você não estava fraca, Ana. Você estava apenas sendo humana. E, se você quer saber, ver você lidando com tudo isso só me fez admirar ainda mais a mulher incrível que você é.
— Até a parte do sangue no lençol? — ela perguntou, com um traço do seu humor sarcástico voltando.
— Especialmente essa parte — ele sorriu. — Porque provou que você não é um robô programado para fazer planilhas, embora eu ainda tenha minhas dúvidas.
Eles riram baixo, a cumplicidade selada no escuro do quarto.
— Amanhã eu volto ao trabalho — avisou ela. — E eu vou cobrar cada minuto dessa folga forçada. O Thiago vai ter que organizar todo o estoque de merchandising sozinho.
— Ele merece — concordou Afonso. — Mas por hoje, apenas durma.
Ana fechou os olhos, sentindo o braço de Afonso envolver sua cintura de forma protetora. A turnê continuaria, o caos voltaria, e os aeroportos estariam esperando por eles na manhã seguinte. Mas ali, naquele momento, ela percebeu que a maior conquista da sua carreira não era o sucesso dos shows ou os contratos bem assinados. Era ter encontrado quatro irmãos e um amor que sabiam exatamente o que fazer quando a mente por trás de tudo precisava, finalmente, de um descanso.
O show em Goiânia tinha terminado com aplausos de pé, mas para Ana e Afonso, a verdadeira ovação acontecia ali, no silêncio de um quarto de hotel, onde a vida real — com todas as suas dores, imprevistos e sangues — era celebrada com a mesma intensidade de uma piada bem contada. E, no fim das contas, essa era a única logística que realmente importava.