Delena para sempre
O Milagre do Sangue e a Promessa do Amanhã
A aurora boreal dançava sobre o céu da Noruega em cortinas de verde esmeralda e violeta, refletindo-se nas pupilas dilatadas de Elena. Damon a abraçava por trás, envoltos em pesados casacos de pele, sentindo o ar gélido pinicar seus rostos enquanto o espetáculo celestial acontecia acima deles. Naquele momento, o mundo parecia vasto, intocado e, pela primeira vez em séculos para Damon, absolutamente seguro. A cura corria em suas veias, e o feitiço de proteção de Bonnie era um escudo invisível que lhes permitia respirar sem o medo constante de um ataque sobrenatural.
Eles haviam percorrido o mundo nos últimos dois meses. Das ruínas ensolaradas da Grécia, onde Damon a beijou sob a sombra do Partenon, aos canais românticos de Veneza e às luzes vibrantes de Paris. Elena nunca se sentira tão viva. Cada cidade era uma descoberta, cada noite em um hotel diferente era uma celebração da liberdade que haviam conquistado. Damon era o guia perfeito, misturando o conhecimento histórico de quem viveu os séculos com o entusiasmo de um homem que redescobria o sabor da comida e o calor do sol como um mortal.
No entanto, a magia da viagem começou a ser nublada por um mal-estar persistente. O que começou como um leve desconforto em Atenas transformou-se em crises severas de enjoo ao chegarem aos Alpes.
— Elena, você está pálida de novo — Damon comentou, a testa franzida em preocupação enquanto a observava afastar o prato de massa artesanal em um pequeno bistrô italiano.
— É só uma virose, Damon. Viajar tanto tempo, mudando de clima e comida... meu corpo deve estar protestando — Elena respondeu, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos cansados.
— Já faz quinze dias, Elena. Humanos não demoram tanto para se recuperar de um mal-estar gástrico. Talvez devêssemos procurar um hospital em Genebra.
— Eu prometo que, assim que chegarmos em casa, vou ao médico. Faltam apenas duas semanas para as aulas na faculdade começarem, e eu preciso estar bem. Não se preocupe, meu amor.
Damon não estava convencido, mas respeitou o espaço dela. Eles tinham muito o que organizar. Entre um enjoo e outro, Elena participava de chamadas de vídeo com Caroline e Alaric. A Mansão Salvatore estava sendo transformada. Onde antes ecoavam os passos solitários de dois irmãos atormentados, agora surgiam salas de aula e dormitórios. A Escola Salvatore para Jovens e Superdotados estava ganhando vida, realizando o último desejo de Stefan. Damon doara a propriedade com um nó na garganta, mas com a certeza de que aquele era o destino correto para o legado da família.
Enquanto isso, a vida deles estava se mudando para o norte. Damon já havia estabelecido as bases em Nova York e em Mystic Falls com o Grill, mas o bar que ele comprara perto da Rutgers University já era um sucesso local. Ele provara ser um administrador nato, acumulando uma fortuna que faria Katherine Pierce se revirar no túmulo de inveja. Ele garantiria que Elena tivesse o melhor, que pudesse estudar medicina sem se preocupar com contas, enquanto ele equilibrava a vida de dono de bar com a de um filantropo oculto da escola de Caroline.
A realidade, porém, bateu à porta de forma avassaladora em uma manhã chuvosa, logo após o retorno para solo americano. Elena estava no banheiro da mansão, curvada sobre o vaso sanitário, sentindo o estômago revirar pela décima vez naquela manhã. Damon estava lá, como sempre, segurando seus cabelos e passando uma toalha úmida em sua nuca.
— Chega, Elena. Vamos ao hospital. Agora.
— Damon, eu... — Ela tentou protestar, mas um novo espasmo a impediu.
Mais tarde naquele dia, enquanto Damon resolvia pendências burocráticas no Mystic Grill, Caroline apareceu na casa para ajudar Elena com as malas da mudança. Ao ver a amiga pálida e recusando até o cheiro de um chá de camomila, a loira cruzou os braços, seus instintos de organizadora — e de amiga — entrando em alerta máximo.
