Dependence and Fights
Ecos de um Passado Possessivo
O silêncio no loft era uma anomalia. Sem a risada de Charlotte ou suas demandas constantes por atenção, o ar parecia subitamente pesado, carregado com o peso de duas presenças que colidiam como placas tectônicas. Charlotte havia saído cedo com Heidi, uma amiga de infância que Engfa e Faye detestavam em igual medida, deixando as duas "irmãs" sozinhas com seus próprios demônios e uma cafeteira que insistia em borbulhar de forma irritante.
Engfa estava encostada no balcão da cozinha, vestindo uma regata branca que deixava à mostra as tatuagens em seus braços e a tensão em seus ombros. Ela acendeu um cigarro, ignorando o olhar de reprovação que Faye lançou do outro lado da sala.
— Você sabe que ela odeia o cheiro de cigarro nas cortinas — Faye comentou, cruzando as pernas elegantemente enquanto fechava o laptop. — Mas suponho que sua necessidade de autodestruição seja maior que seu bom senso.
— Charlotte não está aqui, Faye. E você não é minha mãe — retrucou Engfa, soltando a fumaça lentamente. — Por que você não vai organizar seus arquivos ou planejar como controlar a próxima hora da vida de alguém e me deixa em paz?
Faye levantou-se, o movimento fluido e predatório. Ela caminhou até a cozinha, parando a uma distância perigosamente curta de Engfa. O cabelo vermelho estava preso em um coque frouxo, e o sarcasmo em seus olhos brilhava como uma lâmina afiada.
— Paz é algo que você nunca soube o que fazer com ela, Engfa — Faye provocou, esticando a mão para tirar o cigarro dos dedos de Engfa e apagá-lo no cinzeiro. — Você prefere o caos. Sempre preferiu. Lembra-se de quando tínhamos dezoito e vinte e um anos? Quando você tentou fugir de casa porque eu não te deixei ir àquela festa no subúrbio?
Engfa soltou uma risada amarga, os olhos castanhos fixos nos de Faye.
— Eu tentei fugir porque você era uma ditadora, Malisorn. Você convenceu seus pais de que eu era "instável" só para poder me manter trancada sob sua vigilância. Você dizia que era "proteção de irmã", mas nós duas sabemos que era apenas o seu jeito doentio de garantir que ninguém mais pudesse olhar para mim.
Faye sorriu, um toque de nostalgia cruel em sua expressão. Ela se inclinou, as mãos espalmadas no balcão, cercando Engfa.
— E funcionou, não funcionou? Você ficou. Você sempre fica. Você adora as grades da gaiola que eu construí para você.
— Eu fiquei porque não tinha para onde ir — mentiu Engfa, a voz falhando levemente.
— Mentirosa — sussurrou Faye, aproximando o rosto do pescoço de Engfa, aspirando o cheiro de couro e tabaco. — Você ficou porque adorava como eu afastava qualquer um que tentasse chegar perto de você. Lembra do garoto do time de futebol? Aquele que tentou passar o braço pelo meu ombro no cinema?
Engfa desviou o olhar, um sorriso involuntário surgindo nos lábios ao lembrar da memória.
— O braço dele quebrou de um jeito bem feio — disse Engfa, o tom carregado de uma satisfação sombria. — Foi um acidente. Eu tropecei.
— Você não tropeçou, Engfa. Você o prensou contra a parede e aplicou uma chave de braço antes mesmo que ele pudesse pedir desculpas — Faye riu, a mão subindo para acariciar a nuca de Engfa. — Você era tão possessiva comigo quanto é com a Charlotte agora. A única diferença é que, naquela época, você não tinha que dividir.
Engfa sentiu o toque de Faye queimar sua pele. Era uma provocação constante, um lembrete de que, antes de Charlotte ser o centro do mundo delas, elas eram o mundo uma da outra. Uma amizade com benefícios que se transformou em uma rivalidade sangrenta pelo controle e pela atenção.
— Você também não era santa, Faye — Engfa rebateu, virando-se para encarar a ruiva. — Você sabotou cada relacionamento que eu tentei ter. Você contava mentiras, manipulava as pessoas... você agia como se eu fosse um objeto que só você tinha o manual de instruções.
— E eu não tenho? — Faye arqueou uma sobrancelha, o olhar descendo para os lábios de Engfa. — Eu conheço cada cicatriz sua, Engfa. Eu conheço o som da sua respiração quando você está prestes a perder o controle. Eu vi você crescer de uma órfã furiosa para uma mulher obcecada. Ninguém te entende como eu.
O silêncio caiu sobre elas novamente, mas desta vez não era vazio. Era denso, pulsante. Faye deu um passo para trás, mas seus olhos nunca deixaram os de Engfa.
