De volta ao nosso começo
O Silêncio Atrás da Cortina de Vidro
A manhã em Willow Creek nasceu sob um céu de chumbo, como se a própria natureza estivesse de luto ou, talvez, exausta pela violência da tempestade da noite anterior. O ar estava saturado de umidade, e o cheiro de terra molhada, que antes trazia nostalgia a Sophie, agora parecia o cheiro de um túmulo aberto.
Na cozinha da fazenda Calloway, o som das colheres batendo nas tigelas de cerâmica era o único ruído que cortava o silêncio desconfortável. Jene, Olivia e Jack estavam sentados à mesa com as crianças, mas ninguém parecia ter apetite. Gregori e Hope olhavam para os adultos com olhos curiosos e assustados, sentindo a eletricidade estática da tensão que pairava no ar.
Do lado de fora, Megg andava de um lado para o outro na varanda, o celular pressionado contra a orelha com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
— Eu não quero saber o custo, William! — Megg sibilou ao telefone, sua voz cortante como uma navalha. — Eu quero um transporte privado aqui amanhã, às seis da manhã. E o SUV que sofreu o acidente... mande alguém buscar para o ferro-velho ou para o inferno, eu não ligo. Só tire essa sucata da minha frente.
Nesse momento, o som de motores se aproximando fez Megg parar. A caminhonete de Ben, seguida pelos carros de Mike e Léo, estacionou no pátio. Eles traziam o SUV de Sophie rebocado, uma carcaça de metal retorcido que servia como um lembrete visual do desastre. JJ desceu do carro com uma expressão de profunda preocupação, acompanhada por Caly, que parecia ter envelhecido cinco anos em uma única noite.
Megg nem sequer olhou para eles. Continuou sua conversa ao telefone, ignorando a presença do grupo que se aproximava da varanda.
— Megg? — JJ chamou suavemente, parando no primeiro degrau. — Como ela está? O médico veio de novo?
Megg desligou o celular lentamente, seus olhos azuis gelados fixando-se em JJ por um segundo antes de varrerem o restante do grupo. Caly tentou dar um passo à frente, um meio sorriso de desculpas ensaiado nos lábios, mas o olhar de Megg o congelou no lugar.
— Ela está viva — respondeu Megg, a voz desprovida de qualquer calor. — Se é isso que vocês consideram "estar bem", então sim, ela está ótima.
— Megg, nós trouxemos o carro e... — Caly começou, mas a produtora o interrompeu com um gesto brusco.
— Deixe essa lata velha aí. Não faz diferença. Nada do que vocês fazem agora faz diferença.
A família de Ben — Dora, Frank e Anne — também apareceu logo depois, descendo dos carros com cestos de comida e olhares de condolências. O grupo todo entrou na casa, encontrando Jene e os outros na cozinha. O clima era de um velório antecipado.
— Bom dia — disse Jene, levantando-se com esforço quando Megg entrou na cozinha logo atrás dos outros.
— Bom dia — respondeu Megg, seca, sem parar para olhar para ninguém.
— Megg, por favor — Olivia interveio, a voz rouca de quem passara a noite chorando —, você e a Lena não querem se sentar? Eu preparei café fresco, e tem pães que a Abi trouxe.
— A Lena está com a Sophie — disse Megg, parando no pé da escada. — E eu não tenho estômago para comer nesta mesa. Nós cuidamos da Sophie primeiro. O resto não importa.
Jene apertou as mãos contra o avental, os olhos marejados.
— Eu vou preparar uma bandeja para ela — disse a matriarca, a voz trêmula. — Vou subir e cuidar da minha filha. Eu sei o que ela gosta quando está... assim.
Megg deu de ombros, um gesto de pura indiferença que atingiu Jene como um tapa.
— Faça o que quiser, Jene. Mas não espere que ela responda.
Megg subiu as escadas, deixando para trás um rastro de ressentimento e culpa. O dia que se seguiu foi, sem dúvida, o mais caótico e sombrio que Willow Creek já vira. O memorial de Tom Calloway, que deveria ser um evento de encerramento e paz, agora parecia uma obrigação fúnebre que todos desejavam que passasse logo.
Lá em cima, o quarto de Sophie era um santuário de silêncio absoluto. Sophie estava deitada, as costas apoiadas em vários travesseiros, os olhos verdes fixos na janela, mas sem ver nada. Ela não falava. Não comia. Não reagia aos toques de Lena, que passava horas sentada ao lado da cama, segurando sua mão e sussurrando palavras de conforto que pareciam cair em um abismo.
O médico da cidade, o Dr. Aris, entrou e saiu três vezes durante o dia.
— É um estado de choque dissociativo — explicou ele a Jene e Ben no corredor, após a terceira visita. — O impacto físico foi pequeno, mas o trauma emocional de reviver o acidente e o confronto com a família criaram uma barreira. O cérebro dela simplesmente "desligou" para evitar mais dor. Temos que esperar. Ela voltará quando se sentir segura.
Segura. A palavra ecoou na mente de Ben como uma acusação. Como ela poderia se sentir segura em um lugar onde todos a apontavam como culpada?
À tarde, a pressão dentro da casa tornou-se insuportável para Megg. Ela precisava de ar, de espaço, de qualquer coisa que não fosse o cheiro de arrependimento tardio que emanava dos Calloway. Ela caminhou em direção ao celeiro, o lugar onde Sophie se sentia mais em paz, e assim que cruzou o portão de madeira, suas defesas finalmente ruíram.
Megg encostou-se em um fardo de feno e chorou. Não era o choro contido de uma executiva, mas o pranto desesperado de alguém que estava vendo sua melhor amiga desaparecer em um vazio que ninguém conseguia preencher.
— Megg?
