Dependence and Fights
Cinzas de um Passado em Chamas
O cheiro de fumaça sempre trazia Engfa de volta. Não era apenas o cigarro que ela tragava agora, encostada na varanda do loft enquanto observava o sono de Charlotte e Faye lá dentro, mas o cheiro de queimado de uma infância que nunca teve a chance de ser pura.
Ela fechou os olhos, e o som do tráfego de Bangkok foi substituído pelo estalo seco de um cinto de couro atingindo o chão de madeira de uma casa que ela se esforçava para esquecer.
Dez anos atrás, Engfa Waraha era apenas uma adolescente de quinze anos com os nós dos dedos permanentemente esfolados e um brilho de ódio nos olhos que assustava até os professores. Seus pais, os Waraha, acreditavam que a disciplina era forjada na dor. Cada nota baixa, cada resposta atravessada, cada sinal de "rebeldia" era punido com uma frieza metódica.
— Você não presta para nada, Engfa — a voz de seu pai ecoava em sua mente. — É um erro que precisamos corrigir.
Naquela época, a única luz no fim do túnel de hematomas escondidos sob moletons largos era Faye Malisorn. Faye tinha dezoito anos, era a filha dos vizinhos e a melhor amiga que Engfa tratava com uma agressividade defensiva, como um animal ferido que morde a mão de quem tenta alimentá-lo.
Faye já era, naquela época, a personificação do controle. Ela via através das jaquetas de Engfa. Ela via o tremor nas mãos da mais nova.
— Engfa, olhe para mim — Faye ordenou em uma tarde abafada, dez anos atrás, nos fundos da escola.
Engfa tentou desviar o rosto, mas Faye segurou seu queixo com uma firmeza que não admitia fugas. Faye sempre foi mais alta, mais imponente, e já carregava aquele ar de autoridade que hoje usava para dominar Charlotte.
— Me solta, Malisorn. Eu não estou a fim das suas palestras hoje — rosnou Engfa, tentando se soltar.
Faye não soltou. Em vez disso, ela puxou a manga do moletom de Engfa, revelando uma marca roxa e feia que subia pelo antebraço. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer discussão.
— Foi ele de novo? — a voz de Faye era baixa, perigosa.
— O que você acha? — Engfa cuspiu as palavras, os olhos marejados de raiva. — Ele diz que eu sou um lixo. E ele tem razão. Eu odeio essa casa. Eu odeio eles. Eu odeio...
— Não ouse dizer que se odeia — Faye a interrompeu, aproximando-se tanto que Engfa podia sentir o perfume de flores cítricas que Faye usava na época. — Você é minha, Engfa. Mesmo que ainda não saiba disso. E ninguém toca no que é meu.
Engfa riu, uma risada quebrada e amarga.
— Sua? Desde quando? Nós somos apenas vizinhas que se pegam às vezes quando eu preciso esquecer que minha vida é uma merda.
Faye sorriu, aquele sorriso sarcástico e possessivo que Engfa aprenderia a amar e odiar nas décadas seguintes. Sem dizer uma palavra, Faye inclinou-se e pressionou os lábios contra o pescoço de Engfa, exatamente sobre uma cicatriz antiga. Foi um toque suave, quase um acalento, mas carregado de uma promessa de posse.
— Eu vou tirar você de lá — sussurrou Faye contra a pele dela.
E ela cumpriu. Poucos meses depois, quando os pais de Engfa morreram em um acidente de carro que muitos sussurraram ter sido causado pela negligência do pai alcoolizado ao volante, Engfa ficou sozinha. Ou teria ficado, se os pais de Faye não tivessem intervindo.
Os Malisorn eram o oposto dos Waraha. Eram gentis, acolhedores e viam em Engfa uma extensão da própria filha. Mas para Engfa, morar sob o mesmo teto que Faye foi o início de um tipo diferente de tortura.
A "adoção" informal transformou a dinâmica delas. Elas eram "irmãs" perante o mundo, mas entre as paredes do casarão dos Malisorn, a tensão era um fio de alta voltagem prestes a arrebentar.