— Vamos fazer um jogo — propôs Faye, o brilho controlador voltando com força total. — Charlotte não vai voltar por algumas horas. Heide adora levá-la para fazer compras e chorar sobre os ex-namorados.
— Que tipo de jogo? — Engfa perguntou, desconfiada, mas intrigada.
— Um jogo de resistência — Faye explicou, caminhando até o sofá e sentando-se, batendo no lugar ao seu lado. — Você se senta aqui. Eu posso fazer o que eu quiser com você. Tocar você, provocar você, explorar cada centímetro... e você? Você não pode se afastar. Não pode reagir com raiva. E não pode sair do lugar. Se você quebrar as regras, eu conto para a Charlotte sobre aquela noite em que você quase bateu no fotógrafo por trás das costas dela.
Engfa sentiu a mandíbula travar.
— Você é desprezível, Faye.
— Eu sou o que você me tornou — Faye sorriu. — E então? Vai aceitar ou está com medo de não conseguir se controlar perto da sua "irmã"?
Engfa caminhou até o sofá com passos pesados. Ela sentou-se, a postura rígida, as mãos cerradas sobre os joelhos.
— Faça o seu pior, Malisorn.
Faye não perdeu tempo. Ela se aproximou, sentando-se de lado para que pudesse observar cada reação de Engfa. Começou devagar, as pontas dos dedos traçando o contorno da orelha de Engfa, descendo pela linha da mandíbula até o pescoço.
— Você está tensa — observou Faye, sua voz caindo para um tom aveludado e predatório. — Relaxe, Engfa. É apenas um toque.
Faye deslizou a mão por baixo da regata de Engfa, a palma quente encontrando a pele da cintura. Ela subiu lentamente, sentindo os músculos abdominais de Engfa se contraírem sob seu toque. Engfa fechou os olhos, a respiração começando a ficar curta, mas ela não se moveu. Ela sentia o cheiro do perfume caro de Faye, o calor que emanava do corpo da ruiva, e uma parte dela — a parte que ela tentava enterrar sob jaquetas de couro e cigarros — implorava por aquilo.
— Lembra-se de quando costumávamos nos esconder no sótão da casa dos meus pais? — Faye sussurrou, aproximando os lábios do ouvido de Engfa. — Você era tão carente de toque. Você implorava para que eu te segurasse depois de uma briga com seu pai.
— Pare de falar do passado — Engfa sibilou, os dentes cerrados.
— Por que? Dói lembrar que eu fui a primeira a te amar? — Faye mordeu levemente o lóbulo da orelha de Engfa, uma mão subindo para agarrar o cabelo curto na nuca da mais nova, forçando-a a inclinar a cabeça para trás. — Dói saber que, por mais que você ame a Charlotte, uma parte de você sempre vai pertencer a mim?
Faye começou a distribuir beijos úmidos pelo pescoço de Engfa, subindo até a linha do queixo. Suas mãos eram exploratórias, devotas, como se estivessem mapeando um território que já possuíam, mas que gostavam de reividicar repetidamente. Engfa sentia o coração martelar contra as costelas. Era uma tortura deliciosa. Ela odiava a arrogância de Faye, odiava como ela sempre sabia exatamente onde apertar, onde beijar, onde morder.
De repente, o som pesado de alguém batendo na porta do loft interrompeu a névoa de desejo e tensão.
— Droga — resmungou Faye, parando com os lábios a centímetros dos de Engfa. — Deve ser o vizinho do 402 de novo. Ele reclama de tudo, até do som dos nossos passos.
Faye fez menção de se levantar, sua expressão mudando para uma irritação autoritária, pronta para dispensar o intruso com algumas palavras mordazes. Mas, antes que ela pudesse se afastar, a mão de Engfa disparou, agarrando o pulso de Faye com uma força surpreendente.
— Aonde você pensa que vai? — Engfa perguntou, a voz rouca, os olhos brilhando com uma mistura de luxúria e desafio.
— Eu vou atender a porta, Engfa. Se eu não for, ele vai continuar batendo e vai acabar ligando para o síndico.
Engfa puxou Faye de volta para o sofá, forçando-a a ficar entre suas pernas. A inversão de poder foi instantânea.
— Se você atender essa porta — disse Engfa, cada palavra carregada de uma promessa sombria —, eu juro por tudo o que há de mais sagrado que você não vai me tocar de novo tão cedo. Nem hoje, nem amanhã, nem quando a Charlotte voltar.
Faye parou, surpresa pela intensidade na voz de Engfa. As batidas na porta continuaram, seguidas pelo grito abafado do vizinho: "Eu sei que tem alguém aí! O cheiro de cigarro está vindo pelo corredor!"
