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De volta ao nosso começo

Sombras na Tempestade: O Despertar da Verdade

O motor do SUV rugiu, um som violento que rasgou o silêncio tenso do estacionamento do ginásio. Sophie não enxergava as luzes da cidade, nem as pessoas que gritavam seu nome; ela via apenas o borrão de suas próprias lágrimas e o fantasma do desprezo nos olhos de quem ela amava. A chuva começou a cair, não como uma garoa suave, mas como uma cortina pesada e impiedosa, transformando o asfalto em um espelho traiçoeiro.

— Sophie! Para o carro! — a voz de Megg ecoou, abafada pelo trovão, mas a cantora já havia engatado a marcha.

O veículo arrancou em disparada, os pneus cantando na água. Dentro do carro, o ar parecia ter acabado. Sophie soluçava, o peito subindo e descendo em espasmos de agonia. A humilhação causada por Tali e a presença de Justin haviam sido o gatilho, mas a verdadeira dor era a percepção de que, em dez anos, nada havia mudado. Ela ainda era a culpada. Ela ainda era o alvo.

No ginásio, o caos se instalou. Lena e Megg corriam em direção ao estacionamento, desesperadas. Ben, Jack e Olivia saíram logo atrás, alertados pelos gritos.

— Ela saiu com o carro! — Megg gritou para Ben, o rosto molhado pela chuva que começava a fustigá-los. — Ela está fora de si, Ben! Ela vai se matar naquela estrada!

Ben não hesitou. Ele correu para sua caminhonete, a perna lesionada protestando com uma pontada aguda de dor, mas ele a ignorou. Jack e os outros pularam em seus veículos. A cena era um eco aterrorizante da noite em que Tom Calloway morreu. O mesmo desespero, a mesma chuva, o mesmo medo de que o rastro de Sophie terminasse em tragédia.

Enquanto isso, Sophie dirigia sem destino. A estrada para a antiga fazenda estava alagada, e os limpadores de para-brisa não davam conta da força do temporal. As memórias começaram a girar em sua mente como um carrossel macabro. O rosto do pai, o som do metal retorcido, o cheiro de queimado.

— Não foi minha culpa... não foi... — ela sussurrava, a voz falhando.

De repente, um clarão de luz atingiu o retrovisor. Sophie tentou desviar, mas o carro derrapou na lama. O volante girou loucamente em suas mãos. O impacto foi seco e brutal. O SUV colidiu contra uma árvore centenária à beira da estrada. A cabeça de Sophie bateu contra o volante e o mundo mergulhou em um silêncio branco.

Foi nesse vácuo de consciência que o véu se rasgou.

Sophie não viu apenas o acidente de dez anos atrás; ela viu o que sua mente havia bloqueado para protegê-la. Naquela noite chuvosa, após o carro de seu pai cair no penhasco, ela não estava sozinha. Entre a névoa e a dor, ela se lembrou de ter aberto os olhos enquanto estava presa nas ferragens. Alguém estava parado à beira da estrada, olhando para baixo. Não era um salvador. Era uma silhueta masculina, um homem que não desceu para ajudar. Ela se lembrou do som de uma risada fria, um escárnio que flutuou acima do som da chuva. "Adeus, Tom", a voz dissera.

— Sophie! Sophie, fala comigo! — A voz de Ben rompeu o transe.

Ele forçou a porta do carro, que gemia sob a pressão. Ben a tirou dali com uma força nascida do puro pânico, carregando-a no colo enquanto a chuva os encharcava. O rosto dela estava manchado de sangue por um corte na testa, e seus olhos estavam abertos, mas fixos em um ponto invisível no escuro.

— Eu te peguei, Soph. Eu te peguei — ele murmurava, a voz embargada enquanto a levava para a caminhonete.

Quando Ben chegou à casa dos Calloway com Sophie nos braços, a sala parecia um tribunal de sombras. Jene estava pálida, sentada na poltrona, enquanto os irmãos e as amigas de Sophie esperavam em um silêncio sepulcral. Ben a colocou no sofá com cuidado extremo.

— Chamem o médico! Agora! — ordenou Ben, olhando para Jack.

Minutos depois, o médico da família, que já estava de prontidão devido ao memorial, examinou Sophie.

— Foi um corte superficial e um choque emocional forte — explicou o médico, guardando os instrumentos. — Ela vai ficar bem, mas precisa de repouso absoluto.

Sophie começou a piscar, a consciência retornando lentamente. O calor da sala contrastava com o frio que ainda sentia nos ossos. Ela viu todos ali: a mãe chorando, os irmãos com expressões de raiva contida, Ben ofegante e molhado ao seu lado.

— O que você tinha na cabeça, Sophie? — Ben explodiu, a preocupação se transformando em fúria. — Você quase morreu! De novo! Você quer destruir o que restou desta família?

Lena deu um passo à frente, colocando-se entre Ben e o sofá.

— Não ouse gritar com ela! — Lena disparou, os olhos castanhos faiscando. — Ela sofreu um acidente, está ferida e você quer dar um sermão? Tenha decência!

Sophie se sentou devagar, ignorando a dor latejante na cabeça. Sua expressão era vazia, quase hipnótica. Ela olhou para as mãos trêmulas e depois para o grupo à sua frente.

— Não foi um acidente — disse ela, a voz tão baixa que todos se inclinaram para ouvir.