— Você está no meu quarto de novo? — Engfa perguntou, entrando em seu novo refúgio certa noite, aos dezesseis anos.
Faye estava deitada na cama de Engfa, folheando uma revista de moda, o cabelo vermelho — que ela tinha acabado de tingir pela primeira vez — espalhado pelo travesseiro.
— É minha casa, Engfa. Eu fico onde eu quiser — Faye respondeu sem olhar para cima. — Além disso, você estava gritando durante o sono de novo. Achei que precisasse de companhia.
— Eu não preciso de você — Engfa caminhou até a cama e tentou puxar Faye pelo braço. — Saia. Agora.
Faye agiu rápido. Ela agarrou o pulso de Engfa e a puxou para baixo, fazendo a mais nova cair sobre ela. A diferença de idade e força na época era clara. Faye imobilizou Engfa com facilidade, prendendo-a sob seu corpo.
— Você é tão teimosa — Faye murmurou, os olhos percorrendo o rosto de Engfa com uma obsessão latente. — Por que você luta tanto contra o que sente? Você sabe que eu sou a única pessoa que realmente cuida de você.
— Você me sufoca — Engfa sibilou, embora seu coração estivesse disparado contra o peito de Faye. — Você age como se fosse minha dona.
— E eu não sou? — Faye provocou, deslizando a mão pela cintura de Engfa, por baixo da camiseta. — Seus pais te deram dor. Eu te dou o que você realmente quer.
Faye a beijou então. Não foi um beijo de irmã. Foi um beijo de reivindicação, profundo e exigente. Engfa tentou resistir por dois segundos, seus problemas de raiva borbulhando, querendo empurrar Faye para longe, querendo gritar. Mas a solidão era maior que a raiva. Ela entrelaçou os dedos no cabelo ruivo de Faye e retribuiu o beijo com uma ferocidade que dizia tudo o que ela não conseguia colocar em palavras.
Naquela época, a rivalidade delas já era o combustível do desejo. Elas brigavam por tudo: pelo tempo de banho, pelas roupas emprestadas, pela atenção dos pais de Faye. Mas, no fundo, Engfa era devota a Faye da mesma forma que um náufrago é devoto à única tábua de salvação no oceano.
E então, anos depois, veio Charlotte.
Charlotte Austin entrou na vida delas como um furacão de carência e beleza. Ela era a peça que faltava no quebra-cabeça doentio que Faye e Engfa haviam construído. Engfa a conheceu primeiro em um clube de luta clandestino onde costumava descarregar sua raiva. Charlotte estava lá, observando com olhos famintos, atraída pela violência e pela paixão bruta de Engfa.
Mas Faye, sempre observadora, sempre no controle, não demorou a se infiltrar. Ela não ia permitir que Engfa tivesse algo só para si.
De volta ao presente, Engfa sentiu uma mão em seu ombro. Ela não precisou se virar para saber quem era. O toque firme, possessivo, era inconfundível.
— Pensando no passado de novo? — Faye perguntou, a voz rouca pelo sono recém-deixado.
Engfa deu um último trago no cigarro e o apagou no cinzeiro da varanda.
— Estava pensando no dia em que você me trouxe para cá. No dia em que você decidiu que eu era sua propriedade.
Faye deu um passo à frente, colando seu corpo ao de Engfa. Ela usava apenas uma camisola de seda preta que contrastava violentamente com a jaqueta de couro que Engfa se recusava a tirar, mesmo dentro de casa.
— Eu não decidi, Engfa. Eu apenas aceitei o inevitável — Faye disse, deslizando as mãos pelo pescoço de Engfa, seus dedos roçando a mandíbula da mais nova. — Você sempre foi um caos esperando por um dono. E eu sempre fui muito boa em domar desastres.
Engfa virou-se, os olhos brilhando com aquela velha irritação.
— Você não me domou, Faye. Eu só deixo você acreditar nisso porque me convém.
Faye riu, um som seco e elegante.
— É o que você diz a si mesma para conseguir dormir à noite? — Faye se aproximou, o rosto a milímetros do de Engfa. — Você me ama. Você me odeia. E você não consegue respirar sem o meu controle. Assim como Charlotte não consegue respirar sem a nossa atenção.
