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De risadinha em risadinha

O Ciclo do Imprevisto

A luz que entrava pela janela do hotel em Goiânia parecia zombar da dor de Ana. O que começou como uma pontada discreta na base da coluna durante a madrugada transformou-se, às sete da manhã, em uma cólica lancinante que parecia retorcer seus órgãos internos. Quando ela tentou se levantar para buscar um analgésico na mala, sentiu o golpe: o calor úmido e excessivo entre as pernas. Ao afastar o lençol branco, o cenário era de um filme de terror. O sangue não era apenas um sinal biológico; era um aviso de que seu corpo, exausto pela rotina da turnê e pelo estresse acumulado, tinha decidido cobrar a conta da pior forma possível.

Ana, a mulher que organizava planilhas para contingências de voos cancelados e falhas técnicas, não tinha planejado uma hemorragia menstrual tão agressiva. Com as mãos trêmulas e o rosto pálido, ela conseguiu trocar os lençóis — uma tarefa que pareceu exigir a força de um atleta olímpico — e se arrastar de volta para debaixo das cobertas, encolhida em posição fetal.

Seu celular vibrou na mesa de cabeceira. O grupo "4 Amigos + Patroa" estava frenético.

— Alguém viu a Ana? — perguntou Márcio. — O transfer pro show das 14h chega em 40 minutos.

— Ela deve estar retocando o bronzeado de Fortaleza — brincou Thiago.

Ana respirou fundo, o suor frio escorrendo pelas têmporas. Com um esforço hercúleo, ela digitou apenas uma frase no grupo:

"Vou me ausentar do show da tarde. Não estou bem. Sigam o cronograma que deixei impresso no lobby."

O silêncio que se seguiu no grupo durou exatamente dez segundos antes de ser quebrado por uma enxurrada de interrogações. Ana desligou a tela e fechou os olhos, rezando para que o mundo parasse de girar.

No lobby, os quatro comediantes estavam paralisados.

— A Ana se ausentar? — Dihh Lopes perguntou, a voz desprovida de qualquer traço de piada. — Ela não se ausentou nem quando teve aquela intoxicação alimentar em Curitiba e ficou vomitando entre os blocos.

Afonso Padilha sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com o roteiro. Ele conhecia Ana. Sabia que, para ela admitir que não estava bem, a situação precisava estar no limite do suportável.

— Eu vou lá — disse Afonso, já caminhando em direção aos elevadores.

— A gente vai junto — Thiago completou, o tom sério substituindo o habitual deboche. — Se a capitã abandonou o barco, o barco tá afundando.

Eles subiram em silêncio. No corredor do quarto andar, a atmosfera parecia pesada. Afonso bateu na porta, primeiro suavemente, depois com mais insistência.

— Ana? Sou eu, o Afonso. Abre aqui, por favor.

Lá dentro, Ana ouviu as vozes. Cada batida na porta ecoava como uma martelada em sua cabeça. Ela se forçou a sentar, sentindo a tontura nublar sua visão. Vestiu um robe escuro sobre o pijama para esconder qualquer mancha eventual e, apoiando-se nas paredes, caminhou até a porta.

Quando ela finalmente girou a chave e a porta se abriu, os quatro recuaram um passo, chocados.

Ana estava mais pálida do que o lençol que acabara de trocar. Seus lábios tinham um tom levemente azulado e seus olhos castanhos, sempre tão alertas e afiados, estavam opacos, quase sem foco. Ela parecia ter encolhido dez centímetros.

— Meu Deus, Ana... — Afonso sussurrou, estendendo a mão para ampará-la quando percebeu que ela vacilava nas pernas.

— Eu disse para seguirem o cronograma — ela murmurou, a voz tão fraca que mal ultrapassava o limiar da porta.

— Esquece a droga do cronograma! — Thiago exclamou, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si. — Você parece que saiu de um episódio de The Walking Dead, guria. O que tá acontecendo? É apendicite? Quer que eu chame uma ambulância?

Ana balançou a cabeça negativamente, sentando-se com cuidado na beira da cama. O esforço de abrir a porta tinha exaurido suas últimas reservas.