— Engfa, ele é um chato. Deixe-me apenas mandá-lo para o inferno e voltamos ao jogo — Faye tentou argumentar, mas havia um brilho de admiração em seus olhos pela audácia da mais nova.
— Não — Engfa se inclinou para frente, as mãos agora subindo para a corrente de prata no pescoço de Faye, puxando-a para baixo. — Deixe-o bater. Deixe-o gritar. O jogo não acabou. E você disse que eu não podia me afastar... mas não disse que eu não podia tomar o controle.
Engfa selou seus lábios aos de Faye em um beijo que era puro fogo e ressentimento acumulado. Não era o beijo suave que elas compartilhavam às vezes com Charlotte; era uma batalha de línguas e dentes, uma reivindicação de território que remontava aos anos de convivência forçada e desejo proibido.
Faye gemeu contra a boca de Engfa, as mãos agarrando os ombros da jaqueta que Engfa ainda usava. As batidas na porta tornaram-se mais frenéticas, mas para as duas mulheres no sofá, o mundo exterior havia deixado de existir. O vizinho era apenas um ruído de fundo em uma sinfonia de obsessão.
— Você é... tão difícil... — Faye ofegou entre os beijos, sentindo as mãos de Engfa explorarem seu corpo com uma agressividade que ela mesma havia provocado.
— E você adora isso — rebateu Engfa, descendo os beijos para o decote da blusa de Faye. — Você adora que eu seja o único desastre que você não consegue organizar.
Elas rolaram no sofá, uma confusão de membros, cabelo vermelho e couro. A provocação de Faye havia se voltado contra ela mesma, e agora era ela quem estava à mercê da raiva e do desejo de Engfa.
Horas depois, quando o sol começou a se pôr e as batidas na porta haviam cessado há muito tempo, o loft voltou ao seu silêncio habitual. Engfa e Faye estavam jogadas no tapete da sala, ofegantes, a tensão de anos parecendo ter encontrado uma válvula de escape temporária.
— O vizinho provavelmente vai nos denunciar — comentou Faye, ajeitando o cabelo bagunçado enquanto olhava para o teto.
— Deixe que denuncie — Engfa respondeu, acendendo outro cigarro, desta vez sem que Faye tentasse impedi-la. — Eu pago a multa.
O som da chave girando na fechadura as fez sentar-se rapidamente. Charlotte entrou, carregando várias sacolas de marcas de luxo, com um sorriso radiante no rosto que não condizia com o estado deplorável das outras duas.
— Oi, minhas vidas! — Charlotte exclamou, jogando as sacolas no chão e correndo para se atirar entre elas no tapete. — Senti tanto a falta de vocês! Heidi é um tédio, ela só fala de dietas e de como o ex-marido é um idiota.
Charlotte olhou de Engfa para Faye, notando as marcas no pescoço de ambas e a atmosfera eletrizante que ainda pairava no ar. O sorriso dela se alargou, tornando-se algo mais predatório e satisfeito.
— Oh... vejo que vocês se divertiram sem mim — Charlotte disse, a voz cheia de uma carência fingida. — Vocês brigaram de novo? Ou será que finalmente admitiram que não conseguem ficar longe uma da outra?
Engfa trocou um olhar rápido com Faye. Havia um pacto silencioso ali, uma compreensão de que, por mais que Charlotte fosse o prêmio, a base de tudo era aquela ligação distorcida entre as duas irmãs de criação.
— Faye estava apenas me lembrando de algumas regras do passado — disse Engfa, estendendo a mão para puxar Charlotte para o seu colo.
— E Engfa me lembrou que, às vezes, quebrar as regras é mais divertido — completou Faye, aproximando-se para beijar a bochecha de Charlotte, mas seus olhos estavam fixos em Engfa.
Charlotte suspirou de satisfação, sentindo-se completa novamente entre as duas mulheres que a amavam de forma tão doentia e absoluta.
— Eu não me importo com o que vocês fizeram — Charlotte sussurrou, puxando as duas para perto. — Contanto que agora toda essa atenção seja voltada para mim. Eu quero um banho, quero jantar e quero que vocês me contem exatamente o quanto sentiram minha falta.
— Você é impossível, Charlotte — Faye riu, embora já estivesse começando a mimar a mais nova.
— E você é nossa — Engfa finalizou, apertando a cintura de Charlotte com a mesma possessividade que, momentos antes, havia usado para dominar Faye.
O ciclo recomeçava. A calmaria após a tempestade, os beijos após as brigas. Elas eram três partes de um todo quebrado, navegando em um mar de obsessão onde a única regra era que ninguém jamais seria solto. E enquanto as luzes da cidade brilhavam lá fora, dentro daquele loft, o fogo continuava a queimar, alimentado por cinzas de um passado que elas se recusavam a deixar morrer.