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De volta ao nosso começo

O Brilho das Estrelas e o Galope do Coração

A noite em Willow Creek tinha um jeito particular de abraçar as pessoas. O céu, livre da poluição luminosa das metrópoles, era um manto de veludo cravejado de diamantes brutos. No quintal da casa dos Calloway, o crepitar da grande fogueira era o ritmo que regia o encontro. O cheiro de madeira queimada misturava-se ao aroma de carne assada e milho doce.

Lena e Megg estavam integradas de uma forma que Sophie não esperava. Megg, com sua risada contagiante, estava sentada em um tronco ao lado de Caly, que gesticulava animadamente enquanto contava uma história sobre um bezerro fujão. Lena, por outro lado, mantinha uma conversa baixa e aparentemente profunda com Mike, cujos olhos pretos pareciam finalmente ter encontrado algo que despertasse seu interesse genuíno. Até mesmo a família Sally e a família Calloway pareciam ter selado uma trégua temporária em honra à memória de Tom.

Mas Sophie não conseguia se aproximar. Ela estava parada na sombra do velho celeiro, a alguns metros da luz, com os braços cruzados sobre o peito. A música que vinha do rádio de pilha, uma balada country antiga, parecia perfurar sua pele. Ela ouvia as risadas de Jack e Olivia, via o brilho nos olhos de sua mãe, e uma pontada de exclusão a atingia. Ela sentia que, por mais que estivesse fisicamente ali, ainda era a "estrangeira" que trazia a culpa na bagagem.

— O celeiro ainda Range do mesmo jeito quando o vento bate, não é? — A voz veio da lateral, assustando-a levemente.

Sophie virou-se e viu Jack e Olivia se aproximando. Ela esperava sarcasmo ou olhares tortos, mas o que encontrou nos rostos dos irmãos foi uma melancolia cansada, suavizada pelo fogo ao longe.

— Sim — respondeu Sophie, a voz pequena. — Eu costumava me esconder aqui quando vocês não me deixavam brincar de forte no jardim.

— Você sempre foi teimosa, Soph — disse Olivia, sentando-se no chão de grama seca e batendo no espaço ao seu lado. — Senta aqui. A fogueira não vai morder.

Sophie hesitou, mas acabou sentando-se entre os dois. Por um momento, o silêncio não foi pesado, mas sim preenchido pelas memórias de três crianças que costumavam ser inseparáveis antes da tempestade.

— Eu sinto muito — sussurrou Sophie, olhando para as próprias mãos. — Por ter ido embora. Por não ter estado aqui quando a mamãe mais precisou.

Jack soltou um suspiro longo, passando a mão pelo cabelo.

— A gente te culpou por muito tempo, Soph. Era mais fácil culpar você do que aceitar que o papai se foi em um acidente estúpido. E ver você brilhando na TV enquanto a gente tentava consertar as cercas e cuidar da mamãe... doeu. Parecia que você tinha esquecido da gente.

— Eu nunca esqueci — ela rebateu, com os olhos marejados. — Cada música que eu escrevi, cada prêmio que eu ganhei... eu trocaria tudo para ter tido um jantar normal com vocês de novo. Eu saí porque não conseguia olhar para vocês sem ver o reflexo do meu erro.

Olivia encostou a cabeça no ombro de Sophie, um gesto que não fazia há mais de uma década.

— Nós somos uma família de cabeças duras, Sophie. Mas você ainda é a nossa irmãzinha. E o papai... ele teria odiado ver a gente assim.

Eles ficaram ali por um tempo, rindo de histórias antigas — de quando Jack tentou consertar o trator e acabou inundando o galinheiro, e de como Sophie costumava ensaiar discursos de agradecimento usando uma espiga de milho como microfone. A tensão que parecia uma corda esticada finalmente relaxou.

— Chega de sombras — disse Jack, levantando-se e estendendo a mão para as irmãs. — Vamos para a luz. O Caly está tentando convencer a sua amiga loira de que ele é o melhor domador de cavalos da região, e eu acho que ela está prestes a dar um soco nele.

Sophie riu e deixou-se ser levada. Quando chegaram ao círculo da fogueira, o grupo se abriu para recebê-los. Jene sorriu ao ver os três filhos juntos, e até mesmo Ben, que estava sentado um pouco mais afastado com Tali, desviou o olhar para Sophie. Havia algo diferente no olhar dele agora — menos raiva, mais confusão.

A noite seguiu com pedidos para que Sophie contasse sobre Nova York, sobre os shows e as pessoas famosas. Ela contou, mas focou nas partes engraçadas e humanas, tentando mostrar que, por trás da "Sophie Keily", a garota de Willow Creek ainda vivia.

No dia seguinte, a cidade acordou cedo. O sol mal havia cruzado o horizonte e o som de marteladas e vozes já preenchia o ar. Era o dia da preparação para o Festival das Luzes, que este ano coincidiria com o memorial de Tom Calloway. A cidade inteira estava nas ruas, ajudando na colheita tardia e decorando o centro com lanternas e flores.

Sophie desceu as escadas da casa sentindo o corpo leve pela primeira vez em anos. Ela vestiu uma calça jeans gasta, botas de montaria e uma camisa xadrez, prendendo o cabelo castanho em um rabo de cavalo prático. Quando saiu, encontrou Megg e Lena já na varanda, tomando café em canecas de cerâmica.