— É só... — ela hesitou, o rosto corando levemente apesar da palidez. — É coisa de mulher. Veio muito forte desta vez. Eu perdi muito sangue.

Os quatro se entreolharam. Para homens que faziam piadas sobre quase tudo, o silêncio que se seguiu foi uma demonstração rara de respeito e preocupação genuína. Dihh percebeu os lençóis esticados de forma impecável, mas notou uma mancha escura na lixeira do banheiro que ela não teve tempo de esvaziar.

— Você tá com dor? — perguntou Márcio, aproximando-se com uma suavidade que raramente mostrava no palco.

— Muita — ela admitiu, fechando os olhos e curvando o corpo.

Afonso não pensou duas vezes. Ele se ajoelhou na frente dela, pegando suas mãos frias entre as dele.

— Ana, olha para mim. Você não vai a lugar nenhum hoje. E a gente não vai fazer esse show da tarde se você estiver assim.

— Vocês têm compromisso com o teatro, Afonso... os ingressos... — ela tentou argumentar, a mente de administradora lutando contra o colapso físico.

— O teatro espera — interrompeu Dihh. — A gente liga pro produtor local, inventa uma queda de energia, qualquer coisa. Você é a nossa prioridade.

— Thiago — Afonso comandou, sem desviar o olhar de Ana —, vai na farmácia. Compra o remédio mais forte que tiver pra cólica, absorvente noturno, aqueles de compressa quente e... sei lá, ferro? Ela tá branca demais.

— Tô indo agora — Thiago disse, já saindo pela porta. — Vou comprar uma farmácia inteira se precisar.

— Márcio, desce e pede pro hotel uma canja de galinha e muito suco de uva integral — continuou Afonso. — Dihh, avisa o pessoal do teatro que o show das 14h vai ser adiado para as 21h ou para amanhã. Dá seu jeito.

Os dois saíram rapidamente, deixando Afonso e Ana sozinhos no quarto. Ele a ajudou a se deitar novamente, ajeitando os travesseiros com uma delicadeza que faria qualquer fã do comediante duvidar de que era o mesmo homem que gritava no palco sobre as mazelas da vida.

— Desculpa por isso — disse ela, uma lágrima solitária escapando e correndo pelo rosto pálido. — Eu devia estar lá embaixo organizando tudo.

— Shhh — Afonso sentou-se na beirada da cama e começou a acariciar o cabelo dela. — Você passa 365 dias por ano cuidando da gente. Deixa a gente cuidar de você por uma tarde. O mundo não vai parar de girar se a Ana tirar uma folga forçada.

— Mas o sangue... eu sujei tudo, Afonso... foi horrível — ela confessou, a vulnerabilidade finalmente vencendo a barreira do profissionalismo.

— É só sangue, Ana. Eu já me cortei feio fazendo manobra de skate e não fiz metade do drama que você não está fazendo — ele brincou, tentando arrancar um sorriso dela. — Relaxa. Eu tô aqui.

Cerca de vinte minutos depois, o quarto de hotel transformou-se em um centro de operações. Thiago voltou com três sacolas da farmácia.

— Trouxe tudo. Remédio, chocolate amargo porque li no Google que ajuda, e esses adesivos térmicos que colam na roupa — ele despejou tudo sobre a cômoda. — E comprei um Gatorade também, pra hidratar.

Márcio chegou logo atrás com um carrinho de serviço de quarto.

— A canja tá pelando. E o suco de uva é puro, sem açúcar. Bebe tudo, Ana.

Ana olhava para os quatro, sentindo uma mistura de gratidão e perplexidade. Os "4 Amigos", conhecidos pelo humor ácido e pelas piadas de quinta série, estavam ali, ao redor de sua cama, discutindo seriamente sobre qual remédio agiria mais rápido e se a compressa devia estar mais para cima ou mais para baixo no ventre dela.

— Toma o remédio primeiro — Afonso disse, ajudando-a a sentar e segurando o copo de água para ela.