— Falando em Charlotte... — Engfa olhou para dentro do quarto através do vidro. — Ela acordou.
Charlotte estava sentada na cama, os cabelos bagunçados, esfregando os olhos com as costas das mãos. Ela olhou para a varanda e, ao ver as duas juntas, um sorriso pequeno e satisfeito surgiu em seus lábios. Ela sabia que elas estavam falando dela. Ela sabia que era o centro de gravidade daquele sistema solar distorcido.
Charlotte levantou-se e caminhou até a porta de vidro, abrindo-a.
— Por que vocês estão aqui fora no frio? — Charlotte perguntou, a voz manhosa, carregada de uma falsa vulnerabilidade. — Eu me senti sozinha.
Ela se espremeu entre as duas, abraçando a cintura de Engfa e encostando a cabeça no ombro de Faye.
— Estávamos apenas discutindo quem de nós vai te dar banho — mentiu Faye, lançando um olhar desafiador para Engfa.
— Eu vou — afirmou Engfa imediatamente, a possessividade disparando. — Você deu banho nela ontem, Faye. Hoje é minha vez.
— Eu não me lembro de ter concordado com esse rodízio — rebateu Faye, apertando o ombro de Charlotte. — Charlotte prefere o meu jeito. Eu sou mais cuidadosa. Você a esfrega como se estivesse limpando uma peça de motor.
— Eu gosto do jeito da Engfa — Charlotte interveio, olhando para cima com olhos brilhantes. — Ela é forte. Mas eu também gosto de como você usa os óleos, Faye.
Charlotte fez uma pausa dramática, sentindo a tensão entre as duas aumentar. Ela adorava isso. Adorava ser o prêmio pelo qual as duas irmãs de criação lutavam.
— Por que não as duas? — Charlotte sugeriu, a voz caindo para um sussurro pecaminoso. — Eu quero que a Engfa me segure e que a Faye me lave.
Engfa sentiu o sangue ferver. A ideia de compartilhar aquele momento íntimo com Faye a irritava profundamente, mas a imagem de Charlotte sob as mãos de ambas era tentadora demais para recusar.
— Você é uma pequena manipuladora, sabia? — Engfa murmurou, puxando Charlotte para mais perto.
— E vocês são obcecadas por mim — Charlotte riu, puxando a corrente no pescoço de Faye com uma das mãos, enquanto a outra mão buscava o rosto de Engfa. — Agora, vamos. Eu não quero esperar.
Enquanto caminhavam de volta para o banheiro principal, Faye parou Engfa por um segundo, segurando-a pelo braço.
— Ela sabe exatamente o que está fazendo — Faye sussurrou para Engfa.
— Eu sei — respondeu Engfa, encarando a irmã. — E você também.
— E você adora — Faye finalizou, roubando um beijo rápido e agressivo de Engfa antes de seguir Charlotte.
Engfa ficou parada por um momento, o gosto de Faye ainda em seus lábios e a imagem de Charlotte esperando à sua frente. Ela sabia que o que viviam era tóxico. Sabia que as cicatrizes de sua infância nunca cicatrizariam de verdade enquanto ela estivesse presa naquele ciclo de ciúme e posse.
Mas, enquanto entrava no banheiro e via Faye começando a tirar o roupão de Charlotte sob a luz suave das velas, Engfa percebeu que não queria ser curada. A dor era familiar. A obsessão era seu lar.
— Engfa! — Charlotte chamou, sua voz ecoando nos azulejos de mármore. — Você está demorando.
Engfa fechou a porta atrás de si, trancando o mundo exterior e toda a sua lógica saudável lá fora. Ali, entre o vapor da água quente e os olhares carregados de Faye, ela era exatamente o que sempre foi: uma Waraha quebrada, reconstruída pelo amor doentio de uma Malisorn e consumida pela devoção de uma Austin.
— Já estou indo — respondeu Engfa, a voz firme, pronta para a próxima batalha, para o próximo beijo e para a próxima noite de caos que era a única coisa que a fazia se sentir viva.