— Elena, seja sincera comigo. Quando foi a última vez que você menstruou? — perguntou Caroline, direta como um raio.
Elena parou, com uma pilha de camisetas nas mãos, e piscou, confusa.
— Car, eu fui vampira por anos. E depois que o Kai me enfeitiçou, eu dormi por quatro anos. Eu... eu não sei. Eu acordei, viajamos, e eu simplesmente não pensei nisso.
— E você e o Damon... — Caroline hesitou, gesticulando com as mãos — ...vocês usaram alguma proteção?
Elena soltou uma risada nervosa, sentando-se na beira da cama.
— Proteção? Car, somos o Damon e a Elena. E, tecnicamente, passamos anos sabendo que vampiros não podem procriar. O chip não mudou na minha cabeça imediatamente.
— Mas vocês não são mais vampiros, Elena! — Caroline exclamou, sentando-se ao lado dela e pegando suas mãos. — Vocês são humanos. Biologicamente ativos, férteis e, pelo que eu conheço do Damon, muito ativos.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O choque da realidade atingiu Elena como uma marreta. A possibilidade, que antes parecia um sonho distante ou uma impossibilidade biológica, agora estava ali, pulsando diante dela.
— Você acha que... que eu posso estar grávida? — A voz de Elena era um sussurro trêmulo.
— Só há um jeito de saber. Fique aqui. Não se mova. Eu volto em dez minutos.
Caroline saiu como um borrão (embora agora em velocidade humana, sua determinação era a mesma). Elena ficou sozinha no quarto, o coração batendo tão forte que ela podia ouvi-lo nos ouvidos. Ela tocou a própria barriga, ainda plana, mas sentindo uma sensibilidade nova nos seios e uma fome que surgia do nada. O medo e a alegria começaram uma batalha dentro dela. Ela sempre quis ser mãe; era a maior dor de sua transição para vampira. Mas agora? Antes da faculdade? Damon estaria pronto?
Quando Caroline voltou com uma sacola cheia de testes de farmácia, Elena mal conseguia segurar a caneta para marcar o tempo. Ela fez cinco testes, alinhando-os sobre a bancada do banheiro como se fossem sentenças de um tribunal.
Os minutos passaram como horas. Quando o primeiro visor apitou, e depois o segundo, e o terceiro... todos exibiam o mesmo sinal positivo inequívoco.
Elena desabou no chão do banheiro, as lágrimas escorrendo livremente. Não eram lágrimas de tristeza, mas de uma felicidade tão avassaladora que ela mal conseguia respirar.
— Eu vou ser mãe, Car — soluçou ela, sendo abraçada pela amiga. — Eu vou ter um bebê do Damon.
— Você vai ser a melhor mãe do mundo, Elena — Caroline disse, também emocionada. — E aquele idiota do Damon vai cair para trás, mas ele vai amar essa criança mais do que a própria vida.
Elena passou o resto da tarde em transe. Ela olhava para o espelho e tentava imaginar um pequeno ser com os olhos azuis penetrantes de Damon e, talvez, o seu sorriso. O medo da faculdade e do tempo parecia pequeno diante da magnitude daquela vida crescendo dentro dela. Ela amava aquele bebê. Amava antes mesmo de saber que ele existia.
Quando a noite caiu, ela ouviu o som do motor do Camaro de Damon estacionando. O nervosismo voltou. Ela sabia que eles tinham planos, que a vida humana era nova para ele. Como ele reagiria ao saber que o "felizes para sempre" tinha acabado de ganhar um novo integrante muito antes do esperado?
Damon entrou no quarto com um sorriso, jogando as chaves sobre a cômoda.
— O Grill está uma loucura, mas consegui resolver a entrega dos novos barris. Ei, você parece melhor. A cor voltou ao seu rosto.
Elena levantou-se lentamente, as mãos escondidas atrás das costas, segurando um dos testes.
— Damon, precisamos conversar.
O sorriso dele vacilou levemente, substituído por aquela expressão de alerta que ele sempre tinha quando sentia que algo estava mudando.
— O que foi? Você foi ao médico? É algo grave? Elena, se você estiver doente, nós vamos encontrar o melhor especialista do país, eu juro...
