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De volta ao nosso começo

Ecos de Verão e Maresia

O sol da manhã em Willow Creek tinha uma tonalidade dourada que parecia filtrar a poeira das estradas de terra, transformando a paisagem em um cartão-postal nostálgico. Sophie acordou com o som dos pássaros e o cheiro de café passado, algo que as cafeteiras tecnológicas de Nova York nunca conseguiram replicar. Apesar da tensão da noite anterior, ela sentia que devia às suas amigas — e a si mesma — um momento de leveza antes que o peso do memorial esmagasse tudo novamente.

— Acordem, madames! — Sophie exclamou, abrindo as cortinas do quarto de hóspedes onde Lena e Megg tentavam se camuflar sob os lençóis. — Vou levar vocês para conhecer o "império" Calloway. Ou o que sobrou dele.

Megg soltou um gemido dramático, afundando o rosto no travesseiro.

— Soph, querida, eu amo você, mas meu reino por um ar-condicionado central. Esse calor úmido está transformando meu cabelo em um ninho de mafagafos.

— Deixe de ser mimada, Megg — Lena disse, já sentada e verificando o celular, embora o sinal estivesse precário. — A cidade é linda. Parece um cenário de filme daquelas plataformas de streaming que a gente assina e nunca tem tempo de ver.

Uma hora depois, as três mulheres caminhavam pela rua principal. Sophie usava um vestido leve de linho e óculos escuros, tentando manter a discrição, mas seu porte e a presença vibrante de suas amigas atraíam olhares imediatos.

A primeira parada foi na floricultura da Dona Martha. Assim que o sino da porta tocou, a senhora de cabelos brancos levantou os olhos e deixou cair o borrifador que segurava.

— Sophie? Sophie Calloway, é você mesma? — A mulher deu a volta no balcão com os braços abertos.

— Sou eu, Martha. — Sophie sorriu genuinamente, aceitando o abraço apertado que cheirava a lavanda e terra molhada.

— Minha nossa, você está uma mulher deslumbrante! Eu vejo você naquelas revistas caras e nem acredito que é a mesma menina que roubava margaridas do meu canteiro — Martha riu, limpando uma lágrima no avental. — Sinto muito pelo seu pai, querida. Tom era um homem de ouro. Ele sempre vinha buscar lírios para você quando você estava triste.

Sophie sentiu um nó na garganta, mas o carinho da mulher serviu como um bálsamo. Martha insistiu que elas levassem um buquê de flores silvestres por conta da casa. Ao saírem, passaram pela doceria e pela sorveteria da praça. Em cada lugar, Sophie era recebida com surpresa e afeto genuíno pelos comerciantes mais velhos. Para eles, ela não era a popstar inalcançável, mas a filha de Tom que tinha ganhado o mundo.

— Ok, eu admito — disse Megg, saboreando um sorvete de pistache que, segundo ela, "competia com os da Itália" — a hospitalidade aqui é perigosa. Se eu ficar mais dois dias, vou acabar comprando uma fazenda e adotando dez gatos.

— Não se empolgue, Megg — Lena brincou, ajeitando a alça da bolsa. — Você não dura uma hora sem sinal de 5G constante. Mas Sophie, é impressionante como eles te amam aqui.

— Nem todos — Sophie murmurou, avistando a placa da lanchonete da família Sally logo à frente. — Mas vamos lá. É o coração da cidade. Se não formos, vão dizer que eu fiquei arrogante.

A lanchonete dos Sally era o ponto de encontro clássico de Willow Creek. Bancos de couro vermelho, balcões de fórmica e o som de música country ao fundo. Ao entrarem, o burburinho das conversas diminuiu por um instante.

Atrás do balcão estava Anne, a irmã mais nova de Ben. Quando ela viu Sophie, seus olhos quase saltaram das órbitas.

— Meu Deus! Sophie Keily na nossa lanchonete? — A garota, que agora era uma jovem adulta, deu um grito abafado. — Eu tenho todos os seus álbuns! Eu... eu até aprendi a tocar "Broken Glass" no violão por causa de você!