— Sophie, por favor, não comece — Olivia murmurou, cruzando os braços.

— Alguém matou o papai — Sophie declarou, agora com a voz firme, os olhos verdes fixos na mãe. — Eu me lembrei. Eu vi alguém no topo do penhasco naquela noite. Um homem. Ele ficou lá, olhando a gente morrer. Ele riu e disse adeus.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por uma risada amarga de Jack.

— Chega, Sophie! Já chega dessa sua necessidade de ser a vítima! — Jack gritou, avançando um passo. — Você se sente tão culpada por ter matado o nosso pai que agora está inventando assassinos imaginários? Isso é doentio!

— Jack, cale a boca! — Megg interveio, mas foi ignorada.

— Ele tem razão! — Olivia explodiu, as lágrimas de raiva correndo pelo rosto. — Você foi embora, Sophie! Você nos deixou aqui para limpar a bagunça, para cuidar de uma mãe que não conseguia levantar da cama, e agora volta com essa história de filme de suspense? Ninguém em Willow Creek machucaria o papai. Todo mundo o amava!

— Eu vi ele, Olivia! Eu vi a sombra! — Sophie tentou se levantar, mas a tontura a impediu.

— Pare de falar besteiras, Sophie — Jene disse, a voz fria e cortante como gelo. A mãe olhava para a filha com uma mistura de medo e decepção que doía mais do que o corte na testa. — Ninguém matou o seu pai. Você está apenas tentando aliviar o peso que carrega nas costas. Mas não faça isso às custas da memória dele.

Tali, parada no canto da sala, observava tudo com um sorriso quase imperceptível. O plano de desestabilizar Sophie funcionara melhor do que ela esperava. A família Calloway estava se destruindo sozinha.

Sophie sentiu o peso do mundo esmagá-la novamente. Não era apenas a dor da perda; era a constatação de que ela estava completamente sozinha. Todos ali, até mesmo sua mãe e seus irmãos, preferiam odiá-la a acreditar nela. As máscaras de hospitalidade dos últimos dias haviam caído, revelando o rancor purulento que nunca havia cicatrizado.

Sem dizer uma palavra, Sophie se levantou. Ela estava encharcada, o vestido prateado arruinado, o sangue seco no rosto. Ela caminhou em direção às escadas, ignorando os olhares de nojo e raiva. Lena foi logo atrás dela, oferecendo o braço para apoiá-la.

No meio da sala, Megg permaneceu parada. Ela olhou para cada um deles — Jack, Olivia, Jene e até Ben, que parecia perdido em sua própria confusão. O rosto de Megg estava vermelho de fúria.

— Vocês são patéticos — Megg disse, a voz vibrando de desprezo.

Caly tentou se aproximar, com a mão estendida.

— Megg, calma, as coisas estão quentes agora...

— Não toque em mim! — ela gritou, recuando como se o toque dele fosse tóxico. — Você não tem esse direito. Nenhum de vocês tem.

Ela se virou para a sala toda, a voz ecoando como um trovão.

— Eu trabalho com pessoas difíceis todos os dias, mas nunca vi nada tão cruel quanto o que vocês acabaram de fazer. A Sophie passou dez anos se punindo por algo que foi uma tragédia. Ela voltou aqui para realizar o último desejo do pai de vocês, e como vocês a retribuem? Com ódio. Com mentiras. Com essa cegueira covarde!

Megg caminhou até Tali, parando a centímetros do rosto da mulher. O dedo de Megg apontou diretamente para os olhos de Tali.

— E você... se você tentar qualquer outra coisa contra a Sophie, se você abrir a boca para espalhar mais um boato, eu vou destruir você. Eu não sou uma garota do interior, Tali. Eu sou o pior pesadelo de Nova York quando mexem com o que é meu. Eu vou acabar com a sua reputação, com o seu noivado e com qualquer futuro que você ache que tem nesta cidade. Ficou claro?

Tali empalideceu, dando um passo atrás, intimidada pela fúria gélida da produtora.

Megg olhou para Caly uma última vez. O brilho de admiração que ele tinha por ela foi substituído por uma dor aguda no peito ao ver o nojo nos olhos dela.

— Vocês não a merecem — Megg finalizou, antes de subir as escadas.

Lá em cima, no quarto de infância, Sophie estava sentada na beira da cama, paralisada. Lena estava ao seu lado, passando uma toalha quente em seu rosto, enquanto Megg entrava e trancava a porta.

Sophie não chorava mais. Ela estava em um estado de choque catatônico, os olhos verdes perdidos nas sombras do quarto. O amor que ela esperava reencontrar em Willow Creek havia se revelado uma armadilha de espinhos.

— Nós vamos tirar você daqui, Soph — Lena sussurrou, segurando a mão da amiga.

— Amanhã — Megg disse, sentando-se do outro lado. — Fazemos a cerimônia, honramos o seu pai e nunca mais olhamos para trás. Deixe que eles se afoguem no próprio veneno.

Sophie apenas assentiu, sentindo o calor das únicas duas pessoas que realmente a viam. No andar de baixo, o silêncio era pesado, carregado de uma culpa que ninguém queria admitir, enquanto a chuva continuava a lavar as ruas de Willow Creek, incapaz, porém, de limpar as manchas de uma verdade que ninguém tinha coragem de enfrentar.

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