Ana engoliu o comprimido. O calor da canja começou a aquecer seu estômago e, aos poucos, a tremedeira diminuiu.

— Gente, vocês precisam ir pro teatro — ela disse, após algumas colheradas da sopa. — Se vocês perderem o horário, a multa contratual é...

— Se você falar em multa contratual mais uma vez, eu juro que eu mesmo te demito por um dia — Thiago brincou, encostado na parede. — O Dihh já resolveu tudo. O show da tarde foi cancelado. Vamos fazer uma sessão extra amanhã de manhã. O público entendeu. Postamos que foi um "problema de saúde na equipe".

— O que não é mentira — completou Dihh, entrando no quarto após as ligações. — Como você tá, chefinha?

— Um pouco melhor — ela deu um sorriso fraco. — Obrigada, de verdade. Eu não sei o que teria feito se vocês não tivessem vindo.

— Provavelmente teria tentado ir pro teatro de maca e morrido no meio do caminho — comentou Márcio.

Afonso permaneceu ao lado dela o tempo todo. Quando os outros três perceberam que o clima estava mais calmo, Thiago fez um sinal discreto para Dihh e Márcio.

— Bom, a gente vai descer pra comer alguma coisa e dar um tempo pra esse remédio fazer efeito — disse Thiago. — O Padilha fica aqui de plantão. Se ela piorar, você grita no grupo, beleza?

— Pode deixar — respondeu Afonso, sem soltar a mão de Ana.

Quando a porta se fechou, o silêncio retornou, mas desta vez era um silêncio confortável. O remédio começava a nublar a dor aguda, transformando-a em um peso suportável.

— Você não precisa ficar aqui, Afonso — ela sussurrou, sentindo as pálpebras pesadas. — Você deve estar cansado também.

— Eu não vou a lugar nenhum, Ana — ele se acomodou na poltrona ao lado da cama, mas inclinou-se para beijar a testa dela. — Eu gosto de te ver no comando, toda poderosa com seu tablet. Mas eu também gosto de saber que, quando você não consegue segurar o mundo nas costas, você confia em mim para segurar por você.

Ana suspirou, fechando os olhos. A segurança que a presença dele trazia era o melhor analgésico que ela poderia receber.

— Afonso?

— Oi.

— Obrigada por não ter feito nenhuma piada com o sangue.

Afonso sorriu, um sorriso genuíno e doce que ele guardava apenas para os momentos em que as luzes do palco estavam apagadas.

— Eu guardei todas as piadas na cabeça, loira. Quando você estiver boa, eu vou te zoar por um mês inteiro sobre como você quase desmaiou e pediu canja de galinha. Mas hoje... hoje eu só quero que você fique bem.

Ana adormeceu pouco depois, segurando a mão de Afonso. Ele ficou ali, observando o ritmo da respiração dela se estabilizar, sentindo que, embora a turnê fosse sobre fazer as pessoas rirem, os momentos mais importantes eram aqueles em que o riso dava lugar ao cuidado silencioso.

Lá embaixo, no bar do hotel, Thiago, Dihh e Márcio brindavam com copos de suco.

— Cara, a Ana tava branca que nem um papel — comentou Márcio.

— É — disse Thiago, olhando para o teto, na direção do quarto 402. — Mas o Padilha tá lá. Se tem uma coisa que aquele paranaense sabe fazer, além de piada ruim, é cuidar do que é dele.

— Do que é dele, não — corrigiu Dihh, sorrindo. — Do que é nosso. Sem a Ana, a gente ainda estaria tentando descobrir como imprimir um mapa pro teatro.

Eles riram, uma risada contida, respeitando o repouso da mente que, mesmo em silêncio e com dor, era o coração que mantinha todos eles pulsando no mesmo ritmo. A turnê continuaria no dia seguinte, as piadas voltariam, e Ana voltaria a empunhar seu tablet como uma espada. Mas, naquela tarde em Goiânia, o show mais bonito foi o que aconteceu nos bastidores, onde o sangue e a dor foram vencidos pela amizade e por um amor que não precisava de roteiro para ser perfeito.