— Oi, Anne. — Sophie riu da empolgação dela. — Você cresceu tanto. E por favor, aqui sou apenas a Sophie.

Dora e Frank Sally, os pais de Ben, saíram da cozinha ao ouvirem o alvoroço. Dora, uma mulher de rosto bondoso e mãos calejadas pelo trabalho, correu para abraçar Sophie.

— Sophie, querida! Que bom que você veio — disse Dora, segurando o rosto de Sophie entre as mãos. — Estávamos com tantas saudades. Frank, veja se ela não está a cara da mãe quando era jovem!

— Está mesmo — Frank assentiu com um sorriso caloroso, apertando a mão de Sophie. — Seja bem-vinda de volta, menina.

Nesse momento, uma mesa no canto chamou a atenção. O grupo de amigos de Ben estava lá, terminando de almoçar. Caly, Mike, Léo, JJ e, para o desconforto de Sophie, Tali Fields.

— Vejam só, a realeza resolveu descer ao nível dos plebeus — comentou Caly, mas seu tom era mais brincalhão do que ácido. Ele se levantou, os olhos azuis brilhando ao pousarem em Megg. — E quem são essas belas damas que trazem o brilho da cidade grande para o nosso humilde balcão?

— Essas são Lena, minha advogada, e Megg, minha produtora — apresentou Sophie, tentando ignorar o olhar gélido que Tali lhe lançava.

— Produtora, hein? — Caly se aproximou de Megg com um sorriso galanteador. — Você produz milagres? Porque eu acho que acabei de ver um anjo loiro entrar por aquela porta.

Megg arqueou uma sobrancelha, claramente divertida com a audácia do rapaz.

— Eu produzo discos de platina, cowboy. Mas a sua cantada é tão vintage que chega a ser quase fofa.

Ao lado, Mike, o mais reservado do grupo, observava Lena com uma curiosidade silenciosa. Lena, sempre profissional e contida, sentiu-se estranhamente desconfortável sob o olhar analítico e calmo do homem de cabelos castanhos.

— Você é a advogada? — Mike perguntou, a voz baixa e tranquila. — Deve ser um trabalho difícil manter a Sophie na linha.

— Sophie é a parte fácil — respondeu Lena, cruzando os braços. — Difícil é lidar com as pessoas que acham que sabem tudo sobre ela sem terem falado com ela em dez anos.

Um silêncio tenso se instalou. Tali, sentada ao lado de JJ, limpou a boca com o guardanapo e se levantou.

— Que bom que você está fazendo turismo, Sophie. É sempre bom ver o que a gente deixou para trás antes de voltar para a vida de mentira — Tali disse, com um sorriso forçado. — Ben está na fazenda, caso esteja procurando por ele. Ele está muito ocupado com os preparativos do nosso casamento, mas tenho certeza de que ele adoraria ver você... de longe.

— Eu não estou procurando o Ben, Tali — Sophie respondeu calmamente, embora seu coração estivesse acelerado. — Estou apenas mostrando a cidade para as minhas amigas. E a propósito, o noivado de vocês é o assunto da cidade. Meus parabéns, de novo.

JJ, a esposa de Léo, tentou amenizar o clima.

— Sophie, você precisa conhecer o Liam! Ele está enorme. Léo conta histórias de quando vocês todos costumavam ir para o riacho.

— Eu adoraria, JJ — Sophie sorriu para a amiga de infância.

Depois de mais alguns minutos de conversas cruzadas e flertes desajeitados de Caly com Megg, as três saíram da lanchonete. O calor estava aumentando, e Sophie sabia exatamente para onde ir.

— Vamos para a praia — anunciou ela. — Preciso de ar salgado.

Willow Creek não tinha as praias badaladas da Califórnia, mas tinha uma costa rochosa com faixas de areia cinzenta e águas bravas que eram o paraíso dos surfistas locais. Era ali que Ben passava a maior parte do tempo antes do acidente.

Ao chegarem à orla, o vento soprou forte, bagunçando os cabelos das três. Megg tirou os sapatos de grife e caminhou com cuidado pela areia.

— Agora eu entendo — disse Lena, olhando para o horizonte onde o azul do céu se fundia com o mar escuro. — Há uma melancolia linda aqui. É o tipo de lugar que te faz querer escrever poesia ou... fugir.