— Não é grave, Damon — ela o interrompeu, aproximando-se e pegando as mãos dele. As mãos dela tremiam. — Mas vai mudar a nossa vida para sempre. Principalmente a sua.
Com um gesto lento, ela colocou o teste de gravidez na palma da mão dele. Damon olhou para o objeto de plástico como se fosse um artefato alienígena. Ele piscou várias vezes, processando a palavra "Positivo". Ele cambaleou um passo para trás, as costas batendo na porta do guarda-roupa.
O silêncio se arrastou. Damon Salvatore, o homem que enfrentou originais, lobisomens e o próprio inferno, parecia paralisado por um pedaço de plástico. Ele pensou em sua vida de um século e meio, nas mortes que causou, na escuridão que carregou. Ele nunca se imaginou pai. Antes da transformação, ele sonhara com uma família, mas a eternidade como monstro apagara essa esperança. E agora, ali estava a prova de sua humanidade.
Elena, vendo o silêncio dele, sentiu um aperto no peito. As lágrimas voltaram a brilhar em seus olhos.
— Você... você não gostou? — perguntou ela, a voz falhando.
Aquelas palavras foram o gatilho que Damon precisava para despertar do choque. Ele deu um passo à frente e a envolveu em um abraço tão apertado que ela quase perdeu o fôlego. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, e Elena sentiu a umidade das lágrimas dele contra sua pele.
— Elena... eu te amo tanto — ele murmurou, a voz embargada. — Eu amo você e amo esse bebê. Eu só... eu estou em choque. Eu nunca achei que seria digno de algo assim.
Ele se afastou um pouco, segurando o rosto dela com as duas mãos, os olhos azuis brilhando com uma intensidade que ela nunca vira.
— Eu passei cento e sessenta e dois anos sendo um monstro, Elena. E em menos de três meses como humano, você me dá o maior presente que alguém poderia receber. Eu estou apavorado, sim. Estou com medo de não saber como trocar uma fralda ou de como ser um exemplo. Mas eu juro, por tudo o que é sagrado, que eu vou ser o melhor pai que este mundo já viu.
Ele se ajoelhou diante dela, ficando na altura de sua barriga. Com uma reverência que fez o coração de Elena derreter, ele encostou a testa no ventre dela e colocou a mão espalmada ali.
— Ouviu isso, pequeno Salvatore? — Damon sussurrou, e um sorriso radiante iluminou seu rosto. — Eu sou o seu pai. E eu prometo que você e sua mãe serão as pessoas mais protegidas e amadas deste universo. Você vai ser lindo, claro, porque puxou a mim, mas espero que tenha o coração da sua mãe.
Elena riu em meio ao choro, passando as mãos pelos cabelos dele.
— Nós vamos conseguir, Damon. Vai ser difícil com a faculdade, mas nós vamos conseguir.
— A faculdade, o bar, as noites sem dormir... eu não ligo — Damon disse, levantando-se e puxando-a para um beijo profundo. — Se eu sobrevivi ao Kai e a quatro anos sem você, eu sobrevivo a qualquer coisa.
O beijo, que começou como um consolo e uma promessa, rapidamente mudou de tom. Havia uma urgência nova entre eles, uma celebração da vida que haviam criado. Damon a pegou no colo, levando-a para a cama com uma ternura que beirava a adoração.
Naquela noite, o amor deles foi diferente. Não era apenas a paixão avassaladora de "fogo e gasolina", mas algo mais profundo, mais sólido. Era o encontro de dois seres que haviam atravessado o inferno para encontrar o paraíso em um teste de farmácia e em uma promessa de futuro.
Enquanto se amavam, Damon sussurrava promessas no ouvido dela, e Elena sentia que cada toque dele era uma confirmação de que a vida, com todas as suas reviravoltas e surpresas, valia a pena. Eles eram humanos, eram falhos, mas eram uma família. E enquanto o sol não nascia, eles permaneceram unidos, dois corações batendo em uníssono, e um terceiro, minúsculo e valente, começando a ditar o ritmo de sua nova e eterna felicidade.