— Bom dia, estrela — disse Megg, que parecia estranhamente animada para alguém que odiava acordar cedo. — Adivinha quem vai ajudar a carregar caixas de decorações hoje?

— Nós três? — Sophie sorriu.

— Exatamente. E parece que o seu "comitê de boas-vindas" já está no centro.

Ao chegarem à praça central, o cenário era de pura atividade. Caminhonetes descarregavam cestos de maçãs e abóboras, enquanto cordões de luzes eram esticados entre os postes. Ben estava no topo de uma escada, prendendo uma faixa, enquanto Mike e Léo organizavam os tablados de madeira.

Sophie aproximou-se do grupo, sentindo o olhar de Ben sobre ela.

— Bom dia, pessoal — disse ela, a voz clara. — Onde eu começo?

— Sophie! — Caly acenou de cima de uma carroça. — Você pode ajudar a organizar as flores perto do coreto. Mas cuidado, a Tali está por lá e o humor dela hoje está mais azedo que limão verde.

Sophie ignorou o comentário sobre Tali e começou a trabalhar. Ela carregou cestos, amarrou laços e conversou com vizinhos que não via há anos. A sensação de comunidade, de trabalhar com as mãos para algo maior, estava preenchendo o vazio que a fama nunca conseguiu satisfazer.

Por volta do meio-dia, o pai de Ben, Frank, aproximou-se de Sophie com um brilho cúmplice nos olhos.

— Sophie, tem alguém lá no fundo do estábulo municipal que eu acho que você gostaria de ver.

Sophie franziu a testa, curiosa. Ela seguiu Frank até a área dos estábulos, onde os animais que participariam do desfile do festival estavam sendo preparados. O cheiro de feno e couro a atingiu como uma onda de nostalgia.

— Ele não deixou ninguém montá-lo desde que você foi embora, pelo menos não sem dar um bom trabalho — disse Frank, apontando para a última baia.

Sophie parou. Seu coração deu um salto violento. Lá, com a pelagem marrom-avermelhada brilhando sob a luz que entrava pelas frestas do telhado, estava Faísca. O cavalo, agora mais velho, mas ainda imponente, soltou um bufo alto ao perceber a presença de alguém.

— Faísca? — sussurrou Sophie, aproximando-se lentamente.

O animal virou a cabeça, as orelhas em pé. Sophie estendeu a mão, deixando que ele sentisse seu cheiro. Por um momento, o tempo parou. Faísca encostou o focinho úmido na palma da mão dela e soltou um relincho baixo, quase como um cumprimento.

— Oi, garoto... sou eu. Eu voltei — disse ela, as lágrimas escorrendo sem permissão.

Ela entrou na baia e abraçou o pescoço do animal, enterrando o rosto em sua crina. Aquele era o seu porto seguro. Faísca tinha sido seu confidente em todas as tardes de solidão, o companheiro de suas fugas para os campos quando o mundo parecia pesado demais.

— Ele nunca esqueceu você, Sophie — uma voz profunda disse atrás dela.

Ela se virou e viu Ben parado na entrada do estábulo. Ele tinha tirado o chapéu e o segurava contra a perna, observando a cena com uma expressão que Sophie não conseguia decifrar. Não havia Tali por perto, não havia amigos, apenas os dois e o silêncio do estábulo.

— Eu achei que ele já tivesse sido vendido — disse Sophie, limpando o rosto rapidamente.

— Meu pai não deixou. E eu... eu cuidei dele. Todos os dias. — Ben deu um passo à frente, entrando na luz. — Ele sentia sua falta. Às vezes, ele ficava parado perto da cerca olhando para a estrada, como se soubesse que você ainda não tinha chegado.

Sophie acariciou as orelhas de Faísca, sentindo a conexão vibrar entre eles.

— Obrigada, Ben. Por cuidar dele. Por tudo.

Ben soltou um riso amargo, mas sem a crueldade de antes.

— Eu não fiz por você, Soph. Fiz pelo cavalo. E talvez porque eu também soubesse o que era ficar esperando por alguém que não voltava.

O silêncio que se seguiu foi carregado. Sophie queria dizer tanta coisa — queria explicar o medo, a dor, o amor que nunca morreu —, mas as palavras pareciam insuficientes diante daquele homem que ela mal reconhecia, mas que ainda conhecia tão bem.

— Você parece mais você mesma hoje — ele comentou, olhando para a roupa dela e para o jeito que ela lidava com o animal. — Menos "Keily", mais Calloway.

— Eu estou começando a me lembrar de quem a Calloway era — respondeu ela, olhando-o nos olhos. — E ela sente muito por ter machucado você, Ben. De verdade.

Ben apertou o chapéu nas mãos, desviando o olhar para o chão de terra.

— O memorial é amanhã, Sophie. Foca nisso. O resto... o resto a gente vê depois que as luzes se apagarem.

Ele se virou e saiu, deixando-a sozinha com Faísca. Sophie respirou fundo, sentindo a força do animal ao seu lado. Ela montou em Faísca, apenas para sentir a sela sob o corpo, e naquele momento, galopando mentalmente pelos campos de sua infância, ela soube.

A cantora famosa podia ter o mundo aos seus pés, mas era ali, entre o cheiro de feno, a poeira da estrada e o perdão silencioso de um cavalo, que Sophie Calloway estava, finalmente, renascendo das cinzas de seu próprio passado. O festival estava chegando, e com ele, a chance de transformar a dor em música, e a culpa em um novo começo.

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