Ela limpou o rosto rapidamente, mas não conseguiu esconder os olhos vermelhos. Ben, Caly e Mike estavam parados na entrada, segurando ferramentas e materiais para a arrumação da fazenda.
— O que vocês querem agora? — perguntou Megg, a voz falha, mas ainda carregada de veneno.
— Viemos ver se você precisa de algo — disse Ben, aproximando-se com cautela. — Caly disse que você estava aqui.
Megg soltou uma risada amarga, olhando para o teto do celeiro.
— O que eu preciso é de uma máquina do tempo. Para impedir a Sophie de ter a ideia idiota de voltar para este lugar. Vocês não têm ideia, têm?
— Ideia de quê? — perguntou Caly, a voz baixa.
Megg olhou para eles, e desta vez não havia apenas raiva em seus olhos, havia uma tristeza profunda.
— Da pessoa que ela é. Vocês só veem a "Sophie Keily" ou a "menina que fugiu". Mas a Sophie que eu conheço em Nova York é a pessoa que paga as contas médicas de todos os seus funcionários sem que eles saibam. É a mulher que passa noites em claro escrevendo músicas para crianças em orfanatos porque ela sabe o que é se sentir abandonada.
Ela fez uma pausa, respirando fundo.
— Ela é tão bondosa que dói. E ela ama este lugar. Ela falava de Willow Creek como se fosse o Jardim do Éden. Ela guardou cada carta que vocês nunca mandaram. E o que ela recebeu em troca? Um noivado esfregado na cara, um assediador convidado para a festa e uma família que a chama de assassina.
— Nós não queríamos que chegasse a esse ponto — murmurou Mike, olhando para o chão.
— Mas chegou — retrucou Megg. — E agora ela está lá em cima, em um transe que o médico não sabe quando vai acabar, porque a alma dela simplesmente desistiu de vocês. Vocês a quebraram. Parabéns.
Ben sentiu um nó na garganta. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que não a seguraram quando ela mais precisou dez anos atrás, e que falharam novamente na noite anterior.
Enquanto isso, dentro da casa, Lena não arredava o pé do lado de Sophie. Ela não dormia, não descansava. Apenas observava o peito da amiga subir e descer.
— Soph, por favor — sussurrou Lena, apertando a mão de Sophie. — O mundo está esperando por você. Eu estou esperando. Não deixe que eles ganhem. Não deixe que o silêncio deles se torne o seu.
Jene entrou no quarto, carregando uma tigela de sopa de galinha. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Ela se aproximou da cama e tocou o rosto da filha com a ponta dos dedos.
— Sophie, querida... a mamãe está aqui.
Sophie não piscou. Não houve o menor sinal de reconhecimento. Jene soltou um soluço sufocado e colocou a bandeja na mesa de cabeceira.
— Eu falhei com ela, Lena — disse Jene, as lágrimas caindo livremente agora. — Eu deixei meu luto ser maior que o dela. Eu a deixei ir embora pensando que eu a odiava, quando eu só não conseguia olhar para ela sem lembrar do Tom. Eu fui covarde.
Lena olhou para a mulher mais velha, mas não ofereceu conforto. A verdade era dolorosa demais para ser suavizada.
— Ela precisava da mãe dela, Jene. Não de uma juíza.
Abi, a cunhada de Sophie, também entrava no quarto com frequência, trazendo panos úmidos ou apenas ficando em silêncio no canto, rezando. Ela era a única da família que parecia não carregar o peso do julgamento, talvez por ter entrado na família depois da tragédia, vendo Sophie apenas como a cunhada famosa e doce que mandava presentes caros para Gregori.
O dia arrastou-se como uma agonia lenta. O sol começou a se pôr, pintando o céu de um laranja sangrento que parecia zombar da palidez de Sophie.
No celeiro, Ben ainda estava sentado perto de Megg, em um silêncio pesado.
— Ela vai voltar, Megg? — perguntou Ben, a voz quase um sussurro.
Megg olhou para a casa, onde as luzes começavam a se acender.
— Sophie é forte. Mais forte do que qualquer um de nós. Mas ela está em um lugar onde nenhum de nós pode alcançá-la agora. Ela está com o pai dela, Ben. Naquela noite.
— Eu queria ter ido atrás dela — disse Ben, a voz quebrada pela emoção. — Naquela noite chuvosa, dez anos atrás. Eu estava com tanta raiva por ela não ter ido ao meu campeonato que eu desliguei o telefone. Se eu tivesse atendido... se eu tivesse ido atrás dela... talvez o Tom estivesse vivo. E talvez ela nunca tivesse ido embora.
Megg olhou para o ex-surfista, vendo o homem musculoso e imponente reduzido a um garoto arrependido.
— O "se" é o veneno de Willow Creek, Ben. O problema é que a Sophie é a única que está morrendo por causa dele.
A noite caiu sobre a fazenda Calloway, mas não trouxe descanso. O silêncio no quarto de Sophie era um vácuo que parecia sugar a energia de toda a casa. Lá embaixo, a família Calloway e os amigos Sally permaneciam em vigília, cada um confrontando seus próprios fantasmas.
Sophie permanecia imóvel, uma estátua de seda e mágoa, esperando por um despertar que parecia cada vez mais distante, enquanto o relógio na parede marcava as horas para o memorial final — o último desejo de um pai que, mesmo em espírito, parecia ser o único elo que ainda mantinha aquela família despedaçada sob o mesmo teto. Mas a pergunta que pairava no ar, mais pesada que a própria escuridão, era: se Sophie acordasse, haveria algo de Willow Creek que ela ainda desejaria levar consigo? Ou o vazio que a consumia seria o adeus definitivo que ela nunca teve coragem de dar?