— Eu fiz os dois — Sophie confessou, sentando-se em um tronco seco trazido pela maré. — Eu escrevia músicas aqui enquanto via o Ben pegar ondas. Ele parecia invencível na água. Era como se nada pudesse machucá-lo enquanto ele estivesse em cima daquela prancha.

Ela olhou para o lado, para o penhasco que se erguia ao longe, parcialmente escondido pela neblina costeira. Foi naquela estrada, lá em cima, que o carro derrapou. O contraste entre a beleza da praia e a memória do acidente era o que definia Willow Creek para ela: um lugar de luz intensa e sombras profundas.

— Sabe o que é engraçado? — Megg disse, sentando-se ao lado dela. — Aquele cowboy, o Caly... ele é um desastre, mas tem olhos honestos. E o tal do Mike não tirou os olhos da Lena. Acho que vocês duas deixaram marcas aqui hoje.

— E você, Megg? — Sophie provocou. — Achei que tinha gostado do "vintage" dele.

— Ele é um projeto de restauração que eu não tenho tempo para assumir — Megg riu, mas havia um brilho diferente em seus olhos azuis.

Sophie voltou seu olhar para o mar. Ela se lembrou de Ben no dia em que ela partiu. Ele estava na areia, com a perna engessada, apoiado em muletas. Ele não disse "boa sorte". Ele não disse "eu te amo". Ele apenas olhou para ela com um vazio que a assombrava até hoje.

— Ele não me perdoou, meninas — Sophie disse, a voz quase sumindo com o som das ondas. — E o pior é que eu também não me perdoei.

— O perdão não é um evento, Soph — Lena disse, colocando a mão no ombro da amiga. — É um processo. E você voltar para cá, enfrentar a Tali, enfrentar a sua mãe... isso já é o começo.

— Eu só quero que o memorial do meu pai seja perfeito — Sophie suspirou. — Quero que ele saiba, onde quer que esteja, que eu não esqueci o que ele fez por mim. Ele me deu a vida dele. Eu preciso fazer a minha valer a pena.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, Sophie viu uma caminhonete preta estacionada perto do mirante. Ela reconheceu o veículo imediatamente. Ben estava lá dentro, sozinho, olhando para o mar. Ele não saiu, não acenou. Apenas ficou ali, uma silhueta contra o sol do meio-dia.

Sophie não parou. Ela continuou andando, mas sentiu o olhar dele em suas costas como se fosse uma chama. O passado não estava apenas enterrado em Willow Creek; ele estava vivo, respirando e, de alguma forma, esperando por uma conclusão que nenhum deles sabia como escrever.

Ao chegar em casa, a casa dos Calloway parecia mais silenciosa. Jack e Olivia tinham saído com as crianças, e Jene estava na cozinha, organizando fotografias antigas sobre a mesa de jantar.

— Sophie? — a mãe chamou. — Venha ver isto.

Sophie se aproximou e viu uma foto dela aos sete anos, sentada nos ombros do pai, ambos rindo diante do mar.

— Ele tinha tanto orgulho de você — Jene disse, a voz embargada. — Mesmo naquela última discussão, quando ele disse que você não podia ir... ele não estava tentando prender você. Ele estava apenas com medo de perder a única coisa que ele achava que era puro neste mundo.

Sophie abraçou a mãe, e desta vez, o abraço não foi rígido. Pela primeira vez em dez anos, as barreiras começaram a ceder.

— Eu sinto tanta falta dele, mãe.

— Eu também, querida. Eu também.

Naquela noite, sob o céu estrelado do interior, Sophie não pegou o violão. Ela apenas ouviu o silêncio, deixando que as memórias daquele dia — o carinho de Martha, a empolgação de Anne, a hostilidade de Tali e o silêncio de Ben — se transformassem em algo novo. Ela estava mudando. Willow Creek estava mudando ela. E a cerimônia que se aproximava não seria apenas um adeus a Tom Calloway, mas talvez, o primeiro passo para Sophie Keily finalmente encontrar o caminho de volta para casa.

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